Europa???

[das eleições italianas] "Terminada a campanha eleitoral, ao longo do dia de ontem - sábado de silêncio, pausa e reflexão para candidatos e eleitores - a Força Itália inventou um estratagema de última hora: o partido de maioria de centro-direita nestas horas envia milhares e milhares de sms a conhecidos e amigos, desconhecidos e eventuais indecisos, mensagens pedindo o voto e fazendo um "carregamento" no telemóvel, para "indemnizar pelo incómodo"..."

Diário de Notícias, pag. 12, 09/04/2006

Desejo infantil

Eu quando for grande quero ser assinante da Granta.

Free Tan.

"This guy had a sign on his hat that read "Free Tan." I'm wondering if he was offering a tan for free, or if he was protesting to win a person named Tan's freedom. Either way, weird hat."

Imperdível, aqui.

"Agora é que elas começam a andar descascadas!"

A frase não é minha, atenção. É do shôr Markl. Dizia ele há dias, no Há Vida em Markl, que anda com uma vela na mala (creio que é uma vela, não estou seguro) para festejar um evento que acontece todos os anos por esta altura: o dia em que um taxista diz, de forma perfeitamente espontanea e sem ninguém lhe perguntar coisa nenhuma, com uma voz arrastada, plena de volúpia e bagaço, "agora é que elas começam a andar descascadas!" O shôr Markl sublinha algo bem verdadeiro, e não só para taxistas. Lembro-me bem de, no meu oitavo, nono ano, sentirmos, nós os rapazes, que já era Primavera precisamente porque a indumentária feminina mudava quase da noite para o dia. Não usávamos a mesma expressão dos taxistas, éramos mais subtis. Limitavamo-nos a articular poucas palavras sem olhar para o interlocutor e diziamos, de olhos meio a brilhar (quer por fascínio quer de frustração): "eu adoro a Primavera". A tirada funcionava como mneumónica para os mais distraídos, que rapidamente procuravam a razão de tanto amor à estação das alergias. Hoje confesso que não tenho a mesma paixão pelo início da hora de Verão (sobretudo porque aprendi a admirar a beleza feminina debaixo de sobretudos de gola redonda e não sinto tanto as diferenças de estação), mas ainda assim há coisas que não mudam. Hoje, na FNAC do Colombo, duas jovens à minha frente para fazerem perguntas ao assistente usavam as agora comuns calças de cintura descaída e t-shirts curtas, peças cuja combinação resulta numa zona descoberta imediatamente acima da cintura. Se não soubesse, rapidamente saberia que estamos em princípios de Abril e o frio já não mete medo a ninguém. Mas em termos de mudança de estação, nos últimos anos comecei a compreender muito melhor é a passagem da Primavera para o Verão. E porquê? Porque as portuguesas, meus amigos, as portuguesas ganharam uma extraordinária afeição ao fio dental. Não, não ao biquini de origem brasileira, mas antes à peça de roupa interior que usam no quotidiano. E quando começo a ver calças de linho, com acentuada transparência, por cima de fio dental, digo para mim mesmo: "agora sim, é Verão". No fundo, no fundo, é a mesma sensação que os taxistas têm em Março, mas com uma diferença esmagadora: "agora é que elas começam a andar descascadas... por baixo da roupa!".

E assim vai o mundo...

Em França, Chirac tem medo de Villepin e promulgou uma lei para pedir a sua imediata alteração (!). Na Grã-Bretanha, Condoleeza Rice, de visita a Jack Straw, admitiu que os EUA cometeram "milhares de erros tácticos" (!) no Iraque. Em Nova Iorque, 24 famílias receberam uma carta a dizer que existe uma gravação telefónica do seu familiar morto no 11 de Setembro, feita ainda de dentro das torres, e que a podem levantar quando quiserem (!). Em Riade, Arábia Saudita, um português foi detido e cumpre pena, sem ter sido julgado, numa sala do aeroporto, dormindo num saco-cama (!). No noroeste da Polónia, um ex-recluso de Czarne pede uma indemnização por excesso de orgasmos, provocados por uma máquina potente que tinha que manter junto ao ventre para a controlar e que lhe provocaram ejaculações de 40 em 40 minutos, com consequente esterilidade (!). Em Portugal, a Associação Portuguesa dos Amigos da Sesta (APAS) recomenda a colocação de esteiras e almofadas no emprego e a criação de "salas de sesta" (!).

