Dia 11, próxima quinta, já tenho lugar assegurado para Heróis, nova coreografia de Emmanuelle Huynh, do Centre national de danse contemporaine d’Angers. Porque sim.
segunda-feira, maio 08, 2006 at 22:25 Labels: { Dança } {0 comments}
Dia 11, próxima quinta, já tenho lugar assegurado para Heróis, nova coreografia de Emmanuelle Huynh, do Centre national de danse contemporaine d’Angers. Porque sim.
at 22:23 Labels: { Cinema } {0 comments}
De 16 a 21 de Maio, há Monstra em Lisboa. O programa não é extraordinário, mas é sempre uma excelente oportunidade.
at 22:15 Labels: { Ironias } {0 comments}
Não, não abandonei isto. Estou é com um problema grave com a organização do tempo, do ponto de vista convencional. É que o dia só tem 24 horas e eu só tenho um cérebro. Ou assim penso (no caso do cérebro).
quinta-feira, maio 04, 2006 at 23:07 Labels: { Ironias } {0 comments}
E há dias em que é tudo.
segunda-feira, maio 01, 2006 at 21:31 Labels: { Cinema } {0 comments}
Primeiro que tudo, uma ressalva: eu não estive nas duas primeiras edições do IndieLisboa. Pelo que, como é óbvio, não tenho dados de observação directa que me permitam fazer qualquer análise comparativa. Assim, este balanço é deficitário. Ainda assim, vou tentar. Num plano organizativo, enquanto espectador, saio bem impressionado. E atenção que a minha expectativa era já algo elevada: quem está na origem do Indie é a Zero em Comportamento, antiga Geniuzastare, associação que começou o seu trabalho com ciclos no cinema 222, há anos. Acompanho o trabalho dos seus responsáveis desde o início, desde o tempo em que a sala do Saldanha tinha três ou quatro pessoas para ver filmes, inéditos em Portugal, de Peter Greenaway, por exemplo. Desde aí que demonstraram profissionalismo e qualidade no trabalho, quer de organização quer de programação, para além de um compromisso para com o cinema independente e o seu desenvolvimento. Neste indieLisboa 2006 senti o mesmo espírito, numa dimensão vários furos acima. A informação sobre a programação e procedimentos para o espectador foi atempada e explícita. Não dei conta de perturbações nas sessões, e assisti a quase todos os filmes da competição internacional, para além de outros noutras secções. Apenas alguns atrasos nas sessões, devidamente explicados e com correspondente pedido de desculpas por parte de alguém da organização, e perfeitamente aceitáveis. O merchandising era acessível e bem interessante, do ponto de vista gráfico e de variedade. Questão a corrigir é a de não haver aquisição de bilhetes centralizada, sendo necessária a deslocação a cada um dos cinemas para comprar os ingressos para as respectivas sessões, dificultando, por exemplo, a questão dos descontos no preço para compra de bilhetes em quantidade. Porém, em termos quantitativos, o festival bateu de longe o número de espectadores de edições anteriores, o que é, de facto, bom sinal. Do lado da programação, e sabendo o que sei sobre os anos anteriores, este pareceu o ano da adolescência do Indie. Agora dividido entre os cinemas King, Londres e Fórum Lisboa, num total de seis salas, o evento apresentou dezenas de filmes, para todos os gostos, e dividiu-se em secções esclarecidas, para além das de competição. Especial foco para IndieMusic, que mostrou cinema sobre música (rezam as crónicas que com exemplos muito bons) e para Observatório e Laboratório, dedicadas a experiências e cinemas singulares, realizadores a seguir e consagrados, numa programação mais que variada. Observatório, por exemplo, trouxe inúmeras ante-estreias de filmes já previstos para o circuito comercial, o que dá a entender que o Indie não quer ser evento soturno e clandestino, só para melómanos. Em competição, e sublinhando que só podiam integrar a mesma primeiras ou segundas obras, estiveram filmes que oscilaram entre o falhado, o interessante ou o brilhante, o que é positivo. Com cinematografias tão distintas como a canadiana, a asiática ou a sul-americana, foi uma programação atenta e à procura de novos valores, mais do que créditos firmados. Play, da chilena Alicia Scherson, acaba por levar o prémio máximo, e foi um dos três filmes que não vi. The Death of Mr. Lazarescu confirma o percurso premiado e sai de Lisboa com uma justíssima Menção Honrosa. Do lado do Público, parece natural o sublinhado claro a Movimentos Perpétuos, de Edgar Pêra, seguido de perto por À Flor da Pele, de Catarina Mourão, ou Mirrormask, de Gaiman e McKean. Em termos de cinema, concretamente, e a partir do que vi e do que ouvi, ficam-me