Hey! Vocês aí...

... fãs de White Stripes
... fãs de Michel Gondry
... fãs de Conan O'Brien
... fãs do bom gosto, da criatividade e coisas que tais

vão a http://www.whitestripes.com/ e vejam o vídeo de "The Denial Twist". E já agora aproveitem para ver os outros vídeos realizados por Gondry para os Stripes. Mai nada.

Vidas Difíceis VII

"O caos instalou-se ontem na Praça Duque de Saldanha, em Lisboa, quando um homem que aparentava 25 anos esteve cinco horas pendurado numa varanda do 11.º andar do Edifício Monumental. A situação obrigou a interromper o trânsito na zona e à mobilização de meios do INEM. A confusão começou às 17.00 e prolongou-se até às 22.00, quando os negociadores da PSP conseguiram demover o homem da tentativa de suicídio, cujos motivos não foram esclarecidos. No local dizia-se que "ele gritava querer ir para os Estados Unidos para ser jogador de basquetebol".

Diário de Notícias, pag. 25, 10/12/2005

Frases demasiado boas para existirem III

"Numa das minhas encarnações de mulher estava sentada com um livro no colo mas não lia. O meu peito seria um fole. Um saco de pele animal com pregas que terminaria num tubo de cobre e nesse caso. Teria saído uma pequena quantidade de sangue, porque a tua mão me acariciava."


Mafalda Ivo Cruz, Vermelho, D. Quixote, pag. 129

Oiçam



Elysian Fields, "Burn Raps and Love Taps"

Cunhal por Pacheco Pereira

Infelizmente não existe em Portugal grande tradição biográfica. Aliás, nem pequena. Ainda assim, ninguém ousa afirmar que os portugueses não sabem lidar com a sua história mais recente, nomeadamente do último século. A Alemanha ainda hoje tem problemas (e graves) em digerir o seu século XX. Lembro-me, por exemplo, que numa conferência em Hanover há uns cinco anos senti que todos os intervenientes alemães do meu grupo fugiam de qualquer discussão como o diabo da cruz. Cheguei a confrontar um deles com essa questão e limitou-se a encolher os ombros e abanar a cabeça, como se a dificuldade de confronto, ainda que meramente retórico, fosse algo inconsciente. Nós por cá, ao que parece, não. Todos lidamos bem com os quase cinquenta anos de ditadura. Sabemos o que foi e não temos problemas em falar disso. Aliás, lidamos tão bem, parece, que até integrámos ex-ministros de Salazar, como José Hermano Saraiva ou Adriano Moreira, como figuras distintas da cultura e política portuguesas. É uma das minhas irritações de estimação: a falta de memória dos portugueses. A maior parte não se lembra ao lanche o que almoçou. E portanto, esperar que se lembre que aquele tipo careca e baixinho armado em doutor foi Ministro da Educação Nacional de 19 de Agosto de 1968 a 15 de Janeiro de 1970 é mais utópico que pensar no Benfica a ganhar Liga dos Campeões. E parece que também não há grande interesse em promover a memória colectiva recente. Lembro-me que, nos meus anos de liceu (expressão bonita esta), o século XX português ocupava umas duas, talvez três aulas, enquanto a idade média durava meses (esta também é gira). A onda editorial, hoje, navega a espuma dos Dan Browns que apareceram nos escaparates, encontrando policiais nas páginas da Biblia ou em épocas em que a dita ainda era dita em Latim (e "O Nome da Rosa" do Eco que já tem tantos anos...). Contra tudo isto, aparecem nas livrarias dois esforços que se aplaudem. Primeiro, a "Autobiografia" de Maria Filomena Mónica, eminente catedrática da praça que foi possivelmente a única pessoa a quem ouvi a coragem de afirmar que faltam elites a Portugal (e isto dará para outro post). Ainda não li mas já comprei, e só o esforço biográfico desencantado da própria já vale os euros. Depois, o terceiro volume da biografia de Cunhal, do Pacheco Pereira. Um acto de contrição: já tenho os três volumes e ainda não comecei a ler o primeiro (como dezenas de livros, aguardam nas estantes um dia luminoso que os faça respirar). E portanto não vou aqui fazer considerações sobre os mesmos. Mas é, diria, fantástico o esforço do homem. Não sou, nem de perto nem de longe, da área política de Pacheco. Aliás, tenho pela personagem uma relação de amor-ódio: todo o crédito para o Pacheco analista e literato, bílis verde para o Pacheco político candidato (como nas Europeias). Mas é extraordinário o esforço de trabalho de investigação, análise e tratamento da vida de Cunhal feito por Pacheco. Pacheco defende, e bem, que Cunhal foi uma personalidade chave no século XX português e que tudo o que se consiga iluminar sobre o seu percurso é saudável para a recuperação e manutenção da memória colectiva portuguesa. Ou melhor, para a sua construção. Posto isto, o homem leva a coisa tão a peito que, já com o livro nas prateleiras, decidiu criar um blog dedicado aos livros. E para quê? Para "errata, correcções, adendas, notas suplementares, críticas, referências". Pacheco Pereira não se limita a editar os livros, prossegue depois todo um trabalho de polimento da obra, corrigindo à medida dos dias, reunindo impressões, desenvolvendo um trabalho de feedback que não se esgota no livro objecto impresso mas que se encaixa no seu projecto real: o da investigação sobre Cunhal. Pacheco aproveita notas de leitores, correcções quer de estrutura (como errata) quer factuais (muitas por indicação de leitores), recolhe críticas de qualquer índole. É obra. Curiosidade maior, está já disponível o comunicado do PCP sobre este terceiro volume agora publicado. É história em directo. O blog chama-se "BLOGUE DO LIVRO ÁLVARO CUNHAL - BIOGRAFIA POLÍTICA" e está aqui.

