Salazar, finalmente

Não, o cabrão do velho não voltou. Mas estreia-se em banda desenhada. Reza a lenda que João Paulo Cotrim foi convidado a escrever "Salazar, agora na hora da sua morte" e que impôs apenas uma condição: total liberdade criativa. Dada a luz verde, o resultado é a minha auto-prenda deste natal, um livro que chega sempre tarde como cedo. O trabalho ilustrado por Miguel Rocha é extraordinário e constitui-se como um objecto cultural essencial para compreender a história recente aqui do rectângulo. Foi premiado no festival de BD da Amadora com o prémio máximo e, pasme-se, com o da juventude. Putos deste país, acordem para o que vos precedeu nas ruas. Comprem, vale mais do que qualquer Larousse de trazer por casa ou Atlas do Industão. Estou convencido que se algum agarrado o gamar numa livraria terá enorme dificuldade em vendê-lo: não só Salazar ninguém o quer, como abre os olhos até a um heroinómano. Salazar era dose, o livro dá uma trip fulgurante no século XX português. A auto-oferecer, egoísmo ao vento.

Numero-Projecta'06

Há alturas na vida de um homem ocupado em que a frustração e a consciência de perda dominam largamente. Como as últimas semanas foram manifestamente exaustivas na sua duração real, não me dei conta do Numero-Projecta'06. O projecto, que arrancou ontem no cinema S. Jorge, é um festival internacional de artes multimédia, cinema e música. Transdisciplinar por natureza, o evento estende-se até dia 12 com filmes raros, concertos, instalações e demais iniciativas. Ontem, por exemplo, perdeu-se "The Fall of the House of Usher", um clássico de Jean Epstein e Luis Buñuel (1928), musicado ao vivo pelos Hipnótica. Há demos de produtos, há conversas com criadores, e há curiosidades como a primeira incursão de Olga Roriz no cinema ("Felicitações Madame", dia 12) ou uma mostra de trabalhos de videastas portugueses transmitidos através de 13 plasmas com auscultadores (durante todo o evento). Aliás, foi precisamente um dos artistas representados que teve a felicidade de me enviar um e-mail a dar conta de tudo isto. Nada mais nada menos que José Maçãs de Carvalho, presença marcante do último BesPhoto. Mais info sobre tudo isto aqui. Ide, ide, que a cultura não morde (só assusta, felizmente).

Pina de volta (ou a exultação de um súbdito)

Ora, uma fonte bem (in)formada disse ao Animatógrafo que Pina Bausch estará de volta a palcos portugueses em Abril, mais concretamente no Teatro Camões, em Lisboa. No site da coreógrafa, e do Tanztheater Wuppertal, a data ainda não aparece, mas estamos com fé que seja a apresentação do novo trabalho da alemã. O Animatógrafo, em toda a sua esquizofrenia, exulta com a possibilidade de voltar a ver a companhia de Pina em Lisboa. Só por isto, eu que detesto passagens de ano já estou ansiosamente à espera de 2007. Venha, venha, venha, venha....

Ora cá estamos (balanço do docLisboa)

