Mulheres levadas da breca II



Ani Difranco

Mulheres levadas da breca I



Adele Bethel, vocalista dos Sons & Daughters

Fotos - Experiência1





DocLisboa 2007

Eu, infelizmente, conheço-me bem. Sei que, no que toca a crítica de cinema, se não a faço logo, perco a vontade. Na última semana e meia vi filmes todos os dias, vários por dia algumas vezes. Alguns muito bons, outros nem por isso. E agora a vontade de os referir a cada um, de os criticar, se os acusar e louvar, não existe. O DocLisboa 2007 está morto, paz à sua alma. Viva o DocLisboa 2007.

Semana Doc

Em semana "Doc" há possibilidade de ver filmes mas falta o tempo para escrever. Em breve, tudo tudo sobre o DocLisboa 2007, versão Animatógrafo.

Heima

Se quiser ser honesto comigo e com o mundo, admito que os Sigur Rós tiveram um papel determinante na minha evolução emocional nos últimos anos. E admito que ouvir Sigur Rós me eleva a um estado emocional superior. Toda a realidade se condensa e admira. Tudo se suspende e determina. Tive a oportunidade de ver os islandeses ao vivo, e tudo se confirmou, em tom realista, com um som que se entranhou por toda a amplitude do ar no Coliseu dos Recreios. Dois anos depois de Takk, eis que está marcado o regresso, a 5 de Novembro. E desta feita, de novo o risco. A banda que criou um dialecto próprio como forma de expressão vai aparecer com um filme, Heima, e um disco, Hvarf-Heim. Heima, que entre nós surgirá em forma de DVD, mas no Reino Unido tem honras de cinema, é um semi-documentário sobre a tourné gratuita que os Sigur Rós levaram a cabo no último Verão, na Islândia. Hvarf-Heim são, no fundo, dois CDs, com temas acústicos inéditos e temas re-feitos pela banda. O filme, cujo trailer deixo, parece tudo o que os Sigur Rós são. Heima, em islandês, significa "casa". A realização é de Dean Deblois. Ainda que agora em DVD, pode ser que, por exemplo, o IndieLisboa2008 se lembre de o passar em sala. Se quiser ser honesto comigo mesmo e com o mundo, admito que quero voltar a casa.


Radiohead

Chama-se In Rainbows e não vai aparecer em nenhuma loja. Os senhores decidiram arriscar e, não estando agora à mercê de qualquer editora, vai de disponibilizar In Rainbows apenas na Internet. Preço? O que se quiser. Ao cabo de dois dias, a banda tinha já visto milhão e meio de downloads, correspondentes a milhão de libras. É a democracia a funcionar em jeito de mercado. O som é apurado, mais acessível mas não mais fácil. A sujidade das guitarras deu lugar a melodias construídas com mais açúcar, mas sem melaço. Tudo é equilibrado. É assim, provavelmente, a melhor banda do mundo.

Comédia, Tragédia

Em virtude da expansão do mercado de jornais gratuitos, passei a ler o "Meia Hora" todos os dias. A coisa é bem feita, e cumpre o que promete. Na edição de ontem lia-se, a páginas tantas, "Santana e líder laranja chegam a "acordo"". O palavra 'acordo' entre aspas pressupõe uma dúvida, imputando a responsabilidade da sua afirmação a outrem. Lê-se no texto:

O novo líder do PSD e o ex-primeiro-ministro Santana Lopes chegaram quarta-feira a um "acordo de colaboração institucional" em resultado da "coincidência de pontos de vista quanto a estratégia" a seguir, disse fonte próxima do presidente social-democrata citada pela agência Lusa. Esse acordo, acrescentou a fonte, surgiu em resultado "da coincidência de pontos de vista quanto à estratégia a seguir nos próximos anos" pelo partido. A forma como se consubstanciará esse acordo será anunciada por ambos "em tempo oportuno", adiantou ainda a fonte.

Marques Mendes era uma nulidade enquanto líder. Foi visível a falta de capacidade quer no interior do partido para motivar bases, quer no exterior para aproveitar as falhas de um governo que começa a apresentar os primeiros sinais de algum cansaço. Ainda assim, Menezes será pior que uma nulidade, tal como Santana foi. Pior que não ser, é ser mau. E esta "coincidência de pontos de vista quanto a estratégia" a seguir diz bem do que serão os próximos tempos à semi-direita. O que é profundamente preocupante. Mário Soares já o disse, mas vale a pena repetir: é mau ter uma oposição fraca, que não é capaz de controlar minimamente o governo e as instituições de Estado. À esquerda nada se espera. O BE cada vez mais comatoso e um PCP ridículo de tão anacrónico. O CDS do taxi evaporou e não regressará tão cedo. Sócrates, de quem se esperava menos mas a quem se exige mais, não tem qualquer sombra e não se sente pressionado, por exemplo, a remodelar o elenco governativo. O "acordo" entre Menezes e Santana prevê, quase certamente, uma idiotice: a liderança da bancada parlamentar por este último. Olhando para a história recente do sistema democrático, rapidamente se vê que o último líder partidário que efectivamente ganhou o poder foi António Guterres. E a este, independentemente de tudo o que se passou (sobretudo no segundo mandato), ninguém tira o facto de ter ganho o país na Assembleia, com debates fortíssimos contra um governo então vacilante. Para o líder do PSD, seja quem for, entregar a liderança da bancada a outrem é suicídio político. Entregar a Santana Lopes é mergulhar o PSD na sua mais profunda crise desde o 25 de Abril. O que seria cómico se não fosse trágico.