Frase do dia

"Diria que é um bocado como o Melhoral, não fez bem, nem fez mal"

Jerónimo de Sousa, quando perguntado se a eleição de Durão Barroso para a Comissão Europeia foi benéfica para Portugal, Público, pag. 4, 08/12/2005

Nippon Koma: balanço

A semana passada estive calado que nem Cavaco porque passei seis dias a caminhar para a Culturgest, estilo devoto. O Nippon Koma, festival de cinema japonês que fez a sua terceira aparição na caixa forte lisboeta, teve 12 sessões, e o Animatógrafo esteve presente em 8. De entre muita coisa que meia dúzia de gatos pingados viram fica aqui um mui breve balanço.

Nota positiva para:

Agente Paranóia: Animação criada como série de televisão com quatro volumes (cada um com 4 episódios, aproximadamente), dos quais foram projectados os dois primeiros volumes (os sete primeiros episódios), é um fantástico trabalho em termos de argumento e exploração de técnicas tradicionais de cinema adaptadas a televisão. Partindo da agressão de uma jovem na rua por um puto desconhecido, que é baptizado como Lil'Slugger, toda a série se aproxima do thriller psicológico, introduzindo sempre que possível questões e temas eminentemente nipónicos, como os problemas de identidade por exemplo. O resultado não se recomenda a criancinhas e é óptima animação a todos os níveis. Ou seja, se David Lynch fizesse anime, possivelmente seria algo muito parecido com Agente Paranóia. Toda a série passou na televisão japonesa (por cá seria impossível, digo eu) e está editada em DVD. Encontram mais informações aqui.

Acidman: Um senhor de nome Nishigori Isao decidiu realizar 16 minutos e 14 segundos visualmente delirantes, que deixam qualquer fã de animação extasiado. Acidman não tem história específica e limita-se a construir ambientes visuais a partir de elementos que vão surgindo, rasgando quaisquer noções de figuratividade que podiam subsistir ainda. Utilizando um conjunto de técnicas 2D e 3D, o resultado é cromaticamente vibrante e sonoramente perfeito, sem pretensões a mais do que mostra na realidade. Na génese do projecto estão duas faixas do próprio Acidman (músico japonês) que não só servem de banda sonora como promovem o desenvolvimento visual do princípio ao fim.

