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Das mulheres dondoca

Uma mulher dondoca é um urso pardo. Leve e ligeira, o espécimen tem profunda alergia a pó, próprio e alheio. Usualmente divorciada ou casada em papel, a dondoca habita largas partes dos centros urbanos, nomeadamente as linhas costeiras a sul das cidades ou no sentido da foz dos rios, onde a temperatura permite evitar transportes públicos ou mini-mercados. É comum formarem grupos de apoio mútuo, nomeadamente de cigarro na mão e alegando direitos a pensões vitalícias de outras espécies, os homens-camelo. Por vezes evidenciam uma óbvia falta de propensão para outras línguas, mesmo pensando o contrário e tentando demonstrá-lo com broches em carros a alta velocidade, circulando em scuts. Uma mulher dondoca preocupa-se com as unhas dos outros, de forma beata, como se os cotos fossem o local de maior concentração de religiosidade, tirando o buço. Com frequentes tiques de origem nervosa, nomeadamente o de enfiar os dedos compridos no cabelo como dentes de tigre-dente-de-sabre e redimensionar, assim, a cabeleira clara na direcção de Caxias, as dondocas trabalham arduamente na rua, percorrendo lojas em busca de fiscais da ASAE, ou constituindo-se como alternativa a estes na dimensão estética do social-lojismo. Uma dondoca nunca é brega, mesmo que passeando na Feira do Relógio às 10 da manhã na companhia de um homem-camelo ou de seu enteado, de cabelo mal cortado à chapada pelo cabeleireiro amigo da tia. A raça progride hoje como nunca, nomeadamente em países em vias de desenvolvimento com hortas a ladear vias rápidas e hortas rápidas a canalizar as vias públicas. Uma mulher dondoca é uma couve selvagem.

Das mulheres filhas da puta

A raça é antiga. Remonta aos idos da carne junto ao osso, e quando eram formatadas à porrada de cacete. Comiam e calavam, e foram apurando uma genética própria, derivada da adaptação ao meio e do desenvolvimento de noções quinéticas profundamente enraizadas no cerebrelo. Uma mulher da filha da puta tem os olhos vermelhos. Acorda, de manhã, sozinha e recrimina tudo o que sabe para se vestir com um objectivo específico, mesmo que narcísico. Durante os seus dias cheiram o musgo alheio com nariz tísico e procuram as presas mais susceptíveis de serem afectadas. Na sua impossibilidade, conformam-se em afastar estas e providenciar lugar a outras que tais, dóceis, sejam homens, filhos, sogros ou gajas. Usualmente ignorantes para além do seu scope, focalizam-se na tarefa corrente de tal forma que tudo o resto é-lhes desfocado da vista, mesmo fisicamente, e assumem uma pose central numa cena imaginada, onde a face e as articulações parecem desenhadas por Paula Rego. Uma mulher filha da puta é um homem com tomates, mas sem pénis. Compensa assim a ausência do membro com braços extra-longos, pele destratada pelo ar condicionado e, por vezes, vitimização interior. Espécimen em expansão sobretudo em países em vias de desenvolvimento, onde acreditam existir território virgem, quando são são de forma inteira, não dando lugar a dúvidas ou ensaios de consciência. As mulheres que se dizem filhas da puta, essas, não passam de produtos frescos de uma sociedade com baixa auto-estima, que se tentam afirmar pela negativa quanto a negativa é positiva, a seu ver. As verdadeiras desconhecem o estatuto pessoal e acreditam ser verdadeiros prodígios de entrega e dedicação a uma causa, seja profissional, pessoal ou futebol de cinco. Bons exemplos são artistas que, colocando a filha da putice ao serviço da arte, não poucas vezes se revelam seres de atracção fatalista para alguns homens. As mulheres filhas da puta são o futuro dos anões.

