Alguém veio aqui parar pesquisando...

"pinturas artisticas da beleza de satanas". :S

Música de domingo III

"i will not lie down
on the wrongful groundwork laid
while it's still a radical sound
just to call a spade a spade
dear friends, women and men
please check my math once more
in the totality of all war's history
there's but one common denominator

the answer is in the intention
that lies behind the question
put that on your standardized multiple choice
i mean, how's this supposed to look to me?
but half of divinity
out there trying to make harmony
with only one voice

you know, i've got experience
looking right past the obvious
and i know what is so big and so close
is always the hardest stuff
for us to reckon with
the hardest stuff to know
dear friends, especially the women
tell me are you up to the task
of turning the wheel of human history
at long last

the answer is in the intention
that lies behind the question
put that on your standardized multiple choice
i mean, how's this supposed to look to me?
but half of divinity
out there trying to make harmony
with only one voice

i will not lie down
on the wrongful groundwork laid
while it's still a radical sound
just to call a spade a spade
dear friends, women and men
what better time to face
that we've been looking for
the answer to war
in the wrong place"

a Spade, in "reprieve", Ani DiFranco, Righteous Babe, 2006

E agora para algo completamente diferente



Imagens de "O Homem da Camera de Filmar", de Dziga Vertov, 1929

Eu suspeito

... que me estou a tornar numa pessoa profundamente amarga. O que é triste.

Carnivale, finalmente, num ecrã perto de si!

É, assim mesmo, parece que sim, é verdade: Carnivale estreia hoje em Portugal!

Preâmbulo: Carnivale é, muito possivelmente, a melhor série de TV jamais realizada. Teve duas temporadas e foi extinta de forma escandalosa nos EUA, dizem que por pressões do partido Republicano e da Igreja Católica. A HBO (quem mais?) substituiu a coisa por Rome, que já passou em Portugal, na :2. Carnivale estreia hoje na SIC Radical, às 23 horas.

Primeiro capítulo: Carnivale é um espantoso esforço de produção, argumento e realização em prol do que deve ser ficção em televisão. Pano de fundo: a grande depressão americana, depois do crash de 1929. Fome, miséria, Hitler e Mussolini a surgirem na Europa, os EUA aos papéis. Mais: enormes tempestades no centro dos EUA devastam Estados inteiros, fazendo deslocar toneladas de pó para Boston ou NY. Época de delírio e loucura de excelência, é aqui que entra Ben, um jovem estranho. Ben não é normal, e só vai descobrindo isso mesmo a partir da morte de uma mãe que recusa que lhe toque. Do meio da tempestade surge o que dá nome ao projecto: uma feira popular e de horrores, Carnivale. Lá dentro não falta o gigante e o anão, o cego visionário e a vidente catatónica, a mulher barbuda e as gémeas siamesas. Ben apanha boleia. Do outro lado do continente, na Califórnia, um jovem padre metodista começa a ter visões. Também ele não é normal, e só vai descobrindo isso mesmo ao longo do tempo.

Epílogo: Carnivale é a mais inteligente, fascinante e críptica luta entre Bem e Mal, que se serve dos incomuns antagonistas, alguma vez filmada para televisão. Carnivale teve duas temporadas e foi interrompida de forma abrupta, sem final conclusivo, de forma a deixar inúmeras portas abertas sobre os factos. A HBO tentou remendar a coisa, mas ninguém caiu. Carnivale tem a primeira temporada editada em DVD em Portugal (com o inerrável título de "A feira da magia"), e corresponde a horas de puro prazer visual e mental. Chega hoje, às 23, a qualquer televisor que consiga transmitir a SIC Radical. Não foi feita nenhuma promo, quase ninguém sabe nada. Pela vossa vida, vejam!