YKK AP Evolution: Curta metragem de minuto e meio com função de anúncio para uma empresa de arquitectura, é a prova de que é possível trabalhar em publicidade para televisão sem recorrer sempre a esterótipos ou inventar grandes reviravoltas para abismar o espectador. Durante 90 segundos um conjunto de formas, como um cubo que se expande e cresce, são colocados em cima de imagens quotidianas, como um comboio em andamento ou uma praia deserta. O resultado é visualmente soberbo e de uma simplicidade desarmante. Se um anúncio vende um produto, eu compro só com aquilo. Neste caso, está disponível aqui, com RealPlayer.

Peep "TV" Show: Talvez o mais emblemático filme que passou. É um documentário em regime livre, sem grandes preocupações de estrutura, que se debruça sobre os problemas do Japão contemporâneo: identidade, relacionamento social, auto-estima, expectativas, orgulho. Peep "TV" Show mostra o Japão das lolitas góticas, dos jovens fechados no quarto durante anos, dos profissionais psicologicamente afectados que falam sozinhos a caminho do emprego, dos sem ocupação que se dedicam a espiar os outros para ver "a realidade". O filme segue Hasegawa e Moe entre 15 de Agosto e 11 de Setembro de 2002. Hasegawa é um voyeur que achou as imagens do 11 de Setembro estranhamente belas e que filma vidas alheias para manter contacto com o real. Moe é uma lolita gótica típica, sem identidade definida e à procura de uma noção de realidade que a prenda à vida. É daqueles filmes duros que nos fazem pensar que, apesar de tudo, a Europa ainda goza de uma sanidade mental invejável... Mais informações aqui.

Nota negativa para:

Naomi Kawase: a realizadora japonesa até foi premiada em 1997 em Cannes. E confesso que não vi o filme que lhe valeu a distinção. Mas os dois que passaram em Lisboa, Kya Ka Ra Ba A e Shadow, são piores que o Jackie Chan vestido de Carmen Miranda em dia de Halloween (que até podia ter a sua piada). O primeiro tem quinze minutos iniciais até simpáticos, em que a autora fala com a avó que a criou depois dos pais a terem abandonado e chega a falar com a mãe sobre o assunto. Mas aí uma doença súbita ataca: a idiotice. E os efeitos são devastadores, acabando com tudo o que de cinema minimamente aceitável poderia surgir. O resto são minutos autobiográficos de uma adolescente de 14 anos (que não é) sem nexo, totalmente gratuitos, com muita vontade de agressão por parte do espectador. Dêem uma máquina digital a qualquer adolescente português e vale mais o dinheiro. O segundo filme centra-se numa situação insólita: um homem filma uma mulher e diz-lhe que é o seu verdadeiro pai. O estado de choque que daí decorre e o facto do homem continuar a filmar, faz com que toda a relação obtusa daqueles dois se passe através da camera. Sem nunca explicitar se a situação é real, a realizadora dá o flanco e acaba também por dar a ideia que encena algo chocante só porque lhe apetece. Uma coisa é um realizador utilizar o seu cinema para abordar temas pessoais como forma de lidar com eles, outra é estupidificar e ter a ideia que as suas misérias interessam a quem se senta na sala.

