[indieLisboa2006]: Um pouco mais pequeno que o Indiana (*****)

E eis senão quando surge um gradessíssimo favorito ao prémio da Competição Internacional. Um pouco mais pequeno que o Indiana, do fotógrafo Daniel Blaufuks, é um daqueles filmes singulares que só aparecem de vez em quando. Misto de road-movie com documentário aberto, em registo de radiografia do país que somos e que temos, Um pouco mais pequeno que o Indiana centra-se na viagem de Blaufuks, ao volante de um velho Mercedes, numa rota imaginária criada a partir de velhos postais. O realizador montou a camera como pendura e filma as estradas, ruas, pessoas, lugares, vivendas e paisagens que lhe aparecem pela frente, conversando com o espectador sobre o estado a que chegámos. A viagem tem por cenário o Portugal abrasador na ressaca do Euro2004, trinta anos depois da revolução, trinta anos em que podíamos ter evoluído assim e desenvolvemos assado, trinta anos em que se fez muito mas se perdeu muita oportunidade. O olhar de Blaufuks é verdadeiro e não cede um milímetro, é fatal, meticuloso, focalizado, sem perder o sentido de humor. O equilíbrio é difícil, mas a realidade ri-se de si mesma. Pelo meio há reflexões sobre a difícil portugalidade, sobre a falta de trabalho sobre a memória colectiva, sobre o passado recente e o menos recente, há imagens de arquivo de estrangeiros a dizer que o Estoril é "muito lindo", há um postal de uma criança a desejar feliz aniversário a Salazar, há os Dead Combo a sublinhar todos os quilómetros com o assumido western vadio. O trabalho estético de Blaufuks é intocável, e os pontos de contacto com a sua carreira de fotógrafo são evidentes. Os planos são de esteta, sejam de uma vivenda absurda ou de uma porta de hotel. Blaufuks fala mesmo de cores, de como o céu antigamente era azul e agora é branco, mas nunca num sentido de saudosismo. Antes passa a ideia de como poderíamos ser outros, de como podíamos ter sido outros, de como o país que temos é o país que somos. De início há imagens de Lisboa a meio do século XX, irreconhecível, por fim há uma bandeira queimada pelo sol que se prende a si mesma no mastro, como que a furtar a cumprir-se. Um pouco mais pequeno que o Indiana não é documentário, não é ficção, não é jornalismo, não é manifesto. É um algo indescritível, um misto de visão e assumpção, um misto de crítica com análise, um misto de tristeza e esperança. Que é o que somos.

[indieLisboa2006]: Double Suicide Elegy (**)

É, até ao momento, a minha maior desilusão. Double Suicide Elegy é idiota até à medula. A primeira longa-metragem do japonês Toru Kamei faz muita coisa que não se deve fazer: arma-se ao pingarelho, aposta em filosofia barata, é perfeitamente desequilibrado em termos de forma, não acaba onde deve. O argumento assenta em Kyoko e Bandai, uma agente imobiliária e um advogado de yakuzas que reconhecem um no outro os traços de desespero que os assola. Perante um "contrato" entre os dois estranhos, que passam duas horas por dia no mesmo quarto, o filme aposta no suicídio como objectivo nunca concretizado. O japonês ainda segura o filme dentro de determinada onda até à hora, altura perfeita para encerrar uma espécie de alegoria sobre a vida moderna e a forma como a psique individual pode ou não ser acedida por outros. Não seria um grande filme, mas passava no teste do "interessante". Só que como não se fazem longas-metragens de apenas uma hora, o senhor teve que esticar a coisa mais uns trinta minutos. E o que é que decide fazer? Mete a esposa e esposo dos personagens centrais ao barulho, com vinganças idiotas, crises de cíumes, e descobertas desnecessárias. A coisa descamba, a onda psicológica perde-se por completo e o resultado é um filme que devia passar a ser a nova definição de "idiotice", que acaba a tentar recuperar algum elan, o que só torna as coisas piores. Se este leva a taça, eu arrumo as botas (cinematográficas).

