Depeche Mode, Pavilhão Atlântico, 8 Fev.

Chegámos a uma altura em que os concertos de grandes bandas, salvo raras excepções, já não são surpresas. O Público de ontem, por exemplo, dava o alinhamento e a atmosfera dos anteriores, que tudo indicava tinha condições para se repetir. E quando Martin Gore meteu os dedos na guitarra para abrir hostilidades com A Pain That I'm Used To, simulando a abertura do recente Playing the Angel, não havia grandes dúvidas. O concerto de ontem, ao fim de 12 anos de ausência de palcos nacionais e alguns de ausência de boa música, foi, acima de tudo, sólido. Primeiro, não é um concerto de promoção ao novo album. É sobretudo um evento antológico, que aproveita para inserir as novas músicas num alinhamento pejado de clássicos. E nessa prova os novos temas não reprovam. Não só a adesão do público a John the Revelator ou Suffer Well foi entusiasta e conhecedora, como as músicas "aguentam-se" melhor do que seria de esperar junto a temas que fizeram as vidas dos milhares que ontem enchiam o Atlântico, o que só diz da qualidade do novo álbum. O alinhamento, nesse sentido, é bem pensado, pontuando momentos de energia com descompressão, lançando temas mais conhecidos com novos, mantendo uma cadência sólida do ponto de vista sonoro e de gestão de energias, quer da banda quer do público. Segundo, o trabalho visual que suporta o concerto foi brilhante. Enganem-se aqueles que esperam grandes fogos de artifício ou capacidade de luz à semelhança de U2 ou Roling Stones. Não, os Depeche Mode, ainda que a viver um tempo de renascimento, optaram por uma estrutura menor em pompa, mas ainda assim não menor em qualidade. O palco tinha três mesas de ar galáctico, com uns buracos ocupados por luz, e a bateria. À esquerda uma bola gigante suspensa, com um pequeno ecrã de uma linha onde passaram palavras simbólicas. E atrás da banda uma área de tela que se foi revelando, como que composta por partes mais pequenas e fragmentadas. O trabalho de concepção partiu da ideia de revelação faseada, primeiro pareciam só três bocados com imagens a preto e branco, depois já cinco com cores e formas abstractas como filtro ao live feed que era a imagem de David Gahan ou, a vezes do público. Apoiados por uma estrutura de luzes complexa mas funcional, que soube criar um ambiente específico em cada tema, os três Depeche Mode, acompanhados por dois cúmplices, estiveram integrados num ambiente plástico que não cedeu ao facilitismo da imagem abstracta tout court, mas antes criou dimensões estéticas, utilizando ao máximo as potencialidades de uma área de projecção que não era, de todo, comum. Terceiro, parecem bem longe os tempos de overdose de Gahan e as turras com Gore. Este deu-se ao luxo de cantar Home em regime inicial discreto, arrancando a partir de meio o entusiasmo dos devotos. Gahan ainda se mexe como poucos e transporta em palco, no corpo, a triologia Sangue-Corpo-Amor que os move quase desde sempre. Em Enjoy the Silence o Atlântico cantava em uníssono. Em Personal Jesus toda a gente queria reach out and touch faith. Nos momentos em que Gahan achava que a coisa está a ficar morna, apontava microfone e dedicava uns segundos de atenção a uma bancada ou outra, levando à histeria muito boa gente e recuperando o momentum. No fim, Gahan e Gore foram Goodnight Lovers numa extensão do palco, à frente, à sombra de uma luz inferior e com ar de história, abraçados, como se fosse preciso dizer mais alguma coisa.

Estou em estágio

Sociedade Antónia

Ora, meus amigos, o Animatógrafo foi convidado, pela primeira vez, a colaborar com outro blog. Chama-se Sociedade Antónia e surgiu recentemente, creio, por instinto de Pavlov relativamente ao Sociedade Anónima. O primeiro é, assim, um blog de gajos sobre gajas, o segundo o inverso. O Animatógrafo declara que tentará explorar as vississitudes da diferença de géneros em todos os domínios que lhe ocorrerem, e que travará uma dura batalha para manter o nível acima do nível do mar (para não se morrer afogado). Os links para os dois blogs passarão a estar disponíveis aqui na barra da direita. Aceitam-se visitas.

Vidas Difíceis XI

"Quando um dia for casada e tiver um filho, vou fazer uma sopa de peixe com o leite das minhas mamas".

José Rodrigues dos Santos, O Codex 632

Oiçam



The Mountain Goats, The Sunset Tree

Faixa n.º 4, Dilaudid, aqui.