Ora, por insolvência mental, a semana do docLisboa foi uma enorme frustração, na medida em que "yours trully" não viu metade dos filmes para os quais tinha bilhete. Não vi "Impending Doom" de Edgar Pêra, nem a curta de Vertov, nem "Pintura Habitada" sobre Helena Almeida, nem "Arcana", nem... Enfim. E agora a pachorra para escrever sobre o que vi foi-se. Vi "The Emperor's Naked Army Marches On", de Kazuo Hara, documentário japonês com tanto de importante e interessante como de secante e datado (sim, é possível a simultaneidade). Vi "The Seeds", curta-metragem de Wojciech Kasperski, drama sobre uma família rural da Polónia profunda assombrada pelo suicídio de uma filha, com imagens brilhantes e humanidade dentro. Vi "Elogio ao 1/2", de Pedro Sena Nunes, sobre o bairro de pescadores da Meia Praia, no Algarve, que se perde na primeira metade à procura da ideia dos "índios da meia praia" para se reencontrar na segunda metade com a faina, uma ideia de mar e de comunidade, num filme à beira do desperdício que é resgatado a tempo e horas. Vi "Things", de Martha Hrubá, sobre a mania de tudo colecionar ou tudo deitar fora, pela voz de duas simpáticas velhotas checas, nos antípodas uma da outra, filme com tanto de delicioso como de construtivo. Vi "As the Sun begins to set", de Julie Moggan, documento leve sobre os passageiros do paquete Queen Elizabeth II, casais de idade vetusta que se ocupam a si mesmos à sombra da brisa marítima e que recorrem a memórias frente à camera para combater a solidão dos dias em casa. Vi "British Sounds" de Jean-Luc Godard, e "Humain, trop Humain", de Louis Malle, objectos experimentalistas de finais dos anos sessenta sobre o mundo do trabalho em fábrica. Vi "Un Pont sur La Drina", de Xavier Lukomski, curta que acabou premiada e que se baseia em imagens fixas de uma paisagem edílica com sons de um tribunal marcial sobre a Bósnia como pano de fundo, num contraste com tanto de fabuloso como de arrepiante. Vi "Là-Bas", da repetente Chantal Akerman, documento pessoal e transmissível sobre a possibilidade/impossibilidade de viver/estar em Israel, onde a realizadora vai espreitando pelas janelas fechadas de um apartamento em Tel-Aviv e reaviva as memórias de um judaísmo tímido e de uma depressão crescente, consciente e viva em cada respiração. No fim de contas, ainda se viu alguma coisa, mas muito ficou por ver, por excesso de trabalho, por dias mentalmente ocupados, por cansaço, por tudo menos disponibilidade. Melhores dias virão.

docLisboa 2006: No fim do Mundo (****)
docLisboa 2006: Fora da Lei (****)

NOTA PRÉVIA: O Animatógrafo, como não podia deixar de ser, está presente no docLisboa 2006 como espectador. O festival vai na sua quarta edição, já se sente confortável na Culturgest e cresce, mais uma vez, a olhos vistos. O programa é vasto e variado, e o tempo curto. Como é mais do que óbvio, o Animatógrafo não vai ver tudo, nem perto. Vai tentar estar numa sessão diária, pelo menos. É uma amostra da totalidade dos documentários que estão a passar, e perfeitamente subjectiva, não foi seguido nenhum critério para além do mero interesse pessoal do autor destas linhas. Assim sendo, esta semana é inteiramente dedicada ao docLisboa. Novamente...
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"No fim do mundo" é uma curta documental, mais do que um documentário. Assumido claramente pela realizadora Mariana Gaivão como um exercício (realizado no âmbito universitário), é um trabalho feliz. Em 13 minutos seguimos um conjunto de crianças do bairro do Fim do Mundo (Cascais) que participam num workshop de fotografia. No começo, Mariana dá o contexto através da memória de uma barraca ardida e seis pessoas carbonizadas. A partir daí temos imagens de imagens, fotografias felizes de crianças literalmente do fim do mundo. Muito bem construído na sua curta duração, o trabalho procura sempre arriscar nos planos e uma cumplicidade com os personagens que lhe traga a felicidade nas imagens. E consegue-o, seja na tristeza com que Tânia olha para a camera, seja na fotografia do mar que vemos de seguida. E pelo meio há o Fim do Mundo, o bairro, visto pelas crianças que o habitam, e que centram as suas imagens nos que as rodeia, desviando o olhar de tudo o resto. Mais um caso que prova que a felicidade no documentário procura-se. Bem conseguida estreia de Mariana Gaivão.
Já "Fora da Lei", de Leonor Areal, tem bem mais fôlego. A realizadora, também autora de um blog caro a este (DocLog), seguiu as mediáticas Lena e Teresa após a sua aparição na vida pública portuguesa, comungando das suas dificuldades e dramas. O casal homosexual que saltou para os media com o pedido de casamento em 2005 assume-se como personagem central do filme de Areal, mas não o canibaliza. Mas vamos por partes. No que diz respeito à história, "Fora da Lei" dá a ver duas realidades, uma surpreendente a outra não. Primeiro, é claríssimo ao fim de alguns minutos que Lena e Teresa em momento algum mediram o impacto que a sua decisão de confrontar o Estado português teria nas suas vidas. Quando Teresa fala com Fernanda Câncio ao telefone, é real o estado de desespero e estupefacção em que se encontra. Nunca as duas mulheres terão pensado que se a vida já era difícil, mais seria a partir dali. Segundo, também rapidamente se percebe que Teresa e Lena são um casal real e convencional. Podem não sê-lo na sua orientação sexual, mas são-no nas formas de estar, na comunhão de preocupações ou mesmo nas irritações mútuas. Percebe-se isso quando Teresa utiliza uma faca para quebrar o gelo do congelador e afirma não ter usado outra por saber que Lena se iria irritar. Aquele tom de voz, aquela forma de pensar e de reagir são comuns a qualquer casal português, são reconhecíveis. E aqui o documentário de Leonor começa a ser feliz no conteúdo. Em termos de atitude, Leonor Areal tem uma limpeza cristalina. A realizadora, que não poucas vezes se debruça sobre as formas e substâncias do cinema, consegue uma posição de cumplicidade mas sem nunca se abraçar à militância. Peça transparente da vida das duas mulheres (excepto quando as interpela directamente), a câmera de Leonor procura sempre o ponto de fuga do triângulo. Não ver as coisas como Lena e Teresa as vêm, mas vê-las como algo externo as vê. Não admite para si uma posição de imparcialidade (senão o próprio documentário perderia a sua razão de ser), mas não puxa a si também as dores de parto alheias. E isto é feito quer pelo lado do conteúdo como da forma. Formalmente, Areal demonstra uma inteligência amadurecida. Todo o filme é pontuado por uma banda sonora emocional mas clara e por imagens genéricas de ambientes urbanos ou paisagens concretas que permitem nunca sair do campo do documentário e entrar pelo da reportagem. Muito é filmado pela janela de um comboio, como se tudo se tratasse de uma viagem, como se a realidade presente do casal não fosse mais do que o antes e o depois de algo. Nunca o filme se dramatiza para além dos factos que contém, ou do olhar que o espectador queira criar para si. Tudo isto faz com que "Fora da Lei" seja uma peça de cinema documental equilibrada, inteligente na construcção e no olhar, e com margem de liberdade deixada a quem vê. O que não é pouco.

