
quinta-feira, junho 29, 2006 at 23:31 Labels: { Ironias } {0 comments}

at 22:14 Labels: { Dança } {0 comments}
Como é óbvio (e só um cego como eu é que não queria ver isto) agora já não tenho pachorra para escrever sobre o Alkantara como tinha na altura. Fica a ideia que Tragedia Endogonidia, World in Pictures e An Oak Tree foram espectáculos maiores, que cumpriram todas as expectativas e superaram algumas, trazendo a Lisboa o que de mais arrojado se está a fazer em termos de artes performativas, de teatro, de questionamento do espectáculo enquanto representação. Aguarda-se um novo Alkantara com ainda maior fôlego, a ver se a malta acorda (houve salas bem despidas em coisas espantosas, o que é vergonhoso). E quanto ao Lisbon Village Festival, os senhores da organização, leia-se EGEAC, acharam que a malta tinha ideia, interesse e disponibilidade para ir passar dias completos ao São Jorge. Vai daí criaram bilhetes diários únicos, a 8 euros. Quem queria apenas ver Volver, o último Almodovar, em projecção digital, pagava tanto como o papuço que mamou as sessões todas do dia. O cartaz era no mínimo ridículo (os filmes a competição em longas não se contavam pelo dedos de uma mão), houve péssima promoção do evento, eu não meti lá os pés. É o que acontece quando umas cabecinhas pensantes que recusaram o Indie no São Jorge quiseram arejar a sala e tirar-lhe o cheiro a bafio com "malta curtida". Resultados?
terça-feira, junho 27, 2006 at 11:32 Labels: { Desabafo mental } {0 comments}
Uma intoxicação alimentar é pior que duas putas coxas a correr a maratona.
quarta-feira, junho 21, 2006 at 09:20 Labels: { Ironias } {0 comments}
Ok, ok, isto tem andado assim meio aos papéis, mas não tá esquecido. O Alkantara acabou e ainda tenho posts para escrever, o Lisbon Village Festival começa e tenho posts para escrever (sobretudo porque não vou lá meter os pés), a engenheira Ilda Capinha anda por aí e ainda tenho post para escrever (AH, isso é que vai ser um texto), etc, etc, etc.... Just wait and see.
terça-feira, junho 13, 2006 at 18:51 Labels: { Dança } {0 comments}
E como não se podem ganhar todas, eis senão quando surge aKabi, da turca Aydin Teker. Ora, vejamos o que diz a informação oficial do festival: "os bailarinos calçam sapatos pesados, de diferentes alturas, transformando os seus corpos em formas híbridas. Às vezes, parecem criaturas imaginárias desajeitadas, praticando rituais estranhos, noutros momentos são corpos tecnológicos, máquinas orgânicas, levadas ao limite da sua existência física". Decompondo esta frase, temos uma primeira parte verdadeira e uma segunda falsa. É verdadeiro que "os bailarinos calçam sapatos pesados, de diferentes alturas". Mas tudo o resto, verdadeiramente, é falso. Não é verdade que pareçam "criaturas imaginárias desajeitadas, praticando rituais estranhos". Não é verdade que "noutros momentos são corpos tecnológicos, máquinas orgânicas, levadas ao limite da sua existência física". Basicamente, durante uma hora, não passam de bailarinos com sapatos pesados. São efectivamente criaturas desajeitadas, mas nada têm de imaginárias. Estão mesmo ali, são palpáveis, e não passam de meia dúzia de papuços a quem alguém conseguiu convencer que calçar uns sapatos grandes e estar em cima de um palco a mexer-se como carapaus acabados de pescar é dança da boa. Ora, meus caríssimos amigos, nem dança, muito menos da boa. aKabi ou me passou muito muito ao lado, ou é uma enormíssima desilusão. A não repetir. O bom Alkantara segue dentro de momentos.