Le Verbe Être

"Je connais le désespoir dans ses grandes lignes. Le désespoir n'a pas d'ailes, il ne se tient pas nécessairement à une table desservie sur une terrasse, le soir, au bord de la mer. C'est le désespoir et ce n'est pas le retour d'une quantité de petits faits comme des graines qui quittent à la nuit tombante un sillon pour un autre. Ce n'est pas la mousse sur une pierre ou le verre à boire. C'est un bateau criblé de neige, si vous voulez, comme les oiseaux qui tombent et leur sang n'a pas la moindre épaisseur. Je connais le désespoir dans ses grandes lignes. Une forme très petite, délimitée par un bijou de cheveux. C'est le désespoir. Un collier de perles pour lequel on ne saurait trouver de fermoir et dont l'existence ne tient pas même à un fil, voilà le désespoir. Le reste, nous n'en parlons pas. Nous n'avons pas fini de deséspérer, si nous commençons. Moi je désespère de l'abat-jour vers quatre heures, je désespère de l'éventail vers minuit, je désespère de la cigarette des condamnés. Je connais le désespoir dans ses grandes lignes. Le désespoir n'a pas de coeur, la main reste toujours au désespoir hors d'haleine, au désespoir dont les glaces ne nous disent jamais s'il est mort. Je vis de ce désespoir qui m'enchante. J'aime cette mouche bleue qui vole dans le ciel à l'heure où les étoiles chantonnent. Je connais dans ses grandes lignes le désespoir aux longs étonnements grêles, le désespoir de la fierté, le désespoir de la colère. Je me lève chaque jour comme tout le monde et je détends les bras sur un papier à fleurs, je ne me souviens de rien, et c'est toujours avec désespoir que je découvre les beaux arbres déracinés de la nuit. L'air de la chambre est beau comme des baguettes de tambour. Il fait un temps de temps. Je connais le désespoir dans ses grandes lignes. C'est comme le vent du rideau qui me tend la perche. A-t-on idée d'un désespoir pareil! Au feu! Ah! ils vont encore venir... Et les annonces de journal, et les réclames lumineuses le long du canal. Tas de sable, espèce de tas de sable! Dans ses grandes lignes le désespoir n'a pas d'importance. C'est une corvée d'arbres qui va encore faire une forêt, c'est une corvée d'étoiles qui va encore faire un jour de moins, c'est une corvée de jours de moins qui va encore faire ma vie".

André Breton

Match Point (****)

Preâmbulo: eu nunca fui grande fan de Woody Allen. Ok, guarda pretoriana, podem atacar. É daquelas coisas que não tem grande explicação, mas creio que o facto do senhor, himself, participar na esmagadora maioria dos seus filmes também não ajuda. Isto porque a personagem irrita-me profundamente e não me consigo concentrar no filme. E, portanto, a coisa complica-se. Mas estou a fazer um esforço para melhorar, a sério que estou. Os últimos já vi quase sem problemas. Ok, fiz umas caretas no início, mas depois passou e a senhora que se virou para trás pensou que era um tique nervoso. Dito isto, é compreensível que o facto de Match Point não conter Woody como actor participante ajudou muito à compra do bilhete. Ali, é o Woody realizador, e o Woody realizador é um gajo porreiro. Ora, vamos dizer isto abertamente: Match Point é um filme muito bom. Não é um filme histórico, nem uma obra prima, mas também não quer ser. Nem podia. Mas é muito bom. E é muito bom porquê? Por várias razões. Ponto número um: Woody enterrou o romantismo. O romantismo, por exemplo, de Hannah and Her Sisters. Woody olhou para o romantismo, achou que já tinha passado o prazo de validade, não quiz arriscar uma intoxicação cinematográfica e enterrou-o. Vivo, ainda por cima, para se aperceber da sua morte à medida em que asfixia. Match Point é profundamente anti-romântico e claramente pragmático. O que é uma lufada de ar fresco, para as urtigas com o romantismo de Nova Iorque no Outono. Ponto número dois: Woody deslocou por completo o seu modus operandi. O filme não se passa em Nova Iorque, mas em Londres. Os actores não são de perfil norte-americano, mas britânico. Não há judeus. Não há grandes famílias neuróticas. Aliás, não há neurose, a não ser na única personagem norte-americana e em alguns momentos. Não há dramas existênciais a partir de pequenos pormenores, há dramas existênciais a partir de grandes questões estruturais. O ambiente não é cool, mas european heavy. Denso. Operático. Aliás, uma das fortunas de Match Point é precisamente uma estrutura operática. Tudo encaixa na dimensão de uma ópera italiana. A banda sonora funciona como alicerce dessa estrutura, que seria impossível de adaptar nas ruas de Nova Iorque. O que se vê é uma Londres distinta sem ser bafienta, rica e opulenta sem ser profusa e VIP. Uma ópera, em que cada um sabe que o seu destino está traçado na partitura e é apenas uma questão de interpretar bem os dramas, sem excessos mas sem reticências, com olhares perdidos no objectivo. Ponto número três: as interpretações são imaculadas, a direcção de actores sem ponta de sangue. Woody é um cirugião. Vai pedindo bisturi, tesoura, compressa, e operando sem uma gota de suor na testa, como médico de carreira que sabe perfeitamente onde cortar e qual o risco. E, no meio de tudo, Woody assenta a história na ideia de sorte. A sorte que faz com que a bola, quando toca na tela, caia de um lado ou de outro da rede, e como essa escolha metafísica dos dois elementos - bola e tela - determina tudo o que pode ser determinado. Em Match Point, Woody Allen ganha com um Ás.