algumas ideias. Primeiro, a de que o cinema independente, em termos de meios e condições, se mantém claramente nas franjas dos esforços financeiros globais. Praticamente todos os filmes a concurso são de baixíssimo orçamento, assumido sem quaisquer problemas pelos respectivos realizadores. Não se ouviram, felizmente, queixumes ou resmunguices sobre isso mesmo, sendo que todos os realizadores presentes pareceram confortáveis com as situações, o que não deve ser confundido com resignação. Segundo, a de que o cinema independente actual se foca muito na experiência humana no seu percurso individual, ao contrário de uma tendência que reflectia a relação entre homem e tecnologia há uma década, por exemplo. Por reflexo da contemporaneidade ou simples procura de temas não recriminados, os filmes independentes vistos parecem querer deter-se sobre a realidade humana enquanto experiência individual de procura, e não de partilha ou comunicação. Sinal disso mesmo é muitos terem a solidão ou o desencanto como tema central. Terceiro, a de que muitos argumentos se alicerçam num vazio, na mesma medida em que Seinfeld era uma comédia sobre o nada. Parece ser este caminho meio perdido, que simultaneamente é sobre tudo e sobre nada, qua atrai realizadores para construirem os seus filmes. Quarto, uma convergência clara entre ficção e documentário, assumida ou não. Enquanto objectos que reflectem um conjunto de noções, os filmes vistos parecem recorrer ao cinema documental como muleta formal de legitimação, não no sentido científico do termo, mas como forma de sublinhar uma determinada natureza independente e, ao mesmo tempo, veicular de forma menos estética, se se quiser, o que está na base do seu argumento e, assim, conseguir atingir o espectador de forma mais eficaz. No fim e no todo, aplauso ao Indie.
at 21:30 Labels: { Cinema } {0 comments}
O senhor Lazarescu está condenado. Dói-lhe o estômago, vomita desde manhã, dói-lhe muito a cabeça. É um velho coitado que vive em Bucareste, com três gatos, uns vizinhos pouco prestáveis, um problema com o álcool, uma filha que emigrou para o Canadá, um apartamento sórdido. Está condenado, os médicos vão dizer-nos que tem um neoplasma no fígado e pressão intra-craniana. Cancro e traumatismo, qualquer um dos dois fatal. The Death of Mr. Lazarescu é, por título, literal: são os 153 minutos da literal morte do senhor Lazarescu. E aqui a primeira perfeição do filme de Cristi Puiu, uma ode à mortalidade. O espectador assiste, de forma consciente, literal e completa, à morte do senhor Lazarescu. Em termos abstractos ou filosóficos, se quisermos, no limite, todos assistimos à morte uns dos outros, na medida em que todos estamos a morrer a cada segundo. Mas se quisermos restringir um pouco a coisa, e não caírmos no radicalismo de considerar a morte o singular instante em que o músculo maior pára de bater, chegamos à morte do senhor Lazarescu: duas horas e meia literais em que o personagem está, literalmente, a morrer. A cada segundo o organismo do senhor Lazarescu piora, o cérebro sente a pressão e abranda cognitivamente, o fígado sente o cancro a alastrar e desiste de si mesmo. E isto era o suficiente para matar o senhor Lazarescu em duas horas e meia? Não. E aqui a segunda perfeição do filme de Cristi Puiu: o senhor Lazarescu morre em duas horas e meia porque vive em Bucareste, com vizinhos pouco prestáveis, hospitais surreais, médicos absurdos, uma filha que emigrou para o Canadá, ambulâncias que percorrem a noite de hospital em hospital, o azar de um acidente de autocarro que vitima algumas pessoas e domina as cabeças romenas numa noite. Quando o senhor Lazarescu entra na ambulância para o hospital, já o filme se afastou bem do início e o espectador já percebeu que a Roménia, para além do cancro e da pancada na cabeça, é fatal. Quando o senhor Lazarescu, espirituoso e mal-humorado, chega ao primeiro hospital, já o espectador percebeu que não vai ser o primeiro, nem o último, e que a morte apenas se acelera ao comando do médico estalinista que lhe chama bêbado (o que é verdade) e que o despacha para outro hospital, porque está tudo cheio por causa do acidente de autocarro. Os romenos do acidente têm sangue à vista, o senhor Lazarescu só tem bafo de álcool e mau feitio à vista, a morte é relativa. A morte dos romenos do acidente é um drama, coitados, a morte do senhor Lazarescu nem se vislumbra. Mas nós vemos o senhor Lazarescu a morrer. E antes disso, a descer aos infernos, a perder a capacidade de fala, a não