In The Valley of Elah (****)

Eu não sou um fã de Paul Haggis, verdade seja dita. O canadiano fez toda a carreira na televisão (chegou a escrever Walker, Texas Ranger), e chegou há pouco ao grande ecrã. Se Million Dollar Baby é um filmaço, já Crash é um projecto redundante, que conseguiu ir à Academia buscar carecas dourados em ano de seca. Quanto a Flags of Our Fathers e Letters from Iwo Jima, confesso que estão em pipeline para visualização próxima no recanto do lar. Isto para dizer que Haggis parece ser bem mais escritor para filmes do que realizador. Do seu olhar são apenas Crash e agora In the Valley of Elah. Se o primeiro é um filme oportunista a piscar o olho a uma sociedade à procura do acaso como redenção de um destino personalizado, já este último tem bem mais que se lhe diga. Mas claramente Haggis parte de argumentos à prova de bala para filmar, e isso condiciona muito os filmes que, assim, não deixam grande prova de vida visual. In The Valley of Elah será, à partida, um dos grandes filmes vistos em 2008. Porque a história é a primeira grande respiração sobre a guerra do Iraque e a repercussão que tem na América do dia-a-dia. Porque Tommy Lee Jones chamou a si os espíritos de John Wayne, Cary Grant ou Gary Cooper e cobre tudo de um negrume realista de quem sabe o que é preciso fazer e faz. Porque não há gorduras e tudo é filmado na base da face e do visível, sem dramas para além do absurdo do real. Por tudo isto, Haggis merece aplausos. A história parte do regresso de um soldado após campanha no Iraque e do seu desaparecimento, e da procura de paradeiro e explicação por parte do pai (Tommy Lee Jones), ex-polícia militar abatido pela realidade dos dias. E ao longo de 121 minutos, descobre-se rapidamente o que aconteceu ao soldado, lentamente como aconteceu, e, em fade-in fade-out, a guerra aparece a espreitar por entre ficheiros corruptos gravados com um telemóvel ou relatos descolados da realidade, como se a morte fosse apenas uma expressão comum dos dias destacados. O filme de Haggis desafia, pela primeira vez que me recordo, o status quo da guerra tal como a sociedade americana o vê, patriótica nos seus homens e crítica (agora) nas determinações políticas. Em In The Valley of Elah discute-se, sem militância de qualquer espécie, a legitimidade de qualquer guerra, pelos seus efeitos no ser humano ao nível do consciente/inconsciente. E até ao fim é a personagem de Jones que quer acreditar numa ética belicista que se prova, por fim, ausente, quer nos homens quer nos espaços. Depois de muitos filmes menores, Jones prova ter sempre estado à espera do "seu filme", do espaço que lhe daria espelho a uma face envelhecida e uma representação de carreira. E Haggis colocou-o precisamente no centro de um objecto de cinema paradoxal, não épico mas realista, que não só aproveita tudo isso como extrapola para onde o cinema deve extrapolar. Haggis não é um mago da camera, mas também ninguém disse que é preciso sê-lo para fazer bom cinema. E isto é, definitivamente, bom cinema.