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Motelx 2008: Stuck (*****)

Sábado foi tempo para a segunda sessão especial, dedicada a um mestre vivo do terror: Stuart Gordon. Do norte-americano cerca de 800 pessoas viram Stuck, cujo ponto de partida é uma história verídica que chegou aos jornais em 2001. A bizarria é fácil de contar: Brandi (a competente Mena Suvari), uma assistente num lar de idosos que bebe uns canecos e mete umas pastilhas à noite atropela Tom (o experiente e excelente Stephen Rea), desempregado à beira do desespero e vítima de uma economia instável. Até aqui tudo normal, não fosse o pormenor de Tom, o desempregado, ficar preso no pára-brisas de Brandi, a assistente. E de esta não ligar às autoridades e levar o desgraçado agarrado ao carro até casa e não fazer nada nas horas e dia seguinte. A única opção de Tom é, assim, tentar fugir. O filme de Stuart Gordon é um prodígio enquanto comédia negra. Nunca cedendo ao facilitismo, o realizador aproveita o surreal dos factos para inserir o cómico das atitudes, através das expressões e texto dos seus personagens. Tudo antes do acidente é construído de forma a que tudo depois tenha uma conotação. Tom é um desgraçado total. Brandi é uma sortuda impertinente. E enquanto Tom acaba por provar que tem mais forças do que as que a sociedade lhe confere, Brandi vai claudicar ao ridículo do desespero. Pelo meio há o surrealismo feito gargalhada, conseguindo manter um bom nível de surpresa mesmo quando já sabemos quase tudo o que há a saber. Não sendo um filme de terror, Stuck foi possivelmente o melhor filme a passar no Motelx 2008.

Motelx 2008: À L'Interieur (**)

Na secção baptizada como Nouvelle Vague do Terror, assim dedicando atenções ao terror francófono, passou À L'Interieur, de Julien Maury e Alexandre Bustillo. Sendo rotulado como um dos mais temíveis e sangrentos filmes do género dos últimos anos, o projecto dos franceses cumpre uma de duas promessas. Da narrativa retém-se Sarah, uma fotógrafa de imprensa que sobrevive a um acidente de viação no qual o marido falece para, semanas depois, dar à luz uma criança. Na véspera do parto, véspera de Natal também, Sarah procura a solidão da sua casa para encontrar uma noite de terror às mãos de outra mulher, cujo fim é claro: ficar com a criança. Regressando às promessas de Maury e Bustillo, a do sangue é totalmente cumprida. Efectivamente À L'Interieur tem sangue às litradas e atira líquido viscoso para o ecrã a ver se o espectador também vai para casa com a roupa manchada. Mas medo ou terror já escasseia, e o filme falha. Se começa por querer apostar no terreno da verosimilhança, rapidamente se perde depois em gore gratuíto e abonecado, com morte atrás de morte a fazer lembrar os velhos tempos de Bela Lugosi e companhia. E existem dois grandes factores para que o filme francês seja um falhanço no que toca a terror. Primeiro, porque abdica, desde início, do factor surpresa. Tudo em À L'Interieur é frontal e visível, transparente, claro, e perde-se toda a zona de sombra que costuma provocar maiores saltos na cadeira. Segundo, porque aposta no terror enquanto nojo, excesso sanguinário que não corresponde exactamente ao convocar do medo. Os últimos quinze minutos são um misto de ridículo e vómito, próprio mais para adolescentes patetas à procura de humor negro para contar aos amigos e chocar as miúdas, do que para espectadores de cinema. Já dizia a minha avozinha que quem não sabe fazer cinema, gasta litros de sumo de tomate e não assusta ninguém.

Motelx 2008: Animal, el documental (*)

Primeiro que tudo, deve sublinhar-se que é de coragem programar um documentário sobre toiros de morte num festival de cinema de terror. E sobretudo revela inteligência e proactividade. E portanto, até aí os organizadores do Motelx merecem a taça. Depois disto, dizer o que se impõem: Animal, el documental, do espanhol Angel Mora, é um filme tão mau que não tem lugar numa televisão privada quanto mais num festival de cinema. E não é só por ser um pseudo-documentário panfletário (e o facto de ser assumido nem salva grande coisa). É sobretudo por ser mal filmado, mal estruturado, com testemunhos de pessoas que não interessam nem ao menino Jesus, sem procurar aprofundar razões aos defensores da festa brava nem se preocupar com a veracidade das informações veiculadas por manifestos "curiosos" da área, por tentar humanizar o animal de forma ridícula com uma musiquinha que envergonharia o Kenny G. durante todo o filme, por acabar com imagens de crianças a desenhar toiros e vaquinhas apaixonados. O único interesse do filme no contexto do Motelx prendeu-se com a sua natureza gráfica, de gore real. E aí, justiça feita, cumpriu à risca, mostrando imagens chocantes de toiros de morte em Espanha das mais diversas espécies, e explicando detalhadamente em que consiste a morte do toiro na arena. Dizer mais do que isto é exagerar, e um trabalho destes, pensando bem, só serve a quem quer atazanar as bestas. Nas arenas e no ecrã.