ter capacidade para assinar um termo de responsabilidade para ser operado e, consequentemente, a ser recusado por um médico legalista que o despacha para o próximo hospital, enquanto procura, prioritariamente, um carregador Nokia para o seu telemovel. E o senhor Lazarescu morre? Não. E aqui a terceira perfeição do filme de Cristi Puiu: o senhor Lazarescu não existe. Mas nós vemos o senhor Lazarescu a morrer aos bocadinhos, a vomitar sangue, a entrar e sair de hospitais, a fazer um TAC ao cérebro. E ao fim de cinco, sete minutos (como o lusco-fusco) já nos esquecemos que o senhor Lazarescu não existe e olhamos para o senhor Lazarescu como alguém que está, literalmente, a morrer. Ou seja, Puiu filma de forma brilhante uma ficção com cara de realidade. Não é, assim, Puiu que mata o senhor Lazarescu, mas a Roménia, o sistema de saúde romeno, os vizinhos romenos, as ambulâncias romenas, a noite romena, os médicos romenos, os acidentes de viação alheios romenos. E, assim, Cristi Puiu filma uma Roménia (haverá outras) que mata o senhor Lazarescu. The Death of Mr. Lazarescu é um filme duro, pensado, difícil, literal e ficcional, realista e abstracto, sobre a mortalidade e sobre o absurdo da realidade. Foi premiado em Cannes em 2005, com o prémio Un Certain Regard, e noutros tantos festivais, e não deve sair de Lisboa sem uma menção especial. É cinema independente no seu melhor, com tudo no sítio, incluíndo o espectador. Não há muita gente a fazer filmes assim.
at 21:29 Labels: { Cinema } {0 comments}
E um dos filmes em que eu depositava maiores expectativas revela-se um fracasso, o que é sempre desagradável. Expectativas porque é irlandês (e eu tenho uma forte costela irish de origens desconhecidas), porque é o primeiro filme de um fotógrafo (o que é sempre interessante), porque segue os Viajantes, comunidade nómada ultra-pobre que vive em roulotes nas zonas industriais degradadas de Dublin. Tudo era potência, e tudo fracassa. O filme é de Perry Ogden, fotógrafo britânico que há cinco anos lançou um trabalho fotográfico sobre esta mesma comunidade. E vai daí, sem experiência cinematográfica, o senhor parte para um filme sobre os mesmos “pony kids” que deram nome ao álbum fotográfico. O resultado é, frontalmente, mau. Primeiro, porque é um falso documentário. E isso raras vezes é bom. Ogden filma Winnie, um dos dez filhos de Rosie, uma miúda perdida que larga a escola e anda por Dublin, à deriva. Nunca assumindo que se trata de um documentário, Ogden prefere filmar em regime ficcional hiper-realista militante. Só que o resultado não é carne nem peixe, e as sandes mistas às vezes têm o fiambre estragado. A convergência entre documentário e ficção, nestes moldes, lembra-me sempre o neo-realismo português, que tentava vender por ficção um conjunto de ideias pré-concebidas sobre o mundo. Os filmes com documentário dentro, penso eu, resultam quando não se preocupam com isso, isto é, quando a parte documental emana do resto. Quando o realizador pensa, à esperto, “pera aí que eu vou tentar mostrar isto através daquilo”, o caldo está entornado. Segundo, Ogden não compreende que um filme não é uma reportagem fotográfica. E isso é a morte do artista. Os longuíssimos 87 minutos do filme têm o mesmíssimo ponto de partida e chegada. Não há qualquer percurso narrativo, apenas um “mostrar” da miséria e pobreza dos travellers. Vemos Winnie a lavar a cabeça numa torneira à beira da estrada, a roubar qualquer coisa numa loja, à pancada com uma colega no recreio da escola antes de ser suspensa. E tudo se resume ao facto de ser uma criança de uma comunidade ultra-deprimida, no sentido social do termo. São tudo faces de um mesmo dado. Ogden parece sempre querer mostrar diversos ângulos de um mesmo problema, todos eles já repisados. E isso é o quê? É fotografia. É foto-reportagem. Não é cinema. Pior ainda, e isto é o que me irrita seriamente, Ogden confunde a forma com a substância. Winnie, por si só, com a sua pobreza e miséria, não é um bom filme. É ele, Ogden, que tem que criar um objecto que aproveite todo o interesse que Winnie pode ter em imagem. Qual vampiro, Ogden devia ter sugado tudo o que pudesse daquelas pessoas e construído um objecto que as revelasse, cumprindo-as. No entanto, limita-se a mostrá-las, numa ideia quase de cinema-verité, apostando numa suposta transparência. É o tipo de filme que se aproveita do facto da maior parte dos espectadores, estou em crer, confundir conteúdo com forma, filme com cinema. Shame on you, Mr. Ogden, shame on you.
