Autárquicas em Cartaz

Um bom amigo meu, que me atura em muitos almoços, enviou-me aquele que poderá ser o blog mais determinante da campanha portuguesa. Sintomaticamente intitulado "Autárquicas em Cartaz", faz um inventário das pérolas do marketing de outdoor que por estes dias povoam o território nacional. Desde a pistola de Porto de Mós que já deu origem a uma reportagem da SIC à Carolina Amélia de Vilaverde, com um cartaz muito "afectuoso", há de tudo. Este último, juntamente com os da Trafaria e de Canelas, são os meus favoritos. Mas, no fim de contas, há para todos os gostos. Não admira que as empresas de comunicação e os profissionais da área estejam na falência/desemprego. Qual Edson Ataíde, qual quê, a senhora joaquina lá da junta é que percebe disto! Mai nada! O blog está em http://blogautarquicas.blogs.sapo.pt

Ora cá está!



Na minha primeira incursão na (mini) feira ecológica e natural do Príncipe Real (todos os Sábados), na parte de coisas não naturais (leia-se velharias, artesanato new age e antiguidades), deparei-me com esta pérola. Chamava-se "Animatógrafo", sendo assim o objecto primordial deste blog. Comprei três exemplares diferentes, de entre os muitos que a senhora com ar de otária tinha por lá. Este, com a Jean Arthur na capa, foi editado, precisamente meus amigos, foi editado a 6 DE OUTUBRO DE 1941. Cá está. 64 anos palmilhou a revista à data dirigida por António Lopes Ribeiro, o personagem mais determinante do cinema português do salazarismo, Pátio das Cantigas, O Pai Tirano, A Canção de Lisboa, etc, etc...Este é o n.º 48, 2.ª série. Ficamos a saber pelo rodapé da capa que "Publica-se às segundas-feiras" e que o preço era de um escudo e cinquenta centavos. Diz ainda a capa que Jean Arthur era "favorita dos cinéfilos portugueses" e que "este número contém um retrato-brinde de Mischa Auer", retrato este que não sobreviveu junto com a revista. Abre-se e lê-se que "Maria Paula trabalha em «O Pátio das Cantigas», filme ainda em produção, e que se trata de uma "reaparição que se impunha!". Na página 4 há "ecos da IX exposição cinematográfica de Venesa" (assim mesmo, com "s") e na página 5 diz-se que "é verdadeiramente consolador verificar o êxito sem igual alcançado pelo filme português «O Pai Tirano». O Éden bate todos os seus «récords» de afluência e de receita. (...) As gargalhadas constantes que provoca não vêm só de cima ou só de baixo, dali ou dacolá: irrompem de tôda a sala, num unísono consolador". Na página 9 fala-se "do que foi a primeira volta de manivela de «O Pátio das Cantigas»", enquanto na página 12 um assinado "Homem Sombra" diz que "Já estão definitivamente fixadas as datas em que vão exibir-se os filmes «The wolson of the mountain» e «Al'Arrihba». Falta apenas marcar os dias certos". Como precursor, o Animatógrafo tinha na página 14 "O Correio de Bel Tenebroso", uma versão inicial das hoje correntes "cartas ao director". Na mesma página um anúncio avisa que "Os melhores filmes portugueses, aqueles que se distinguiram pela decoração, foram mobilados pelos Grandes Armazéns Alcobia. A casa que sabe associar o «gôsto» e o «confôrto»". Ora cá está, há 64 anos.

Vidas Difíceis IV

Avaliações depois de almoço

"Portugal subiu dois lugares no ranking anual da competitividade do Fórum Económico Mundial (WEF - World Economic Forum). O 22.º lugar luso além de representar uma subida na classificação que mede os mais competitivos, surpreende por surgir à frente de países como Irlanda, Espanha, França e Bélgica."

Jornal de Notícias, 29 de Setembro 2005

Frases demasiado boas para existirem I

"O homem teria uns trinta anos de idade e parecia condenado pelas camadas de interrogações silenciosas que poisam nos inocentes como lençóis de morte, amorosamente."

Mafalda Ivo Cruz, Vermelho, D. Quixote, pag. 33

Facto histórico indiscutível de sexta-feira à tarde

Ainda bem que não sou lagarto.

