Morte

Calma, calma, não morreu ninguém (se exceptuarmos o Sr. Avelino Coecas e a D. Maria Tomásia que vinham no obituário do DN de ontem). Ora, aqui o vosso amigo vem de uns exames de otorrinolaringologia. No caso, aos ouvidos. Parece que sou um maluco que acha que está a ouvir pior do que seria desejável (apesar do médico dizer que está tudo bem). Ora, no exame em causa, depois dos bips e baps e da rapidez no gatilho, surge uma voz que vai dizendo palavras, as quais o suposto surdo, no caso eu, tem que repetir à simpática senhora de bata branca que vai escrevendo uns rabiscos. A voz pareceu-me de um tipo qualquer da rádio. As palavras são foneticamente pensadas para gerar dúvidas, claro, e ouve-se muito baixo. Ora, começámos: "louça", "murro", "roupa", "tudo", "prato". E eu fui repetindo, "louça", "murro", "roupa", "tudo", "prato", com a voz colocada que o senhor tinha, firme, muito longe, como aquelas chamadas da PT para a Austrália há 20 anos (que inda hoje fazem com que muito boa gente berre em vez de falar quando liga para o estrangeiro, por lapso freudiano, como a minha progenitora). E estávamos nisto, "seio" (sim, é verdade), "monte", "faca", quando


morte


e eu


morte


e a voz, baixinha, seguiu, "cume", "rua", "sala". Depois no ouvido esquerdo, "fita", "mão", "pêra" e


morte


e eu


morte


e, caraças, ouvir "morte" assim, muito baixo mas firme, colocado, como se alguém tivesse dito "morte" nas caraíbas e só eu ouvisse, como se fosse um anúncio escondido na gravação, como se a palavra devesse ser "batata" ou "cavalo" e eu ouvisse "morte", caraças, aquilo deixou-me a ouvir melhor!

Vidas difíceis V

21 anos depois, tudo na mesma

"José António Saraiva vai abandonar a direcção do semanário "Expresso" para assumir um cargo na coordenação editorial do grupo Impresa, avança a edição online do "Jornal de Negócios". De acordo com a agência Lusa, o novo director do semanário deverá ser Henrique Monteiro, actual subdirector.

Segundo a Lusa, o nome do actual subdirector já foi escolhido pela administração do grupo Impresa, mas só amanhã será proposto ao Conselho de Redacção.

José António Saraiva dirigia o "Expresso" desde 1984."

Público Última Hora

Vince, o deprimido

Ora, estava eu muito bem a ver uma palhaçada, só com palhaços ricos, e uma moça loira surge a falar numa "tempestade tropical" a dirigir-se para Portugal. Como as moças loiras muitas vezes não são de confiar levantei o sobrolho, mas a imagem de satélite não deixava grandes dúvidas: era uma bola branca enorme, com um buraquinho ao meio. Primeiro pensamento: "m..., eu sabia que devia ter mudado o seguro do carro para abranger tempestades tropicais". Segundo pensamento: "m..., eu sabia que devia ter comprado três vezes mais gelados da Haagen Dazs". Terceiro pensamento: "m..., eu sabia que devia ter ido de férias antes do país ser varrido do mapa". E depois o Instituto de Metereologia e Geofísica português vem dizer que não razões para preocupação. O pânico. O desespero. Lembro-me de ter uns 3, 4 anos e o honorável instituto avisar que ia haver uma tempestade muito forte na zona de Lisboa. O resultado foi uma tarde encaixotado na creche camarária, com portas e janelas diligentemente fechadas, enquanto os pardais saltavam de ramo para ramo aproveitando o sol quentinho nas penas e o silêncio nas ruas. Há minutos, o Público dizia que "em comunicado, o Instituto de Meteorologia informa que a tempestade tropical "Vince" diminuiu de intensidade, "sendo considerada uma depressão tropical" a partir das 09h00". É fantástico como até um projecto de furacão, com os seus objectivos e sonhos, com a sua puberdade a rebentar, se deixa deprimir com a aproximação a terras lusas. Deve-nos ter topado à légua... E já agora, porque é que uma tempestade tropical se chama "Vince", um nome claramente masculino? Mudou de sexo? Estava já a pensar em ser furacão que antecipou-se? Se as coisas estivessem no seu devido sítio, até ser furacão Vince devia ser Felisberta ou Leontina, ou Bertolina como a minha vizinha do rés-do-chão. Depois sim, se chegasse à adolescência, podia mudar para Vince, se quisesse. Se calhar foi por isso que se deprimiu, era uma tempestade num corpo de furacão...