Socrates? Simplex!

Sim, eu votei no homem. E não, não estou arrependido. Mesmo que aquela história com o Diogo Infante fosse verdade, não estaria arrependido. O Simplex e o PRACE são mais umas razões para não estar arrependido. A ameaça/ideia de baixar a taxa de alcoolémia, que o Secretário da Administração Interna veiculou ontem, é mais uma razão para não estar arrependido. A subida de impostos teria sido uma razão para estar arrependido, mas quando fiz a cruz sabia que ele estava a mentir. E isso não me incomodou. Porque se ele tivesse ido para os debates a dizer "sim, vou aumentar os impostos, sim, vou despedir funcionários públicos, sim, esta festa tem que acabar" nunca tinha sido eleito e tínhamos Santana por mais uns meses, e nova dissolução, e um sarilho dos diabos para resolver. Ele estava a mentir, eu sabia-o, e disse-lhe, com uma cruz, "tá bem". Porque tinha esperanças que acabasse a festa da Administração Pública. Porque tinha esperanças que se lembrasse que é vital implementar educação artística nas escolas, e estabilizar a colocação de professores, e obrigar à flexibilidade e dinamismo da máquina do estado, e melhorar as formas de cobrança de impostos, e voltar a colocar a cultura no plano que uma sociedade evoluída merece e necessita. E não, o tipo não é perfeito, o tipo já fez coisas erradas, o tipo não acerta todos os dias. Agora temos o Simplex e o PRACE. Se Sócrates não anunciasse quaisquer medidas, era mais um Guterres nas voz dos opinion makers, era mole, não fazia as reformas necessárias, estava quieto. Como anuncia medidas, é propangandista, fogo de vista, exuberante. As reformas, as famosíssimas reformas que andam na boca dos portugueses há decadas por não mostrarem os dentes, as reformas que toda a gente diz que são necessárias e que toda a gente diz que ninguém tem coragem para fazer, as reformas que às tantas quase ninguém sabe o que são ou deviam ser ou sabem bem demais, elas, as infames, as desejadas, as procuradas, as invocadas, as voluptas, as reformas estão aí. Os sindicatos agitam-se, os funcionários públicos protestam, os polícias reclamam, os médicos remexem-se, as farmácias ameaçam, as igrejas calam-se, os economistas discordam, os jornalistas analisam, a oposição perde-se. Agora temos o Simplex e o PRACE. Um para simplificar, outro para reorganizar. No Público de ontem praticamente todas as secções tinham uma peça sobre a forma como o PRACE vai influir no sector correspondente. Na página 18 pode ler-se "o primeiro-ministro começou a semana a apresentar um conjunto de medidas de simplificação da administração. Depois foi à Assembleia da República falar sobre uma série de propostas sobre ciência e ensino superior. Seguiu-se a apresentação do modelo da reforma da administração do Estado. E terminou a lançar o fórum para o debate sobre o futuro da Europa". Sócrates sabe como ninguém manipular a agenda mediática de acordo com as suas conveniências. Isso é mau? Sócrates serviu-se do aumento de impostos para não utilizar receitas extraordinárias nas contas sobre o défice. Isso é mau? De forma tipicamente portuguesa, os portugueses fazem de Dr. Jekyll e Mr Hyde: nas ruas e nos vox pop o governo são uma cambada de gatunos, que só quer fazer dos pobres mais pobres e gamar para o bolso, mas nas sondagens de opinião anónimas garantem um apoio esmagador ao primeiro-ministro e cilindram a oposição. Muito tuga. Claramente tuga. Na rua ou à frente de um microfone somos todos muita maus, mas depois em casa sozinhos já achamos que "sim, senhor, é mesmo preciso". Se o voto nas eleições foi sobretudo por exclusão de partes e em contra-ponto com o período Monty Python anterior, a opinião agora dificilmente será dentro da mesma onda. Sim, há ministros que já merecem patins (Cultura, Agricultura), sim, há nomeações escandalosas (Vara), sim, há devaneios (Freitas no Canadá), mas no fim de contas Sócrates mantém o rumo. E tudo isto, tudo o que se reforma, o ensino, a burocracia, a administração, o Estado, a cultura, tudo era já muito simples de ver. Não é fácil de fazer, mas era já fácil de ver na altura de Guterres, e depois de Durão, Santana. Não sendo fácil, tudo isto é simplex.