Motelx 2008: Encarnação do Demônio (****)

Em homenagem assumida, o Motelx trouxe o Zé do Caixão para Lisboa, não só através dos três filmes que compõem a trilogia, dois antigos e o último actual, mas também o próprio, encarnado pelo brasileiro José Mojica Marins. Ponto alto do festival foi a sessão de Encarnação do Demônio, que traz o personagem de novo aos ecrãs quarenta anos depois da última aparição. E se o Zé do Caixão parou no tempo, o seu cinema nem tanto, o que se saúda. A história recupera o coveiro maldito da prisão, quarenta anos mais velho e com uma enorme vontade de criar herança, nomeadamente através do "filho perfeito". Assim, Zé vai procurar a mulher superior em quem depositar a criança dos infernos, e no processo trucida, tortura e mata tudo o que aparecer. Encarnação do Demônio não mete medo a ninguém. E isto poderá ser, possivelmente, a pior coisa que se pode dizer de um filme de terror. Mas ainda assim é um excelente filme, por uma variedade de razões. Primeiro, porque se Zé aparece quase como há quarenta anos, ainda que mais barrigudo e envelhecido, não recusa a realidade que lhe aparece nem tenta escondê-la. Por exemplo, a sua cripta fica por baixo, imagine-se... de uma favela. E Zé choca-se com os miúdos da rua a snifar cola. Quarenta anos depois, Mojica Marins recupera o personagem mas enquadra-o na actualidade, mesmo que num filme de terror que não almeja, felizmente, a qualquer verosimilhança. Segundo, porque recupera, de forma feliz e inteligente, imagens dos dois filmes que lhe deram nome. Em jeito de recordação, e como forma de ligação aos factos de agora, o Zé do Caixão tem flashbacks que mais não são do que imagens dos anos sessenta, negras mas estruturantes, sobretudo para um público que, então, não existia e agora olha para o mestre com um misto de admiração e desconhecimento. Aqui o brasileiro verdadeiramente recupera o personagem do esquecimento e não faz fugas para a frente. Terceiro, é precisamente esta memória que está na base dos seus medos e pesadelos, a perseguição de vítimas antigas que agora lhe surgem tremendamente ameaçadoras. Décadas depois, a fragilidade do abominável Zé perante o passado que o confronta através de fantasmas confere-lhe densidade. Não o humaniza, mas antes revela algo mais do que a faceta de exterminador vísceral, e esse é um factor que, agora sim, é necessário no cinema de 2008 mais do que no da década de sessenta. Por estas três condicionantes, Encarnação do Demônio já seria um filme ganho. A questão é que o resto também corre bem. O estilo mais declamado que dito do coveiro é impagável, o humor negro é frontal, o gore é abundante mas não cede a palhaçadas, a filosofia barata é genuína e apela ao terror clássico da morte como antítese da vida. Não metendo medo a ninguém, Encarnação do Demônio é um filme bem pensado e estruturado, com um traço de autor inconfundível e que olha o género com um misto de fascínio e adaptação pessoal. Bem-vindo ao mundos dos vivos, Zé do Caixão.

Motelx 2008: Hiena (***)

Incluído na secção Room Service, passou esta tarde o polaco Hiena, de Grzegorz Lewandowski. Antes, uma curta curtinha, de quatro minutos, de Koldo Almandoz. Esta, baptizada de Columba Palumbos, é um bom exercício de imagem e ambiente do espanhol, que filma um homem suicidário, após matar a família, ao som dos Cinematic Orchestra. As imagens são bonitas e pensadas, e mesmo em quatro minutos existe a possibilidade de uma supresa no fim, que resulta muito bem. Já a longa de Lewandowski tem outros problemas. Na prática, Hiena segue ao longo de 88 minutos uma criança, traumatizada pelo desaparecimento estranho do pai e da vida nocturna da mãe, que se enreda em histórias contadas de mortes e sangue. E o polaco tem uma enorme virtude: a de saber criar um ambiente a partir do cenário que escolheu, uma paisagem semi-urbana povoada de indústrias decrépitas e personagens deprimidas, o que convoca desde logo um conjunto de condições propícias a um bom filme. E o realizador até começa bem, olhando de frente quer as crianças quer a efabulação que serve de base a tudo o que se desenrola. Só que depois perde-se no seu próprio filme e não sabe o que há-de fazer. O resultado são personagens à deriva, sem saber que linha narrativa seguir. Na prática, o polaco não sabe se quer fazer um filme de terror, de suspense ou de fábula, e acaba por não fazer nenhum dos três. Ainda que bem intencionado, Hiena acaba por ser uma ideia esbanjada por quem não é capaz de ser objectivo e directo, nem sabe o que quer. A última meia hora é, então, sinónimo de névoa, que depois se tenta salvar com um wrap up narrativo que não convence, antes baralha e volta a dar sem saber bem como. Não sendo um filme mau, porque até bem filmado e cinematograficamente pensado, também não é bom.

