Perdidos e Achados

Há poucas coisas, em termos de televisão generalista portuguesa, que tenham sido bem feitas na última década. Isto se compararmos com o total. Recentemente, a SIC apostou nos "Perdidos e Achados" e o resultado é, digo eu, brilhante. Uma das sempre-eternas críticas feitas ao ao Jornalismo, enquanto actividade, é a falta de distanciamento. Tudo é sobre a hora, e todas as visões são a quente. Impera o relógio e notícias de ontem são velhas. No movimento contrário, a SIC recupera peças com anos e vai à procura dos protagonistas, trazendo de novo as imagens e cruzando-as com novas faces. Daqui resulta muita coisa. Primeiro, a distância permite a reflexão sobre os factos, e mesmo sobre a forma de fazer televisão. Segundo, os próprios agentes da informação, entrevistados e entrevistadores, olham para trás. A pergunta não é "o que sente neste momento" (idiotice nunca contrariada), mas "como vê o que se passou então". O esforço de flashback é recompensado com uma versão, dir-se-á, mais objectiva da realidade. Terceiro, o interesse das peças reside no follow-up que é feito. É uma estratégia comum no campo da História: analisar o percurso dos agentes da mesma, e reflectir sobre factos com a ponderação que os factos que vieram a seguir concedem. "Perdidos e Achados" tem ainda a felicidade de não ceder à veia voyeurista, tentadora, mas criar um equilíbrio entre as imagens de então, as vozes e os campos contraditórios. O resultado é uma visão ampla sobre a história recente. Adicionalmente, o projecto permite combater a Alzheimer que se instala na sociedade portuguesa como um parasita. Hoje mostrou-se a violência absurda da PSP na Marinha Grande, quando da queda da Manuel Pereira Roldão e da industria vidreira tradicional. Sim, foi em 1994, e era Cavaco Silva primeiro-ministro de Portugal. Para recordar.

Cientologia

A SIC acaba agora mesmo de emitir uma peça, ainda longa, sobre Cientologia. Na mesma surgiam os seguidores portugueses, bem como alguma informação sobre as estrelas de Hollywood dedicadas à, dita, religião. Exemplo: Tom Cruise. Ora vejamos:

1) - A Cientologia indica que, em caso de casamento, o homem deve dar à mulher "uma panela, um pente e um gato". A panela eu trouxe de casa da minha mãe, o pente comprei o mês passado, o gato veio há dois meses;

2) - A Cientologia indica que, em caso de casamento, a mulher deve ouvir que "os homens jovens são livres e podem esquecer as suas promessas". Lembro-me de prometer que ia sempre passar a ferro, mas estão ali cinco camisas que não têm bem a minha cara;

Assim sendo, acabo de descobrir que sou cientologista. Logo eu, que nem acredito no casamento. Parece que não existe a noção de pecado na seita, mas ter as condições todas de casamento e viver em pecado não deve ser muito bom. Mas pelo menos, para já, o gato não se queixa.

Provérbios bizarros II

A cadela, com pressa, pariu os cachorros cegos.

Imagens de filmes III

Rear Window, dir. Alfred Hitchock, 1954, EUA

Posta com banda sonora I: Rossini, "Stabat Mater"



Colocada a esperança na água, restava apenas entrar. Ele entrou vagarosamente, sacudiu a neve do sobretudo, e parou. Ela entraria minutos depois, a passo breve, sob a observação de gárgulas. O corpo, porém, permanecia imutável, ao fundo. Tinha sido rápido. Haveriam de passar anos sobre a próxima visão das águas, e porém ambos se mantinham à distância prudente do som, como se a temperatura não fosse passível de ser alterada. Jamie tinha três anos agora em putrefacção lenta. À luz da crucificação, não teria culpas. À sombra do corpo, assumia a responsabilidade de estar no tempo. A fragilidade do estado teria sido maior que a vontade divina, e agora apenas restava entrar e percorrer as galerias, a metros. Ele olhou para o relógio e abstraiu-se do corpo. Ela passou levemente os dedos nas arestas do penúltimo banco, à procura das formas, e regressou, como se a abstracção tivesse um simulacro de controlo.

Provérbios bizarros (I)

A boca do ambicioso só se fecha com terra da sepultura.

Alguém veio aqui parar pesquisando... (XIII)

- "boneco gótico 3d"

- "barcos pneumáticos são cheios de ar"

- "bairro do fim do mundo"

- "bonecos com bicicletas cómicos"

- "posições de ballet"

- "pokemon episódios dobrados"

- "soraia chaves wallpaper"

- "moisés e a fuga do mar vermelho"

- "estética seios"

:S

Imagens de filmes II


À Bout de Souffle, dir. Jean-Luc Godard, 1960, França

Imagens de filmes I


Porto das Caixas, dir. Paulo Cesar Saraceni, 1962, Brasil

Rufus Wainwright / Going To A Town

Rufus Wainwright está de volta, com o melhor trabalho de carreira e um dos discos do ano. Fica Going to a Town, cuja letra é já um manifesto. A ouvir em replay insistente.