at 18:31 Labels: { Dança } {0 comments}
À partida, o novo projecto de Sónia Baptista era uma completa incógnita. Na informação disponibilizada no CCB estava rotulado como "performance" (o festival indicava-o como "dança"), o que fazia claramente aumentar a expectativa. Mais ainda, eu nunca tinha visto nada da criadora. E o resultado destes factores foi Subwoofer. Primeiro que tudo: Sónia Baptista tem uma capacidade extraordinária de criação de personagem. Subwoofer assenta na ideia de perseguição de uma mulher a um homem, de um vampiro a uma vítima. Mulher-vampiro, Sónia pré disponibiliza-se à voz, corpo, imagem e som de uma forma fantástica, compondo uma personagem bizarra, ao mesmo tempo sólida e enigmática, fatal e feminina. Num ecrã projectam-se filmes de perseguição, a mulher-vampiro que surge à vítima de outra realidade, a mulher-fatal que diz à vítima quero morder-te com enorme carinho. No espaço físico, Sónia cria a sua presença em enorme interacção com imagem-som, como se numa casa de bizarrias onde passam filmes mudos em fundo e as janelas estão abertas. A capacidade criativa da criadora é inesgotável, e o resultado é um espectáculo claramente performativo, onde o corpo é mais um elemento ao serviço de uma personagem e de uma ideia, não tentando chamar a si o protagonismo. Ou seja, toda a estrutura de Subwoofer rodeia a expressão corporal de Sónia, e não sua dança. A mulher-vampira sente-se, não se vê dançar. A vítima pressente, não vê movimento. Os dentes mostram-se, mas não há temor. O ambiente criado em Subwoofer aponta ao glamour de cabaret alemão, a lembrar Kurt Weil, a lembrar açucares envenenados na voz colocada de uma mulher no controlo, a lembrar uma natureza a tempos frágil ou possessiva, que se compensa de forma eterna com alguém que se persegue. Obrigado, Sónia Baptista. O Alkantara segue em saldo claramente positivo para ao Animatógrafo.
at 17:28 Labels: { Política } {0 comments}
Declaração de princípios (eu adoro começar assim): eu votei no Guterres, nos dois mandatos. Estive, aliás, envolvido na campanha para o primeiro mandato. Entusiasmei-me, não podia (não posso) com o Cavaco e era preciso uma lufada de ar fresco. Guterres prometia. Nos comícios, era sentir o envolvimento, o sentimento de pertença a uma esperança, mais do que a um grupo. No fim do primeiro mandato, ainda assim, votei Guterres na ideia do "agora é que é". E porque não existiam alternativas. Hoje não estou arrependido, mas a desilusão foi enorme, a inépcia contagiante, o esbanjar oportunidades uma rotina. Ainda assim, houve Carrilho no Ministério da Cultura, houve a Estratégia de Lisboa, houve uma noção mais humana das questões. Mas ficou-se. Portanto, eu sei que António Guterres foi um mau primeiro-ministro. Porque um bom primeiro-ministros não só pensa nas coisas, como executa. Guterres, e apesar de todos os constrangimentos formais, não tem grande justificação para não ter feito grande coisa. Ele sabia-as, mas não fez nada com esse conhecimento, e isso é fatal. Não lhe nutro ódio, mas não lhe reconheço, hoje, admiração enquanto político nacional de cariz executivo. Mais: conheci António Guterres ia o primeiro mandato a meio. Afável, troquei apenas algumas impressões genéricas sobre questões banais, ao que me respondeu com enorme sentido de humor. Pelo que sei que António Guterres é uma pessoa substantiva, longe do "político profissional". Dentro desta medida, leia-se a entrevista hoje ao jornal "Público", sobre o seu primeiro ano à frente do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Guterres admite erros, admite onde está a falhar e porquê, analisa a Europa e os seus problemas, olha para trás e vê a Estratégia de Lisboa, conhece a situação actual no mundo como poucos. Sabe que as questões demográficas e de falta de consenso no continente são "um factor de