Manhãs perdidas

Dez horas e olho o rio. Dois homens de barba sardenta descansam as canas e fumam um sol mortiço. Pouco se move. Conduzo na linha ténue da água e a vida alheia parece verde, mediterrânica na luz. À porta de uma igreja uma mulher de idade mais aparente cabeceia de sono, desequilibrada no degrau. Uma tristeza profunda apodera-se-me das mãos e renuncia a velocidade. Com a manhã condenada, dou por mim a folhear Godard de forma distante. Um torpor familiar devolve o livro ao seu espaço de aluguer. Isolamento sonoro. Uns metros depois e Becket abandona-se numa capa às mãos de Cartier-Bresson. Não tenho fome. Recordo as letras no espaço em que estavam há apenas alguns dias, de forma doente, como que inspeccionando a marcha das estantes durante a semana. Perto, uma mulher compra um dicionário de forma agressiva. Como se a definição das coisas fosse um trauma conhecido à partida.

doclisboa 2006

"Entuziasm: Sinfoniia Donbassa
de Dziga Vertov, 68', URSS 1930

Six Fois Deux - Episódio 1a Y'a Personne
de Jean-Luc Godard e Anne-Marie Miéville, 58', França 1976

"Entuziasm" é um filme realizado para mostrar o esforço dos mineiros da Dom para cumprir em quatro anos a sua parte do Plano Quinquenal e representou para Vertov o desafio da utilização do som, a que recorreu de modo tão dinâmico, equivalente ao uso que fez da imagem nos seus filmes mudos. A sua abordagem inovadora encontrou um fã em Charles Chaplin que escreveu: "Nunca teria acreditado que fosse possível orquestrar ruídos mecânicos para criar tal beleza. Uma das mais soberbas sinfonias que já conheci. Dziga Vertov é um músico." A televisão tornou-se rapidamente para Jean-Luc Godard e Anne-Marie Miéville ocasião para um projecto de grande envergadura: adoptando o dispositivo para melhor denunciar o seu conteúdo, realizam em Grenoble, em 1975-1976, “Six Fois Deux/Sur et Sous la Communication”, uma série de seis programas de cem minutos, cada um subdividido em duas emissões de cinquenta minutos para poderem ser difundidos mais facilmente. A série de emissões, de que veremos aqui apenas o primeiro episódio, é uma reflexão sobre os meios de comunicação, denunciando "aqueles que asfixiam a verdade", para propôr em contrapartida uma televisão diferente, mais próxima das realidades sociais e mais crítica".


Ai........

Young People, Old Voices

Eu sabia, à partida, que eram três horas. Também sabia que Raimund Hoghe foi um dos meninos queridos de Pina Bausch durante uma dezena de anos, funcionando como dramaturgista da alemã. Mas não estava minimamente preparado. Nunca estou. Raimund Hoghe é um personagem estranho: praticamente anão, corcunda, encaixava na perfeição num filme de David Lynch. No início Raimund centra-se no palco e chama os seus bailarinos, um por um, pelo nome. Todos respondem ao apelo e apresentam-se frontalmente. Estão ali. E depois tudo foi um deambular pela noção de tempo. O pano de fundo é Stravinsky, mas Jacques Brel, Bette Davis ou Léo Ferré aparecem a espaços. E a hora e meia em que lá estive foi um lentíssimo espaçar dos corpos. Hoghe não trabalha sobre o corpo, mas sobre a sua manutenção no espaço e no tempo. Hoghe não se preocupa com a expressão pelo movimento, mas com a interacção dispersa entre os corpos, numa languidez desesperante. Young People, Old Voices é profundamente críptico, mas o seu pecado original não é esse (também Lynch se esconde atrás do filme, e não é por isso menor). O problema está na porta fechada. Em momento algum a mesma se abre ao espectador. De forma nenhuma o espectador é convidado a entrar no mundo imaginário que de certo se constrói na cabeça de Hoghe. E portanto as três horas do espectáculo (pelo menos a hora e meia em que lá estive) nunca passam o patamar de corpos em movimento terno mas exasperante, deixados a divagar pelo palco, gratuitos na sua existência. Nem tão pouco, e isso podia ser a salvação, almejam qualquer tipo de abstraccionismo ou indução mental do mesmo. Estão ali, são young people, à sombra de old voices. Uma desilusão plena de sono.