Texto que será mal interpretado

Eu acho piada a homens pernetas ou coxos. São cómicos. Há algo de personagem de banda-desenhada na sua forma de andar, como se não pertencessem à mesma dimensão que nós, homens-erectus. Um homem perneta é um ser estranhamente interessante: bamboleia-se, não anda; move-se, não caminha. Quando vejo um homem perneta dá-me vontade de iniciar um diálogo do qual as seguintes frases necessariamente fariam parte:

"E que outros super-poderes tem?"

"Consegue manter a compostura num casamento e não se rir de si próprio?"

"Pois, realmente isso é óptimo com as mulheres"

Um coxo, em contrapartida, não é tão cómico como um perneta. Ainda assim, a semelhança com um sobe e desce deixa-lhe alguma margem de manobra em stand-up comedy. Um coxo é um ser que não conseguiu ser perneta mas teve inveja e acabou por ficar num estado intermédio. Um coxo não corre, salta sobre si mesmo. Um coxo está permanentemente a gozar connosco: ora nos vê de cima ora de baixo. Num filme de Manuel de Oliveira, o coxo é o sal dos trinta minutos leves, na segunda parte. Entre bocejos, olhamos para o coxo com alegria e esperamos que Oliveira o torne na sua principal personagem. Um coxo é uma lufada de ar fresco: movimenta o espaço à sua volta, criando um efeito de remoínho vertical que renova o oxigénio.

Eleições: Lisboa

Andei a adiar o meu novo recenseamento desde Janeiro. "Ah, e tal, tenho que lá ir". "Ah, pois é, esqueci-me". Na semana passada tratei do assunto. No mesmo dia, a Câmara caiu. Uma das questões que sempre me irritou profundamente foi não votar em Lisboa. A casa dos meus pais situa-se a escassos metros do limite do conselho. Estudei em Lisboa, trabalhei e trabalho em Lisboa, vi sempre cinema em Lisboa, passeei em Lisboa, saí à noite em Lisboa, comprei quase tudo o que tenho em Lisboa. Votei na Amadora. Apesar de apenas e só residir no concelho, e passar muito mais horas em Lisboa do que em casa, a lei sempre me obrigou ao voto ali. Agora, finalmente, decido sobre o futuro da cidade que verdadeiramente me diz respeito.
A palhaçada a que a situação da CML chegou merece poucos comentários. Dos poucos, salienta-se que tudo começou com Santana. Corria o Verão de 2001 e quis a sorte que o meu primeiro trabalho a solo em imprensa generalista (Diário de Notícias) fosse a cobertura de um encontro de Santana Lopes com representantes da Associação de Comerciantes de Lisboa. Na cave do Nicola, entre velhos detentores de lojas bafientas, eternos conhecidos do regime salazarista, Santana mostrou o que se viria a concretizar na semana passada: total delírio semi-político, com manifesta ausência de visão de qualquer ordem: urbanística, cultural, social ou outra. De lá para cá, Santana chegou ao governo e transmitiu ao Estado esse profundo caos emocional. Lançou o guerreiro-menino de forma singela, e marcou decisivamente os primeiros aos políticos do séc. XXI português.
Estamos, quer-me parecer, no final de um ciclo político. Poderemos estar, parece, já livres da sobranceria mediático-filosófica de Carrilho, como da inaptidão operacional de João Soares ou da inabilidade global de Carmona. Poderemos estar, parece, num caminho de retorno à rectidão de Sampaio.
É mais do que óbvia a jogada fortíssima de Sócrates, ao avançar com um dos melhores ministros que tem. António Costa nunca escondeu a veia autárquica, revelada em Loures. Nos próximos anos nunca teria hipóteses governativas, e não se lhe conhecem competências técnicas específicas para um cargo internacional. É um político, puro e duro, com visão global, experiência operacional e disponibilidade para um dos lugares mais importantes no país. Rapidamente Sócrates conseguiu substituir um ministro popular e forte por um ministro mediaticamente desconhecido mas politicamente reconhecido, oriundo directo de um organismo acima de qualquer suspeita: o Tribunal Constitucional. A equipa de Secretários de Estado mantém-se, e tudo parece estar bem no reino da Dinamarca. Ao centro-direita o desespero manda Fernando Negrão para a fogueira, quando os pesos pesados do partido se escondem nas sombras, como se nada se passasse, e Marques Mendes não tenta sequer meter-se em bicos de pés. Portas fará o seu jogo para um pelouro e precioso tempo de antena. O PC mantém o homem de sempre e o Bloco pisca o olho à outsider, que, ainda que desencantada com o aparelho do partido de origem, não cai em facilitismos.
A campanha será rápida e simples. Os lugares estão traçados. Não há heranças, e ninguém assumirá que lá estava. Ninguém defenderá obra feita, porque não existe. Não há renovado Parque Mayer, o túnel do Marquês não está pronto, a reabilitação da Baixa-Chiado não existe, não há projectos, não há visão, há um gigantesco buraco financeiro. Não há máquinas de campanha oleadas, não há materiais, não há plano, não há programa. Vão surgir palavras, um ou outro debate, uma ou outra ideia nova para animar a malta, muita conversa sobre as contas. Alguns falarão em auditorias ou inquéritos, para depois dizerem que a situação é gravíssima. Já sabemos isto tudo. Ao trabalho, então.