Cannes já mexe

"A menos de um mês antes de ser anunciada a programação da próxima edição do Festival de Cannes, é já possível antecipar alguns dos filmes que serão apresentados. Entre eles, estão os novos de FRANCIS FORD e SOFIA COPPOLA.

A programação de filmes para a 59.ª edição do Festival de Cannes será anunciada a 20 de Abril. Embora ainda esteja a decorrer o processo de selecção entre as dezenas de propostas, Thierry Fremaux, director artístico do festival, referiu em declarações à agência Reuters que "em papel, parece bom. No último ano, foi uma selecção relativamente clássica. Este ano quero criar algumas surpresas."

Espera-se que entre os filmes a competir pela Palma de Ouro estejam o biopic «Marie-Antoinette», de Sofia Coppola, com Kirsten Dunst e Jason Schwartzman, e provavelmente «Youth Without Youth», de Francis Ford Coppola, sobre um professor em fuga antes da II Guerra Mundial, com Tim Roth e Bruno Ganz. Outro projecto aguardado é «Volver», que marca o reencontro de Pedro Almodóvar com Penélope Cruz e Carmem Maura e que tem sido um grande sucesso em Espanha.

Outras possibilidades incluem «Babel», de Alejandro González Iñárritu, com Brad Pitt, Cate Blanchett e Gael García Bernal, «Laitakaupungin valot» («Lights in the Dusk»), de Aki Kaurismäki, «Il Caimano», de Nanni Moretti, «The Wind That Shakes the Barley», de Ken Loach. Entre os títulos franceses, tradicionalmente escolhidos no fim, o consenso para a competição parece rodear «Selon Charlie», de Nicole Garcia.

A lutar para serem terminados a tempo de serem considerados estão títulos como «Inland Empire», novo filme experimental de David Lynch com Laura Dern, Jeremy Irons e Harry Dean Stanton, «The Fountain», de Darren Aronofsky, com Hugh Jackman, Rachel Weisz e Ellen Burstyn, e «Fast Food Nation», de Richard Linklater, com Ethan Hawke e Patricia Arquette. «Scoop», de Woody Allen, não estará pronto a tempo do festival.

Os únicos filmes anunciados pela organização são «The Da Vinci Code», de Ron Howard, com Tom Hanks e Audrey Tautou, que abrirá o certame a 17 de Maio, e «Paris, je t`aime», que reúne 20 pequenas histórias de amor realizadas por outros tantos realizadores, que abre a secção "Un Certain Regard" no dia seguinte. O Festival termina a 28 de Maio."

in Cinema2000 (http://www.cinema2000.pt)

Natureza morta

Montra, 18:44h: Duas crianças sem olhos fixam um tipo sem pressa.

E agora para algo verdadeiramente interessante

Videoteque.