O paraíso, agora! (**)

Da experiência que eu tenho destas coisas, que é o que é, os filmes que chegam ali dos lados conturbados do Médio Oriente ou são grandes estopadas ou coisas de bradar aos céus. Do Irão, por exemplo, vieram coisas das duas categorias ainda recentemente. Da Palestina, como é este caso, por vezes há algo assim meio nem carne nem peixe. O que para um filme sobre suicídas não é muito bom. Filmes sobre suicídas deviam ser como os próprios: ou rebenta ou não rebenta. Ou mortos ou vivos. O paraíso, agora! fica-se pela categoria intermédia de morto-vivo. Teoricamente a coisa até é arriscada: Said e Khaled são dois palestinianos escolhidos para um ataque suicída em Tel-Aviv. Ambos estão convictos da necessidade do acto, mas somewhere along the way surgem medos e desesperos contrários. Separados na fronteira por constrangimentos de situação, mentalmente seguem também caminhos diferentes. O realizador Hany Abu-Assad tenta, a partir daí, explorar as duas perspectivas: a diplomática e a bélica. Só que a coisa nunca cola. Nunca o suicída parece verdadeiramente desesperado, nunca a amiga que esteve no estrangeiro parece verdadeiramente convencida da possibilidade de paz pelo diálogo. O filme, em si, nunca rebenta: mantém-se num limbo impossível de gerir, nunca espanta nem enfada, nunca se suicida ou opta pelo diálogo. O cinema "tem-te não caias" nunca fica bem a ninguém, muito menos em território difícil.

Miami Vice (****)

Não tenho datas precisas, mas estou em crer que Miami Vice, a série de televisão, chegou a Portugal nos finais de 80 e prolongou-se por inícios de 90. Originalmente, a coisa existiu entre 1984 e 1989 nos EUA e marcou a TV de então. Eram palmeiras, era o Don Johnson feito Sonny, Philip Thomas feito Rico, muito plano manhoso, muito fato clarinho, muita droga, muitas gajas, muito descapotável. E portanto repetir tudo aquilo em 2006, em formato big screen, era quase um suicídio. Quase. Porque Michael Mann aproveitou ao máximo a margem de manobra que tinha e fez um excelente pedaço de cinema. Os descapotáveis estão lá, as gajas também, as palmeiras ao fundo, mas tudo o resto é como deve ser. Abaixo a piroseira dos 80, venha o bom gosto do novo século. Primeiro que tudo, Mann continua a construir uma estética sujinha que lhe fica muito bem. Ja em Collateral a coisa tinha boa cara: camera digital, imagens nocturnas fantásticas, muito grão, muito croma bem dominado a fugir ao comum, muito argumento contido no fio da navalha mas sem nunca deixar o espectador perdido. Em Miami Vice repete a graça, e a coisa volta a ter muito bom aspecto e a ser bem feita, diálogos bem esgalhados, consistência de argumento (sempre a iniciar um caminho de cruzamento entre vida pessoal e profissional dos "manhosos" Sonny e Rico), planos de encher o olho pela descrição e pelo risco estético. Nada, ao contrário da série de TV, é gorduroso. Está tudo no sítio, é tudo mesmo marginal, o que prova que é possível filmar em Miami de forma dietética. Uma das grandes surpresas do ano, digo eu.

Figuras da dança no Cinema II

Ora da sessão em que tive a honra de estar presente, dizia o programa que

Uma extrapolação a partir da geometria, variação e combinatória dos gestos e de uma figura, o quadrado, feita a partir de Quad I e II de Samuel Beckett. Propõe-se uma sessão experimental em que se desenvolvem algumas das ideias sugeridas por Quad: a presença da figura geométrica na sua relação com os corpos da acção e com o próprio ecrã (dinâmico); a repetição de estruturas fixas de movimento e o imprevisto e o acaso que lhe são inerentes; a combinatória e a exaustão apresentadas de diversos modos.

