Constança e o bicho

Acabou há segundos a entrevista de Constança Cunha e Sá a Cavaco Silva (à hora que escrevo este texto) e estou perfeitamente extasiado. Há dias assim: um tipo senta-se à mesa do jantar com uma sopa à frente e olha para a Constança, aquele ar levemente agreste, a puxar a um centro direita levemente idiota, e pensa "pronto, lá vai ela fazer um favorzinho ao cabrão". Ainda a colher não chegou à boca e o feijão não atingiu o palato e ela dispara. PUM! E engasgo-me antes de começar a comer só com o som que sai do televisor a precisar de um condensador novo. Segundos depois PÁS! e começo a sentir um formigueiro nos dedos dos pés, o sangue a correr livre sem varizes, um leve sorriso forma-se na sinapse que me comanda os músculos da face e evolui para um brilho vagamente demente nas meninas dos olhos, que dormiam. A coisa arranca e Constança não perdoa: PIM!, PRUMF!, TAU!, SPLASH! Ouve-se o bicho estrebuchar, primeiro engasga-se com o provincianismo acumulado nas gengivas a querer evitar uma ida ao dentista, depois ira-se e puxa de uns galões que não queria usar, depois perde reacção e vai dizendo que "passaram anos" ou um arrasado "não creio que tenha dito isso". Constança flui como uma ligação a 16Mbps reais, recorda frases de 1985, 1996, 1979, conversas antes dos governos de Soares e depois, textos desconhecidos, imagens criadas, tudo lhe sai como se tivesse estado décadas à espera do momento, como se fosse uma sombra que o tivesse seguido e agora gritasse todas as veias que se entrecruzaram, todas as incongruências, desmontando o tabu matemático que de tão abstracto escorre para o catatónico. Constança sente-se maior, é ali que tem que derrubar o monstro, é ali que sai da carcaça e o obriga a irritar-se, a lembrar o passado, a ir a jogo, não a dizer algo de substantivo mas a repetir o nada que lhe sai e que assim surge visível, como uma novem de fumo que se liberta de um pulmão condenado. E agora, aqui sentado, depois de meia hora ou mais em que o tempo se suspendeu e cada pergunta era mais perfeita que a anterior, em que bastava pensar no próximo ataque que ele já havia sido lançado, ao extremo de ter saído o que ainda não pensámos nem viríamos a pensar, agora, que gostávamos de ser uma grama do cérebro económico que habita aquele algarvio que pensa em si como Dom. Sebastião para assistir à ira irrevogável que o vai assolar durante largos minutos, agora dá vontade de transcrever tudo, todas as palavras, todos os olhares de indiferença de Constança, todos os esgares do bicho, todos os finais de frase sorridentes quando se lembrava o que o assessor lhe disse, "não se irrite, sorria, fale no bem dos portugueses, não se envolva emocionalmente, não lhe responda directamente", todas as memórias que acorriam para atacar, todas as memórias que não acorriam para defender, tudo, e imprimir milhares, milhões de cópias para ensinar as crianças portuguesas sobre: "como fazer uma entrevista a um filho da puta".

Sample



Ao trabalhar no Paint Shop Pro 9, quando queria clickar no botão Open enganei-me e clickei no botão ao lado, Browse, o qual nunca tinha utilizado. Abriu-se uma janela e surgiram miniaturas de umas dez imagens, o conteúdo da pasta "Sample" do próprio Paint Shop Pro. No meio de um cacho de uvas e de um balão de ar, estava esta imagem, identificada como "photo3". O que faz esta imagem numa pasta de samples? Quem são estas crianças? São sample de quê? E porque é que a imagem não tem identificação objectiva, estilo "oldpicture" ou "children"? Onde foi tirada a fotografia? Quando foi tirada a fotografia? Como surge agregada a um dos mais conhecidos softwares de imagem a nível mundial? Porque é que as crianças têm fato de cerimónia, com laço, e estão num descampado com arame? Onde estão hoje? São coisas destas que perturbam o dia de uma pessoa. Ao ver a imagem no TFT de 19 polegadas que tenho à frente, o rato dirigiu-se quase automaticamente ao Media Player e fez play em "Concerning the UFO Sighting Near Highland, Illinois", tema de abertura de Illinoise, obra perfeita de Sufjans Stevens. Aquelas crianças haviam de gostar.