at 21:28 Labels: { Cinema } {0 comments}
Primeira e mais importante premissa: Shark in the Head é a primeira longa-metragem da checa Maria Procházkóva. E isso vê-se. Não no sentido de ser um filme inconsistente e verde, mas sobretudo o de ser um objecto mais de exploração cinematográfica (sobretudo técnica) do que um trabalho de fôlego. A realizadora elegeu Seman, um esquizofrénico simpático que habita em Praga, como personagem central do filme, e o mesmo nunca descola da cabeça deste. Os dias de Seman são passados à janela do apartamento de rés-do-chão ou na rua, de calções e camisola de alças, com um cigarro ao canto da boca, a meter-se com os transeuntes. Os dias de Shark in the Head, por seu lado, oscilam entre as imagens de Seman a rebuscar o lixo alheio ou composições de animação que reflectem a cabeça do checo, constituindo o filme mais “simpático” da competição. Os 75 minutos de Procházkóva provocam muitos sorrisos, e isso é um dos seus melhores alibis. É um filme de experimentação de caminhos, e muitos deles têm a concretização que merecem, resultam bem, resultam. Seman, enquanto esquizofrénico, emana uma honestidade que apanha qualquer espectador na curva e puxa-o para o seu lado. E, honra lhe seja feita, o filme nunca quer ser mais do que é, nunca se arma ao pingarelho, nunca tenta golpes de asa ao jeito suicída de Ícaro. Mas como um filme simpático não é, por si só, um grande filme, Shark in the Head fica-se pelo patamar que define à partida. Cumpre-se, mas nunca se revela extraordinário. Apresenta-se, mas nunca parte para cima do espectador para lhe dar a dentada fatal. O mesmo é dizer que, para primeira obra, está muito bem, sim senhor, mas no futuro terá mesmo que ser visto como “a primeira obra” de Maria Procházkóva. Não é filme para ganhar prémios, nem coros de elogios, mas tomara muitos terem a respiração que Maria imprime à película. E isso já é de louvar.