instabilidade e de enfraquecimento político indiscutível". Sabe que a acção do ACNUR tem um problema grave de financiamento porque está demasiado dependente dos Estados e que tem que chegar mais perto das pessoas, ganhar visibilidade, atrair outros financiamentos. Sabe que o problema da constituição europeia passa por "uma Europa que não digeriu a sua evolução, que não digeriu as suas contradições, o seu alargamento, e que há uma opinião pública que não se revê nas instituições europeias". Sabe que as questões dos refugiados passam hoje muito pelos deslocados internos num mesmo país, como no Darfur, e que, até agora, não há enquadramento legal e pragmático para aquelas pessoas, à luz das Nações Unidas. Sabe que essas mesmas Nações Unidas têm um problema de reestruturação grave, que tem implicações directas na actuação do ACNUR e na intervenção em situações de conflito. Sabe que há actores que dão maior relevância a determinadas catástrofes em vez de outras, mas sabe também que não vale a pena estar a atacar os media quando a formatação do real é muito mais vasta do que os meios que a compõem. E sabendo tudo isto, criou o Business Council dentro do ACNUR para atrair financiamento e apoio privado e assim reduzir a dependência de apoios institucionais. Sabendo tudo isso, está a modificar a estratégia de comunicação do organismo por forma a criar uma noção de marca com objectivos específicos. Sabendo tudo isto, está a apoiar a formação de ONGs locais, nacionais, que se mantenham no terreno quando as organizações estrangeiras o abandonam. O homem não foi um bom primeiro-ministro, mas há poucos portugueses assim.
domingo, junho 04, 2006 at 20:14 Labels: { Alguém veio aqui parar pesquisando } {0 comments}
Isto das pesquisas em motor de busca na internet tem muito mais que se lhe diga do que se possa pensar inicialmente. Digo eu, que trabalhei numa empresa que tinha um (motor de busca) e sei como a coisa funciona. Já bastante gente sabe que não basta a um site existir para surgir quando se faz uma pesquisa no Google, ou noutro motor. Mas o que essa boa gente talvez não saiba é qual o funcionamento da pesquisa, qual o algoritmo, quais os critérios de procura, o que fazer para que o nosso site apareça. Ora, esse trabalho de indexação fiz eu no início do Animatógrafo. Hoje as visitas estão estabilizadas. E, como bom cromo, consigo ver quem vem parar aqui, de onde, qual o IP, localização ou palavra pesquisada. E aqui, meus amigos, aqui é que a coisa começa a interessar. Ora, ontem alguém pesquisou pela palavra "sexo" no Sapo e veio parar ao Animatógrafo. Até aqui tudo bem, não fosse a origem da visita nada mais nada menos que a Direccao Nacional da Policia de Seguranca Publica! O visitante, que andaria à procura de sexo, esteve cerca de sete minutos no Animatógrafo (não encontrou certamente o que procurava) e saiu, mais concretamente clickando no link do blog "Dias Felizes" (irónico, não é?). Senhores polícias, como dizem aquelas senhoras de bigode na rua, "se andassem atrás de gatunos é que faziam bem". Esta questão das pesquisas é, no mínimo, curiosa. Os exemplos abundam. Ora procurem por "calças transparentes" no Google.pt. Primeiro resultado: o Animatógrafo. Ora o mesmo Animatógrafo quer esclarecer publicamente que não possui e nunca possuiu quaisquer calças transparentes e que a associação entre as mesmas e o primeiro apenas surge pela sua observação às mesmas quando vestidas em pernas alheias, de natureza feminina. Mais exemplos bizarros: "prisão alcoentre" (no sapo), "combater hábito masturbação" (no google), "videos de gajas de tanga" (no google), "sms para putos" (no google), etc, etc, etc. Mais bizarros houve que não me lembro já. É diário. O Animatógrafo é, assim, como os Village People. Ou a terra do Diabo. De polícias, sexo e calças transparentes está o inferno cheio.