Nobel

O Animatógrafo saúda a atribuição do Nobel da Literatura a Doris Lessing, ainda que desconheça a autora. Diz o Guardian que "announcing the award, the Swedish Academy described Lessing as an "epicist of the female experience, who with scepticism, fire and visionary power has subjected a divided civilisation to scrutiny". It singled out The Golden Notebook for praise, calling it "a pioneering work" that "belongs to the handful of books that informed the 20th-century view of the male-female relationship."
O Animatógrafo estranha que a senhora Lessing seja premiada em 2007 por uma obra publicada em 1962, e cuja obra tenha tido nos últimos 15 anos uma presença errática e discreta na história da Literatura.
O Animatógrafo reitera, uma vez mais, a pergunta anual: depois do reconhecimento do neo-realismo encapotado de Saramago, para quando o reconhecimento da universalidade emocional e do risco de António Lobo Antunes? Ah, pois é...

Viagem ao Passado Recente - IV

1986. No primeiro dia do ano, Portugal e Espanha entravam oficialmente para o grupo dos agora 12 da então CEE. Em Abril viria a falecer Simone de Beauvoir, e Chernobyl saía do mapa mundo e entrava para a história da humanidade, pelas piores razões. Em Junho desaparecia Jorge Luís Borges, enquanto Wole Soyinka era Nobel da Literatura. Enquanto a selecção portuguesa se humilhava no Campeonato do Mundo, no México, em Espanha o Real Madrid ganhara o campeonato e a segunda taça UEFA da sua história, em ano consecutivo. Da equipa constavam nomes como Hugo Sanchez, Michel, Sanchís, o guarda-redes Buyo, e Emilio Butragueño. Nascido na capital espanhola em 1963, Butragueño viria a afirmar-se como um dos maiores extremos do futebol europeu. Conhecido por El Buitre, o espanhol nunca foi admoestado com um cartão vermelho em toda a carreira e representou somente três clubes, tendo o Real como grande paixão assumida. Em meados da década de 80, dizia-se que Butragueño hipnotizava os adversários e passava por eles a uma velocidade estonteante, como demonstra possivelmente o seu golo mais conhecido, frente ao Cádiz. Tudo isto há precisamente 21 anos.

DocLisboa 2007

De novo, Outubro. E de novo, o DocLisboa. De novo, a frustração de não poder ver muita coisa. Mas de novo a oportunidade de uma felicidade breve, fora da realidade. Este ano sublinham-se, à partida:

1) -Elle s'appelle Sabine, de Sandrine Bonnaire (França, 2007, 85', Competição Internacional): O primeiro e inesquecível filme da actriz Sandrinne Bonnaire (protagonista de obras de Maurice Pialat, Claude Chabrol e Jacques Rivette) é dedicado à sua irmã autista, Sabine. O filme reúne vinte e cinco anos de filmes e fotografias de família e revela o processo pelo qual a personalidade da irmã foi destruída não só pela doença, mas também por um sistema de saúde incapaz de diagnosticar e apoiar adequadamente os pacientes autistas. Repleto de afecto fraternal mas sem qualquer concessão ao sentimentalismo fácil, "Elle s'Appelle Sabine" é um acto político de grande coragem. Através de um caso particular, o filme questiona o sistema de saúde psiquiátrico e o funcionamento das famílias, que tantas vezes julgam proteger-se do sofrimento afastando os inadaptados.

2) - Jesus Camp, de Heidi Ewing e Rachel Grady (EUA, 2006, 85', Competição Internacional): "Jesus Camp" é um filme sobre um campo de férias para crianças organizado pelo movimento de cristãos evangelistas americanos. Acreditando que as crianças devem estar na vanguarda do cristianismo evangélico, o campo incute-lhe um proselitismo militante (as crianças são persuadidas a "devolver a América a Cristo") e encoraja-as a participar activamente nas causas conservadoras promovidas pelas suas igrejas: entre muitas outras, a defesa das teorias creacionistas sobre a evolução da vida na terra, a relativização dos perigos do efeito de estufa, ou a luta pela ilegalização do aborto nos Estados Unidos. A controvérsia provocada pela estreia do filme nos Estados Unidos acabou por levar ao encerramento do campo.