Vidas difíceis III

Tarnation *****



Este jovem aqui na imagem é Jonathan Caouette. Ora, para aqueles que pensam que a vida é dura, aqui o Jonathan diz que não. Não, a nossa vida não é dura. A dele é que é. A mãe de Jonathan, em miúda, caiu do telhado de casa dos pais e, ao tocar no chão, não dobrou os joelhos (!). Como ficou com medo de se mexer, e teve um período de recuperação díficil, os paizinhos, avós de Jonathan, não foram de modas: tratamento com choques eléctricos, que a rapariga tinha era fobias. Anos de choques. Resultado: miolos fritos para o resto da vida. Mesmo com miolos fritos, a rapariga conseguiu arranjar um marmanjo e casou-se. Engravidou. O marmanjo, sem saber que ia ser pai, pôs-se na alheta porque a tipa não era boa da carola. E nasceu Jonathan. Como a mãe meia volta tava no hospital psiquiátrico a levar mais um volts na moleirinha, Jonathan foi entregue ao Estado (os avós não queriam saber dele, claro). E como o Estado é um tipo porreiro, vai de o entregar a pais adoptivos ou famílias de acolhimento que mimaram o Jonathan com maus tratos, abusos de toda a ordem, espancamentos, abandono, etc e tal, entre os três e os seis anos, mais coisa menos coisa. A coisa deu pró torto, mas Jonathan conseguiu voltar para casa dos avós (lembraram-se dele, parece). Um dia, em casa da mãe, pediu dois charros a um amigo da progenitora. Chegou a casa e vai disto, fumou os dois de uma empreitada. Azar: estavam embebidos em ácidos da mesma famelga do LCD mas mais fortes. Resultado: danos cerebrais permanentes. O resto são anos de violência, homosexualidade assumida desde os 12 anos, drogas, avós doidos, mãe internada, casa em ruínas. Tarnation, documentário de 2003 que esteve discretamente em Portugal e que o Nimas, em Lisboa, decidiu repor por dois dias (ontem e hoje), é um conjunto de provas sobre a natureza humana. Porque Jonathan foi filmando tudo. Tarnation é uma edição de imagens, vídeos caseiros, fotografias gastas, gravações de cassetes que testemunham uma vida extraordinária. Literalmente, extra-ordinária. O manancial de imagens autoreferenciais que Jonathan Caouette dispunha era simplesmente torrencial. Vai daí, num acto de psico-terapia que mete medo ao susto, revisitou tudo ao longo de 88 minutos de violência extrema em que poucos são os culpados e muitas as vítimas. Jonathan tem hoje 32 anos e vive em Nova Iorque. É actor, é protagonista de Fat Girls, actualmente em fase de pós-produção e realizado por Ash Christian. O Jonathan diz que a vida não é dura. A nossa não.

Vidas difíceis II

Oiçam



Richmond Fontaine, The Fitzgerald

Vidas difíceis I

Catalysts!

Oficialmente, a coisa reza assim: "Um projecto de colaboração que reúne designers de todo o mundo, Catalysts! aborda a relevância e o impacto do design de comunicação na cultura contemporânea. As linguagens visuais do design tornaram-se parte integrante da nossa percepção colectiva. Tanto os trabalhos de designer gráficos profissionais quanto as intervenções amadoras no espaço público remetem para uma enciclopédia visual global comum, difundida através de uma rede de meios interligados em permanente expansão."

Na prática, tirando o jargão institucional do projecto, o que está no Centro Cultural de Belém desde quinta-feira passada é um conjunto de obras, na sua esmadora maioria auto-reflexivas, que tentam fazer pensar um pouco sobre o design de comunicação e a sua interligação com a cultura contemporânea. O espaço de instalação da exposição não é brilhante, provocando um excesso de material e a sensação de "não fuga" que já se sente em termos sociais. Mas o melhor é mesmo o filme de Rob Shröder. Intitulado "PÂNICO MORAL - O cérebro estilhaçado de um viciado em televisão", parte das muitas horas de gravação, ao longo de décadas, que Rob fez. O "viciado" no título significa que Rob viu, durante anos, televisão em três ecrãs simultaneamente e foi gravando tudo o que lhe parecesse chocante, fora do comum, bizarro, importante. O resultado é o melhor de "Catalysts": perto de 60 minutos de imagens montadas a alta velocidade, de Bush a piscar os olhos a crianças a morrer de fome, da picareta a mandar o Muro de Berlim abaixo a Arnold Schwarzenegger nos tempos de Mister Universo, de Michael Jackson a Madonna a simular felatio com uma garrafa de Pepsi. O resto da exposição centra-se no design de comunicação nomeadamente na vertente "publicidade", com toques de crítica social e auto-crítica. O filme de Rob vira o bico ao prego e indexa milhares de imagens que fizeram o século XX (e início de XXI), retirando-as do seu contexto específico e colocando-as entre as suas pares. No fim, a sensação é um "isto somos nós" que é muito amargo...