Nelken (Cravos)

Primeiro que tudo, breves considerações preparatórias. Não sou um "homem da dança". Isto é, o meu conhecimento do meio, dos coreógrafos, dos artistas, dos métodos, da história, é diminuto. Mais: não era particularmente sensível à questão. Sobretudo porque sempre me fez muita confusão enquanto forma de expressão, quer plástica, quer artística, quer comunicacional. Confusão como? Confusão no sentido da total subjectividade (e estou aqui a falar de dança contemporânea, nao de ballet clássico). Ou seja, porque é que mexer o corpo como um epiléptico significa qualquer coisa? Porque escrever, ou representar, nós compreendemos, o tipo tá ali parado, ok, faz cara de triste, o tipo escreveu que a mãe morreu, ok, percebe-se. Agora o tipo mexeu o braço e depois caiu. E? Pois. Pois é. Pois era. Em termos globais, parece-me que é tudo um problema de media. Palavras, nós percebemos, foram feitas para comunicar ideias. Imagens, ok, é para comunicar, mesmo que seja para comunicarem-se a si próprias. Corpo? Pois, corpo, parece que é para andar, para existirmos. E portanto há uma resistência enorme ao corpo como media. Caramba, se há uma resistência aos livros e lemos pouco, ao corpo então... Pois era. Ora, comecei a interessar-me pela área e a tentar quebrar resistências quando se atravessou no meu caminho (imagem fatídica romântica esta) aquela que hoje é a jovem que me atura as manias, vai para uns anos. A jovem, de sorriso lindissimo, tinha feito dança e tinha uma curiosidade atroz pela mesma. Ainda hoje, felizmente. Vai daí, o meu cérebro ligou umas quantas sinapses e chegou a uma conclusão: ou a jovem é maluca e aquilo são uma cambada de malucos a esfregarem-se no chão, ou eu não percebo nada disto. E como a probabilidade da segunda hipótese era muitissimo superior, fui tentando quebrar barreiras a pouco e pouco. Pois. Hoje, não sendo um "homem da dança", já consigo compreender o corpo como media. Considero mesmo, aliás, que é o media mais complexo e interessante com que se pode trabalhar hoje na área de produção artística. Posto isto, o essencial. Vi "Masurca Fogo" no CCB, nas galerias de pé, sozinho, enquanto estudante universitário, em 1998. O nome Pina Bausch não era mais do que uma referência vaga, um fantasma, uma associação. E "Masurca Fogo" era a tradução de muita coisa: da visão de alguém estrangeiro sobre nós, da dança e das suas possibilidades actuais, da interacção da mesma com o teatro, da visão de Pina sobre o mundo. Lembro-me de me doerem terrivelmente os joelhos e de ter um sorriso idiota na cara, de quem compreende que está perante um objecto artístico e cultural único. Lembro-me da figura giacometiana de Pina no fim. Por tudo isto, cada vez que se fala de Pina Bausch em Portugal, a minha glandula salivar que ainda funciona (a outra ficou irreparavelmente entupida no ano da graça de 1980) lembra-se de um senhor chamado Pavlov e vai disto. Desta feita, Pina não facilitou e trouxe dois espectáculos a Lisboa. Nelken (Cravos) data de 1982. O palco foi invadido por flores cuidadosamente espetadas e uma figura de pernas maiores que tudo surge semi despida com um acordeão que nunca tocará. Um homem de fato e gravata centra-se no palco e traduz "The man I love", de Gershwin, em linguagem gestual. Depois há bailarinos com vestidinhos de menina a fugir pelo palco. Há alguém que insistentemente pára a acção para pedir um passaporte e humilha quem o tem antes de o devolver. Há um homem que mostra posições de ballet clássico e pergunta: "é isto que querem? eu dou-vos, é isto?". Há cães que ladram quando surge um determinado som, rodeando corpos que ora são corpos, ora são actores a jogar como crianças. Nelken (Cravos) é pura Pina Bausch: os problemas de comunicação estão lá, a conjugação de teatro com dança está lá, a reflexão sobre os caminhos da própria dança e as suas possibilidades está lá, a tragicomédia do absurdo está lá, a utilização de outros media está lá, a crítica política e social está lá. Nelken (Cravos está ligeiramente datado, sim, em 1982 ainda havia muro de Berlim, controlo de passaportes, contestação às novas formas de dança emergentes, dúvidas sobre os caminhos a seguir. Nelken (Cravos) é o embrião do que viria a ser Masurca Fogo 16 anos depois. Não vi Ten Chi, não se pode ganhar tudo. Mas parece que quase todas as revoluções se fazem com cravos.