Yusuke Sasaki: Eu já apanhei muita estucha na vida. A sério, a começar na última consulta do oftalmologista em que estive 4 horas à espera e a acabar no Yi-YI, em que estive 4 horas à espera que acontecesse alguma coisa, já apanhei estopadas de primeira água. E Letter, de Yusuke Sasaki, entrou a semana passada para essa fantástica galeria. Ora a ideia do senhor devia ser fazer um documentário sobre a obcessão das mensagens SMS e, simultaneamente, sobre as dificuldades de relacionamento que atinge o Japão actual. Premissas válidas, portanto. E o que é que o senhor Sasaki decide fazer para falar sobre isto? Ora, qualquer um se lembraria do mesmo: filmar um adolescente num quarto sem luz a mandar e receber sms durante hora e meia, em que só se vê a mão a teclar e a luzinha do telemóvel, intercalados com imagens do visor do mesmo dispositivo. Para ajudar à festa, a criatura alvo tinha a mania de chatear os amigos com mensagens como "O que contas?", "pois", "E mais?", "Não dizes mais nada?", "Yeah! Yahoo!" e outras que tais. Aos 10 minutos, eu já sabia que aquilo ia durar até ao fim. Aos 20 bocejei longamente e olhei para o relógio. Aos 36 martelei a minha consciência por ter a mania de não sair a meio dos filmes. Aos 42 bocejei o relógio e verifiquei se a pilha tinha mesmo energia. Aos 58 procurei por moedas antigas nos bolsos do casaco, só encontrando lenços ranhosos e uma caneca sempre-em-pé. Aos 69 comecei a olhar para as pessoas, à procura de uma gaja boa que assim se sentisse incomodada com o meu olhar e deixasse também de olhar para a tela. Isto demorou 5 minutos, sem resultados, altura em que uma mão por certo divina acendeu as luzes e libertou a minha consciência para ir apanhar arzinho frio na rua. Tão bom.

Quem quiser que escolha

"Anteontem na RTP, Cavaco fez de repente um comentário que revela o homem. A propósito do perigo de conflito com o primeiro-ministro, se fosse e quando fosse Presidente da República, Cavaco disse: "Duas pessoas sérias com a mesma informação (no caso ele próprio e Sócrates) têm (inevitavelmente) de concordar". Cavaco disse isto com toda a naturalidade e convicção, como quem declara uma evidência, sem uma reserva ou a mais leve sombra de ironia. Acha mesmo que sim: que duas pessoas só podem discordar por ignorância ou falta de carácter. Para ele, a verdade é unívoca e, pior ainda, não custa nada estabelecer. O fanatismo nunca falou por outras palavras e quem conserva um reflexo de independência e liberdade com certeza que as reconheceu pelo que elas são: a raíz da mais cega e absoluta intolerância. Estranhamente, ninguém pareceu dar pela coisa: nenhum jornal, nenhum candidato, nenhum partido, nenhum político - nem sequer uma "consciência" qualquer das que por aí sobrevivem, se de facto sobrevivem, à inanidade dos tempos. Não, ao contrário do que o dr. Cavaco julga, a democracia portuguesa não está "consolidada". Se estivesse, ele não era eleito.
Claro que as circunstâncias não permitem que o dr. Cavaco se torne num pequeno ditador. Mas talvez convenha perceber o indíviduo que dentro de semanas vai chegar a Belém. O velho desprezo pela política (de novo flagrante nesta campanha), sempre rejeitada como pura intriga ou jogo de interesses sem legitimidade ou desculpa, não passa de uma condenação sumária da gente pouca séria (ou incapaz), que desvia ou "bloqueia" Portugal. Para o dr. Cavaco, há um "bem da nação" indiscutível e uma única maneira de governar: a maneira honesta e sabedora que ele aconselha e representa. A divergência é, em última análise, anti-nacional. Se os portugueses tivessem no seu conjunto a sua informação e seriedade, viveriam numa perfeita harmonia, em vez de se deixarem levar para aventuras sem futuro, de se perderem em querelas de facção ou ganância e de servirem inconscientemente fins perversos. De Belém, Cavaco tenciona velar para que isso não volte a suceder. Afinal, se o primeiro-ministro não fizer o que ele manda, confirma automaticamente que é mal-intencionado ou que não estudou o que devia. E nós também, cautela. Se não o aprovarmos, quem somos? Malandros de nascença? Uma cambada de patetas? Quem quiser que escolha."

Vasco Pulido Valente, Público, 04/12/2005

Parabéns à prima

"A onda dos blogues vai já alta, já lá vai, como o governo do Santana, entenda-se. Porquê agora? Porque um gajo à sexta-feira à noite ainda no escritório lê um mail de outro gajo algures a tremer de frio no meio da Bélgica, com sintomas ténues de depressão pós-parto, e dá-lhe uma travadinha de partilhar as amarguras com o resto da comunidade que a esta hora está a jantar em frente à Quinta dos Flamengos. A solidão é fácil de definir: é quando milhões de pessoas estão a fazer o mesmo, mas ninguém nos lê..."