Noticias da barra: Le Cadavre Exquis

Continuando na demanda de sublinhar os blogs que andam por ali na barra da direita, cabe a vez ao Le Cadavre Exquis, a última aquisição. Ainda novinho, mas sem pais a bater na incubadora, o projecto "pretende ser um espaço de reflexão sobre cultura onde questões da actualidade serão abordadas com relativa frequência. Caderno de apontamentos, servirá de instrumento de meditação e colecção de factos, experiências e situações do foro artístico e cultural significativas para a vida do nosso burgo". É o seu manifesto. Na prática, tem funcionado muito na base do apontamento inteligente a pedir olho aberto para se perceber a ironia, subtileza e posição. Claramente obra de personagem feminina e, logo, superior, sei de fonte segura que o logotipo teve a participação do Animatógrafo, mas tudo o resto é da responsabilidade da gerência do Cadáver. Ah: as imagens escondem frequentemente links perspicazes que desvendam os títulos enigmáticos, atenção... (quem se lembraria de esconder informação senão uma mulher?)

Vinho e rosas

Eu moro num segundo andar frente. No 2.º direito vive um casal já com certa idade que esteve muitos anos emigrado e voltou há 2 ou 3 anos. Não se ouve uma mosca, nunca os vejo, vizinhos ideais. O 2.º esquerdo está enguiçado. Há muito. Quando eu era puto, viviam lá um casal com um puto da minha idade, ele empresário, ela enfermeira, o puto puto. Há uns 12, 14 anos, mudaram-se para Benavente. A casa ficou fechada, a ganhar pó. O empresário vendeu-a a um sócio, que a manteve fechada durante anos. Há quatro anos, decidiram alugar. Primeiro, apareceram duas brasileiras que andavam (andam?) a atacar. Saíam às seis ou sete da tarde para trabalhar, voltavam às quatro ou cinco da manhã. Cansadas, coitadas, vai de meter a aparelhagem no máximo com música de sertão, Leandro e Leonardo, Mizó e Mizael, Celso Brito e Zé Adriano. Putas românticas, a quem a polícia nunca quis visitar. Três meses depois, uma porta a bater, chapéu de fazendeiro na cabeça, uma mala em cada mão, um elevador a concretizar a fuga antes da renda paga. Silêncio. Duas semanas depois, família brasileira monoparental, uma mãe, duas filhas, uma das quais já mãe (a mais nova, com uns dezasseis anos). Copos a fazer pontaria a paredes, discussão com cheiro a criança às três da matina, mulheres já não apenas à beira de um ataque de nervos. Semanas mais tarde (seis, sete?) uma porta a bater, uma mala em cada mão e uma mochila às costas, um elevador a concretizar a mudança. Silêncio. Três anos e o pó a instalar-se. Bom vizinho. Há cinco meses, tipo novo de cabelo em crista e Seat Ibiza preto com gaja nova de mini-saia e Mercedes topo de gama. Filho do proprietário, fim dos arrendamentos. Oito da matina e ela grita de prazer ou geme como um urso ferido em combate. A vizinha do quinto andar sorri quando se cruza comigo na escada, era sexo de ir ao topo do edifício e voltar. Ele regressava ao fim do dia com prancha de surf, ela tomava banho na linha do eléctrico e usava cintos como saias. Um mês depois e o Mercedes deixa de aparecer, o prédio deixa de ouvir prazer, a vizinha do quinto andar deixa de sorrir junto à caixa do correio. O gajo guarda a prancha de surf. Quarta-feira passada, uma gaja nova, sem carro e de calças, passa a tarde a chorar e a bater à porta, perdida de racionalidade. Quinta, oito da manhã e ela dorme enrolada num cobertor à porta. Não se ouve um pionés para lá da fechadura. Ontem, onze da manhã, encostada à porta, olhar vago de quem espera e não espera que algo aconteça. Dez minutos depois, à porta apenas uma garrafa de vinho e uma rosa vermelha, em pé, apoiada no nectar. Ontem, onze da noite, apenas a porta. (Continua)

Capote (****)

