Emigrar

Recentemente almocei com uma familiar que não conhecia. Sabia da sua existência mas por golpes de sorte e azar nunca tinha ido à sua procura. Em fase que me obriga a maior proactividade, para não me armar em caracol no Inverno, marquei almoço via SMS. E ao longo de duas horas em que conversei com alguém que não conhecia como se conhecesse ficou uma ideia chave. "Queres um conselho? Emigra. Vai-te embora. Se queres fazer alguma coisa de ti mesmo, vai. Isto não merece. Vai-te embora. Mesmo que voltes, mesmo que seja só durante um tempo, mesmo que não vás fazer algo perfeito. Vai-te embora. Não penses mais nisso. Mandas beijinhos por telefone, vens cá no Natal, aguentas-te, mas vai." Claro que já tinha pensado nisso. E claro que já me tinham dito algo semelhante. Mas não igual. Tinham-me dito "não quer pensar em fazer alguma coisa lá fora?" e não "vai-te embora". Não tinham acendido o cigarro com um ar triste, reflectido no vidro, com um fundo de copos a encontrarem lugar no armário, com o empregado a olhar em volta para a ausência de início de tarde, com um ar de ameaça, de raiva chuvosa, que se apega à película brilhante que se forma nos olhos, em certos dias, com ar de claustrofobia a céu aberto, com ar de quem vê gaivotas e pensa no para-lá da tempestade, naquele espaço que não tem este reflexo aqui, que não tem este cigarro aceso automático, que não tem os ângulos rectos que habitam esta cidade e lhe promovem as arestas, que não tem esta vontade de ir mas de já ter ido, e já tudo tão tarde.