Motelx 2008: Doomsday (*)

Para a abertura, os programadores do Motelx decidiram trazer Doomsday, de Neil Marshall, precedido por uma curta de Nuno Felix. Esta, A morte de Tchaikosvki, é o primeiro trabalho do jovem realizador, e salda-se por 8 minutos bem estruturados, à volta de uma ideia simples e directa, e com pormenores de imagem que mostram um pensamento por trás. Ainda que com problemas técnicos (luz, focagem), o resultado é interessante para um primeiro trabalho: curto, seco, directo, de bom gosto, sem invenções, com sentido de humor e objectivo. Já do projecto do britânico não se pode dizer o mesmo. Doomsday, que o Motelx apresentou em ante-estreia nacional, é o chamado "filme armado ao pingarelho". A estrutura é um pastiche: um virus mortal precipita o fim dos dias na Escócia, e o Reino Unido decide isolar a área do mundo, criando uma terra de ninguém onde supostamente a morte é raínha. Claro que a coisa não corre muito bem, e décadas depois da clausura é necessário lá ir. Quem vai? Claro, a criança que se safou no último momento da retirada e que deu em agente da polícia. Com quem? Com um grupo de agentes estilo mercenários sem nada a perder. E a receita continua pelo campo do previsível, equipa dizimada rapidamente, e a senhora que safa tem que dar conta do recado sozinha. Pelo meio há sobreviventes acabadinhos de sair do cabeleireiro punk lá do sítio, cavaleiros da idade medieval que se escondem num castelo, túneis curtinhos pelo meio das montanhas e carros de alta cilindrada escondidos à espera da salvadora. Dito assim, a coisa até podia ter alguma piada. Mas não tem. E sobretudo porque Marshall tem a mania que faz um filme sério, e não um série-B. Tem dinheiro a mais para o último, mas a menos para o primeiro, e preocupa-se sempre em fazer um filme de acção mais do que olhar para o campo do terror. O resultado é um filme armado em parvo, com a mania de ser muita bom, mal estruturado porque não segue nenhuma das narrativas que mostra e salta entre elas como se não houvesse amanhã, com personagens sem um pingo de profundidade nem conscientes da sua ausência, interpretações sofríveis dos actores e a ideia que o fim do mundo na terra de Duncan McCloud é "muita fixe". Não há a aridez de Mad Max, não há o pastiche assumido de Carpenter nem sequer um traço de realização, sendo que Neil Marshall limita-se a consultar o manual de planos da escola secundária e não arrisca um milímetro fora da receita. Doomsday não mete medo a uma criança na primeira infância, e também não diverte nenhum adulto consciente. O fim do mundo pariu um rato.

Motelx 2008: lançamento

Pela segunda vez este ano, o Animatógrafo dedica-se a um festival de cinema. Desta feita, depois do IndieLisboa em Abril, todos os sentidos apontados ao Motelx, Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, que ao segundo ano parece dar um salto em frente. O evento começa já esta quarta-feira, dia 3, e termina no domingo, dia 7, sempre no cinema S. Jorge. O Animatógrafo tem dez filmes apontados para visionamento, abrangendo quase todas as secções. Os destaques vão para Doomsday, de Neil Marshall, Teeth, de Mitchell Lichtenstein, Animal, de Angel Mora, Diary of the Dead, de George Romero, e Stuck, de Stuart Gordon. O Motelx organiza-se, desta feita, em volta de uma secção principal, Room Service, mas olha também para o novo terror francês e homenageia o mestre do estilo em terras de Vera Cruz, José Mojica Marins. O também conhecido por Zé do Caixão traz a última ressureição da personagem a Lisboa mostrando Encarnação do Demônio, terminado já este ano e que encerra a triologia começada nos anos 60. Há ainda espaço para uma secção para os mais novos, Lobo Mau, que é um risco (vamos ver como corre), para curtas-metragens, algumas portuguesas, que passam antes das longas e não em secção própria (boa opção num evento ainda não solidificado), e para Doc Terror, secção dedicada a documentários precisamente sobre o género, que nos parece uma excelente ideia. A iniciativa e organização é do Cineclube de Terror de Lisboa, que assim parece mostrar saber crescer com um público específico mas que é claramente do mundo dos vivos. O Animatógrafo fará um esforço para escrever sobre todos os filmes que vir. Que venha o sangue.

China, França

O meio dos festivais ou ciclos de cinema em Portugal dificilmente foi mais activo do que na actualidade. Esta semana chegam notícias de mais duas iniciativas que o provam, e de forma cabal. Primeiro, a Festa do Cinema Francês apresenta-se na sua 9.ª edição e parece maior que nunca. Serão nove salas a nível nacional, três secções e um Prémio do Público, num evento desta feita alargado a Lisboa, Porto, Faro, Coimbra e Almada. Na prática, serão, diz a organização, 45 longas-metragens, 36 das quais nunca estreadas em Portugal, e muitas das quais passaram por Cannes ou outros festivais internacionais. Em termos de organização, e para além da Secção Principal que compreende 25 longas, a Festa surge este ano com "Paris-Lisboa", uma secção com 10 filmes rodados nas respectivas cidades, e "Cannes em Portugal", uma homenagem à Quinzena dos Realizadores do conhecido festival francês, e onde pontuam outros 10 filmes inéditos entre nós. A apresentação oficial será a 15 de Setembro, no Instituto Franco-Português, mas já se sabe que a Festa começa a 2 de Outubro, em Lisboa, e encerra a 2 de Novembro, em Faro. Noutro registo, a Zero em Comportamento, que tem no IndieLisboa o seu evento de proa, continua a parceria com o Museu do Oriente e organiza em Setembro (até 5 de Outubro) um ciclo dedicado ao cinema chinês. Com sessões no auditório do referido museu, a iniciativa mostra seis filmes de produção recente, olhando para uma China contemporânea à procura do seu lugar. Dos projectos agendados, destaca-se Grain in Ear, o vencedor do Prémio de crítica internacional no Indie2006, e sobre o qual tivemos oportunidade de escrever então (ler aqui). De resto, a avaliar pelas sinopses, estaremos atentos a The Red Jacket e Blackguard Quiangzi. No ano que se vê a China em todo o lado, puxada pelos Olímpicos, bom sentido de oportunidade da Zero e da Fundação Oriente, sobretudo por mostrar, certamente, uma China muito diferente da do fogo de artifício de Pequim.

