Young People, Old Voices

Eu sabia, à partida, que eram três horas. Também sabia que Raimund Hoghe foi um dos meninos queridos de Pina Bausch durante uma dezena de anos, funcionando como dramaturgista da alemã. Mas não estava minimamente preparado. Nunca estou. Raimund Hoghe é um personagem estranho: praticamente anão, corcunda, encaixava na perfeição num filme de David Lynch. No início Raimund centra-se no palco e chama os seus bailarinos, um por um, pelo nome. Todos respondem ao apelo e apresentam-se frontalmente. Estão ali. E depois tudo foi um deambular pela noção de tempo. O pano de fundo é Stravinsky, mas Jacques Brel, Bette Davis ou Léo Ferré aparecem a espaços. E a hora e meia em que lá estive foi um lentíssimo espaçar dos corpos. Hoghe não trabalha sobre o corpo, mas sobre a sua manutenção no espaço e no tempo. Hoghe não se preocupa com a expressão pelo movimento, mas com a interacção dispersa entre os corpos, numa languidez desesperante. Young People, Old Voices é profundamente críptico, mas o seu pecado original não é esse (também Lynch se esconde atrás do filme, e não é por isso menor). O problema está na porta fechada. Em momento algum a mesma se abre ao espectador. De forma nenhuma o espectador é convidado a entrar no mundo imaginário que de certo se constrói na cabeça de Hoghe. E portanto as três horas do espectáculo (pelo menos a hora e meia em que lá estive) nunca passam o patamar de corpos em movimento terno mas exasperante, deixados a divagar pelo palco, gratuitos na sua existência. Nem tão pouco, e isso podia ser a salvação, almejam qualquer tipo de abstraccionismo ou indução mental do mesmo. Estão ali, são young people, à sombra de old voices. Uma desilusão plena de sono.

O paraíso, agora! (**)

Da experiência que eu tenho destas coisas, que é o que é, os filmes que chegam ali dos lados conturbados do Médio Oriente ou são grandes estopadas ou coisas de bradar aos céus. Do Irão, por exemplo, vieram coisas das duas categorias ainda recentemente. Da Palestina, como é este caso, por vezes há algo assim meio nem carne nem peixe. O que para um filme sobre suicídas não é muito bom. Filmes sobre suicídas deviam ser como os próprios: ou rebenta ou não rebenta. Ou mortos ou vivos. O paraíso, agora! fica-se pela categoria intermédia de morto-vivo. Teoricamente a coisa até é arriscada: Said e Khaled são dois palestinianos escolhidos para um ataque suicída em Tel-Aviv. Ambos estão convictos da necessidade do acto, mas somewhere along the way surgem medos e desesperos contrários. Separados na fronteira por constrangimentos de situação, mentalmente seguem também caminhos diferentes. O realizador Hany Abu-Assad tenta, a partir daí, explorar as duas perspectivas: a diplomática e a bélica. Só que a coisa nunca cola. Nunca o suicída parece verdadeiramente desesperado, nunca a amiga que esteve no estrangeiro parece verdadeiramente convencida da possibilidade de paz pelo diálogo. O filme, em si, nunca rebenta: mantém-se num limbo impossível de gerir, nunca espanta nem enfada, nunca se suicida ou opta pelo diálogo. O cinema "tem-te não caias" nunca fica bem a ninguém, muito menos em território difícil.

Miami Vice (****)

Não tenho datas precisas, mas estou em crer que Miami Vice, a série de televisão, chegou a Portugal nos finais de 80 e prolongou-se por inícios de 90. Originalmente, a coisa existiu entre 1984 e 1989 nos EUA e marcou a TV de então. Eram palmeiras, era o Don Johnson feito Sonny, Philip Thomas feito Rico, muito plano manhoso, muito fato clarinho, muita droga, muitas gajas, muito descapotável. E portanto repetir tudo aquilo em 2006, em formato big screen, era quase um suicídio. Quase. Porque Michael Mann aproveitou ao máximo a margem de manobra que tinha e fez um excelente pedaço de cinema. Os descapotáveis estão lá, as gajas também, as palmeiras ao fundo, mas tudo o resto é como deve ser. Abaixo a piroseira dos 80, venha o bom gosto do novo século. Primeiro que tudo, Mann continua a construir uma estética sujinha que lhe fica muito bem. Ja em Collateral a coisa tinha boa cara: camera digital, imagens nocturnas fantásticas, muito grão, muito croma bem dominado a fugir ao comum, muito argumento contido no fio da navalha mas sem nunca deixar o espectador perdido. Em Miami Vice repete a graça, e a coisa volta a ter muito bom aspecto e a ser bem feita, diálogos bem esgalhados, consistência de argumento (sempre a iniciar um caminho de cruzamento entre vida pessoal e profissional dos "manhosos" Sonny e Rico), planos de encher o olho pela descrição e pelo risco estético. Nada, ao contrário da série de TV, é gorduroso. Está tudo no sítio, é tudo mesmo marginal, o que prova que é possível filmar em Miami de forma dietética. Uma das grandes surpresas do ano, digo eu.

