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Em revista I: Zoetrope All-Story


Mantendo o tópico do post anterior, inaugura-se nova secção. Desta feita, com a Zoetrope All-Story, projecto criado e coordenado pelo mestre Francis Ford-Coppola, cujo número de Verão viu-se refugiado no tapete da entrada há alguns dias. É lixado não caber na caixa do correio e ficar à mãos de semear de um vizinho mais curioso porque o carteiro é xoné. Felizmente os meus vizinhos são do antigamente e vêm a TVI, e portanto cá está ela. Desta feita, o designer convidado é Mark Mothersbaugh e os textos de John Hughes, Sana Krasikov, Saena Lambert, Marissa Perry e Yasutaka Tsutsui. A peça é de uma enorme preocupação gráfica e vale mesmo pelo seu próprio papel, cores e cheiro, para além dos textos. E, imagine-se, não, não custa uma fortuna. A assinatura anual tem neste momento o valor de 25 euros, já com despesas de envio, para quatro números. Para uma das melhores coisas que se faz sobre literatura, cinema e artes gráficas não está mal.

É perto, tão longe

Péssimo defeito: acumular revistas, jornais e afins materiais, para um dia, quem sabe, talvez, ler. Perdida a actualidade, a sabedoria da coisa está na visão "histórica", no saber como foi depois, mas assim se escrevia antes. Ilusões perdidas. E por vezes descobertas que compensam o papel arrumado em caixas e sacos. Exemplo: a Única de 6 de Junho passado. Independentemente das fofocas e styles que também aqui povoam páginas, dois muito bons exemplos de bom jornalismo. Sobretudo na sua vertente reportagem, vulgo "contar histórias". Primeiro, Luís Pedro Cabral fez o que também eu gostava de ter feito: visitou todas as cidades de nome "Lisbon" nos Estados Unidos. São doze. E mais do que procurar os pontos de contacto das pequenas Lisboas com sotaque com a grande áquem Atlântico, o jornalista procurou as cidades elas mesmas, mesmo tentando saber de onde vem o nome. Em quase todas, nada a ver com Portugal. Em todas, uma dimensão que não se afirma porque inexistente, e uma visível América arredada dos holofotes. Para cada uma um pequeno texto, ora cínico ora melancólico. Uma ou outra imagem a acompanhar. O resultado é uma viagem a um pretexto invulgar. E a ideia de que se pode repetir com Paris, ou Londres, ou Buenos Aires. A América é, feliz e infelizmente, mais do que Jay Leno e Barack Obama. Para um europeu, é um mar de possibilidades de viagem. Nome de código perfeito: Lisbon Story. Segundo, e segundo a capa: Carlos Rico foi à procura de João Balula Cid, pianista português de virtude feita, que trocou Lisboa pelo norte da Noruega, e o piano pela pesca do bacalhau. Em Lofoten ainda há pianos, no bar da vila ou em casas particulares para afinar, mas o quotidiano é feito do controlo da produção do peixe. João Cid passa mais tempo a pendurar cabeças de bacalhau ao sol do que a tocar nas teclas. E isto foi uma escolha. A reportagem é limpa, simples, sem pretensões panfletárias, e alimenta-se do que deve: das pessoas que tem dentro, das suas imagens e histórias. De novo, uma enorme vontade de mandar tudo às urtigas, e partir para outra. Há mais portugueses no projecto, e todos alimentam em três meses a motivação que tem que durar para o resto do ano, passado em Aveiro a penar à saída da lota. A peça chama-se Do piano para o bacalhau e terá dado origem também a uma reportagem no Jornal da Noite da SIC, que confesso não ter visto. Não querendo alimentar a fantasia miserabilista do "lá fora é que é bom", fica-me a cara do bacalhau a olhar para nós. De boca aberta, pasmado ao sol.

PS: para os interessados, posso fornecer cópias de ambas as reportagens em versão digitalizada. Vale a pena.

UPDATE: Dei agora conta que a reportagem da SIC está disponível no You Tube. Assim, deixo aqui as duas partes abaixo, para quem quiser ver. Recomendo, de qualquer forma, a leitura do texto da Única.

Parte 1



Parte 2