Facto histórico indiscutível de quinta-feira à tarde

Hoje é Dia Mundial das Zonas Húmidas.

King Kong (****)

Ora, Peter Jackson tinha uma tarefa monstruosa depois da trilogia Lord of the Rings: não se afundar. Depois de três filmes que ficam na história do cinema de entretenimento, qualquer coisa que viesse a seguir tinha, obrigatoriamente, que ser mais fraca. Esse era ponto assente. E portanto competia a Jackson apenas uma tarefa: não fazer algo que, à sombra da Terra Média, ficasse para as calendas como a sua evaporação (quiçá na Nova Zelândia, para manter o cenário). Neste ponto, Jackson foi de uma inteligência superior. A escolha de um remake de um filme da década de 30, cuja figura primordial foi banalizada durante as décadas seguintes, assegurava a recuperação óbvia de qualidade e, assim, o bote de salvação. Para mais, Jackson foi sublinhando durante muito tempo que o projecto surgiu em virtude do seu fascínio pelo filme original, que o que queria era recuperar os seus pressupostos originais, etc, etc. Portanto, quando comprei o bilhete para King Kong já sabia ao que ia. A competência de Jackson foi tão evidente em Lord of the Rings que Kong nunca podia ser um falhanço. Seria, na pior das hipóteses, um filme competente. E isso não é para todos. Ora, no fim de contas, King Kong é um filme competente, sim, mas mais do que isso. A ideia de recuperação do ambiente original, por parte de Jackson, é profundamente fiel. É por isso que os primeiros 10, 15 minutos parecem caricaturais, e depois se engrena no registo. A primeira vez que Jack Black abre a boca parece um boneco, à terceira já não. Basicamente Jackson diz "isto é um remake, não se esqueça, mas não é uma cópia". Ou seja, o barbudo fez um verdadeiro remake: não é um duplo, é uma nova visão, que tanto pode ser mais ou menos fiel ao original, mas não um seu pastiche. No caso, King Kong é fiel no que deve ser, no ambiente, na estrutura da história, na ligação entre personagens, na cadência de diálogos ou falta deles. E depois não é fiel no que não deve ser, nos efeitos especiais que transportam o filme para a actualidade, por exemplo. E ainda no meio disto, há surpresas. Adrien Brody, por quem não tenho especial afeição, porta-se muito bem. Jack Black tem um papel à sua medida (para quando algo fora do seu registo?) e não desperdiça. E Naomi Watts é, parece-me, surpreendente. Peter Jackson segura o filme no limite, não o deixando resvalar para a idiotice em momento algum. Tudo é contido onde deve ser. O relacionamento entre o macaco gigante e Ann Darrow não passa de troca de olhares. O estrago de Kong em Nova Iorque é por desorientação e não avidez de destruição, como erradamente a história do cinema tentou impor. Kong não é um oversised gorilla com a mania de matar tudo o que encontra, é apenas um oversised gorilla. E Jackson sempre o soube.

Who wants a piece of Old Muhammad?

There you have it, the longest minute in cunnilingus history...

Ela está de volta. A profeta. Supa Sista. A diva anti-diva. Black Mama. Ursula Rucker está de volta. Quando ouvi "Supa Sista", o album de estreia em 2001, pela primeira vez deu-me vontade de apanhar um avião, sem aviso, e colocar um pé antes do outro, em slow motion, em Filadélfia, e caminhar, em slow motion, nos bairros de subúrbio onde as crianças brincam no jardim do vizinho e saltam debaixo da boca de incêndio que alguém abriu. Quando ouvi "Silver or Lead", de 2003, deu-me vontade de apanhar um avião, sem aviso, e colocar um pé antes do outro, em slow motion, em Filadélfia, e caminhar, em slow motion, pelos bairros de bares esquecidos do fim de tarde, que se lembram do sorriso de Baskiat e emergem, segundos depois, no jogo dos 76s que se arrasta no ecrã ao alto. Ursula é profeta, nao sacerdote. Confiança, não sermão. Liberdade, não hipocrisia. Voz, não som. Ela está de volta, com Ma'at Mama.