Das mulheres que dormem de boca aberta

Uma mulher que dorme de boca aberta é um fantasma moderno. Enquanto um homem que dorme de boca aberta parece apenas idiota, uma mulher transforma-se num ser abstracto, que tanto pode apelar à dimensão estética do oculto, como revelar-se uma borboleta esquecida da natureza nocturna, à espera de ser resgatada. Existem vários tipos de mulheres que dormem de boca aberta: as que mostram apenas os dentes nos combóios da CP, subtis, de tez lânguida e envergonhadas no sono, que não apelam a nada sensual; as mulheres-macho que imitam o Felisberto de S. Paio e se escancaram ao oxigénio, colocando as amígdalas a arejar, eliminando assim quaisquer pólipos mais resistentes à Aldeia Velha nas cordas vocais; as que intercalam o ângulo de 30 graus quando vão no lugar do morto com uma boca erradamente fechada, oscilando entre o desejo sexual pelo ar que entra na janela e a reminisência da chucha de borracha castanha da sua infância tardia. E depois as que apelam a lugares pouco comuns da literatura, movidas na noite por um leve arfejo do peito, como que espantadas mas convencidas, num limbo dir-se-ia psicosomático, a assomar a substâncias apenas ligeiramente narcotrópicas, como o alecrim. Estas, as mais raras e assim as mais sensuais, exalam um odor pela pele que difere do reflexo da luz na ria de Aveiro por meros quatro cromas, e levam qualquer homem à loucura, tomado em si por um nível de ternura insuportável mesmo para os mais maricas. Vários estudos comprovam que uma larga percentagem de homens com problemas de insónia documentados são precisamente testemunhas destas visitas fantasmáticas e, tolhidos no seu sono por tal imagem, desaparecem do campo do descanso para nunca regressarem verdadeiramente. O número destas mulheres está em queda, sobretudo em países com filmografias menores, como a Moldávia (onde predominam as Mulheres que cultivam o buço, o que cria um peso extra que obriga a boca fechada) ou as Ilhas Canárias (que, não sendo um país, convoca-se como microcosmos onde as mulheres, quando de boca aberta, não dormem nem deixam dormir). Um fantasma que dorme de boca aberta é uma mulher moderna.

Das mulheres miniatura

As mulheres miniatura são uma exclusividade de poucos países. No caso português, aqui mais em foco, partem da frase mítica que “a mulher quer-se pequenina como a sardinha”. E não, enganam-se os que pensam que isto tem a ver com a altura do espécimen. É muito mais do que isso. Ora. A mulher miniatura é algo que, sendo invulgar, é vulgar. A mulher miniatura tem tudo pequenino: não mais de um metro e cinquenta e seis centímetros, um dedo indicador com quatro centímetros de comprimento e apenas pele à volta das falanges, falanginhas e falangetas, uns seios elípticos colados ao peito que não ganham peso por si e se mantêm eternamente em posição militar, uns pés que procuram sapatos em lojas para crianças, um rabo que não evoluiu desde os doze anos, quatro costelas laterais direitas que insistem em pronunciar-se quando deitadas, sejam gordas ou magras, umas pestanas que gritam por atenção matinal como um girassol em Dezembro, um queixo pontiagudo que, perto da mão de um homem, se assemelha de forma incrível a uma amostra de perfume dada na rua por uma promotora solícita. As mulheres miniatura são seres que pararam na escala de evolução e estão geneticamente condenadas a uma reduzida dimensão global, em que tudo é pequenino. São bonecas que não foram substituídas pela Barbie e permanecem em total funcionamento no mundo moderno, mesmo quando este está em total funcionamento adaptado para mulheres-gajas (um dia falarei sobre estas). Às mulheres miniatura estão vedadas algumas actividades, como carregar o sofá comprado no Ikea para o carro (porque nem os dedos nem os braços conseguem segurá-lo, de qualquer ângulo) ou pendurar roupa num corda num campo do Tennessee onde o vento passa e os lençóis sopram (ou o vento sopra e os lençóis passam). Em contrapartida, estão especialmente fadadas para trabalhar em lojas de roupa (a Zara é um bom exemplo) ou terem a sua própria papelaria, se tiverem mais de 40 anos, ou menos mas usarem chinelos de forma continuada e tiverem dois filhos “nascidos e criados no bairro”. Normalmente estas papelarias, que também vendem módulos da Carris, situam-se na Pontinha, em Moscavide ou na Rinchoa, se bem que a localização não é exclusiva. As mulheres miniatura, independentemente do estrato social, nunca têm voz grossa mas podem endurecer o queixo de forma laminar, colocando um homem no seu devido lugar, isto é, no de paspalho que a atura. O pequenino corpo endurece-se e todas elas parecem firmes e hirtas, prontas a atacar com verborreia quem se atravesse no caminho do seu fornecedor de lápis número dois. As mulheres miniatura nunca conseguem ser seres ternos, caindo eternamente no terreno lamacento da pieguice ou da idiotice. Foneticamente, podemos associá-las às palavras “pipoquinha”, “soquete” ou mesmo “carrapito”, termos praticamente exclusivos em termos de utilização da sua parte. Ao contrário do natural, quando envelhecem tornam-se aquilo que se denomina “velha seca”, isto é, uma idosa pequenina e sem gorduras, mas com enormes problemas de força e que fala insistentemente nos namorados que teve antes dos 22 anos, altura em que conheceu o Joaquim. Como miniaturas, atraem com facilidade o género masculino, que fantasia em manobrá-las entre os dedos como uma moeda ou acredita serem mais acrobáticas nos assuntos de cama e, logo, capazes de posições nunca antes vistas acima do paralelo 36. Como mulheres, ainda que miniatura, elas andam aí.

