Carnaval


Tenho uma repugnância visceral (é forte, mas é mesmo assim) pelo Carnaval. Sempre tive. Limitava-me, quanto muito, a pintar uns bigodes quando andava na escola primária, para não ser apontado como "o menino pobre que não tinha máscara" (que não era). Nunca consegui compreender a necessidade de dar espaço à esquizofrenia de cada um. Nunca quiz ser uma tartaruga ninja. Nunca quiz ser um cowboy (desde a eleição de George Bush que me sinto ainda mais satisfeito com a minha falta de ambição do Oeste). Nunca quiz ser um príncipe (e a vida ensinou-me que alguém com uma cara daquelas só pode ser p.......). Limitava-me a deixar passar os dias, para regressar numa quarta-feira de cinzas já satisfatoriamente cinzenta e sem fitas.
Apesar de tudo, considero que o Carnaval é possivelmente a festa pela qual nutriria mais afectos. Por uma razão simples: é o que resta das festas pagãs. Páscoa, Natal, dia da mãe, dia do pai, etc, são tudo marcos de natureza religiosa, mais ainda, cristã. O Carnaval é o que resta da verdadeira festa do povo, sem santinhos a ajudar na descida. Vejam-se os Caretos de Podence. Figuras centenárias, não andam de balão de água na mão nem de bunda à mostra, a fingir que não estão 4 graus na rua. Leia-se o site oficial dos bichos: "Mergulhando na raiz profana e carnal, o verdadeiro motivo que move o careto é apanhar raparigas para as poder chocalhar. Sempre que se vislumbra um rabo de saia, o careto é impelido pelo seu vigor. Ao CARETO tudo se permite nesses dias, pois ele assume uma dupla personalidade. O indivíduo ao vestir o fato torna-se misterioso e o seu comportamento muda completamente, ficado possuindo de uma energia transcendental. Existe algo de mágico e de forças sobrenaturais ocultas em todo este ritual de festa que atribui a estas personagens prerrogativas a imunidade interditas a outros mortais. A antiguidade e originalidade desta tradição, cheia de cor e som e a vontade das gentes de Podence, em preservar estas figuras, fizeram dos caretos personagens famosas para lá dos limites da aldeia..." Não há cá menino Jesus, nem encarnação, nem Nossa Senhora de Fátima, nem mais uma santinha para beatificar! E tb não há Martinho da Vila, nem a Felismina da novela "Olhos de Nuvem" nem a Fátima Lopes! Tenho uma repugnância visceral pelo Carnaval, mas salve-se a última festa pagã portuguesa, sff.