Se bem que a atitude é meritória, nada perde de desnecessária. Os filmes que composeram a sessão eram claramente vanguardas no século XX, objectos de difícil descrição mas com a meritória ideia de levar mais longe a reflexão sobre cinema e movimento (mais do que dança). O seu relacionamento com a arte que faz do corpo o seu objecto e fim é puramente teórico e propor um ciclo sobre Figuras da Dança no Cinema deve ser, acima de tudo, uma oportunidade de escapar a um intelectualismo francófono que ainda graça nos meios académicos. Oportunidade falhada, ora pois então.

Finalmente!!!

Acabou o Verão. Die, you f.... bastard, die!!!

Sol, Expresso

Há duas semanas tentei comprar o primeiro Expresso de cara lavada e não consegui. Comprei o Público. A semana passada tentei comprar o primeiro Sol e não consegui. Comprei o segundo Expresso. Ontem comprei o segundo Sol. E a verdade é que não li o segundo Expresso (tinha a Maria Elisa na capa, desmotivou-me), mas li o primeiro Sol. E a verdade é que a coisa até nem está muito mal feita. Os textos pareceram-me razoáveis. O grafismo desempoeirado. Tem espertezas como um apanhado dos textos na imprensa estrangeira sobre Portugal e vice-versa. Tem duas páginas de Marcelo Rebelo de Sousa, o que é um exagero. Tem umas páginas a piscar o olho a um público mais feminino e menos institucional. Tem a Margarida Rebelo Pinto a falar do kamasutra de forma tão necessária como o Sporting a ganhar o campeonato com 10 pontos de avanço (ou seja, tão desnecessária como utópica e delirante). E tem, pelo que eu percebi, muita gente a comprar porque o Expresso, com a palermice dos DVDs gratuitos, esgota que nem ginjas. Há muito bom pai de família que, do alto do seu fato de treino roxo e branco, compra o dito por causa do DVD, e depois despaxa a revista para a madame e usa o resto para limpar a vareta do óleo do Mercedes de 1988 (à cara da Maria Elisa, vá la). Claro que o Sol tem o Saraiva e isso podia criar engulhos na vontade de dar os 2 aéreos. Mas fiquei com vontade de comprar para a semana. Até porque começa, felizmente, a chover (claro que tinha que existir um trocadilho pateta neste texto). A ver vamos.

Mercados

Eu tenho uma vetusta pancada por mercados. E quando digo mercados, falo de mercados urbanos, grandes pavilhões no meio da malha da cidade, e não mercados ao ar livre. Tudo aquilo me transmite uma sensação de bem-estar que perdura o resto do dia. Anteontem atravessei o mercado de Alvalade Norte e a vontade de me demorar foi enorme. É um pouco a ideia do campo no meio da cidade, mas com uma enorme vantagem: sem campo. Num mercado tudo é genuíno e nada é verdadeiro. Raras vezes o peixe é fresco, mas a afirmação da peixeira a garantir a frescura é genuinamente portuguesa. Tudo aquilo apela ao intestino, no sentido visceral da componente emotiva. Não há nada para além de um mercado. Aquilo são frutas, legumes e carne verdadeiras, de qualidade abaixo ou acima da média, mas que não foram controladas, manipuladas e seladas como num hipercado. Ali, muitas vezes, foi a tia Judite que cultivou as couves. Podem não ser as melhores couves do mundo, mas são as dela. O chão está molhado, não há materiais bonitos com logotipos nem palhaçadas. Um mercado é um mercado é um mercado, como dizia o poeta. Há velhas com bigode, há putos novos que não quiseram estudar e estão por castigo, há talhantes manhosos que comem a Cristina das frutas com os olhos. Um mercado é um microcosmos organizado em volta da sua pureza, com tudo o que impuro possa ter. Um mercado não se sujeita à sociedade contemporânea, abre às 7 e fecha às 14 porque é de manhã que se começa o dia e à tarde já o peixe está mole. Um mercado é a rotina de milhares de velhas, que, caso contrário, se sentiriam perdidas sem o cheiro a pêra rocha. Um mercado é um mercado é um mercado.

A Dália Negra


Ela vem aí.