at 18:58 Labels: { Teatro } {0 comments}
A estreia do Animatógrafo em território do festival Alkantara fez-se ontem, na capela do Convento das Mónicas, mais concretamente à luz de Paixão segundo João. O projecto, parceria dos Artistas Unidos com Tá Safo, parte do texto do italiano Antonio Tarantino e centra-se nos monólogos, que se constituem diálogos, entre um enfermeiro e um doente num hospital psiquiátrico. Particulariedade: o enfermeiro chama-se João, o doente crê que é Jesus, o ausente é Pedro. Esta Paixão não tem sangue, mas sofrimento há quanto baste. A peça que se mantém em cena até dia 17 deste mês é um enorme retrato tanto da demência como da religiosidade, enquanto demência. Aquele João é enfermeiro, mas também apóstolo. Aquele Jesus é doente, mas também Ele. As intercorrelações entre demência e história religiosa estão à superfície desde o início, como que criando um novo Testamento à luz da contemporaneidade. E se Jesus vivesse hoje? Poderia ser assim. E só não seria assim porque Ele, dizem, esteve cá então, antes. São os dementes prévios ou contemporâneos aos seus objectos mentais? Era Jesus demente, e seria assim, mas sem seguidores? Era João um apóstolo ou um enfermeiro? O texto de Tarantino, extremamente difícil de trazer à vida, tem em Américo Silva e Miguel Borges dois excelentes executantes, sobretudo no caso deste último. A interpretação de Borges é extraordinária, levando a admitir que o acesso à demência é directo pela representação. O que faz todo o sentido. O Alkantara começa muito bem.
at 18:26 Labels: { Cinema } {0 comments}
Abel Ferrara não filmava desde 'R Christmas, de 2001. E Mary (que deu um constrangedor "Maria Madalena" em Portugal) tinha, logo à partida, dois grandes atractivos: Juliette Binoche e a religião. A primeira tem andado perdida em projectos menores, a segunda também. Aqui, declaração de interesses dupla: eu considero Juliette Binoche uma das grandes actrizes mundiais de cinema, e sou um agnóstico por cobardia. Neste último caso, eu explico. Em termos efectivos, eu não acredito em qualquer tipo de transcendência. Porém, não tenho coragem de afirmar que uns biliões de pessoas, ao longo da história da humanidade, estiveram totalmente erradas. O que dá num agnosticismo particular, e particularmente desviado. Posto isto, regresso a Mary de Abel Ferrara. E, meus amigos, Mary é um filme soberbo. O ponto de partida é, em si, desde logo difícil: Marie, actriz de cinema, protagoniza um filme sobre Jesus na pele de Maria Madalena, e nunca recupera. Perdida de si e do mundo, enceta uma viagem espiritual à procura do seu "eu" verdadeiro, encontrando a luz e o amor do Senhor. Longe de Israel, Ted Younger (Forest Whitaker) é um apresentador de televisão que faz um programa sobre o Cristianismo, sobre Jesus enquanto personagem história e a implicações dos seus actos. Tony Childress (Matthew Modine), realizou o filme que baralhou Marie e que levanta enorme polémica nos EUA, com estreia a merecer honras de ameaça de bomba. Estes são os três pilares argumentativos de Ferrara para construir um objecto de enorme codificação, arrojo e sedução cinematográfica. Primeiro que tudo, Mary é um filme dentro do filme dentro do filme. A espaços, o filme de Ferrara confunde-se com o de Childress que se confunde com o da história. E isto, não só não é fácil de fazer, como, quando bem feito, é de aplaudir de pé. Segundo, e de forma mais substantiva, Ferrara olha Jesus nos olhos e filma a fé na sua dimensão mais interior, que é também a sua mais exterior. Tentando simplificar (e aqui recordo a minha declaração de interesses acima), a religião não é mais do que o aproveitamento externo das fraquezas humanas e a sua transformação em planos emocionais que regressam ao indivíduo de forma organizada e que lhe servem de base psico-equilibradora. Ora, é precisamente esta ideia que prepassa por todo o filme, a de uma fé que parte do ser humano como fraco e que a ele regressa como força criadora de condições de subsistência emocional. Pelo meio, Ferrara dá umas quantas no cravo, outras na ferradura, baralha e volta a dar, dá uma mão a católicos e outra a anti-religiosos (como eu), e constrói um dispositivo elíptico, denso, que arrebata corações que vejam no cinema a oportunidade de descodificação do real. E do transcendente, nesse mesmo real. O ritmo, pausas, avanços, recuos, olhares, momentos, vozes, planos, são controlados milimetricamente e o filme nunca perde um centímetro de oportunidade nem gasta um minuto. A crítica recebeu-o de forma fria, o público praticamente ignora, e porém aqui temos um dos grandes filmes do ano, mesmo à mão de semear. Para mentes inquietas e sedentas de conceptualização à volta de fantasmas. Próprios ou alheios.
