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É perto, tão longe

Péssimo defeito: acumular revistas, jornais e afins materiais, para um dia, quem sabe, talvez, ler. Perdida a actualidade, a sabedoria da coisa está na visão "histórica", no saber como foi depois, mas assim se escrevia antes. Ilusões perdidas. E por vezes descobertas que compensam o papel arrumado em caixas e sacos. Exemplo: a Única de 6 de Junho passado. Independentemente das fofocas e styles que também aqui povoam páginas, dois muito bons exemplos de bom jornalismo. Sobretudo na sua vertente reportagem, vulgo "contar histórias". Primeiro, Luís Pedro Cabral fez o que também eu gostava de ter feito: visitou todas as cidades de nome "Lisbon" nos Estados Unidos. São doze. E mais do que procurar os pontos de contacto das pequenas Lisboas com sotaque com a grande áquem Atlântico, o jornalista procurou as cidades elas mesmas, mesmo tentando saber de onde vem o nome. Em quase todas, nada a ver com Portugal. Em todas, uma dimensão que não se afirma porque inexistente, e uma visível América arredada dos holofotes. Para cada uma um pequeno texto, ora cínico ora melancólico. Uma ou outra imagem a acompanhar. O resultado é uma viagem a um pretexto invulgar. E a ideia de que se pode repetir com Paris, ou Londres, ou Buenos Aires. A América é, feliz e infelizmente, mais do que Jay Leno e Barack Obama. Para um europeu, é um mar de possibilidades de viagem. Nome de código perfeito: Lisbon Story. Segundo, e segundo a capa: Carlos Rico foi à procura de João Balula Cid, pianista português de virtude feita, que trocou Lisboa pelo norte da Noruega, e o piano pela pesca do bacalhau. Em Lofoten ainda há pianos, no bar da vila ou em casas particulares para afinar, mas o quotidiano é feito do controlo da produção do peixe. João Cid passa mais tempo a pendurar cabeças de bacalhau ao sol do que a tocar nas teclas. E isto foi uma escolha. A reportagem é limpa, simples, sem pretensões panfletárias, e alimenta-se do que deve: das pessoas que tem dentro, das suas imagens e histórias. De novo, uma enorme vontade de mandar tudo às urtigas, e partir para outra. Há mais portugueses no projecto, e todos alimentam em três meses a motivação que tem que durar para o resto do ano, passado em Aveiro a penar à saída da lota. A peça chama-se Do piano para o bacalhau e terá dado origem também a uma reportagem no Jornal da Noite da SIC, que confesso não ter visto. Não querendo alimentar a fantasia miserabilista do "lá fora é que é bom", fica-me a cara do bacalhau a olhar para nós. De boca aberta, pasmado ao sol.

PS: para os interessados, posso fornecer cópias de ambas as reportagens em versão digitalizada. Vale a pena.

UPDATE: Dei agora conta que a reportagem da SIC está disponível no You Tube. Assim, deixo aqui as duas partes abaixo, para quem quiser ver. Recomendo, de qualquer forma, a leitura do texto da Única.

Parte 1



Parte 2

Albertina, há minutos

Albertina tinha 3,36€ para pagar, quatro iogurtes básicos, um pacote de biscoitos secos. Olhou para as moedas na palma da mão, poídas, e para a voz impaciente da caixeira do supermercado, e nada fazia sentido. 3,36€, e faltavam moedas. Quatro iogurtes e uns biscoitos, secos, num pacote de plástico ruidoso. Albertina, ou Inês, ou Luísa, 70, ou 76, ou 81 anos, olhava para as moedas e para a menina. 3,36€. Albertina humedeceu os olhos, involuntariamente. Paguei a diferença, e Inês, ou Luísa, agradeceu entre lágrimas. Quatro iogurtes básicos, biscoitos secos num pacote. Perdi a fome.

Vidas Difíceis XII

Vidas Difíceis XI

"Quando um dia for casada e tiver um filho, vou fazer uma sopa de peixe com o leite das minhas mamas".

José Rodrigues dos Santos, O Codex 632

Vidas Difíceis X

Vidas Difíceis IX

"Dois reclusos fugiram esta noite do Estabelecimento Prisional de Alcoentre, depois de terem serrado as grades da cela em que estavam detidos.