Há coisas do diabo. Tudo o que li e ouvi sobre Capote enquadra-se no tipo "o gajo é bom, mas o filme não é assim nada de especial". E porém, meus senhores, porém Capote é um filme extraordinário. Primeiro que tudo: dizer que Capote está refém da interpretação de Philip Seymour Hoffman é de tal forma la palissiano que o próprio La Palisse ficava envergonhado. Ora pois, se o filme se chama Capote e é sobre Truman Capote, não podia existir sem o actor que faz de Truman Capote. Boa? Mesmo que não fosse um extraordinário Philip Seymour Hoffman e fosse um gabiru qualquer. Mas Capote, o filme, é muito mais do que Capote, o Hoffman. Colocando as coisas como Marco Bellini, esse especialista ultra-planetário nas coisas do segredo, o dito está tanto na massa como no molho. A massa é fininha, de bom gosto, aromatizada e enformada ao milímetro. Rigorosa, a realização assenta em planos fixos e noções reais de raccord (lembram-se, aquela coisa que existia no cinema?), em sequências de aproximação secas, sem a gordura do movimento de camera constante. Muito dietético, mas com muito gosto. O trabalho de fotografia assenta que nem uma luva, sem estar continuamente à procura "daquela" planície da América profunda que costuma encantar sexagenários europeus. Capote é um trabalho de extremo bom gosto visual, cromático, de um senhor que eu não conheço de lado nenhum, e que não tinha feito quase nada na vida tirando um documentário sobre uma carreira de autocarros em Manhattan, por acaso premiado em Berlim. Nome de cadastro: Bennett Miller. Voltando a Marco Bellini, o molho, oh senhores, o molho é fenomenal. Composição: um Philip Seymour Hoffman que consultou a alma do Zandinga e incorporou Truman Capote. E, oh senhores, não é só a voz. É o leve franzir das narinas quando fuma, é o tique do lado direito da boca, é a gargalhada feita mneumónica de Brooklyn com álcool de Greenwich Village. Hoffman, cuja carreira se tem feito à sombra de papéis menores, agarrou a oportunidade by the balls e construiu um Capote que funciona como ideal pedra de toque. Segundo ingrediente: a construção de um argumento que explora a ideia de literatura no seu tutano. Como é sabido, são poucos, muito poucos, os escritores actuais que têm letras no sangue. Capote era, ele próprio, literatura. Todo o seu trabalho mental corria para uma ideia de história. Capote, o filme, nunca perde essa noção e explora ao limite a imagem de um escritor puro, capaz de influir na realidade de forma a retirar-lhe todo o potencial literário. Apenas isso lhe interessa. Truman não estabele relações afectivas com Perry, o assassino, mas antes com Perry, o personagem. E na medida em que um lhe permite chegar ao outro, Truman condiciona a realidade de forma a ter dela o que quer, o que precisa, o que a página precisa. No fim, não é de Perry, o assassino, que Truman tem pena. É de Perry, o personagem, a entidade que lhe ocupou anos da sua actividade cerebral e que lhe deu um livro histórico. Truman sabe desde cedo que é "este" o livro da sua vida. E da vida de muitos. Truman sabe, desde cedo, que é "este" o livro que vai mudar uma forma de escrever. E, como tal, "este" livro vale tudo. Mas, e aqui a enorme capacidade de Capote, o filme, não é aproveitamento frio o que Truman faz. Truman não se pode furtar a ser Truman. E isso exige-lhe tudo para "este" livro. Truman não premedita o uso. Os homens estão desde o primeiro plano condenados. Capote, o homem, apenas tinha a obrigação de lhes extrair a história que continham. De os cumprir. De os revelar. E isto, oh senhores, isto não é da ordem do real. É da literatura. E do cinema.