Facto histórico indiscutível de sexta-feira de manhã

Está dia de terramoto.

Manifesto anti-todos

Só me apetece dizer mal e insultar os e as idiotas que me aparecem à frente hoje. Não é nenhum dia especial, só que há manhãs em que a gaja do café parece armada em parva e tira aquilo com borras. Portanto, aqui vai:

1) - Aquela senhora que vai ali na rua, de óculos de tartaruga e t-shirt a puxar ao sem-abrigo, é tão idiota a estacionar que só dá vontade de apanhar a pedra da calçada que guardo no bolso da camisa e acertar bem no centro da moleirinha, onde os pardais fazem ninho e as serpentes comem ratazanas de Alcântara;

2) - O revisor do comboio tem um bigodinho que parece feito para fazer cócegas às vacas sagradas na avenida principal de Bombaim. Basta chegar-se ao pé do animal, baixar-se e esfregar a acumulação de pelos fracos na coxa do deus cornudo com ar de bife wannabe;

3) - A bancária da CGD na Av. da República, no segundo guichet a contar da entrada, tem unhas de quem não arranha ninguém há quase um ano, nem está interessada;

4) - As putas de Coina, debaixo de cada pinheiro à beira da estrada, são no fundo extra-terrestres de inspiração amish que, por privações horrendas na parte sudoeste do seu planeta, vieram para a Terra fartar-se de fugir aos impostos, obtendo prazeres de carne pendurada a troco de valores sem factura, iludindo assim a fantástica máquina fiscal do distrito de Setúbal;

5) - À porta da padaria na Costa Caparica há um velho a vender alhos que não me merece nenhum comentário específico;

6) - Há dois meses vi uma norte-americana em Brugges que merecia umas pauladas com um ferro cheio de pregos infectados apenas por ter aberto a boca e ter saído antes de mim no autocarro, cujo motorista, aliás, não tinha feito mais do que a sua obrigação se tivesse atropelado violentamente dois paquistaneses que iam a passar com sapatilhas cor de laranja;

7) - O funcionário da Selda que vem aqui entregar a água ao escritório devia ter um letreiro ao pescoço a dizer "fuja, eu cheiro mal, mesmo quando tomo banho", sorrindo simultaneamente e oferecendo pequenos chocolates de limão, que atirava a 20 metros de distância como se estivesse a jogar futebol americano;

8) - O Valentim Loureiro devia ser colocado à porta do Tribunal Militar nos dias de audiência do julgamento da Casa Pia, para que os jornalistas lhe perguntassem o que estava ali a fazer, ao que ele responderia "quantos são?";

9) - Os jogadores do Benfica deviam ser concorrentes de "O Cofre", aceitando que Jorge Gabriel lhes fizesse perguntas sobre as amantes de D. Fernando (que, como toda a gente sabe, era gay). Cada resposta errada corresponderia a passar um fim-de-semana com o Ricardo e o Scolari, em visita a uma quinta de frangos do campo na Bobadela, injectando as aves com aspirinas solúveis e acariciando-as de 12 em 12 minutos;

10) - O espanhol que será o próximo vencedor do Euromilhões devia ser concorrente ao "Esquadrão G" durante 6 meses, numa casa fechada na zona de Portel. As imagens entre as 2 e as 6 da manhã não seriam transmitidas e seguiriam directamente para o e-mule, passando a circular exclusivamente por e-mail, como forma de impulso ao choque tecnológico;

Pronto, já me sinto um pouco melhor.

Sol de fim de Verão



A Woman in the Sun, Edward Hopper, 1961, Oil on canvas, 40 x 60 inches; Whitney Museum of American Art, New York