Autárquicas em Cartaz

Um bom amigo meu, que me atura em muitos almoços, enviou-me aquele que poderá ser o blog mais determinante da campanha portuguesa. Sintomaticamente intitulado "Autárquicas em Cartaz", faz um inventário das pérolas do marketing de outdoor que por estes dias povoam o território nacional. Desde a pistola de Porto de Mós que já deu origem a uma reportagem da SIC à Carolina Amélia de Vilaverde, com um cartaz muito "afectuoso", há de tudo. Este último, juntamente com os da Trafaria e de Canelas, são os meus favoritos. Mas, no fim de contas, há para todos os gostos. Não admira que as empresas de comunicação e os profissionais da área estejam na falência/desemprego. Qual Edson Ataíde, qual quê, a senhora joaquina lá da junta é que percebe disto! Mai nada! O blog está em http://blogautarquicas.blogs.sapo.pt

Ora cá está!



Na minha primeira incursão na (mini) feira ecológica e natural do Príncipe Real (todos os Sábados), na parte de coisas não naturais (leia-se velharias, artesanato new age e antiguidades), deparei-me com esta pérola. Chamava-se "Animatógrafo", sendo assim o objecto primordial deste blog. Comprei três exemplares diferentes, de entre os muitos que a senhora com ar de otária tinha por lá. Este, com a Jean Arthur na capa, foi editado, precisamente meus amigos, foi editado a 6 DE OUTUBRO DE 1941. Cá está. 64 anos palmilhou a revista à data dirigida por António Lopes Ribeiro, o personagem mais determinante do cinema português do salazarismo, Pátio das Cantigas, O Pai Tirano, A Canção de Lisboa, etc, etc...Este é o n.º 48, 2.ª série. Ficamos a saber pelo rodapé da capa que "Publica-se às segundas-feiras" e que o preço era de um escudo e cinquenta centavos. Diz ainda a capa que Jean Arthur era "favorita dos cinéfilos portugueses" e que "este número contém um retrato-brinde de Mischa Auer", retrato este que não sobreviveu junto com a revista. Abre-se e lê-se que "Maria Paula trabalha em «O Pátio das Cantigas», filme ainda em produção, e que se trata de uma "reaparição que se impunha!". Na página 4 há "ecos da IX exposição cinematográfica de Venesa" (assim mesmo, com "s") e na página 5 diz-se que "é verdadeiramente consolador verificar o êxito sem igual alcançado pelo filme português «O Pai Tirano». O Éden bate todos os seus «récords» de afluência e de receita. (...) As gargalhadas constantes que provoca não vêm só de cima ou só de baixo, dali ou dacolá: irrompem de tôda a sala, num unísono consolador". Na página 9 fala-se "do que foi a primeira volta de manivela de «O Pátio das Cantigas»", enquanto na página 12 um assinado "Homem Sombra" diz que "Já estão definitivamente fixadas as datas em que vão exibir-se os filmes «The wolson of the mountain» e «Al'Arrihba». Falta apenas marcar os dias certos". Como precursor, o Animatógrafo tinha na página 14 "O Correio de Bel Tenebroso", uma versão inicial das hoje correntes "cartas ao director". Na mesma página um anúncio avisa que "Os melhores filmes portugueses, aqueles que se distinguiram pela decoração, foram mobilados pelos Grandes Armazéns Alcobia. A casa que sabe associar o «gôsto» e o «confôrto»". Ora cá está, há 64 anos.