Wall.E (****)

Wall.E é um dos filmes que tínhamos apontado para ter atenção este ano (ver aqui). Dizia eu, na altura, que "a avaliar pelo trailer #2 é animação da melhor, com tudo veiculado por imagem ou movimento, porque Wall-E não fala, praticamente. E tem tudo para ser um dos grandes do ano". E aqui, grande satisfação porque sim, é um dos grandes do ano. E quando as expectativas são cumpridas é sempre bom. Andrew Stanton, que andou com Wall.E na cabeça durante uns anos, já tinha dado Finding Nemo à humanidade. Portanto, o senhor não é virgem em matéria de animação de topo. Mas realmente Wall.E é elevar a fasquia um bom bocado. Não só porque o trabalho de animação é brilhante, mas porque será (talvez) o primeiro projecto desta magnitude a arriscar em personagens sem comunicação verbal. E, para nós, essa é a grande aposta ganha do projecto. Todo o trabalho, quer visual quer sonoro, tem o objectivo claro de veicular comunicação sem recorrer ao verbo. E aí Stanton ganha em toda a linha. Wall.E é uma personagem com enorme densidade, personalidade evidente e capacidade para comunicar apenas com os seus sons, movimentos, acções e demais componentes, e é aí que tudo parece alicerçar-se. Claro que é a mensagem "verde" que conquista corações mais militantes, e que a projecção da humanidade que surge no ecrã também ajuda a adoçar a coisa (é possível que aquele seja mesmo o nosso futuro, em potencia?), mas a grande conquista do filme, a nosso ver, está na capacidade de se sustentar e de comunicar com o espectador de forma clarividente sem verbo. Não é qualquer um. Mas atenção, e aqui talvez algo politicamente incorrecto: Wall.E não é um obra-prima, nem está num patamar sequer próximo de ET. É um grande filme, magnificamente bem feito, mas não vai marcar a história do cinema, sobretudo porque lhe falta densidade dramática (desde o primeiro plano que sabemos que vai acabar tudo em bem) e porque Wall.E está apostado em ser adorado por todos. Em ET aprendíamos a gostar daquele ser ao longo do filme, e havia medo de início, que se convertia em defesa depois e pena ou tristeza por fim. É esta capacidade de convocar diferentes estados emocionais, motivados por uma surpresa recorrente, que não se vê no projecto do robot do lixo. Portanto: parabéns senhor Stanton, mas continue a mandar postais.

Baile de Outono (***)

Não é muito comum chegarem exemplos da cinematografia da Estónia a salas portuguesas. Também por isso, mas não só, Sügisball, que em português deu "Baile de Outono", é uma boa surpresa. O filme de um desconhecido Veiko Õunpuu é sobretudo uma visão cinzenta da solidão humana, sem deixar cair um traço de identidade de leste. Ao longo de duas horas a camera leva-nos a seguir um escritor abandonado por uma mulher, uma mulher abandonada pela sorte, um barbeiro finlandes esquecido e demais personagens emocionalmente fragilizadas, que acreditam mais no silêncio do que na conversação. Sendo notório que o estónio foi beber a escola de Bergman, a sua grande conquisa é a criação de um ambiente emocional e visual que veicula a solidão contemporânea, desta feita não agregado à abstracção de uma grande metrópole, mas numa cidade neutra, lenta e nocturna, onde os personagens se encaixam como peças de um puzzle. Õunpuu tem o filme ganho enquanto filma e estrutura, mas quase que se perde quando começa a introduzir texto e a cruzar personagens e respectivas histórias. Aí começam a aparecer disparates, frases feitas, que quase deitam tudo a perder e se revelam como perturbadoramente desnecessárias. Mas depois recupera-se o silêncio, a alienação consciente, o drama pessoal psicológico de cada um, em tom poético, bem filmado, com imagens felizes e sons a condizer, e no fim de tudo temos o "filme-ovni" do Verão, que faz ter saudades do Inverno e daquele olhar perdido do quotidiano.