Foi com este texto que o Animatógrafo surgiu, fez ontem exactamente um ano. E um ano depois, o que é que temos?...

... a vida está uma merda (já estava, "apenas" piorou)
... o blog tem mais visitas (partindo do zero não é difícil)
... ninguém comenta nada
... alguns papuços querem ser Presidente da República
... alguns papuços querem melhorar as coisas
... alguns papuços estão mais pobres
... alguns papuços estão mais ricos
... muitos papuços estão desempregados (e eu para lá caminho com data certa)
... a vida está uma merda ("apenas" piorou desde há bocadinho)

Posto isto, e a pedido de 348 famílias monoparentais do sul do Malaui, vamos continuar. Eu e o meu alter-ego. Parabéns à prima.

Aurora (*****)

Nosferatu é um filme soberbo. De 1922, é considerado como a primeira adaptação cinematográfica do Drácula de Bram Stoker e, assim, o filme determinante para todo o cinema de terror e, mais especificamente, todo o cinema centrado no conde terrífico. Ainda que por mera sorte, Nosferatu chegou aos dias de hoje. Mera sorte porque as pouquíssimas cópias que existiam nos anos 20 estiveram em efectivo risco de serem destruídas, em virtude de uma quezília entre a viúva de Stoker e Murnau sobre os direitos sobre a história. A viúva felizmente perdeu, senão a História do Cinema era hoje narrada com outras histórias. Tive a felicidade de ver Nosferatu em tela, por generosidade da Cinemateca Portuguesa, nos tempos não longínquos em que esteve no Palácio Foz. Mais: vi Nosferatu com acompanhamento de piano ao vivo (e a preto e branco), acompanhamento esse determinado pelo que se ia passando na tela, experiência que recomendo a qualquer interessado por cinema. Nosferatu, além de um filme seminal, marca ainda uma visibilidade maior de F.W. Murnau, realizador alemão que viria a tornar-se mítico. Muito longe do cinema mudo refém dos personagens e das suas acções, constrangido por ter que suprimir a falta de som, o cinema de Murnau aproveita essa falha técnica para a expressão máxima da imagem. Muito longe da preponderância da expressão facial ou do argumento de Chaplin ou Buster Keaton, o cinema de Murnau pauta-se pela criação de ambientes, sensações ou emoções através da manipulação imagética no seu expoente máximo. O Nosferatu de Murnau é, assim, o mais perigoso e aterrorizador de todos, ainda que sem toda a carga dramática que lhe foi conferida no cinema moderno e contemporâneo. Em 1927, já com alguns filmes em carteira, o alemão F.W. Murnau é convidado pela Fox para fazer o seu primeiro filme norte-americano. O germânico colocou um enorme conjunto de imposições, entre elas a parceria com Carl Mayer, que viria a escrever o argumento. Sunrise (Aurora) estreou nos Estados Unidos em Novembro de 1927, apenas alguns dias antes da Warner Brothers estrear The Jazz Singer, o primeiro filme falado. Sunrise ganhou três óscares da Academia mas foi um enorme desastre nas bilheteiras. Mas muito mais que isso, ficou para a história como, possivelmente, o maior filme mudo de sempre e um dos maiores filmes da História do Cinema. A história é muito simples e não tem nenhuma originalidade por maior: um homem do campo casado é aliciado por uma mulher da cidade que se encontra na aldeia de férias. Tentado a matar a esposa e ceder, não consegue e reencontra o amor com essa mesma esposa, que o destino acaba por tentar matar da mesma forma que ele o havia pensado. Mas muito mais do uma trama irónica sobre pessoas, Sunrise é um objecto formal e substantivamente perfeito. Formalmente, Murnau fez muito mais do que um filme mudo. Quando se fala em afogar a esposa, são as legendas que também se "afogam". Quando o homem pensa na mulher da cidade, é ela que aparece em imagem sobreposta a afagar-lhe o cabelo, como um fantasma. Quando o homem se agita, a música marca compasso, numa antítese que sublinha a acção e cria um ambiente muito acima da imagem concreta. Os planos acompanham as personagens sem as cortar, num movimento que não depende do seu próprio movimento. Muito do trabalho de montagem, aliás, sobretudo na sequência de abertura, lembra O homem da camera de filmar, de Vertov, que apenas surgiria em 1929. Substantivamente, Sunrise filma um enorme conjunto de paradoxos. A aldeia versus a cidade, a cidade versus ela mesma, sendo que pode ser lugar de perdição ou de reencontro, a esposa versus a amante, a morte versus a vida, o destino versus a escolha. Não há, em qualquer acção ou imagem de Murnau, qualquer milagre. Todos os olhares contribuem para um Cinema que se eleva do filme, todos os movimentos geram algo que os transcende, todos os sorrisos partem de uma angústia que se supera. Num lirismo absoluto, a história daquele homem e daquela mulher estão continuamente a gerar uma história superior, que se forma na cabeça do espectador como algo sem âncoras e de carácter divinatório. Como se não fosse possível. Como se não existisse.

