[IndieLisboa08] Avant Que J'Oublie (****)

[Observatório] Final de uma triologia, Avant Que J'Oublie é um documento singular. Do francês Jacques Nolot, que também interpreta, o filme aborda o meio dos gigolos clássicos de Paris, de cariz homossexual, figuras liberais que oscilam entre os sentimentos criados para com quem lhes paga e o dinheiro desses mesmos, as heranças ou a transição para outra vida. A história é, em base, simples: Pierre, com 60 anos, é um ex-gigolo a quem o parceiro morreu e não deixou os quinze milhões que deveria. Ocupado pela insónia, viciado em tabaco e whisky, em depressão profunda e perdido no relacionamento social que perdeu com o mundo, seropositivo que rejeita a morte há 24 anos, Pierre ocupa-se da escrita e pensa em jovens para breves serviços sexuais, gigolos de ocasião que assim invertem a ordem das coisas. Pierre atravessa assim Avant Que J'Oublie como uma nuvem, mostrando uma Paris clássica e entregue ao corpo, envelhecido, refém de si mesmo e de uma vida de afectos estilhaçados, que se perdem quando se discute uma herança à mesa do café. Enquanto trabalho, o filme de Nolot tem enormes virtudes. Antes de tudo, olha para uma realidade pouco comum no cinema dito sério - o mundo dos gigolos - com olhos de realidade. Isto é, não se fala de prostituição mas de gigolismo. Há afectividade, ainda que distância. Há um olhar, dir-se-ia, nobre sobre a sexualidade, mesmo que promíscuo. Há, sobretudo, uma frontalidade e crueza nas relações que se admira enquanto expectador. E daqui deriva todo o trabalho do Nolot realizador, os planos longos e as sequências que sussurram solidão, a captação dos olhares vagos, as falas directas e envelhecidas, a criação de um ambiente psicológico sólido, com uma sequência final inevitável e no gume da faca, segura em pontas. Claramente um dos filmes mais off-beat do Indie, e verdadeiramente mais independente.