The Dark Knight (****)

A história de Batman no cinema merece ser vista com olhos de ver. Ou seja, vale a pena acompanhar as várias viagens ao universo de Gotham e do herói talvez mais negro da história da BD. Algo que merece também ser dito é que o primeiro filme da saga, com data de 1989, é de Tim Burton. E daí para cá foi impossível olhar para o personagem e para os filmes sem esquecer este dado. Porque Burton é Burton, e porque Batman, o primeiro, é um filme sem mácula e que definiu o patamar numa posição alta. Muito alta. Tão alta que os desastres como Batmand Forever, em 1995, ou Batman & Robin, dois anos depois, vieram pôr em causa a presença do morcego no grande ecrã. Depois veio Cristopher Nolan, na ressaca dos marcantes Memento e Insomnia, a querer salvar a coisa para aquilo que hoje se gosta de designar como o período negro. E a primeira experiência não correu de forma particularmente brilhante. Batman Begins centrou-se na formação da personagem, na sua infância e ligação aos pais, e esqueceu-se de encontrar um vilão a sério ou o ambiente certo para um universo que foi totalmente estilhaçado pelo trabalho de Joel Schumacher. E portanto chega-se a 2008, de novo, com a sensação do vai ou racha do homem-morcego. E a coisa parece ganha. Não, The Dark Knight não é melhor que o paladino de Tim Burton. Mas simplesmente porque Burton é Burton, e o batman do realizador bonecreiro não é repetível. Desta feita, Nolan parece ter aprendido com os erros e mostra agora um filme bem estruturado, que não cede na acção mas não se reduz à mesma, que dá máxima sequência à criação da personagem Batman e, mais do que tudo, à sua contínua luta consigo mesmo enquanto herói negro, simultaneamente luz e negativo de si mesmo. Christian Bale move-se muito bem no meio de tudo, e Nolan tem um enorme jackpot em Heath Ledger. À parte de qualquer visão romanesca impulsionada pela morte do actor, o trabalho de Ledger dentro de Joker é incrível e tremendamente comparável com o de Jack Nicholson, precisamente o joker de Burton há quase vinte anos. Comparável porque onde Nicholson era demasiado Nicholson, Ledger é carne, osso e risos totalmente Joker, sem espaço para mais nada. A performance de Heath Ledger é memorável e entra directamente para a galeria dos grandes vilões do cinema, ao lado do Hannibal Lecter de Hopkins, por exemplo. E a consistência de um grande Batman tem que vir da força da sua antítese. Mesmo que que essa acabe por vir de si mesmo, mas potenciada pelo mal em forma de sorriso cortado.

A Ilha da Boa Vida (****)

A Zero em Comportamento é conhecida sobretudo pela organização do IndieLisboa, mas faz, felizmente, mais do que isso. Exemplo é o ciclo, agora terminado, Viagens no Oriente. A mostra teve lugar no Museu do Oriente nas últimas semanas, e apresentou filmes precisamente de ou sobre os países a oriente. Ontem passou o original A Ilha da Boa Vida, de Mercês Gomes, curta-metragem de 24 minutos que havia feito parte da programação do Indie em 2007. Mais do que um documentário, clássico, o filme da portuguesa é a captação de Mumbai (Bombaim), na Índia, durante 24 horas. E o que o torna digno de nota é o dispositivo criado: uma constante aceleração de imagem ou, por outro lado, corte de frames, interrompendo a linha visível da imagem e mostrando sim uma colagem de imagens, próximas, que simulam o movimento mas não o apresentam completo. O resultado é muito bom, e também porque o olhar de Mercês é feliz, à procura de faces, de cores, da vivência do quotidiano da cidade. Se para um ocidental a Índia pode ser quase sempre um bom objecto de observação, não só pela sua diferença mas porque esta se afirma, muitas vezes, na miséria do ser humano, a realizadora foi à procura da felicidade das imagens e formatou-as depois num objecto singular, que caso contrário cairia facilmente no campo do banal. Assim, A Ilha da Boa Vida é literalmente um filme construído, que não se resume à imagem filmada mas a manipula para fornecer uma visão necessariamente diferente de uma realidade que já sabemos, à partida, existir. O Animatógrafo aplaude.

Em revista I: Zoetrope All-Story


Mantendo o tópico do post anterior, inaugura-se nova secção. Desta feita, com a Zoetrope All-Story, projecto criado e coordenado pelo mestre Francis Ford-Coppola, cujo número de Verão viu-se refugiado no tapete da entrada há alguns dias. É lixado não caber na caixa do correio e ficar à mãos de semear de um vizinho mais curioso porque o carteiro é xoné. Felizmente os meus vizinhos são do antigamente e vêm a TVI, e portanto cá está ela. Desta feita, o designer convidado é Mark Mothersbaugh e os textos de John Hughes, Sana Krasikov, Saena Lambert, Marissa Perry e Yasutaka Tsutsui. A peça é de uma enorme preocupação gráfica e vale mesmo pelo seu próprio papel, cores e cheiro, para além dos textos. E, imagine-se, não, não custa uma fortuna. A assinatura anual tem neste momento o valor de 25 euros, já com despesas de envio, para quatro números. Para uma das melhores coisas que se faz sobre literatura, cinema e artes gráficas não está mal.