Alguém veio aqui parar pesquisando... (IV)

"como combater a masturbação?" :S

Alguém veio aqui parar pesquisando... (III)

"imagens de arvores de avelãs". :S

Alguém veio aqui parar pesquisando... (II)

"glandula bertolina". :S

Alguém veio aqui parar pesquisando...

"pinturas artisticas da beleza de satanas". :S

Música de domingo III

"i will not lie down
on the wrongful groundwork laid
while it's still a radical sound
just to call a spade a spade
dear friends, women and men
please check my math once more
in the totality of all war's history
there's but one common denominator

the answer is in the intention
that lies behind the question
put that on your standardized multiple choice
i mean, how's this supposed to look to me?
but half of divinity
out there trying to make harmony
with only one voice

you know, i've got experience
looking right past the obvious
and i know what is so big and so close
is always the hardest stuff
for us to reckon with
the hardest stuff to know
dear friends, especially the women
tell me are you up to the task
of turning the wheel of human history
at long last

the answer is in the intention
that lies behind the question
put that on your standardized multiple choice
i mean, how's this supposed to look to me?
but half of divinity
out there trying to make harmony
with only one voice

i will not lie down
on the wrongful groundwork laid
while it's still a radical sound
just to call a spade a spade
dear friends, women and men
what better time to face
that we've been looking for
the answer to war
in the wrong place"

a Spade, in "reprieve", Ani DiFranco, Righteous Babe, 2006

E agora para algo completamente diferente



Imagens de "O Homem da Camera de Filmar", de Dziga Vertov, 1929

Eu suspeito

... que me estou a tornar numa pessoa profundamente amarga. O que é triste.

Carnivale, finalmente, num ecrã perto de si!

É, assim mesmo, parece que sim, é verdade: Carnivale estreia hoje em Portugal!

Preâmbulo: Carnivale é, muito possivelmente, a melhor série de TV jamais realizada. Teve duas temporadas e foi extinta de forma escandalosa nos EUA, dizem que por pressões do partido Republicano e da Igreja Católica. A HBO (quem mais?) substituiu a coisa por Rome, que já passou em Portugal, na :2. Carnivale estreia hoje na SIC Radical, às 23 horas.