Nippon Koma



Aos interessados se anuncia que entre 28 de Novembro e 3 de Dezembro a Culturgest apresenta Nippon Koma, festival de cinema japonês nas suas vertentes de animação e documentário. As sessões são às 18:30h e 21:30h, os bilhetes a 2 euros, o espaço é o do Pequeno Auditório e os filmes são legendados em inglês. A curiosidade é vossa.

Alice (****)



Há algo de assustador no consenso. Ou seja, quando milhares de portugueses vão ver um filme português e toda a gente diz bem, eu desconfio. Porquê? Porque estou habituado à ditadura da cultura de massas, até estudei a coisa, Adorno, Benjamin e alter. E também já me habituei (não me conformei, atenção) aos baixíssimos padrões de exigência dos portugueses face aos objectos culturais. Dizem-me: "não são só os portugueses, o resto da Europa é assim". Ok, ok, até pode ser, mas no resto da Europa os padrões serão TÃO baixos? Se calhar é a nossa (minha) mania de achar que lá fora é que é bom... Tudo isto para quê? Para dizer que fui ver Alice, de Marco Martins, com um misto de desconfiança e curiosidade. Estilo sobrolho franzido mas olho bem aberto. Primeira observação: a média de idades dos espectadores, que ocupavam meia sala, devia ser superior a 50 anos. O que é curioso, na medida em que deve ter relação directa com o tema: a perda de um filho deve chamar muito poucos jovens ao cinema, o que diz bem da visão redutora que os espectadores têm do cinema, em termos globais. Segunda observação: a primeira imagem de Alice é soberba. O que é mau. É mau porque das duas uma: ou a partir daí é sempre a descer, e "queimou-se" o olhar de quem vê logo de início, ou a partir daí se mantém o padrão, o que é improvável. E a felicidade dos dias é o improvável dar em possível. Alice é um olhar estilizado sobre a perda de um filho, não no sentido de desaparecimento efectivo e completo, de morte, mas antes como um fade out demasiado rápido para ser controlado ou desejado. Alice, a criança ausente/presente em todo o filme, já não está quando Marco Martins nos introduz aos dias cinzentos da segunda circular. Alice, a ideia de criança que ocupa a rotina de Mário (Nuno Lopes), é um fantasma que ocupa um espaço crescente no filme, da mera ausência à presença sentida pelo pai na baixa de Lisboa. Muito para além de um filme sobre uma criança desparecida, a primeira obra de Martins lança um olhar praticamente inédito sobre Lisboa, uma cidade cosmopolita contemporânea, com uma indiferença real, com multidões que enchem e esvaziam gares, sem romantismos de colinas ou de luz. Muito para além de Alice, a criança, Alice coloca a cidade debaixo de mira, filmada pelas cameras de Mário, num fluxo de imagens que se compõem e decompõem pelos olhos de quem vigia. Se a carga dramática estava assegurada pelos princípios básicos do argumento, a sua efectivação é conseguida pelos elementos que a devem carregar: pelos actores (Beatriz Batarda ao seu nível, Nuno Lopes a um nível surpreendente para uma estreia), pela banda sonora (Bernardo Sassetti sublinha todo o filme de forma crua e simples) e pela fotografia, retirando à cidade o que lá está mas raramente se vê, colocando na tela a indiferença que usualmente apenas tem olhos individuais. O facto de Marco Martins filmar algumas cenas sem figuração organizada, por exemplo, é sintomático: a indiferença perante um folheto com a imagem de uma criança desaparecida é real, é de portugueses reais, é uma multidão espontânea que vira a cara. É o outro lado do espelho.

Vidas Difíceis VI

"Um norte-americano que teve um ataque de pânico quando descobriu que estava colado à sanita da casa de banho de uma loja de materiais de construção vai processar a empresa em causa por negligência. O homem, oriundo do Colorado, afirma que o pessoal da loja ignorou os seus pedidos de socorro. O engenheiro eléctrico de 57 anos, Bob Dougherty, contou na quinta-feira passada que, dois anos depois do incidente, estava a sofrer de stress pós-traumático, que produziu complicações tão graves como a diabetes e problemas cardíacos, refere a Reuters. Desde os 20 minutos que passou colado à sanita que Dougherty reporta "pesadelos todas as noites, em que me vejo fechado num quarto escuro, sem janelas, portas, ar livre ou forma de escapar. Acordo coberto de suor". A empresa Home Depot Inc. não comentou o processo que foi interposto na semana passada em Boulder, Colorado. Dougherty disse que pensou estar a ter um ataque cardíaco quando se apercebeu que as suas nádegas e pernas estavam coladas ao tampo da sanita na casa de banho da loja Home Depot em Louisville, no Colorado".

in Público, pag. 62, 06/11/2005

Para ouvidos atentos a Antony recomenda-se...

que abram os olhos e vejam também Mysteries of Love e The Lake.