Speed Racer (****)


É inevitável que os irmãos Wachowski fiquem na história do cinema conhecidos e reconhecidos por Matrix. É praticamente impossível ultrapassar o síndrome de Neo, sobretudo tendo em conta o primeiro filme da trilogia. Ainda assim, os Wachowski querem continuar em frente. E Speed Racer, que tínhamos apontado no início do ano como um dos projectos a seguir (ver aqui) é definitivamente um passo em frente. Para quem não sabe, antes de Matrix os irmãos tinham trabalhado, por exemplo, para a Marvel, onde escreveram Ectokid, banda desenhada criada por Clive Barker. E portanto, o fascínio pelo mundo dos comics é antigo, estava patente em, por exemplo, Animatrix, e é o grande mote para o projecto que tenta recuperar a cara dos irmãos depois de um quase desastroso V for Vendetta. O que é facto é que Speed Racer é, antes de mais, a recuperação de uma série de animação dos anos 60, que já de si era uma versão americanizada de Mach GoGoGo, este sim um conceito japonês de manga e anime. E aqui está o primeiro e grande mote para o projecto finalizado em 2008 pelos Wachowski: um trabalho herdeiro directo da estética nipónica clássica. E era precisamente por aqui que a coisa podia falhar redondamente e lançar os irmãos para o campo do "one time hit". Porque de efeitos especiais e criação de dimensões digitais já se sabe que são capazes. Ora, por aqui Speed Racer é um filme totalmente conseguido: é precisamente uma estética japonesa de anime que lhe confere o delírio visual total, no limite do pastiche, que prende o espectador da primeira à última imagem. E mais: toda a componente imagética segue o mesmo prisma de construção dos japoneses, nomeadamente nos pormenores de construcção gradual até um climax que não se pensava possível segundos antes. A imagem é, assim, a esteira fundamental do filme, e torna-se mesmo conteúdo, e não apenas formato do mesmo, obrigado quem vê a dilatar as púpilas e a perceber o filme pelo que o mesmo mostra. E portanto, o que é que os Wachowski tinham que fazer para sustentar a coisa? O que muito bem sabem: seguir os trâmites de construção de narrativa também eles herdeiros da tradição nipónica, isto é, uma trama larga de assuntos numa espinha de simples percepção, que sempre envolve maquinações globais de grandes grupos do lado do mal, face a emergentes actores do bem que são colocados à prova no limite da sua existência. Na prática, trata-se de um enorme jogo de interesses, hiperbolizados, que se joga por actores aparentemente menores mas cujas acções podem ter um impacto fatal. E que essas acções vêem-se, literalmente, na imagem total, na velocidade, na violência extrema, na saturação da cor e da emoção. Este colocar da imagem ao serviço de uma história, esticando a primeira ao limite e fazendo-a veículo de tudo o resto, é todo um mapa de percepção de um filme que, para todos os efeitos, marca o ano. Ainda assim, e também por tudo isto, Speed Racer não é uma obra-prima e dificilmente conseguirá largar o campo dos filmes fantasistas baseados em banda-desenhada, que com enorme dificuldade conseguem ser percebidos de forma mais profunda. Mas enquanto objecto de entretenimento, e sobretudo enquanto proposta de estética alternativa criada dentro de um cinema muitas vezes preocupado com as formas clássicas de criação, o filme dos Wachowski ganha a aposta e pode lançar o cinema de efeitos e de criação de mundos numa esfera diferente da conhecida até aqui.

Babelia

Com o tempo, perdi tradições que cheguei a ter. Uma delas foi comprar o El País todos os sábados. Os almoços perdiam-se às quatro da tarde, enquanto a manhã se estendia até perto disso, tudo por culpa de Babelia. Ainda assim, tenho para mim que cumpro a minha parte da tradição sempre que do outro lado da fronteira. Ontem não foi excepção. E o suplemento do diário castelhano recorda-me o porquê de me obrigar a comprar um jornal estrangeiro. Babelia é um bálsamo. Veja-se a edição de ontem. Dedicada de forma profunda à Feira do Livro de Madrid, trabalha os seus destaques longamente. E vejam-se os textos de Enrique Vila-Matas sobre o café de Paris onde Perec escrevia e descrevia o dia-a-dia da capital francesa nos seus mais banais momentos. Veja-se o texto de Juan Cruz sobre a obsessão de Mario Vargas-Llosa em escrever em bibliotecas públicas. Veja-se o texto de Antonio Múñoz Molina sobre postais, e o seu universo, e o Metropolitan Postcard Club de Nova Iorque. Veja-se a análise que Ernesto Ayala-Dip faz da literatura espanhola em 2008. Veja-se a reportagem de Gregorio Belinchón sobre Los olvidados. Guión y documentos., livro que se imagina soberbo sobre Luis Buñuel e o seu projecto mexicano de 1950, erradamente interpretado à época e agora recuperado num trabalho de investigação extensiva de Carmen Peña Ardid e Víctor M. Lahuerta Guillén. Vejam-se os textos sobre Pedro Calapez, com exposição na capital espanhola, ou Marta Wainwright, irmã de Rufus com novo trabalho. Tudo em Babelia flui, como se surgisse sem esforço, como se tudo o que interessasse no mundo fosse aquilo mesmo, naquele momento. E no fundo, contrariamente, Babelia acaba por surgir, a mim, como arma de arremesso: do mundo perfeito, contra a realidade impressa. Também eu gostava de escrever em bibliotecas sem tempo próprio, ou perder-me num velho hotel nova-iorquino por entre milhares de postais, ou desvanecer-me nas imagens de Buñuel, disfarçado de mendigo, nas ruas da Cidade do México. E nada disto está em Espanha mais do que aqui. Apenas o reflexo, semanal, é mais visível. E logo mais feliz e mais triste.

Sigur Rós: novo single?