[indieLisboa2006]: Drifting States (***)

Drifting States, de seu nome Les États Nordiques no original, é a primeira longa-metragem de um ex-crítico de cinema, Denis Côté. E, mais uma vez, as premissas são muito boas: um homem toma conta da mãe comatosa, num ambiente depressivo quanto baste, e decide acabar com o sofrimento da senhora, com a ajuda de uma almofada. Profundamente abalado por toda a situação, mete-se no carrito e conduz até Radisson, uma vila a 1500 Km de Montreal com 400 habitantes, criada e mantida em função de uma central hidroeléctrica. A partir daqui, Drifting States revela-se na sua verdadeira essência: um misto de ficção e documentário, com um personagem em fuga moral e muitos personagens reais que se revelam no fim do mundo. E é aqui que Denis Côté esbanja o filme. Do seu lado, não aproveita ao tutano, como devia, a potencialidade de alguém martirizado pela eutanásia. Por outro lado, não é minimamente feliz com as personagens reais que se lhe deparam, com as suas opiniões, olhares, sentidos. Creio que dizia a Leonor Areal, do Doc-Log, há uns tempos, que não há documentário que resulte se não for feliz com quem encontra. E aqui o que resulta é um filme interessante mas que nunca descola, nunca tem golpe de asa, nunca se afirma. Antes mantém um low profile que não foi pensado e portanto perde-se. O trabalho de Côté, sendo claramente low-budget como é, centra-se em planos apertados do personagem central, filmados em cima do joelho, que resultam razoavelmente bem. Mas quem esbanja um filme não pode apenas ser competente a filmar. Sendo primeira obra, é de seguir o percurso do canadiano. Mas também não deve ser ele a levar a taça.

[indieLisboa2006]: Grain in Ear (***)

Copio a sinopse de Grain in Ear que o festival apresenta: "O filme de Lu detém-se em Cui Shunji, uma jovem mãe coreana a viver à margem da sociedade chinesa. Com o marido na prisão e uma criança pequena para sustentar, nada mais resta a Cui senão continuar a vender kimchi (um prato coreano muito popular no nordeste da China) numa roulotte ilegal a trabalhadores fabris ao longo de uma estrada industrial desolada. Quando tudo finalmente parece estar a correr bem (com o início de uma relação e a legalização da sua actividade graças à ajuda de um polícia), Shunji apercebe-se da fragilidade da sua situação e decide-se por uma vingança impiedosa." Ora, Lu é Zhang Lu, realizador chinês. E Grain in Ear é, primeiro que tudo, um filme parado. Totalmente filmado com planos fixos (à excepção do último), é árido, rude, duro como pedra. Todo o trabalho cinematográfico é feito, praticamente, pelo espectador, sendo que Lu quase apenas se limita a apresentar as imagens "como elas são". É o cinema-janela. No plano, os elementos (pessoas, animais, veículos) limitam-se a entrar e a sair, e nós temos uma janela fixa, por onde nem sequer podemos meter a cabeça de fora e olhar à volta. A liberdade de visão é nula. Não há banda sonora, nem qualquer evolvência emocional. A única fuga é o humor emanente dos factos, como uma galinha azul porque uma criança encontrou uma lata de tinta. A vida de Cui é no limiar da depressão, os cenários são de terra batida numa China interior onde tudo se move lentamente. Ou seja, as premissas até eram interessantes, mas Lu consegue esbanjar um conjunto de questões (a adaptação de uma coreana à comunidade chinesa, por exemplo) porque insiste numa aridez demasiado pronunciada. O filme torna-se penoso de ver, e não dá compensação estética pelo esforço. É um trabalho apurado de realização, pensado ao milímetro, mas sem margem de manobra e sem pontos de fuga. O que não facilita.

[indieLisboa2006]: Movimentos Perpétuos (*****)

E ao terceiro dia, o mais sério candidato a Prémio do Público. Nada mais nada menos, senhoras e senhores, é ele, o grande, o sublime, o gajo, o mestre Edgar Pêra. Pois é, impõe-se declaração de interesses: eu considero Edgar Pêra um génio. Cá está. Tudo o que o tipo fez até à data é genial ou perto disso. A Janela - Marialva Mix era soberbo em conteúdo e forma. E este Movimentos Perpétuos, documentário com e sobre Carlos Paredes, tinha condições, à partida, para ser outro pedaço incontornável da história do cinema português. E Pêra não desilude. O ponto de partida (e de chegada) são palavras do próprio Paredes, em concerto, onde explicou como trabalha, o que pensa, como vive, como vê. E Pêra faz, declaradamente, improvisação sobre a música do mestre da guitarra portuguesa. Mantém os elementos básicos de um documentário (entrevista, explicação), mas formata-os com retalhos de imagens, planos de fuga, filtros de cor, criando uma visão da portugalidade que não passa pela transparência das coisas. De uma actualidade desarmante, Movimentos Perpétuos pega nas palavras de Paredes e dá-lhes interpretação visual à data, seja sobre migrantes, seja sobre cidades, seja a vida. O trabalho de Edgar Pêra ascende, assim, ao objectivo que possivelmente detinha à partida: o de estar à altura da melancolia com futuro que se ouve em "Verdes Anos", o de honrar a portugalidade que emanava da guitarra de Paredes. E fá-lo sem nunca se libertar da personagem Carlos Paredes, sem nunca se perder em ideias globais e esquecer a mão que lhes dava música. Enquanto filme, é uma homenagem específica e personalizada ao mestre, mas não enjeita a possibilidade de ser uma visão da portugalidade, a da veiculada pela guitarra. E essa é a melhor homenagem que se pode fazer a Carlos Paredes, a de reflectir de outras formas o indescritível que nos deixou enquanto povo. O Animatógrafo curva-se. (Mais um a não perder quando estrear comercialmente).