terça-feira, maio 30, 2006 at 23:02 Labels: { Ironias } {0 comments}
Recuperando a frase inicial de muitos posts deste blog: eu tenho graves problemas mentais. Um deles, nunca antes aqui explorado, tem a ver com dinheiro. Ora, a definição de forreta é: "pessoa avarenta, sovina, somítica". Este é o sentido clássico. Neste sentido, eu não sou forreta. Pago um almoço aos amigos (?) com muito gosto. Vou jantar fora com a jovem que me atura e não olho para os preços nem me queixo da conta se for bem servido. Como duas empadas de galinha e um café ao pequeno-almoço de sábado, se tiver fome. Portanto, no sentido clássico, não sou forreta. Mas, caraças e aqui é que é a merda, mas custa-me comprar coisas comó caraças. Não sou, longe disso, materialista. Sofro horrores para comprar um par de sapatos de 40 euros. O ritual é bem conhecido: procuro aqueles sapatos durante semanas. Se tenho a sorte de os encontrar, rondo a loja frequentemente, olho para a montra, entro, vejo o preço, saio. Na semana seguinte repito o procedimento, desta feita apenas olhando de longe, sem tocar. Nunca os calço. Rumino a alguém que aqueles sapatos são giros. Dizem-me que sim, que os devia comprar. Calo-me. Outra semana e visito a zona, sem ir à loja. Outra semana e, com a companhia de alguém, entro na loja, sento-me, calço-os e peço opinião. Quando me dizem que sim, que ficam bem, faço caretas e penso longamente. Ando pelo loja, faço posições, dobro as pernas, mexo os dedos. Descalço-os. Olho mais uma vez para a etiqueta com o preço, enquanto o alguém que me acompanha diz "vê lá, leva". Dirijo-me ao balcão com cara de poucos amigos. Pago, e saio tristíssimo com o dinheiro que gastei. 40 euros. 40 euros por algo para andar no chão. 40 euros que davam para ir não sei quantas vezes ao cinema. Mas eu preciso mesmo destes sapatos? Preciso. No dia seguinte calço-os. No outro dia deixo-os a um canto, retomando-os dois dias depois. Passado uma semana a tristeza passou, e são os melhores sapatos que podia ter comprado, são confortáveis, bonitos, ficam-me bem, são úteis, e eram mesmo necessários. Foi assim com o carro, há três anos. É assim com quase tudo, a simples, mera e banal ideia de gastar dinheiro que não tenha um pano de fundo de necessidade, mesmo que emocional, dá-me nauseas. Dilemas, minutos sem dormir. A necessidade, mesmo que emocional, não é, atenção, de comprar algo (característica, creio, tipicamente feminina). É uma necessidade objectiva. Daqui se pressupõe que muito raras vezes me arrependo do que compro. Que compro poucas coisas. Que tenho enorme dificuldade em comprar bens, para os ter. Não me interessa a posse. Não quero as coisas para serem minhas. Quero-as para que façam parte da minha realidade, e para isso têm que ser únicas. Mesmo que sejam iguais a tantas outras. Tem que ser mesmo aquilo. Não admito erros, nada pode justificar que, por 40 euros, os sapatos não sejam mesmo