at 21:27 Labels: { Cinema } {0 comments}
Loeffen é um pobre diabo que trabalha numa plataforma petrolífera, em cu de judas, Canadá de cima. Tem um cão, Blackie, que é muito mais que um cão. A aldeia mais próxima é Zama, em cu de judas, Canadá de cima. Loeffen move-se entre a plataforma petrolífera e Zama, onde vai comprar alguma coisa, tomar o pequeno-almoço ou meter conversa. O caminho entre a plataforma e Zama é uma estrada perdida de floresta, onde não passa vivalma e a neve domina por completo. Durante 75 minutos seguimos Loeffen e Blackie pela sua rotina e pela sua solidão, apanhando o solstício de Inverno, o dia mais pequeno do ano e a noite mais densa de uma vida pasmada em cu de Judas. Snow, do canadiano nascido turco Hakan Sahin, é um filme que destila tanto beleza como solidão. Zama existe mesmo, assim como Loeffen, Blackie e restantes habitantes. Sahin, presente na sessão no cinema Londres, explica que trabalhou dez anos em Zama, e que todos os amadores actores são pessoas reais, com aquela realidade. Porém, o filme está, felizmente, longe de ser um documentário ou ter pretensões a tal. Antes centra-se na experiência humana extrema de viver em cu de judas, com paisagens inóspitas em fundo e uma paranóia crescente (que o próprio Sahin diz ter sentido a partir de certo momento). Profundamente melancólico, Snow explora a vivência de Loeffen e demais personagens num tom quase abstracto, mas tocando a realidade de forma dura. Nunca o sentimento do espectador é de pena, pois que Loeffen, ainda que só até ao tutano, aceita o seu quotidiano como a sua própria natureza lhe indica. Ninguém parece deprimido no sentido clínico, urbano e contemporâneo do termo. Porém, há um fundo de solidão em todos os olhares. Não o mesmo que habita os idosos no interior dos países europeus, que se sentem longe de tudo sem culpa própria, mas antes uma ideia de afastamento escolhido por honras da vida, porque um caminho os levou ali. Zama é um cenário aceite por si mesmo, tal como a plataforma. Loeffen, personagem dúbio que tem tanto de modesto como de complexo, oscila dentro da sua própria realidade ao sabor da neve. Snow tem uns pós de Lynch, um cheiro dos irmãos Coen e um pouco de algo mais, e tem um realizador a crescer, com sensibilidade para a imagem que filma e para o que está para além dela.
quarta-feira, abril 26, 2006 at 14:47 Labels: { Cinema } {0 comments}
E eis senão quando surge um gradessíssimo favorito ao prémio da Competição Internacional. Um pouco mais pequeno que o Indiana, do fotógrafo Daniel Blaufuks, é um daqueles filmes singulares que só aparecem de vez em quando. Misto de road-movie com documentário aberto, em registo de radiografia do país que somos e que temos, Um pouco mais pequeno que o Indiana centra-se na viagem de Blaufuks, ao volante de um velho Mercedes, numa rota imaginária criada a partir de velhos postais. O realizador montou a camera como pendura e filma as estradas, ruas, pessoas, lugares, vivendas e paisagens que lhe aparecem pela frente, conversando com o espectador sobre o estado a que chegámos. A viagem tem por cenário o Portugal abrasador na ressaca do Euro2004, trinta anos depois da revolução, trinta anos em que podíamos ter evoluído assim e desenvolvemos assado, trinta anos em que se fez muito mas se perdeu muita oportunidade. O olhar de Blaufuks é verdadeiro e não cede um milímetro, é fatal, meticuloso, focalizado, sem perder o sentido de humor. O equilíbrio é difícil, mas a realidade ri-se de si mesma. Pelo meio há reflexões sobre a difícil portugalidade, sobre a falta de trabalho sobre a memória colectiva, sobre o passado recente e o menos recente, há imagens de arquivo de estrangeiros a dizer que o Estoril é "muito lindo", há um postal de uma criança a desejar feliz aniversário a Salazar, há os Dead Combo a sublinhar todos os quilómetros com o assumido western vadio. O trabalho estético de Blaufuks é intocável, e os pontos de contacto com a sua carreira de fotógrafo são evidentes. Os planos são de esteta, sejam de uma vivenda absurda ou de uma porta de hotel. Blaufuks fala mesmo de cores, de como o céu antigamente era azul e agora é branco, mas nunca num sentido de saudosismo. Antes passa a ideia de como poderíamos ser outros, de como podíamos ter sido outros, de como o país que temos é o país que somos. De início há imagens de Lisboa a meio do século XX, irreconhecível, por fim há uma bandeira queimada pelo sol que se prende a si mesma no mastro, como que a furtar a cumprir-se. Um pouco mais pequeno que o Indiana não é documentário, não é ficção, não é jornalismo, não é manifesto. É um algo indescritível, um misto de visão e assumpção, um misto de crítica com análise, um misto de tristeza e esperança. Que é o que somos.