[indieLisboa2006]: Mutual Appreciation (****)

Andrew Bujalski é um geek. Sem margem para dúvidas. E Mutual Appreciation tem Bujalski no papel de um geek, com um amigo bizarro com a mania que é músico e uma namorada pouco segura de tudo. É este triângulo que segura o filme, um profundo low-budget que pisca o olho continuamente a Hal Hartley, à Nouvelle Vague, a Cassavetes, a Jarmusch. Filmado em cima do joelho, a preto e branco, a tentativa é a de fazer uma comédia romântica desencantada sem tema central. As três personagens vagueiam pelo filme à procura de si e dos outros, com diálogos de quem não se sabe exprimir ou é demasiado honesto. Bujalski tem o condão, ainda assim, de não procurar o vazio à la Seinfeld, mas antes tentar passar uma zona de sombra real, com personagens inadaptados ao meio, numa Brooklin cinzenta que nunca deixa ver o skyline de Manhattan. É a inaptidão para a vida, ou a tremenda honestidade para com a mesma, que atrai Bujalski, e o humor surge por arrasto, porque a honestidade extrema faz-nos sorrir. Em termos de realização o trabalho está longe da originalidade (o filme vive quase exclusivamente dos actores), mas também é apenas o segundo filme do norte-americano e a ideia também é muito ainda de exploração e não de consistência fílmica. Não será um novo Jarmusch, porque lhe falta o blazé e o tabaco, mas é um caso a seguir. Ainda assim, e não estando vistos nem metade dos filmes a competição, Mutual Appreciation não deve levar o prémio para casa. Mas para Bujalski, presente na sessão, o prémio está ganho e era outro: nunca teve um cinema cheio a ver um filme seu.

[indieLisboa2006]: Mirrormask (*****)

Recupero o início do post de Novembro: "Esta é Helena. Tem 15 anos e trabalha para a família, no circo. Um dia pira-se e entra nas Dark Lands, zona de gigantes, pássaros-macaco e esfinges animadas." Reformulo: Helena tem 15 anos e trabalha num circo que é o sonho do pai. Como qualquer circo, mal se aguenta. O sonho é do pai e não da miúda, pelo que vai de iniciar um sempre simpático processo de revolta. Como a miúda tem jeito para o desenho, a parede do quarto está pejada (bonito) de rabiscos. E é por aí que Helena entra nas Dark Lands, de onde o filme não tem retorno. Recordando o que dizia também em Novembro, é um "filme que reúne dois dos mais interessantes nomes da literatura e banda desenhada actuais: Dave McKean e Neil Gaiman". Reformulo: é uma peça de cinema soberba, que afaga os olhos a cada plano. A dimensão estética do trabalho de McKean é avassaladora, o plano de história de Gaiman é superior. Acessível, açucarado e contagiante, Mirrormask não facilita, não cede, não desiste: a criatividade é surpreendente, mesmo quando já se espera o não expectável. Na prática, o filme combina imagem animada com desenho de costela onírica, não ao jeito Roger Rabitt, mas antes criando um mundo de esteta. Helena safa-se bem, mas não está ao nível dos Bob, por exemplo, pássaros-macaco delirantes, ou das esfinges com corpo de gato e cara de gabiru tramado. Além de tudo, desenganem-se os que pensam que Mirrormask é apenas fogo de vista. O argumento é bem esgalhado, abordando questões tão díspares como a adolescência (que Helena vai espreitando pelas janelas) ou a doença crónica e possibilidade de morte. Pelo meio, a metáfora da passagem por um mundo estranho, onde quem tem cara e não máscara é o esquisito. Gaiman e McKean não precisavam de provar nada a ninguém no papel, agora somam e seguem no ecrã. A não perder por nada do outro mundo quando estrear comercialmente (e não deve tardar).