Figuras da dança no Cinema II

Ora da sessão em que tive a honra de estar presente, dizia o programa que

Uma extrapolação a partir da geometria, variação e combinatória dos gestos e de uma figura, o quadrado, feita a partir de Quad I e II de Samuel Beckett. Propõe-se uma sessão experimental em que se desenvolvem algumas das ideias sugeridas por Quad: a presença da figura geométrica na sua relação com os corpos da acção e com o próprio ecrã (dinâmico); a repetição de estruturas fixas de movimento e o imprevisto e o acaso que lhe são inerentes; a combinatória e a exaustão apresentadas de diversos modos.

Se bem que a atitude é meritória, nada perde de desnecessária. Os filmes que composeram a sessão eram claramente vanguardas no século XX, objectos de difícil descrição mas com a meritória ideia de levar mais longe a reflexão sobre cinema e movimento (mais do que dança). O seu relacionamento com a arte que faz do corpo o seu objecto e fim é puramente teórico e propor um ciclo sobre Figuras da Dança no Cinema deve ser, acima de tudo, uma oportunidade de escapar a um intelectualismo francófono que ainda graça nos meios académicos. Oportunidade falhada, ora pois então.

Finalmente!!!

Acabou o Verão. Die, you f.... bastard, die!!!

Sol, Expresso

Há duas semanas tentei comprar o primeiro Expresso de cara lavada e não consegui. Comprei o Público. A semana passada tentei comprar o primeiro Sol e não consegui. Comprei o segundo Expresso. Ontem comprei o segundo Sol. E a verdade é que não li o segundo Expresso (tinha a Maria Elisa na capa, desmotivou-me), mas li o primeiro Sol. E a verdade é que a coisa até nem está muito mal feita. Os textos pareceram-me razoáveis. O grafismo desempoeirado. Tem espertezas como um apanhado dos textos na imprensa estrangeira sobre Portugal e vice-versa. Tem duas páginas de Marcelo Rebelo de Sousa, o que é um exagero. Tem umas páginas a piscar o olho a um público mais feminino e menos institucional. Tem a Margarida Rebelo Pinto a falar do kamasutra de forma tão necessária como o Sporting a ganhar o campeonato com 10 pontos de avanço (ou seja, tão desnecessária como utópica e delirante). E tem, pelo que eu percebi, muita gente a comprar porque o Expresso, com a palermice dos DVDs gratuitos, esgota que nem ginjas. Há muito bom pai de família que, do alto do seu fato de treino roxo e branco, compra o dito por causa do DVD, e depois despaxa a revista para a madame e usa o resto para limpar a vareta do óleo do Mercedes de 1988 (à cara da Maria Elisa, vá la). Claro que o Sol tem o Saraiva e isso podia criar engulhos na vontade de dar os 2 aéreos. Mas fiquei com vontade de comprar para a semana. Até porque começa, felizmente, a chover (claro que tinha que existir um trocadilho pateta neste texto). A ver vamos.

Mercados

Eu tenho uma vetusta pancada por mercados. E quando digo mercados, falo de mercados urbanos, grandes pavilhões no meio da malha da cidade, e não mercados ao ar livre. Tudo aquilo me transmite uma sensação de bem-estar que perdura o resto do dia. Anteontem atravessei o mercado de Alvalade Norte e a vontade de me demorar foi enorme. É um pouco a ideia do campo no meio da cidade, mas com uma enorme vantagem: sem campo. Num mercado tudo é genuíno e nada é verdadeiro. Raras vezes o peixe é fresco, mas a afirmação da peixeira a garantir a frescura é genuinamente portuguesa. Tudo aquilo apela ao intestino, no sentido visceral da componente emotiva. Não há nada para além de um mercado. Aquilo são frutas, legumes e carne verdadeiras, de qualidade abaixo ou acima da média, mas que não foram controladas, manipuladas e seladas como num hipercado. Ali, muitas vezes, foi a tia Judite que cultivou as couves. Podem não ser as melhores couves do mundo, mas são as dela. O chão está molhado, não há materiais bonitos com logotipos nem palhaçadas. Um mercado é um mercado é um mercado, como dizia o poeta. Há velhas com bigode, há putos novos que não quiseram estudar e estão por castigo, há talhantes manhosos que comem a Cristina das frutas com os olhos. Um mercado é um microcosmos organizado em volta da sua pureza, com tudo o que impuro possa ter. Um mercado não se sujeita à sociedade contemporânea, abre às 7 e fecha às 14 porque é de manhã que se começa o dia e à tarde já o peixe está mole. Um mercado é a rotina de milhares de velhas, que, caso contrário, se sentiriam perdidas sem o cheiro a pêra rocha. Um mercado é um mercado é um mercado.