De acordo com uma fonte da Direcção-Geral dos Serviços Prisionais, os reclusos serraram as grades da cela com uma lima. A fuga foi detectada pelos guardas prisionais por volta das 06h00 de hoje.

Os dois fugitivos, de 24 e 34 anos de idade, eram reclusos primários (primeira pena de prisão que cumpriam), acrescentou a mesma fonte, escusando-se a especificar quais os crimes e as penas que estavam a cumprir.

As autoridades foram avisadas e está a ser elaborado um inquérito dentro da prisão de Alcoentre para apurar responsabilidades.

O Estabelecimento Prisional de Alcoentre tem uma lotação de 663 reclusos, na sua maioria condenados a penas de prisão superiores a três anos."

Público, 26/12/2005

Vidas Difíceis VIII (coisas de putas)

"Na Alemanha, onde a prostituição foi legalizada em 2002, Clare Chapman, 25 anos, formada em tecnologias de informação, pode ficar sem subsídio de desemprego depois de ter recusado um emprego, que requeria prestação de "serviços sexuais" num bordel de Berlim. O caso tornou-se público através da edição online do jornal Daily Telegraph, que explicou que com a legalização da prostituição, os donos dos bordeis - que são obrigados a pagar os descontos e o seguro de saúde dos seus empregados - têm acessos às bases de dados oficiais das pessoas que andam à procura de trabalho. Segundo a publicação britânica, Clare Chapman recebeu uma carta do centro de emprego a informar que havia um empregador com interesse no seu currículo, onde referenciava que já tinha trabalhado num café e disponibilidade para trabalhar à noite. A jovem alemã vem a descobrir que é para trabalhar num bordel. «Não há nada, agora, na lei que evite que as mulheres sejam enviadas para a indústria do sexo», afirmou Merchtchild Garweg, um advogado de Hamburgo. O especialista explica ao Daily Telegraph que «os novos regulamentos afirmam que trabalhar na indústria do sexo já não é imoral, e, portanto, esses empregos não podem ser recusados sem que se perca o subsídio de desemprego».

Destak, pag. 4, 12/12/2005

Vidas Difíceis VII

"O caos instalou-se ontem na Praça Duque de Saldanha, em Lisboa, quando um homem que aparentava 25 anos esteve cinco horas pendurado numa varanda do 11.º andar do Edifício Monumental. A situação obrigou a interromper o trânsito na zona e à mobilização de meios do INEM. A confusão começou às 17.00 e prolongou-se até às 22.00, quando os negociadores da PSP conseguiram demover o homem da tentativa de suicídio, cujos motivos não foram esclarecidos. No local dizia-se que "ele gritava querer ir para os Estados Unidos para ser jogador de basquetebol".

Diário de Notícias, pag. 25, 10/12/2005

Vidas Difíceis VI

"Um norte-americano que teve um ataque de pânico quando descobriu que estava colado à sanita da casa de banho de uma loja de materiais de construção vai processar a empresa em causa por negligência. O homem, oriundo do Colorado, afirma que o pessoal da loja ignorou os seus pedidos de socorro. O engenheiro eléctrico de 57 anos, Bob Dougherty, contou na quinta-feira passada que, dois anos depois do incidente, estava a sofrer de stress pós-traumático, que produziu complicações tão graves como a diabetes e problemas cardíacos, refere a Reuters. Desde os 20 minutos que passou colado à sanita que Dougherty reporta "pesadelos todas as noites, em que me vejo fechado num quarto escuro, sem janelas, portas, ar livre ou forma de escapar. Acordo coberto de suor". A empresa Home Depot Inc. não comentou o processo que foi interposto na semana passada em Boulder, Colorado. Dougherty disse que pensou estar a ter um ataque cardíaco quando se apercebeu que as suas nádegas e pernas estavam coladas ao tampo da sanita na casa de banho da loja Home Depot em Louisville, no Colorado".

in Público, pag. 62, 06/11/2005

Vidas difíceis V

Vidas Difíceis IV

Vidas difíceis III

Vidas difíceis II

Vidas difíceis I