PS: se não me engano, daqui por três ou quatro meses o Castelo de S. Jorge será aberto de novo a todos os visitantes, sem bilhetes de entrada ou demais brilhantismos. No dia em que isso acontecer, voltarei. E aqui será dada conta.

Funchal

Madeleine

A esta hora, a pequena Madeleine já estará num húmido primeiro andar em Istambul, com três Xanax no bucho e pronta para a diversão. Quando a GNR começou a procurar já iria para além de Huelva. Ainda assim, é curioso reparar que:

1) - Há uns anos, lembro-me do desaparecimento do Rui Pedro, caso também ele mediatizado. Mas não me lembro de forças especiais de procura, nem de peritos forenses, nem de hordas (bonito, heim?) de gente a correr o país à procura do puto. Lembro-me que mais tarde surgiu uma foto apanhada num PC de um pedófilo que talvez fosse o Rui Pedro. Mas não vi ministros a discursarem sobre o assunto, nem a PJ a fazer comunicados diários, nem a contribuição de forças policiais estrangeiras. Quantos Rui Pedros houve desde então?

2) - Se bem me lembro, o Rui Pedro não tinha três anos quando desapareceu. Nem tinha sido deixado a brincar numa estância, com irmãos mais pequenos, enquanto os pais foram alegremente jantar fora a 50 metros de distância. Se calhar os pais do Rui Pedro, quando iam jantar fora, até levavam o Rui Pedro. Ou então, se o Rui não se portava bem à mesa, não iam e ficavam todos em casa. Ou se calhar os pais do Rui Pedro aproveitaram para ir jantar fora sozinhos antes do Rui Pedro nascer, ou então pediram a alguém para ficar com o Rui Pedro enquanto precisavam de algum tempo sozinhos;

3) - Se bem me lembro, não me lembro de uma onda de comoção por causa do Rui Pedro. Os "Casos de Polícia", na SIC, lançaram a foto do Rui publicamente, mas não me lembro de entrar num café e ver gente de lágrimas nos olhos a olhar para o pequeno ecrã. Nem me lembro de reportagens especiais e directos e debates e programas específicos, diarios, durante duas semanas, sobre o Rui Pedro. Deve ser Alzheimer, muito possivelmente, dados os meus 27 anos de idade, são os primeiros sintomas;

4) - Agora que penso nisso, o Rui Pedro não tinha pais ingleses. Nem era loiro, pequenino, com olhos amendoados e ar angélico. Ah, e quando o Rui Pedro desapareceu, a Europa ainda não tinha tido o privilégio de conhecer Marc Dutroux. E ainda os bispos norte-americanos brincavam aos médicos, assumindo claramente o erro de vocação e instrumentalizando a palavra do Senhor da mesma forma que um engenheiro bioquímico ucraniano se assume com trolha em Salvaterra de Magos;

Claro que a pequena Madeleine não tem culpa. E nunca saberá sequer, o que lhe aconteceu, ou quem era o Rui Pedro. Ainda assim, talvez se encontrem.

Meg Stuart

Hurray, hurray, rejubilai! Ora, parece que é mesmo verdade: em Julho Lisboa assiste a um ciclo totalmente dedicado a Meg Stuart, a norte-americana mágica dançarina/performer/actriz/criadora-de-mundos. E ainda para mais, é a primeira parceria séria entre o CCB, a Culturgest e o Teatro Camões no campo da dança. Diz a organização que "o ciclo abre a 3 de Julho, no CCB, com a estreia de BLESSED, um novo espectáculo criado por Meg Stuart, com Francisco Camacho (3, 6 e 10 de Julho), prossegue na Culturgest com um novo dueto criado com o coreógrafo austríaco Phillipp Gehmacher (dueto Meg Stuart & Philipp Gehmacher, título provisório, 4 e 5 de Julho), regressa ao CCB com a reposição da instalação sand table (6 e 7 de Julho) e com a estreia em Portugal da última e aclamada peça de grupo de Meg Stuart, It’s not funny (7 de Julho), e termina no Teatro Camões com o espectáculo de improvisação Auf den Tisch! (12 e 13 de Julho), comissariado por Meg Stuart. Paralelamente realizar-se-ão uma Master Class (Teatro Camões, 9 de Julho), uma apresentação de filmes e vídeos (CCB, 9 de Julho) e uma conversa com Meg Stuart, Myriam Van Imschoot, Mark Deputter e Gil Mendo (Culturgest, 10 de Julho)". Assim a vida permita, estamos lá, para ver e contar (só não dançamos, felizmente).