Das mulheres que cheiram a torradas

A esmagadora maioria das mulheres não tem grande cheiro. As mais "coquetes" mergulham num frasco qualquer logo de manhã e perdem todo e qualquer interesse olfactivo que pudessem ter. As mais "humildes" limitam-se a passar desodorizante e uma gota de qualquer perfume atrás das orelhas, que se perde ainda o elevador não chegou ao rés do chão. Há as que não tomam banho (tal como os homens). E depois há as mulheres-esponja. O que são as mulheres-esponja? Ora, são seres atípicos que assumem cheiros relacionados com o seu próprio quotidiano. Dentro deste raro estrato a casta mais comum são as senhoras da limpeza que, muitas vezes, acabam por se fundir com os produtos que utilizam. É assim que surgem mulheres aromatizadas a Cillit Bang ou a Cif. Mas a casta mais interessante dentro da rara espécie são as mulheres que cheiram a torradas. Excelentes donas de casa, mães esmeradas ou esposas dedicadas que não perdem um pingo de sexualidade, as mulheres que cheiram a torradas são um apetite. Esta semana, num raro momento, entrou uma jovem, com os seus 30 anos, no metro que fazia o meu transporte, e sentou-se ao meu lado. Em instantes um leve odor a manteiga derretida em pão quente tomou conta de dois metros quadrados da composição. De ar fresco, certamente profissional liberal comprometida, sem filhos, o espécimen teria feito torradas para o seu próprio pequeno-almoço e para o do jagunço que atura, e o cheiro da refeição afeiçoou-se à camisa preta escolhida para o dia. Uma mulher que cheira a torradas é um bálsamo. Tem ao mesmo tempo um toque de modernidade, com imagens de revista acabada em Living, e de algo antigo, de pão quente com manteiga pela manhã, de pequenos-almoços em casa de forma descontraída e café de cevada, espigas numa jarra, sol a entrar maroto pela janela que dá para a cozinha. Eu, que lia o jornal, perdi a concentração. Desenganem-se os que pensam que uma mulher que cheira a torradas é sexo abstracto. Não. É sobretudo erotismo. É um pouco como o mito de Bocage, que , reza a história, ia para a porta da churrascaria nas Portas de Santo Antão, ao Coliseu, e almoçava "só com o cheiro".