Who wants a piece of Old Europe?

O Horror iNominável

Avisa o shôr Nuno Markl (e avisa muito bem) que está criado o primeiro vídeo podcast português (pelas informações que estão disponíveis, claro). Tem o superior título de O Horror iNominável e só podia vir de duas cabecinhas cuja vida é dizer mal dos outros, com piada. Os shôres José de Pina (que agora aparece miseravelmente num talkshow da SIC Comédia mas é, isso sim, um dos cérebros da Contra-Informação ou do Herman Enciclopédia) e Filipe Homem Fonseca (também do Contra-Informação ou de Bocage), para já, ainda só libertaram um trailer. Mas como bom trailer, deixa antever ácido em estado semi-puro, em formato humorístico e, last but not least, em vídeo podcast. Como estas coisas são como são, não me admirava nada que depois isto fosse parar à TV, mas para já é só para gente muito à frente, que sabe o que é e como ver um vídeo podcast. O feed está em http://feeds.feedburner.com/ohorrorinominavel, ou então pesquisem no iTunes mesmo por Horror iNominável que ele aparece, como que por artes de candomblé. Mais coisas, ou para fazer a subscrição de forma automática, ver aqui. Parece que o primeiro episódio aparece lá para quinta ou sexta-feira...

Sim, esta pode ser uma noite histórica

E porquê? Porque a :2 (quem mais?) começa a transmitir nada mais nada menos que duas pérolas, e ainda por cima uma a seguir à outra. Às 22:30h, se a Alberta Marques Fernandes não se esticar muito, há Curb Your Enthusiasm, tida por muitos como a melhor série de comédia pós-Seinfeld (em português, claro, o nome é idiota, chama-se "Calma, Larry"). Às 23h, a série que substituiu Carnivàle na HBO em Outubro passado, de seu distinto e simples nome Rome. Possivelmente esta semana ainda escreverei sobre Carnivale mas espero por Rome como o gajo do barrete preto (e não encarnado) espera pelo condenado. Carnivàle foi, decididamente, a melhor série que vi nos últimos anos e foi suspensa abruptamente ao fim da segunda série, tendo a simpática senhora que fez o anúncio dito que ia ser muito bem substituída por Rome. Vai daí, o condenado pode estar inocente, ser pai de família, dar assistência aos pobrezinhos, ser fiel à sua mulher e temente a Deus que eu não me ralo: vai perder a cabeça à sombra do meu machado, AH VAI! Tirando isso, se a :2 mantiver esta onda de generosidade, pode ganhar audiências jeitosas (leia-se, acima das 10 pessoas por noite) às segundas-feiras, recuperando aquela fase da TV portuguesa em que havia sempre uma série por dia da semana. Às segundas eram X-Files na TVI, antes disso os Simpsons apareciam às quintas na RTP, ande soi on ande soi on. Vamos ver (literalmente).

PS: Chegou-me aos ouvidos que a mesma :2 teria comprado Carnivàle para ecrãs tugas. No entanto, so far népias. Se se confirmar é um dos acontecimentos televisivos do ano, se não se confirmar é só a confirmação da chungice de país que temos. Aproveito para alertar que a primeira série (12 episódios) está disponível em DVD, em Portugal, com o inenarrável título de A Feira da Magia, o que deve ter reprimido todo e qualquer comprador impulsivo (e mesmo alguns ponderados). Mas fechem os olhos e comprem (a caixa de 6 DVDs até nem é cara). É a melhor TV que money can buy. Oh yeah!

Atenção, judeu à vista!

Ora, em relação ao post de ontem (aqui pouco mais abaixo) sobre Alles auf Zucker! uma boa notícia: o filme vai passar ao abrigo do festival de cinema alemão, em Lisboa, no dia 3 de Fevereiro (sexta-feira), no cinema King, pelas 19 horas. Preço do bilhete: 3,5€. O Goethe-Institut, que promove a terceira edição do festival (tal como as anteriores), descreve o argumento assim: "Jaecki Zucker está financeiramente arruinado e a sua mulher ameaça deixá-lo. A solução parece ser a herança da sua mãe que Jaecki poderá receber se fizer as pazes com o seu irmão Samuel, um judeu ortodoxo. O problema é que Jaecki nunca esteve muito próximo da religião dos seus antepassados." Mais informações sobre o evento, todos os filmes, etc, aqui.