Nota: Sunrise (Aurora) está em cartaz no cinema Nimas, em Lisboa.

Frases demasiado boas para existirem II

"E até há uma ingenuidade que não é desagradável na ideia de querer absolutamente desviar os outros de balas perdidas."

Mafalda Ivo Cruz, Vermelho, D. Quixote, pag. 103

Cox & Forkum



John Cox e Allen Forkum são dois caricaturistas norte-americanos que se dedicam há anos ao cartoon editorial, sobretudo político. Forkum escreve e Cox ilustra. Ao contrário das práticas tugas neste aspecto, Cox e Forkum assumem que existe uma carga ideológica no seu trabalho. Mas não, não são democratas nem conservadores. São objectivistas, isto é, seguem o trabalho de Ayn Rand (de que falarei em breve). Os autores publicaram Black and White World e Black and White World II, e além disso mantêm um blog desde 2003. O Cox & Forkum Editorial Cartoons apresenta os ditos cartoons mas também a notícia ou informação, e respectiva fonte, que os inspirou. Ou por vezes aproveita cartoons antigos para novas notícias, fazendo, assim, uma interpretação da realidade a partir de material gráfico já existente. Conjugam assim a actualidade com o seu trabalho, quer actual quer anterior. O blog acaba por ser um óptimo site de informação e análise política, trazendo à liça (que termo tão bonito) textos que não nos chegam de outra forma. Sugere-se fortemente a consulta compulsiva, mais que não seja para ver os "bonecos". Ah, e é tudo a preto e branco, claro.

The Librarian

Keep you head down
Keep you head down
While they're firing low
You're too young child
To know the difference

Oh my pretty
Oh my sweet girl
It's a marvelous place
They put weights down
In your coat tails to burn you out

Lest you fly
Lest you take off
And show whomever what's what.
It's one outrageous lie after another

Turn their lights out
Change the channel
Before we lose the heart
To fight against belief in what they're saying

There's a hotel
With a dark room
At the end of a corridor
I will meet you
To the strains of Allah

We will lie back
On a pillow of the whitest snow
And the silence we were promised
Will engulf us

Lay your head down
Keep your head down
While they're firing low
You're too young child
You're too young child

We will wake up
From the dreams that bury us
We will tunnel our way out
By moonlight

From the dark room
To the white streets and the snow banks
We'll invest in one another's future

Oh my pretty
Oh my sweet girl
It's a marvelous place
She designed it
With escape routes
For you and me

So to the library
With your new card
Grab your favorite books
Look for blueprints
To the strains of Allah
Here we go.

Benevolence is in back
Of everyplace you look
It's not a monstrous face she is hiding

If I see her
I will tell you
You'll come quickly
If you see her
Don't hesitate just go

But til then

Keep your head down
Keep your head down
While they're firing low
You're too young child
You're too young child

You're too young child
Here we go.

The Librarian, Nine Horses, in Snow Borne Sorrow

Há 30 anos

Oiçam



Nine Horses, Snow Borne Sorrow