Vidas Difíceis IV

Avaliações depois de almoço

"Portugal subiu dois lugares no ranking anual da competitividade do Fórum Económico Mundial (WEF - World Economic Forum). O 22.º lugar luso além de representar uma subida na classificação que mede os mais competitivos, surpreende por surgir à frente de países como Irlanda, Espanha, França e Bélgica."

Jornal de Notícias, 29 de Setembro 2005

Frases demasiado boas para existirem I

"O homem teria uns trinta anos de idade e parecia condenado pelas camadas de interrogações silenciosas que poisam nos inocentes como lençóis de morte, amorosamente."

Mafalda Ivo Cruz, Vermelho, D. Quixote, pag. 33

Facto histórico indiscutível de sexta-feira à tarde

Ainda bem que não sou lagarto.

Vidas difíceis III

Tarnation *****



Este jovem aqui na imagem é Jonathan Caouette. Ora, para aqueles que pensam que a vida é dura, aqui o Jonathan diz que não. Não, a nossa vida não é dura. A dele é que é. A mãe de Jonathan, em miúda, caiu do telhado de casa dos pais e, ao tocar no chão, não dobrou os joelhos (!). Como ficou com medo de se mexer, e teve um período de recuperação díficil, os paizinhos, avós de Jonathan, não foram de modas: tratamento com choques eléctricos, que a rapariga tinha era fobias. Anos de choques. Resultado: miolos fritos para o resto da vida. Mesmo com miolos fritos, a rapariga conseguiu arranjar um marmanjo e casou-se. Engravidou. O marmanjo, sem saber que ia ser pai, pôs-se na alheta porque a tipa não era boa da carola. E nasceu Jonathan. Como a mãe meia volta tava no hospital psiquiátrico a levar mais um volts na moleirinha, Jonathan foi entregue ao Estado (os avós não queriam saber dele, claro). E como o Estado é um tipo porreiro, vai de o entregar a pais adoptivos ou famílias de acolhimento que mimaram o Jonathan com maus tratos, abusos de toda a ordem, espancamentos, abandono, etc e tal, entre os três e os seis anos, mais coisa menos coisa. A coisa deu pró torto, mas Jonathan conseguiu voltar para casa dos avós (lembraram-se dele, parece). Um dia, em casa da mãe, pediu dois charros a um amigo da progenitora. Chegou a casa e vai disto, fumou os dois de uma empreitada. Azar: estavam embebidos em ácidos da mesma famelga do LCD mas mais fortes. Resultado: danos cerebrais permanentes. O resto são anos de violência, homosexualidade assumida desde os 12 anos, drogas, avós doidos, mãe internada, casa em ruínas. Tarnation, documentário de 2003 que esteve discretamente em Portugal e que o Nimas, em Lisboa, decidiu repor por dois dias (ontem e hoje), é um conjunto de provas sobre a natureza humana. Porque Jonathan foi filmando tudo. Tarnation é uma edição de imagens, vídeos caseiros, fotografias gastas, gravações de cassetes que testemunham uma vida extraordinária. Literalmente, extra-ordinária. O manancial de imagens autoreferenciais que Jonathan Caouette dispunha era simplesmente torrencial. Vai daí, num acto de psico-terapia que mete medo ao susto, revisitou tudo ao longo de 88 minutos de violência extrema em que poucos são os culpados e muitas as vítimas. Jonathan tem hoje 32 anos e vive em Nova Iorque. É actor, é protagonista de Fat Girls, actualmente em fase de pós-produção e realizado por Ash Christian. O Jonathan diz que a vida não é dura. A nossa não.

Vidas difíceis II

Oiçam



Richmond Fontaine, The Fitzgerald