terça-feira, abril 25, 2006 at 19:04 Labels: { Cinema } {0 comments}
É, até ao momento, a minha maior desilusão. Double Suicide Elegy é idiota até à medula. A primeira longa-metragem do japonês Toru Kamei faz muita coisa que não se deve fazer: arma-se ao pingarelho, aposta em filosofia barata, é perfeitamente desequilibrado em termos de forma, não acaba onde deve. O argumento assenta em Kyoko e Bandai, uma agente imobiliária e um advogado de yakuzas que reconhecem um no outro os traços de desespero que os assola. Perante um "contrato" entre os dois estranhos, que passam duas horas por dia no mesmo quarto, o filme aposta no suicídio como objectivo nunca concretizado. O japonês ainda segura o filme dentro de determinada onda até à hora, altura perfeita para encerrar uma espécie de alegoria sobre a vida moderna e a forma como a psique individual pode ou não ser acedida por outros. Não seria um grande filme, mas passava no teste do "interessante". Só que como não se fazem longas-metragens de apenas uma hora, o senhor teve que esticar a coisa mais uns trinta minutos. E o que é que decide fazer? Mete a esposa e esposo dos personagens centrais ao barulho, com vinganças idiotas, crises de cíumes, e descobertas desnecessárias. A coisa descamba, a onda psicológica perde-se por completo e o resultado é um filme que devia passar a ser a nova definição de "idiotice", que acaba a tentar recuperar algum elan, o que só torna as coisas piores. Se este leva a taça, eu arrumo as botas (cinematográficas).
at 12:57 Labels: { Cinema } {0 comments}
Drifting States, de seu nome Les États Nordiques no original, é a primeira longa-metragem de um ex-crítico de cinema, Denis Côté. E, mais uma vez, as premissas são muito boas: um homem toma conta da mãe comatosa, num ambiente depressivo quanto baste, e decide acabar com o sofrimento da senhora, com a ajuda de uma almofada. Profundamente abalado por toda a situação, mete-se no carrito e conduz até Radisson, uma vila a 1500 Km de Montreal com 400 habitantes, criada e mantida em função de uma central hidroeléctrica. A partir daqui, Drifting States revela-se na sua verdadeira essência: um misto de ficção e documentário, com um personagem em fuga moral e muitos personagens reais que se revelam no fim do mundo. E é aqui que Denis Côté esbanja o filme. Do seu lado, não aproveita ao tutano, como devia, a potencialidade de alguém martirizado pela eutanásia. Por outro lado, não é minimamente feliz com as personagens reais que se lhe deparam, com as suas opiniões, olhares, sentidos. Creio que dizia a Leonor Areal, do Doc-Log, há uns tempos, que não há documentário que resulte se não for feliz com quem encontra. E aqui o que resulta é um filme interessante mas que nunca descola, nunca tem golpe de asa, nunca se afirma. Antes mantém um low profile que não foi pensado e portanto perde-se. O trabalho de Côté, sendo claramente low-budget como é, centra-se em planos apertados do personagem central, filmados em cima do joelho, que resultam razoavelmente bem. Mas quem esbanja um filme não pode apenas ser competente a filmar. Sendo primeira obra, é de seguir o percurso do canadiano. Mas também não deve ser ele a levar a taça.
at 12:33 Labels: { Cinema } {0 comments}
Copio a sinopse de Grain in Ear que o festival apresenta: "O filme de Lu detém-se em Cui Shunji, uma jovem mãe coreana a viver à margem da sociedade chinesa. Com o marido na prisão e uma criança pequena para sustentar, nada mais resta a Cui senão continuar a vender kimchi (um prato coreano muito popular no nordeste da China) numa roulotte ilegal a trabalhadores fabris ao longo de uma estrada industrial desolada. Quando tudo finalmente parece estar a correr bem (com o início de uma relação e a legalização da sua actividade graças à ajuda de um polícia), Shunji apercebe-se da fragilidade da sua situação e decide-se por uma vingança impiedosa." Ora, Lu é Zhang Lu, realizador chinês. E Grain in Ear é, primeiro que tudo, um filme parado. Totalmente filmado com planos fixos (à excepção do último), é árido, rude, duro como pedra. Todo o trabalho cinematográfico é feito, praticamente, pelo espectador, sendo que Lu quase apenas se limita a apresentar as imagens "como elas são". É o cinema-janela. No plano, os elementos (pessoas, animais, veículos) limitam-se a entrar e a sair, e nós temos uma janela fixa, por onde nem sequer podemos meter a cabeça de fora e olhar à volta. A liberdade de visão é nula. Não há banda sonora, nem qualquer evolvência emocional. A única fuga é o humor emanente dos factos, como uma galinha azul porque uma criança encontrou uma lata de tinta. A vida de Cui é no limiar da depressão, os cenários são de terra batida numa China interior onde tudo se move lentamente. Ou seja, as premissas até eram interessantes, mas Lu consegue esbanjar um conjunto de questões (a adaptação de uma coreana à comunidade chinesa, por exemplo) porque insiste numa aridez demasiado pronunciada. O filme torna-se penoso de ver, e não dá compensação estética pelo esforço. É um trabalho apurado de realização, pensado ao milímetro, mas sem margem de manobra e sem pontos de fuga. O que não facilita.
