Anti-listas

Pelo post do Natal se percebeu que esta ideia de Fim-de-Ano também não é bem a minha noção de "divertimento-equiparado-a-sexo". Não, não é. Uma das coisas que ajuda é a mania das listas. Os melhores, os piores, os mais isto, os mais aquilo, os mais cócó, os mais titi, os menos pupu. Estas coisas dão azo, aliás, a enormes equívocos, como um livro qualquer do Salman Rushdie, imaginemos, ser editado na versão original no Reino Unido em finais de Novembro de um ano e em português em Fevereiro seguinte. Se chegar a qualquer lista, cai em listas de anos diferentes, quando, de facto, deve ser analisado à data da sua publicitação primeira. Mas ninguém pensa nisto. Toda a gente gosta dos mais de, dos menos de. É uma espécie de ajuste de contas. Antigamente (agora não sei) havia a mania de publicar "O livro do ano x", todos os anos. Por oferta de um falecido, tenho o de 1975. É aquela noção de história vertical, com o tempo cortado aos bocadinhos, em fatias de 365 dias. E vai-se ver quantas nozes, passas e cabelos tem cada fatia, para ver se a outra ao lado foi melhor. Curiosamente, a ideia de História (enquanto ciência) que me foi passada no ensino secundário preferia a noção de época e, depois mais específicamente nalguns casos, de século. Pode argumentar-se que o tipo de organização é similar e é tudo uma questão de escala. Mas não me parece. A mim interessa-me pouco o livro de 1984 ou o de 2014, mas é muito mais interessante o século XX ou XXI, ou metades destes. É a diferença entre cortar fatias do bolo e analisar uma a uma sem ver as outras ou cortar o bolo ao meio, na horizontal, e ver como as nozes, passas e cabelos se distribuem ao longo da massa. É a tal coisa, o segredo tá na massa.