Takk... tem três anos. Teve o seu espaço e tempo, e os islandeses Sigur Rós ainda proporcionaram Heima em final de 2007, um documentário esteticamente assombroso que permite a total imersão no universo dos músicos vindos do frio. Agora, Primavera de 2008, os quatro de Reykjavik mostram-nos não só a imagem que se adivinha venha a ser do novo single, mas ainda imagens inéditas do processo de mistura do novo álbum e pedaços da rodagem daquilo que se acredita ser o primeiro vídeo agregado ao mesmo, saídos directamente das últimas duas ou três semanas. Tudo, e mais, para ver no seu widget, aqui. Se eu não ando a imaginar coisas, os senhores parecem, claramente, nus. Acrescente-se que no blog e no MySpace da banda está um aviso para olhos e ouvidos abertos na próxima terça-feira, porque há "important announcement" por volta do meio dia. Venha a nós o vosso reino, assim na terra como no céu. Ámen.

IndieLisboa 2008: balanço

Primeiro que tudo, as desculpas: faltam textos relativos a cinco filmes, três dos quais da Competição Internacional.Porém, nenhum merece enorme menção e também nenhum foi premiado, pelo que a sua crítica não é fundamental. Posto isto, o balanço. Globalmente, este foi um bom Indie. Valeu a pena. Foi brilhante? Não. Mas dificilmente existirá uma edição que nos faça rejubilar. Temos a consciência, ainda assim, que o saldo é muito positivo e o Indie já terá chegado à maioridade. Em termos de organização, na qualidade de mero espectador parece-nos que as coisas estão estabilizadas. E isso é muito bom para um festival com apenas cinco anos, que aprende muito em cada edição. As salas foram desta feita diversas, os filmes mais que muitos, e não se deu conta de problemas, atrasos, anulações ou perturbações, para além das que não é possível prever, e mesmo essas estiveram praticamente ausentes. Também no que diz respeito à visibilidade, o Indie cresceu. A imprensa sobretudo, conferiu larga exposição ao evento, seguindo a competição, discutindo a cinematografia dos homenageados, ajudando a uma visão mais madura de um evento cada vez mais profissional. Em termos de programação, foram mais de 200 filmes, para todos os gostos e feitios, para públicos diversos, afirmando o Indie como iniciativa transversal e atenta não só ao que se faz em termos de cinema independente, mas também aos diferentes interlocutores que o mesmo tem. Onde fica um sabor amargo é, estamos em crer, na qualidade dos filmes a competição internacional, nomeadamente de longas. Por constrangimentos óbvios, o Animatógrafo não teve oportunidade de olhar para curtas-metragens, nem para o IndieJúnior, mas depois de toda a Competição vista fica a ideia de, por um lado, inconsistência no grupo de filmes escolhido, e, por outro, falta de qualidade nos mesmos. Inconsistência porque o mesmo grupo apresentou filmes manifestamente maus -Charly, A Zona, Momma's Man - e filmes uns bons furos acima - Pink, El Asaltante, Wonderfull Town. A todos o mesmo denominador comum: a falta de meios gritante, que obriga a inventar trabalhos quase a partir do nada. Outras características partilhadas são sintomáticas, nomeadamente uma veia documental bem vincada (e o facto de vários dos filmes serem documentários ou pseudo-ficções bem o prova) e uma cinematografia despida, crua, preocupada com realidades sociais contemporâneas mas indo de encontro a histórias particulares para as ilustrar. O júri decidiu premiar o filme tailandês Wonderfull Town (ver texto), escolha da qual discordamos, mas compreendemos. A nós (este plural de modéstia é bonito) pareceu-nos que Pink, do grego Alexander Voulgaris, é um filme mais sólido e sobretudo mais completo. Tendo em conta que a temática deste era mais íntima e mental, compreendemos ainda assim que quem oficialmente escolhe tenha optado por um trabalho diferente. No fim, fica-nos a ideia que cinema independente hoje é significado de documentarismo ou visão documental, de dificuldades de comunicação com o espectador, de procura de tom e estrutura, de imagens felizes por vezes mal utilizadas, de boas ideias com concretizações deficientes, de processo de procura, de crueza e amargura, de preocupação de cariz humanista. O Indie está morto, viva o Indie.

[IndieLisboa08] La France (***)