Primeiro capítulo: Carnivale é um espantoso esforço de produção, argumento e realização em prol do que deve ser ficção em televisão. Pano de fundo: a grande depressão americana, depois do crash de 1929. Fome, miséria, Hitler e Mussolini a surgirem na Europa, os EUA aos papéis. Mais: enormes tempestades no centro dos EUA devastam Estados inteiros, fazendo deslocar toneladas de pó para Boston ou NY. Época de delírio e loucura de excelência, é aqui que entra Ben, um jovem estranho. Ben não é normal, e só vai descobrindo isso mesmo a partir da morte de uma mãe que recusa que lhe toque. Do meio da tempestade surge o que dá nome ao projecto: uma feira popular e de horrores, Carnivale. Lá dentro não falta o gigante e o anão, o cego visionário e a vidente catatónica, a mulher barbuda e as gémeas siamesas. Ben apanha boleia. Do outro lado do continente, na Califórnia, um jovem padre metodista começa a ter visões. Também ele não é normal, e só vai descobrindo isso mesmo ao longo do tempo.

Epílogo: Carnivale é a mais inteligente, fascinante e críptica luta entre Bem e Mal, que se serve dos incomuns antagonistas, alguma vez filmada para televisão. Carnivale teve duas temporadas e foi interrompida de forma abrupta, sem final conclusivo, de forma a deixar inúmeras portas abertas sobre os factos. A HBO tentou remendar a coisa, mas ninguém caiu. Carnivale tem a primeira temporada editada em DVD em Portugal (com o inerrável título de "A feira da magia"), e corresponde a horas de puro prazer visual e mental. Chega hoje, às 23, a qualquer televisor que consiga transmitir a SIC Radical. Não foi feita nenhuma promo, quase ninguém sabe nada. Pela vossa vida, vejam!

Manhãs perdidas

Dez horas e olho o rio. Dois homens de barba sardenta descansam as canas e fumam um sol mortiço. Pouco se move. Conduzo na linha ténue da água e a vida alheia parece verde, mediterrânica na luz. À porta de uma igreja uma mulher de idade mais aparente cabeceia de sono, desequilibrada no degrau. Uma tristeza profunda apodera-se-me das mãos e renuncia a velocidade. Com a manhã condenada, dou por mim a folhear Godard de forma distante. Um torpor familiar devolve o livro ao seu espaço de aluguer. Isolamento sonoro. Uns metros depois e Becket abandona-se numa capa às mãos de Cartier-Bresson. Não tenho fome. Recordo as letras no espaço em que estavam há apenas alguns dias, de forma doente, como que inspeccionando a marcha das estantes durante a semana. Perto, uma mulher compra um dicionário de forma agressiva. Como se a definição das coisas fosse um trauma conhecido à partida.

doclisboa 2006

"Entuziasm: Sinfoniia Donbassa
de Dziga Vertov, 68', URSS 1930

Six Fois Deux - Episódio 1a Y'a Personne
de Jean-Luc Godard e Anne-Marie Miéville, 58', França 1976

"Entuziasm" é um filme realizado para mostrar o esforço dos mineiros da Dom para cumprir em quatro anos a sua parte do Plano Quinquenal e representou para Vertov o desafio da utilização do som, a que recorreu de modo tão dinâmico, equivalente ao uso que fez da imagem nos seus filmes mudos. A sua abordagem inovadora encontrou um fã em Charles Chaplin que escreveu: "Nunca teria acreditado que fosse possível orquestrar ruídos mecânicos para criar tal beleza. Uma das mais soberbas sinfonias que já conheci. Dziga Vertov é um músico." A televisão tornou-se rapidamente para Jean-Luc Godard e Anne-Marie Miéville ocasião para um projecto de grande envergadura: adoptando o dispositivo para melhor denunciar o seu conteúdo, realizam em Grenoble, em 1975-1976, “Six Fois Deux/Sur et Sous la Communication”, uma série de seis programas de cem minutos, cada um subdividido em duas emissões de cinquenta minutos para poderem ser difundidos mais facilmente. A série de emissões, de que veremos aqui apenas o primeiro episódio, é uma reflexão sobre os meios de comunicação, denunciando "aqueles que asfixiam a verdade", para propôr em contrapartida uma televisão diferente, mais próxima das realidades sociais e mais crítica".


Ai........