at 12:17 Labels: { Cinema } {0 comments}
E ao terceiro dia, o mais sério candidato a Prémio do Público. Nada mais nada menos, senhoras e senhores, é ele, o grande, o sublime, o gajo, o mestre Edgar Pêra. Pois é, impõe-se declaração de interesses: eu considero Edgar Pêra um génio. Cá está. Tudo o que o tipo fez até à data é genial ou perto disso. A Janela - Marialva Mix era soberbo em conteúdo e forma. E este Movimentos Perpétuos, documentário com e sobre Carlos Paredes, tinha condições, à partida, para ser outro pedaço incontornável da história do cinema português. E Pêra não desilude. O ponto de partida (e de chegada) são palavras do próprio Paredes, em concerto, onde explicou como trabalha, o que pensa, como vive, como vê. E Pêra faz, declaradamente, improvisação sobre a música do mestre da guitarra portuguesa. Mantém os elementos básicos de um documentário (entrevista, explicação), mas formata-os com retalhos de imagens, planos de fuga, filtros de cor, criando uma visão da portugalidade que não passa pela transparência das coisas. De uma actualidade desarmante, Movimentos Perpétuos pega nas palavras de Paredes e dá-lhes interpretação visual à data, seja sobre migrantes, seja sobre cidades, seja a vida. O trabalho de Edgar Pêra ascende, assim, ao objectivo que possivelmente detinha à partida: o de estar à altura da melancolia com futuro que se ouve em "Verdes Anos", o de honrar a portugalidade que emanava da guitarra de Paredes. E fá-lo sem nunca se libertar da personagem Carlos Paredes, sem nunca se perder em ideias globais e esquecer a mão que lhes dava música. Enquanto filme, é uma homenagem específica e personalizada ao mestre, mas não enjeita a possibilidade de ser uma visão da portugalidade, a da veiculada pela guitarra. E essa é a melhor homenagem que se pode fazer a Carlos Paredes, a de reflectir de outras formas o indescritível que nos deixou enquanto povo. O Animatógrafo curva-se. (Mais um a não perder quando estrear comercialmente).
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Andrew Bujalski é um geek. Sem margem para dúvidas. E Mutual Appreciation tem Bujalski no papel de um geek, com um amigo bizarro com a mania que é músico e uma namorada pouco segura de tudo. É este triângulo que segura o filme, um profundo low-budget que pisca o olho continuamente a Hal Hartley, à Nouvelle Vague, a Cassavetes, a Jarmusch. Filmado em cima do joelho, a preto e branco, a tentativa é a de fazer uma comédia romântica desencantada sem tema central. As três personagens vagueiam pelo filme à procura de si e dos outros, com diálogos de quem não se sabe exprimir ou é demasiado honesto. Bujalski tem o condão, ainda assim, de não procurar o vazio à la Seinfeld, mas antes tentar passar uma zona de sombra real, com personagens inadaptados ao meio, numa Brooklin cinzenta que nunca deixa ver o skyline de Manhattan. É a inaptidão para a vida, ou a tremenda honestidade para com a mesma, que atrai Bujalski, e o humor surge por arrasto, porque a honestidade extrema faz-nos sorrir. Em termos de realização o trabalho está longe da originalidade (o filme vive quase exclusivamente dos actores), mas também é apenas o segundo filme do norte-americano e a ideia também é muito ainda de exploração e não de consistência fílmica. Não será um novo Jarmusch, porque lhe falta o blazé e o tabaco, mas é um caso a seguir. Ainda assim, e não estando vistos nem metade dos filmes a competição, Mutual Appreciation não deve levar o prémio para casa. Mas para Bujalski, presente na sessão, o prémio está ganho e era outro: nunca teve um cinema cheio a ver um filme seu.