SMS para putos idiotas e pitas morangueiras.

Francisco Adam dinou.

IndieLisboa 2006: início

Está já assegurado: o Animatógrafo estará presente no indie. A começar, precisamente, amanhã, com Mirrormask, sobre o qual falei em Novembro do ano passado. É já amanhã, e marca o arranque de noites seguidas a olhar para o ecrã, até dia 29. Estão assegurados visionamentos de todas as longas metragens em competição (excepto três), para além de alguns rebuçados, como este de Neil Gaiman e Dave McKean ou o novo de Edgar Pêra, sobre Carlos Paredes. Os textos vão aparecendo, mas nunca no próprio dia (que eu posso não ter juízo e ver 11 filmes em 9 dias, mas já não tenho idade para noitadas). As expectativas são altas, vamos ver se não caio do escadote.

Dare mo Shiranai (****)

Assim de repente não conheço o senhor Hirokazu Koreeda de lado nenhum. Mas também não tinha que conhecer. O que é facto é que Dare mo Shiranai, que deu "Ninguém Sabe" em Portugal, é uma bela peça de cinema. A história, por mais bizarra que possa parecer, é simples: quatro crianças são abandonadas pela mãe num apartamento, do qual apenas o mais velho tem autorização para sair. Sozinhos, sobrevivem meses a fio. Baseado em factos reais, Dare mo Shiranai tem muitas virtudes e poucos vícios. A maior, talvez, é o facto do senhor Koreeda não ter obcecado em fazer um conto moral sobre factos da realidade contemporânea, mas antes ter filmado uma história, que pode ter (e tem), em si mesma, bizarria. Koreeda nunca nos dá o seu olhar reprovador sobre a mãe. Antes apresenta-a como ela é: infantil, desligada do real, nipónica até ao tutano, com aquele aspecto de desenho animado de olhos esbugalhados que não sabe lidar com a vida. Koreeda nunca nos dá o seu olhar benevolente sobre o filho mais velho. Antes filma-o como é: um miudo que puxa pela cabeça as formas mais elementares de sobrevivência, sem heroísmos ou renúncia à sua qualidade de criança. E a acrescentar a isto, Koreeda filma de forma inteligente. Todo o ambiente é dado visualmente por planos apertados de pormenor, seguidos de planos abertos de espaço. Vemos a sala imunda, vemos o pé da irmã mais pequena. Vemos as ruas, mas não nos perdemos na ideia de uma cidade sem fim. Milimetricamente, o senhor Koreeda constrói um desenho visual que serve de forma completa o seu desígnio de história. Está longe de ser um dos filmes do ano, mas também não aspira a tanto. É cru ou terno onde deve ser. É cruel por si mesmo, e não porque se tenha esforçado. Entretanto, parece que o mais recente projecto do senhor Koreeda é sobre um samurai perturbado à procura de vingança e já se encontra concluído. A este ritmo, deverá chegar às salas aqui do rectângulo dentro de dois anos. Se chegar. Esperamos.

IndieLisboa 2006



Se não houver nenhuma anomalia, o Animatógrafo estará presente, como a sua consciência dita, no Indie Lisboa. Mais uma vez se reitera que é óbvio que não em todas as sessões, mas tentarei ver os filmes em competição na secção de longas metragens, e talvez algo na secção Observatório (onde estão as novidades de Dave McKean, Edgar Pêra, Claire Denis, John Hillcoat, Werner Herzog) e Laboratório (onde está Matthew Barney). Como costume, por aqui aparecerão os respectivos textos... Let the films begin! (que a malta já tá farta de salivar)