Depois do silêncio...

cá estamos. Eu e a minha esquizofrenia aguda.

Repetição

O Animatógrafo, enquanto blog preocupado e responsável, vai insistir na sua declaração inicial enquanto projecto profundamente anti-Cavaco sempre que isso se justificar.

Consciencialização

O Animatógrafo, enquanto blog preocupado e responsável, vai promover um trabalho de consciencialização dos portugueses sobre Cavaco Silva, sublinhando questões de especialidade do professor como:

1) - Provincianismo;

2) - Limitação e desinteresse intelectual;

3) - Ignorância sobre política internacional;

4) - Falta de capacidade de representação nacional;

5) - Inabilidade social genérica;

6) - Ausência de passado ideológico relevante;

7) - Outros.

Acção

O Animatógrafo, enquanto blog preocupado e responsável, vai enviar um generoso bolo-rei para casa de Cavaco Silva, acompanhado de repórteres de imagem e do Alberto João Jardim.

Sugestão

O Animatógrafo, enquanto blog preocupado e responsável, sugere que alguém informe Cavaco Silva que as eleições são presidenciais, e não legislativas.

Declaração

O Animatógrafo, enquanto blog preocupado e responsável, declara que é profundamente anti-Cavaco.

docLisboa 2005: El Cielo Gira (*****)

Premiado internacionalmente, El Cielo Gira é o primeiro trabalho de Mercedes Álvarez e parte de si mesma: a espanhola foi a última pessoa a nascer em Aldeaseñor, uma aldeia em Soria, no norte de Espanha. Outrora populosa, a aldeia que alberga inúmeros vestígios de dinossauros está hoje à beira da extinção, tendo apenas 12 habitantes, 14 à data de realização, segundo sublinhou a própria realizadora antes do visionamento em Lisboa. A particularidade de ter sido a última "filha da terra" serve a Mercedes, que abandonou o local muito pequena, como mote para revisitar os espaços e os sobreviventes, criando uma imagem forte da zona mais desertificada da Europa. A espanhola, envolvendo-se no trabalho de criação do documentário como objecto muito para além do mero registo de uma realidade, convoca elementos que a ele são estranhos, como o pintor Pello Azketa à beira da cegueira. É Mercedes que lhe pede para visitar a aldeia, é por sua sugestão que a percorre com as mãos e o velho Antonino como legenda sonora dos edifícios. El Cielo Gira converte-se assim, facilmente, de um registo de uma realidade palpável para uma sua interpretação e descodificação, à sombra da uma ideia de ruralidade perdida. Desde cedo, desde as primeiras palavras de Mercedes, que surge como narradora de estados de espírito e acontecimentos que não vemos, como a morte de um familiar, que se compreende que o trabalho de revisitação da aldeia é, em primeira instância, seu. E, no caso, pessoal. É a sua revisitação que fica registada enquanto documentário. O risco é, assim, grande. E só é suplantado porque esse olhar, que se reflecte em cada plano ou pausa, consegue transcender o seu carácter pessoal e ilustrar um sentimento de perda que varre vastas regiões da Europa mediterrânica. Quando o inverno chega à tela, já o olhar de El Cielo Gira é também o nosso, e não o de Mercedes apenas. Inteligente, a espanhola tenta fugir dos pormenores pessoais que não tenham significância global. E muito do trabalho para estabelecimento de uma relação com o espectador é feito pela imagem, pela definição estética dos planos, pela organização. Mais uma vez, como em Samagon, há uma dose de sorte com os personagens que habitam Aldeaseñor, idosos dotados de personalidades vincadas e de humor afiado, potenciado pela presença da lente. Mas é preciso saber filmar o acordar a meio da tarde, começando pelos gatos, passando aos cães, e acabando no levantar de sobrolho de Antonino, que logo regressa ao sono interrompido. O trabalho de Álvarez é respirado, dando espaço ao objecto documentado para se revelar, sem pressas mas sem excesso nas pausas, ponderado mas não mole. O resultado é um filme belíssimo e de uma simplicidade desarmante, quase natural nas suas formas. E, curioso, muito longe da imagem de auto-comiseração que graça na ruralidade portuguesa. É o definhar lento de formas de vida, sem dramas, mas sem alegrias.