A Dália Negra


Ela vem aí.

Cansaço

E é quase tudo.

Música de domingo II

"Lazy, you lazy poet, your words are reckless, and I can't feel it
But hey, hey, all the boys I have ever loved have been digital
I've been a guest, on a screen, or in a book!
I move 'em with my thumbs, I move them with my thumbs
I write his name in nothing, he whispers to the author
That I will be the only one

Escape! Escape! This time, for real!
We fool around in the service lane
He's the only friend I have who doesn't do cocaine
And all the boys I have ever loved have been confidential
Had a broken home, or a seedy past
So I know it's gonna last
And move him with your thumbs, I move him with my thumbs
He needs, he needs my guidance, he needs, he needs my time
Though I am not the only one

He swam! To the edge of the wall of the world!
Followed my voice, and he cried
Master! The answer is maybe... Maybe not... Maybe not...
Maybe not! I have goals!
Gotta fulfill the seven prophecies!
Gotta be a friend to grandmother!
Gotta rescue Michael from the White Witch!
Gotta find and kill my shadow self
Gotta dig up every secret seashell
You may have been made for love...
But I'm just made"


He Poos Clouds, in "He Poos Clouds", Final Fantasy, Tomlab, 2006

Montreux: as imagens













Recover

As já baixas audiências deste mui estimado blog desceram nas últimas semanas, pelo que va, pronto, la vou ter que recorrer a uma manigância tecnológica para fazer subir isto. Pronto:

SEXO
SEX
SEXUAL
SEXY

Pronto, agora as pesquisas worldwide encarregam-se do resto.

A gerência agradece a atenção.

Música de domingo I

"Outside, black crows line up in a rope, on the white fence that's around you, as my tears keep dropping like flies".

Seven Black Crows, in "One Two Three Four", Linda Draper, Mushroom Pillow, 2006

Foda-se II

Sei hoje, via o elementarista blog, que Rio Turvo, o mais recente projecto de Edgar Pêra, foi classificado pelo ICAM em 23.º lugar na lista, ou seja, desclassificado. Insiste-se neste país em crimes lesa património evolutivo da cultura. Claro que o resultado do concurso não está ainda na página do ICAM. Claro que ninguém vai reparar ou mesmo abrir a boca para dizer que Manuel de Oliveira tem naturalmente financiamento garantido, independente do valor do projecto apresentado. E claro que Pêra vai insistir, com ou sem ajudas, como o cinema lhe exige.

Foda-se.

A 16 de Setembro há Vetiver na Zé dos Bois. De 22 a 24 de Setembro há Figuras da Dança no Cinema II, na Culturgest. De 24 de Setembro a 30 de Novembro, ciclo inteiramente dedicado a Shostakovich no CCB. A 27 e 28 de Setembro há Young People, Old Voices, nova coreografia de Raimund Hoghe, também na Culturgest. A 4 e 5 de Outubro, Bernardo Sassetti, Mário Laginha e Pedro Burmester repetem o 3 pianos já realizado no ano passado, novamente no CCB. A 9 e 10 de Outubro, o regresso de Clara Andermat ao CCB, com Silêncio, incluído no Temps d'Image. A 15 de Outubro há Final Fantasy no Club Lua. A 17 de Outubro, há Quadri [+] Chromies, projecto de imagem vs música electrónica de Hector Zazou, no CCB. Até 22 de Outubro a antológica de Jorge Martins também no CCB. A 26 de Outubro, o Campo Pequeno recebe os Muse. De 20 a 29 de Outubro há DocLisboa 2006, com enfoque em Amos Gitai, na Culturgest. Dia 12 de Novembro Keith Jarrett, Gary Peacock e Jack DeJohnette podem fazer história em Belém. A 19 de Novembro, os premiados do Cinanima novamente na Culturgest. A 23 e 24 de Novembro, Vera Mantero apresenta até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza, no CCB. De 4 a 9 de Dezembro, Nippon Koma, de regresso à Culturgest. Entre 3 e 17 de Dezembro, a Compahia 111 apresenta o "acontecimento visual" que é Plus ou Moin l'Infini. A 7 de Dezembro, sobem os Yo La Tengo ao palco da Aula Magna. Nos dias 14, 15, 21, 22 e 23 de Dezembro, ganha vida o projecto Unreal - Sidewalk Cartoon, com música original de Bernardo Sassetti, participação especial de Beatriz Batarda e cartoon musical/filme do próprio Sassetti e Filipe Alçada, no S. Luiz. E isto com a consciência que muita coisa ainda não se sabe ou não tem data definida. E isto com a consciência de um volume de trabalho absurdo até final do ano, com a perspectiva certa de uma mudança de casa, com a certeza de uma profundíssima frustração por não ver nem um terço das coisas. Foda-se.