[Competição Internacional] Avançando na competição (já faltam poucos), chega-se ao filme mais estranho até agora visto. E não estranho pela temática ou pela forma. Estranho porque incompreensível no objectivo. Serge Bozon tem uma carreira bem mais longa como actor do que enquanto realizador. Ainda assim, La France não é a sua primeira longa-metragem, e isso vê-se. Em abstracto, a história tem sumo: uma mulher, Camille, está sozinha em casa com o marido, François, na linha da frente. É tempo da Primeira Guerra Mundial, e Camille recebe cartas do seu amor com frequência, até uma interrupção abrupta. A primeira missiva que surge depois é a da ruptura. "Não me verás novamente, não me procures" escreve François. E Camille, de ar frágil mas profundo, age com o coração: corta o cabelo curto, veste roupas de homem e parte à procura do marido para o cenário de guerra. Até aqui, clap clap clap, parabéns senhor Bozon, boa ideia. Só que a partir do momento em que Camille abandona um lar deserto e mete pés ao caminho, o filme perde-se na floresta. Camille encontra um grupo de desertores e inclui-se no conjunto, e muitos minutos depois temos a sensação que François já não interessa para nada. Ou seja, Bozon perde a energia romântica e lírica inicial para se entreter com um conjunto de homens pouco credíveis como soldados que pensam estar a caminho da Holanda para fugirem à guerra mas, na prática, vagueiam no meio da floresta. Ouvem-se uns sons de canhões ao longe, e a espaços vêem-se meia dúzia de alemães a cavalo que não chegam sequer a criar a sensação de inimigo. No fim, vindo do nada, François aparece no meio da floresta, e regressa a casa com Camille. Que se passou, senhor Bozon? La France parece padecer de um tique comum, por exemplo, em boa parte do cinema português: é um filme que só existe na cabeça do seu realizador. Temos a sensação permanente que aquilo quer dizer alguma coisa, mas não sabemos o quê. Ou melhor, a ideia que o realizador quis mostrar alguma coisa ali, mas não conseguimos identificar. E portanto (parece karma dos filmes a competição este ano) boa ideia, mal aproveitada. E então a pergunta impõe-se: se é assim, porquê as três estrelas? Ora, porque o francês, no meio de todo o simplismo que impõe na tela, tem rasgos geniais de cinema. Sobretudo quando mete as amostras de soldados a cantar uma musiquinha idiota no meio do mato, com instrumentos saídos das sacolas ou mesmo do nada (um piano!). Não são músicas de guerra mas antes de inspiração Monty Python, non sense, que actuam como lanças em África num filme mal esgalhado. Claro que acentuam a ideia que não percebemos sinceramente o que é que Bozon quis fazer, mas são momentos de cinema salvadores, que nos põem um sorriso na cara e pintam os soldados com outra cor. La France é um filme estranho, de difícil captação, mas não é um projecto vazio. Ou pelo menos não parece... (será dos meus olhos?)

[IndieLisboa08] Wonderfull Town (***)

[Competição Internacional] Para o registo: Wonderfull Yown é um filme muito bonito. Mas como não é sobre o mundo da moda, isso não chega. O tailandês Aditya Assarat foi para sul à procura do que restou depois do tsunami e da reconstrução de uma costa devastada, e veio de lá com uma história de amor previsível demasiado focalizada em si mesma. O realizador filma um arquitecto de Banquecoque que é destacado para coordenar a reconstrução de um resort perto de Phuket. Simples, o profissional aloja-se num pequeno hotel da aldeia, onde trabalha uma jovem nascida e criada no lugar. Os noventa minutos seguintes são a história de sedução e namoro envergonhado dos dois, em tom lírico que até resulta até certo momento. Mas Assarat esquece-se do pano de fundo e da premissa de base e olha apenas para os dois personagens e o seu relacionamento, quando podia olhar out of the box e afrontar a reconstrução, as ruínas e as memórias, ou a continuidade de um ambiente que não é urbano mas também está longe do tropical. Apenas em termos de imagem o realizador se lembra de onde está, porque narrativamente o filme é pobre e descentrado. Na prática, o resultado é inconsequente. Admiram-se as paisagens e os momentos sóbrios, mas estes deixam ao espectador o trabalho de pensamento, quando Assarat se entretém com personagens previsíveis e quase planas, e com o desfecho dramático da relação e da não aceitação da mesma no meio. O filme deixa o sabor amargo do desperdício a quem vê, bem filmado, com tom próprio, mas desfocado da sua potencialidade e perdido com questões menores. Louve-se o simplismo da coisa, uma vez que não poucas vezes a mesma atitude redunda em presunção, que não é o caso. Mas precisamente pelo oposto, pela falta de ambição e por se prender demasiado numa história local em vez de um olhar mais global, é que dificilmente será o tailandês a levar o caneco para casa.

[IndieLisboa08] Momma's Man (**)

[Competição Internacional] Ao que parece, a Competição Internacional segue misturando equívocos com clarividência, e continua apostada em testar a paciência ao espectador. Desta feita, o norte-americano Azazel Jacobs mostrou o sonolento Momma's Man, e mais valia ter ficado em casa. Em parte auto-biográfico (!), o filme de Jacobs acompanha Michael, um trintão que decide visitar os pais em Nova Iorque, quando tem mulher e filha na Califórnia. Tudo seria normal se Mike não quisesse ficar em casa dos progenitores, agarrado a livros de banda desenhada, memórias do liceu e letras de músicas da adolescência. Ou seja, a premissa até é interessante. O filme podia ser sobre as dificuldades da vida adulta, sobre uma visão desencantada do presente e utópica sobre o passado, sobre a ligação aos espaços que nos formatam na época dourada da juventude. Podia, mas não é. E isto porque Azazel é incapaz de dar o salto. São 98 minutos em que o espectador se mexe mais na cadeira do que Jacobs no filme, que não vai a lado nenhum. Percebe-se a ideia ao fim dos primeiros cinco, e a partir daí o realizador limita-se a filmar o espaço do quarto, a cara de Mike quando liga à mulher ou mente aos pais, a carta da ex-namorada de liceu, e muito pouco mais. Para ajudar à festa, o personagem principal é limitadíssimo e nada do que faz ou sente tem base emocional, pelo que tudo se converte em gratuito. Jacobs, que filma os próprios pais, perde uma enorme oportunidade de fazer um filme decente, e conclui um documento vazio de ideias e que faz perder o tempo a quem o vê. E as duas estrelas apenas se justificam porque a premissa até era boa.