aqueles. Dilema actual: um PC novo. Vou ficar sem este onde escrevo e quero comprar um portátil. Conheço como quase ninguém o mercado, sei precisamente o que é adequado ao meu tipo de utilização. Custa 1700€, mais coisa menos coisa. Entrei hoje na loja, decidido. E a tristeza subiu-me aos olhos. Segundos depois ia ser 1700 euros mais pobre. Eu preciso mesmo de um PC? 1700 euros. Aquilo não vale 1700 euros, eu dava uns bons 400 euros, avaliando o objecto intrínsecamente. Mas é mesmo aquilo. Eu preciso? A necessidade é um valor subjectivo, quando desprovido de humanidade. A vida está cara, mas não me queixo da conta da água, ou da luz. Os menos de vinte euros de água que pago por mês têm um valor centenas de vezes superior. Pago um almoço aos amigos (?) com muito gosto. Vou jantar fora com a jovem que me atura e não olho para os preços nem me queixo da conta se for bem servido. Como duas empadas de galinha e um café ao pequeno-almoço de sábado, se tiver fome. Mas custa-me horrores gastar dinheiro. Querida Maria, sou forreta?
sábado, maio 27, 2006 at 15:38 Labels: { Dança, Teatro } {0 comments}
Está confirmado: o Animatógrafo tem presença assegurada no festival Alkantara, mais concretamente em seis espectáculos (para já). Principais espectativas apontadas para The World in Pictures, da forced entertainment, e para tragedia endogonidia, da soìetas raffaello sanzio, sem esquecer an oak tree, com Tim Crouch. Principal desilusão à partida: a impossibilidade de ver Orquéstica, o novo trabalho de Tânia Carvalho, por questões de agenda. Mas, à partida, estão reunidas as condições para serem umas boas duas semanas.
quinta-feira, maio 25, 2006 at 15:17 Labels: { Desabafo mental } {0 comments}
Calor e mulheres, cada um aguenta o que pode.
sábado, maio 20, 2006 at 11:47 Labels: { Notícias da barra } {0 comments}
Continuando na ideia de explicar porque é que os blogs que estão aqui na barra da direita estão aqui na barra da direita (sim, porque não estão por estar), há os que eu visito de vez em quando, os que espreito uma ou duas vezes por semana, e os que, fatidicamente, leio cada vez que ligo o PC. Nesta última categoria incluem-se três ou quatro e o Sociedade Anónima (SOCA para os amigos) é um deles. É um blog de gajas, para gajas e sobre gajas, e que fala de gajos. Mas, mais do que tudo isto, é magnificamente bem escrito, por mulheres inteligentes. São muitas e fazem da casa uma comunidade dinâmica e bem disposta, sem esquecer frustrações e devaneios. São gajas mas não são gajas. São gajas como as gajas devem ser: de saia, mas morenas (por oposição a loiras). Usam socas quando é preciso, mas ficam bem de ténis. Conhecem os homens à légua, mesmo quando afirmam que não os conhecem. Conhecem-se à légua, mesmo quando se surpreendem. Muitos textos da SOCA metem o Animatógrafo num bolso, outros nem tanto (não podem ganhar todas). A ler, repetidamente, por gajas e machos interessados.