Good Night, and Good Luck (***)

A minha expectativa era grande. Bem grande. Porque o preto e branco me aguça o apetite. Porque McCarthy foi uma personagem do século XX no mínimo bizarra. Porque Clooney até parece ser um tipo com dois dedos de testa. E porém, lá se foi a expectativa. Mas, mais uma vez, voltemos ao princípio. Ed Murrow foi um tipo com tomates. Dos grandes, como a minha expectativa. Numa sociedade dominada pelo medo, Murrow apontou directamente à mosca. Sem pestanejar. Porque tinha que ser. Mai nada. E portanto, para mim, todo o trabalho de justificação que Clooney leva a cabo no seu Good Night, and Good Luck é desnecessário. A história encarregou-se de completar essa parte. Mas o homem por quem mais mulheres no mundo suspiram não conseguiu tirar o paizinho (o biológico) da carola, e tem tanta admiração por ele que fez um filme refém de um conjunto de questões. Primeiro, a centralização de Good Night, and Good Luck em Murrow é de tal forma que o filme não respira um segundo sem o olhar do jornalista. Mais: Clooney tem sempre um olhar de criança leve perante o ídolo, de baixo para cima, de perfil, a dar-lhe ares de deus grego, de paladino da liberdade. Enjoa. Enjoa muito. Segundo, o filme nunca descola. Sobretudo, nunca descola da CBS e do micro círculo de Murrow, do estúdio. Não passa do elevador, a não ser para ir ao bar. Não olha pela janela. É completamente claustrofóbico, e não precisava de ser. Terceiro, Clooney esbanja o preto e branco. Por muito bonito que seja, não se pode filmar a preto e branco apenas porque é bonito. Tem que se lhe esmifrar a sua potencialidade, tem que se ir à procura das suas arestas e limá-las, para o resultado ser algo empático com o espectador. Não é. Ao fim de quinze minutos esqueci-me do preto e branco. E isso não é necessariamente bom. Quarto, os ritmos de Good Night, and Good Luck são marcados por cançonetas de época em voz negra. Se à primeira funciona muito bem, nas outras nem por isso. O resultado é um filme em blocos, que não flui, com partes quase estanques que apenas sublinham um mesmo pano de fundo. Mas nem tudo é mau. A utilização de imagens de arquivo, quer de McCarthy quer de publicidade da época, é muito bem conseguida. É, aliás, apenas assim que o espectador consegue situar o filme num contexto e numa época. O trabalho de Clooney é competente. Mas não mais. E se calhar o pai até merecia mais...

A History of Violence (****)

O novo objecto (de culto) de David Cronenberg foi o maior escândalo dos óscares deste ano, pela ausência. Os mais novos têm uma ideia de Cronenberg que vem de Crash e de eXistenz e não de Dead Ringers ou de Spider. Ou seja, Cronenberg, se não me engano muito, é hoje muito mais associado a realidades alternativas do que a filmes palpáveis. O novo A History of Violence recupera um Cronenberg mais realizador e menos criador de mundos, mais atento ao cinema enquanto forma de construção formal do que de atitude criativa de conteúdos. Baseado na graphic novel homónima de John Wagner e Vince Locke, A History of Violence tem como pano de fundo a América rural pacata de Millbrook, Indiana, onde o casal Stall vive com dois filhos, uma casa com jardim e um quotidiano de rotinas e sem sobressaltos. Mas uma tentativa de assalto ao restaurante de Tom (um extraordinário Viggo Mortensen) acaba com dois meliantes na morgue e a comunidade a dar vivas de herói ao pai Stall, que se vê a braços com a cara estampada nas televisões de meia América. A partir daqui não há regresso. Carl Fogarty (um competentíssimo Ed Harris) aparece a dizer que Tom não é Tom. A dúvida toma conta de tudo. Mais do que a dúvida, a violência cresce como um híbrido e toma de assalto todos os planos, todos os movimentos, todos os olhares. Mais do que violência objectiva e motivada, o que vem à tona é uma violência despersonalizada e biológica, quase genética, que não permite a fuga. Tom é Tom e não é, numa espécie de esquizofrenia entre o seu "eu biológico" e o seu "eu social". O sexo deixa o campo dos afectos e regressa a uma fisicalidade primordial. A violência deixa o campo moral da justificação e apropria-se do sangue, como algo inevitável. E tudo num subtexto que passa tanto pela reacção do filho de Tom na escola como pelo olhar e voz de Tom no limite do confronto. O filme nunca rejeita a sua origem em termos de argumento, mas da mesma forma nunca esconde que trabalha para uma ideia libertada de si mesmo, que precisa de ser pensada e racionalizada pelo espectador. A direcção de actores é muito boa, os planos prodigiosos (as cenas de sexo belíssimamente bem filmadas), os ritmos geridos ao cronómetro, os pormenores sublinhados de forma contínua. E Cronenberg chega a tudo isto através do aproveitamento de algo intimamente norte-americano: a ideia de segredo aliada à ruralidade, a de fuga de mãos dadas com o isolamento. A noção de uma América para onde se pode fugir, mas ao mesmo tempo a de uma fisiologia que, mais tarde ou mais cedo, acaba por ser revelar de forma brutal, cumprindo toda a sua potência. Com estreia muito atrasada entre nós, é certamente um dos filmes a ter conta quando se fizerem balanços do ano.