Das mulheres que cheiram a torradas

A esmagadora maioria das mulheres não tem grande cheiro. As mais "coquetes" mergulham num frasco qualquer logo de manhã e perdem todo e qualquer interesse olfactivo que pudessem ter. As mais "humildes" limitam-se a passar desodorizante e uma gota de qualquer perfume atrás das orelhas, que se perde ainda o elevador não chegou ao rés do chão. Há as que não tomam banho (tal como os homens). E depois há as mulheres-esponja. O que são as mulheres-esponja? Ora, são seres atípicos que assumem cheiros relacionados com o seu próprio quotidiano. Dentro deste raro estrato a casta mais comum são as senhoras da limpeza que, muitas vezes, acabam por se fundir com os produtos que utilizam. É assim que surgem mulheres aromatizadas a Cillit Bang ou a Cif. Mas a casta mais interessante dentro da rara espécie são as mulheres que cheiram a torradas. Excelentes donas de casa, mães esmeradas ou esposas dedicadas que não perdem um pingo de sexualidade, as mulheres que cheiram a torradas são um apetite. Esta semana, num raro momento, entrou uma jovem, com os seus 30 anos, no metro que fazia o meu transporte, e sentou-se ao meu lado. Em instantes um leve odor a manteiga derretida em pão quente tomou conta de dois metros quadrados da composição. De ar fresco, certamente profissional liberal comprometida, sem filhos, o espécimen teria feito torradas para o seu próprio pequeno-almoço e para o do jagunço que atura, e o cheiro da refeição afeiçoou-se à camisa preta escolhida para o dia. Uma mulher que cheira a torradas é um bálsamo. Tem ao mesmo tempo um toque de modernidade, com imagens de revista acabada em Living, e de algo antigo, de pão quente com manteiga pela manhã, de pequenos-almoços em casa de forma descontraída e café de cevada, espigas numa jarra, sol a entrar maroto pela janela que dá para a cozinha. Eu, que lia o jornal, perdi a concentração. Desenganem-se os que pensam que uma mulher que cheira a torradas é sexo abstracto. Não. É sobretudo erotismo. É um pouco como o mito de Bocage, que , reza a história, ia para a porta da churrascaria nas Portas de Santo Antão, ao Coliseu, e almoçava "só com o cheiro".

Oiçam





Nick Cave & Warren Ellis, The Proposition OST
The Knife, Silent Shout

Eu vou...

... ao Maxime. Qualquer dia.

Jesus e o Metro

Eu adoro o Metro. Metro, o jornal, entenda-se. Se bem que não tenho nada contra o metro, o meio de transporte. Mas não tem tanto salero. Metro, o jornal, é que é. Na edição de sexta-feira, dia 7, a página 7 (acham que tudo isto é coincidência?) tem uma noticiazinha discreta, assinada por Daniel Denisiuk, do Metro Polónia. Diz o Daniel que:

Jesus terá caminhado sobre uma camada de gelo num lago da Galileia e não sobre água em estado líquido, como referem três dos quatro textos do Evangelho, segundo um estudo publicado esta semana na revista científica americana "Journal of Paleolimnology". Esta surpreendente declaração é do cientista Doron Nof que, em entrevista ao METRO Polónia, garante que Jesus Cristo aproveitou o facto de, na época, no Norte de Israel estar muito frio e caminhar pelo gelo no lago Tiberíades, que teria "dez a quinze centímetros de espessura e 30 metros quadrados". Questionado como era possível Cristo ter ido ter com um barco, o cientista respondeu não estar seguro de que "tenha ido tão longe" como se quer fazer crer. Doron Nof, professor de Oceanografia na Universidade de Miami, EUA, explicou ainda que, como a camada de gelo estava parcialmente coberta de água, os observadores (os apóstolos), situados a alguma distância da cena, não veriam o gelo e poderiam acreditar que uma pessoa estivesse "a caminhar sobre a água". Doron Nof também explicou o caso de Moisés, que terá separado as águas do Mar Vermelho. Segundo Nof, foram os ventos moderados a soprar durante horas no golfo do Suez que afastaram as águas de fraca profundidade num muro de 2.5 metros de altura. Depois, bastou uma simples mudança na direcção dos ventos para fazer desmoronar esse muro de água.

Mais à frente, o Metro revela que em Portugal há dois milhões de pobres e que muitos são empregados. Os dados, que representam 20 por cento da população, são do Presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza/Portugal, o padre Jardim Moreira. O religioso, sem nunca revelar os critérios que lhe permitiram chegar a semelhante cifra, tem ainda pérolas como "o trabalho tem que estar ao serviço das pessoas e não as pessoas ao serviço do capital". Ainda mais à frente, o Metro promove "a revolta dos piqueniques". Pode ler-se "durante a semana, prepare uma merenda e aproveite a hora de almoço para descansar ao ar livre. Vais [assim mesmo, na segunda pessoa] ver que o resto do dia sabe bem melhor". Eu adoro o Metro.