docLisboa 2005: Samagon (*****)

São 12 minutos puramente fantásticos. Samagon, curta-metragem de Eugen Schlegel e Sebastian Heinzel, segue nas palavras, gestos e sorriso de Vera, uma velha no interior profundo da Bielorrússia. Vera vive numa casa de madeira de postal ilustrado, numa aldeia onde não há homens. Uns atrás dos outros, todos morreram deixando a sobrevivência às mulheres que restam. O tempo corre respirado. Ao amanhecer, Vera acorda para abrir a porta aos gansos que saem a posar para a camera. Ao anoitecer as janelas emanam uma luz de caramelo e Vera agita-se para lá da janela. A velha conta-nos como durante a II Guerra Mundial salvou a aldeia com uns copos de vodka. Apenas com 10, 12 anos, a criança Vera deu de beber aos soldados alemães que se preparavam para incendiar as casas, com a sua vodka caseira, conseguindo, na inocência rural da sua juventude, evitar a ira alheia. Vodka que nos ensina a fazer desde a primeira imagem: fruta cozida com aguardente e compotas, mistura coada que se acalma durante um mês junto a uma janela vendo nevar. Morre depois à luz da fogueira, destilada para uma garrafas que fazem a dona sorrir gota a gota. Se é verdade que é preciso ser-se feliz com as personagens que surgem num documentário, e disso os dois estudantes alemães não se podem queixar, também é verdade que tem que se procurar essa sorte e tirar dela o maior partido. Os dois jovens alemães (um deles presente no visionamento em Lisboa) fazem de cada plano uma imagem quase inigualável, quer cromaticamente, quer na sua simplicidade. Os 12 minutos de Samagon, que estão justamente incluídos na Competição Internacional do festival, convocam sentimentos e afectos, para além de cumprirem aquilo a que se cumprem: documentar um espaço, um tempo, os seus habitantes. Além disso, é a assumpção da ruralidade como algo não necessariamente castrador e depressivo, mas antes como um modo de vida com tempos diferentes, cuja respiração se vai perdendo nas sociedades contemporâneas. Ainda que viúvas, nem Vera nem as vizinhas são chorosas ou fechadas no seu casulo de idade. Têm consciência que é aquela a sua vida, e não enjeitam a hipótese de sorrir ou de beber mais um copo.

docLisboa 2005: Avenge but one of my two eyes (****)

É possivelmente um dos candidatos à vitória final no docLisboa deste ano. Avenge but one of my two eyes, que vai buscar o título às palavras de Sansão antes de matar 3000 romanos de uma só vez, é um filme mergulhado no conflito israelo-árabe, à procura das suas razões culturais mais íntimas. Avi Mograbi foge de Jerusalém e prefere filmar as montanhas de Masada, onde guias turísticos incorporam o papel de pregadores e tentam inspirar os curiosos com a lenda do suicídio colectivo naquele palco. Muito longe da abordagem comum sobre a questão, Mograbi tenta passar para imagem toda a crueza que existe no contacto com a realidade quotidiana, tanto do lado israelita como do lado palestiniano. Junto a uma estrada controlada por militares israelitas, um grupo de crianças aguarda a abertura de um portão para poder regressar a casa, enquanto os soldados limitam-se a estar no local sem qualquer acção. Antes, um grupo de palestinianos começa a lavrar a terra quando é interrompido por militares que afirmam que a zona está interdita. Numa escola, crianças palestinianas de 6, 7 anos descodificam a lenda de Sansão, que depois de torturado e sem forças, pede ajuda a Deus para uma última vingança, afirmando que preferem morrer e matar simultaneamente muitos inimigos a serem capturados. Mograbi filma faces, rostos, humilhações, em descampados longe de tudo, acentuando o surrealismo das acções. Interventivo, interpelando os militares, gritando, Mograbi sente o trabalho de imagem por dentro. Os pontos de fuga estão na longa conversa telefónica com um amigo palestiniano, tensa mas desencantada, equilibrando os momentos mais rudes com uma dose de racionalidade. O pano de fundo, no entanto, é sempre a raíz histórica da questão, da luta judaica pela liberdade em Massala à resistência palestiniana inculcada em casa criança pelos cabelos de Sansão. Mais do que um conflito bélico, político ou religioso, Mograbi mostra um conflito histórico e cultural, degladiado nas palavras de uma professora primária e nas explicações de um guia turístico, quase que cirurgicamente implantado no estomago de quem quer ouvir.