Brokeback Mountain (****)

Declaração de princípios: eu não gosto lá muito do Ang Lee. Não acho grande piada aos primeiros filmes do senhor, detestei Wo hu cang long (O Tigre e o Dragão), e só com Hulk me pacifiquei um pouco. Juntando isto à aclamação de Brokeback Mountain pelo público e pela crítica, as perspectivas de uma saída com sorriso da sala não eram assim muito alargadas. E porém, surpresa! Antes de mais, creio que Brokeback acaba por provar um pouco uma ideia que já tinha: Ang Lee não tem estilo. Não tem uma marca. Não há um cinema de Lee (há o de Bruce Lee, mas isso é outra coisa). Quanto muito, podemos dizer que Ang Lee gosta de contenção, e isso é bom. Hulk era interessante precisamente pela contenção, pela capacidade de transformar uma história de BD, que usualmente resulta em pastilha elástica visual, em algo dotado de intensidade emocional, sem largar um ambiente visual arrojado. E Brokeback Mountain tem como grande mais valia, precisamente, a contenção (e é aí que ganha a batalha das bilheteiras). Alicerce número um: o argumento. A construcção textual de Brokeback é intocável e potencia um trabalho de realização muito bom. Tudo está onde deve estar. Não há fases maiores ou mais curtas do que o necessário, todos os elementos de argumento têm o seu espaço de respiração sem perder a ligação com uma obra total. Ang Lee pegou nisto e não desperdiçou a possibilidade de fazer um filme belíssimo. É precisamente no aproveitamento muito bom de um argumento excepcional que Brokeback ganha a opinião da crítica. Alicerce número dois: os actores. Não são interpretações históricas, atenção. Mas são interpretações adequadas, que se integram no filme de forma natural, sem se imporem. O filme não se alimenta, qual canibal, dos seus actores (o que costuma dar oscares) mas antes integra-os na medida das suas necessidades. Alicerce número três: a fotografia e banda sonora. A primeira enche o olho ao público e vende bilhetes, a segunda funciona como leve sublinhado de momentos, sem se impor, maximizando assim a sua presença quando surge. Por último, o grande savoir faire de Lee (e neste caso só dele): o de fazer um filme partindo de uma ideia aparentemente original (a da homosexualidade entre dois cowboys) e de o transformar em algo muito maior. Brokeback Mountain é tudo menos um filme sobre homosexualidade. É antes um documento sobre uma América interior que sobrevive décadas agarrada à sua essência, porque não é mais do que aparenta. É sobre a diferença entre a vida que queremos e a que muitas vezes o tempo nos oferece. É sobre a dificuldade de relacionamento que cada um tem ou pode ter consigo mesmo e, logo, com os outros. Lee nunca perde o pé e mantém em todos os momentos uma atitude de contenção, dando ao espectador um lugar de inteligência que raras vezes lhe é atribuído. O resultado é aquele que muitos procuram: agradar a gregos e troianos, fazendo um filme que congrega crítica e públicos, sem piscar o olho a nenhum dos dois em especial. Parece que é possível...