at 10:29 Labels: { Cinema } {0 comments}
Por falha gravíssima da minha parte, nunca o Animatógrafo viu post mais gordo sobre Cremaster. E devia. Vi três dos cinco filmes que compõem o trabalho mítico de Matthew Barney no King, em cinema, e os restantes dois em casa. É doloroso. E extraordinário. Não, não sou um profundo masoquista à espera de dor para gemer de prazer. Eu explico: Cremaster, tanto na forma como na substância, não é cinema. É performance, é arte, é desenvolvimento estético sobre um dispositivo visual com movimento. Foi criado para ser visto em cinema, mas não tem qualquer relação com o mesmo. Ou antes, tenta romper com o mesmo. A dor de ver Cremaster advém precisamente dos filmes obrigarem a um trabalho constante de desafectação perceptiva. Quando vi Cremaster 3, passei os 182 minutos a relembrar-me, forçadamente, que aquilo não é cinema. Não há história, não se devem procurar personagens definidas, deve-se antes deter no trabalho de construção estética e conceptual de Barney. No fundo, é o mesmo que estar 182 minutos a olhar para um quadro de Jackson Pollock ao mesmo tempo que se circula pela sala. Tudo é construção mental do espectador a partir de uma construção estética de Barney. Por tudo isto (e por muito mais) é que Cremaster é extraordinário e abriu fronteiras novas à arte, quer em termos de forma (raras vezes se serve da imagem-movimento no sentido clássico para se constituir) quer em termos de conteúdo. Em Cremaster, adicionalmente, Barney tinha o bom senso de partir cruamente para um abstracionismo militante, que dava um lugar de excelência ao espectador enquanto criador da sua interpretação, da sua arte. Barney nunca por nunca piscou o olho ao simbolismo. Limitou-se a criar dimensões estéticas, aproveitando ao tutano o dispositivo técnico de expressão eleito, e deixou o resto a quem de direito. Se se quiser, um profundíssimo anti-neo-realista. Por tudo isto, também, é que andava (eu) a salivar por Drawing Restraint 9, o primeiro (em termos cronológicos de criação) filme do novo projecto de Barney. Drawing Restraint, em termos globais, é um projecto artístico de Barney que compreende escultura, cinema, instalação, vídeo e o diabo a quatro. Barney desenvolveu o projecto de 1987 a 2005, e Drawing Restraint 9 é a face visível e mediática. E além disso é um desastre. Ponto 1: Barney perdeu as premissas de Cremaster e deixou-se seduzir por um simbolismo bacoco e idiota, que mistura baleias, petróleo e barcos. O resultado é pouco menos que entediante. O lugar de excepcionalidade que o espectador tinha em Cremaster, como criador do seu próprio objecto artístico a partir de uma definição estética alheia, desapareceu. Barney aposta claramente no cavalo errado, o que é, mais que tudo, triste. Ponto 2: deriva do ponto anterior que esteticamente o filme não tem projecção aceitável. Se em qualquer Cremaster Barney apostou na criação de ambientes cromáticos e de coreografia visual que definiram o próprio filme como objecto artístico, em Drawing Restraint 9 a preocupação simbólica amputa o filme de tudo isso. Ponto 3: a participação de Björk é pouco menos que patética. A senhora, que se perdeu de amores pelo realizador esquizóide, pura e simplesmente não encaixa em nada. O ritmo é desajustado, a conjugação forçada. Parece uma criança a quem deram um rebuçado e o trinca desalmadamente, sem compreender que o doce é para ir derretendo devagar na boca. Acresce a isto, mas aqui a culpa não é dela, que Björk não é compatível com objectos em que se queira uma representação conceptual/abstracta. Porque Björk é concreta. O sorriso é dela e não de uma mulher qualquer num barco. O andar é dela e não de uma mulher qualquer num barco, os olhos são dela e não de uma mulher qualquer num barco. Se Lars Von Trier teve a mestria de aproveitar o que necessitava da islandesa em Dancer in the Dark, criando uma Selma que era Björk na exacta medida em que era necessário, já Barney não separou trabalho de conhaque e meteu a pata na poça. Dos três pontos se infere uma conclusão triste: Drawing Restraint 9 está a milhas de Cremaster, em tudo. Barney parece ter infantilizado e cedido à pressão do simbólico. Fica a curiosidade pelo conjunto de trabalhos que compõem o ciclo por inteiro e um sabor mais que amargo na boca. Pior que não saber fazer as coisas, é ter sabido e desaprender.