3) - Rebellion: The Litvinenko case, de Andrei Nekrasov (Rússia, 2007, 105', Competição Internacional): "Rebellion: The Litvinenko Case" foi apresentado em primeira mão no último festival de Cannes, numa sessão coberta de secretismo e com importante aparato de segurança. Este documentário toma o assassinato de Alexandr Litvinenko, ex-agente da polícia de segurança russa (o FSB, sucessor do KGB), como ponto de partida para denunciar a política de medo instigada por Putin para controlar a oposição. Segundo Nekrasov, o FSB tem sido o principal instrumento dessa política, ameaçando e até mesmo matando todas as vozes críticas do regime. Além das entrevistas com Litvinenko, envenenado em Londres com material radioactivo depois de ter denunciado as acções ilegais da FSB, o filme de Nekrasov inclui ainda entrevistas com Anna Politkovskaya, a jornalista assassinada em Moscovo em 2006. Sem qualquer pretensão de objectividade, "Rebellion: The Litvinenko Case" é um filme-bomba arremessado contra a Rússia de Putin.

4) - SchoolScapes, de David MacDougall (Austrália, 2007, 77', Competição Internacional): Inspirado pelo cinema dos irmãos Lumière e pelas ideias do pedagogo indiano Jiddu Krishnamurti, o realizador australiano David MacDougall, nome fundamental do "cinema etnográfico", rodou este filme experimental na Rishi Valley School, no sul da Índia. Fundada por Krishnamurti, a escola é conhecida por aplicar os seus métodos de aprendizagem centrados na observação do mundo. Foi essa mesma premissa que marcou o início do cinema e que mais entusiasmou os primeiros espectadores. "SchoolScapes" tenta recapturar essa frescura da observação do mundo através de uma série de planos dedicados ao acto, tão simples, de olhar o que está à nossa volta.

5) - The Halfmoon Files, de Philip Scheffner (Alemanha, 2007, 87', Investigações): Durante a Primeira Guerra Mundial, os prisioneiros de guerra detidos no campo de "Halfmoon", nos arredores de Berlim, foram objecto de vários projectos de investigação científica. Um desses projectos consistiu na gravação das diferentes línguas e canções daqueles soldados, provenientes maioritariamente das colónias europeias na Ásia e na África e por isso considerados tão "exóticos" pelos cientistas alemães. Essas gravações fonográficas, que constituem hoje o acervo principal do Museu do Som de Berlim, foram o ponto de partida de "The Halfmoon Files", recuperação fantasmagórica de um passado a que apenas se pode aceder pelo som. Construído como um puzzle, reunindo peças dispersas de uma cuidadosa investigação, o filme é uma bela homenagem aos desaparecidos da história.

6) - Arquitectura de Peso, de Edgar Pêra (Portugal, 2007, 24', Competição Nacional): Respondendo a um desafio da Trienal de Arquitectura de Lisboa, o último filme-provocação de Edgar Pêra mostra quatro grandes obras públicas que "projectaram" Portugal na Europa: o Centro Cultural de Belém - onde há quatorze anos Portugal presidiu à CEE; o Parque das Nações - palco da Expo’ 98; Os estádios de futebol - para o Euro 2004; e a Casa da Música - originalmente concebida para o Porto Capital Europeia da Cultura 2001. Recorrendo a imagens de arquivo e à música de Nel Monteiro, "Arquitectura de Peso" é o resultado do confronto de um "tempo de antena musical popular" com o documentário de propaganda de arquitectura do Estado.

7) - JLG/JLG: Autoportrait de Décembre, de Jean-Luc Godard (França/Suiça, 1994, 55', Diários Filmados e Autoretratos): "JLG/JLG: Autoportrait de Décembre" é tudo menos um auto-retrato feito para a eternidade, uma biografia pormenorizada ou um testamento artístico. Godard propõe-nos, muito pelo contrário, o registo de um momento específico da sua vida através de um filme feito de planos fixos das paisagens nevadas do lago Léman e do interior da sua casa, assombrada pela silhueta do realizador e por uma banda sonora onde se cruzam duas vozes, a do realizador e a do "actor".

8) - Sicko, de Michael Moore (EUA, 2007, 74', Sessões Especiais): O novo filme de Michael Moore combina o humor com o horror para denunciar as debilidades do sistema de saúde americano, minado por décadas de subfinanciamento público e pela concorrência dos seguros privados. Recorrendo mais uma vez ao seu estilo de investigação muito particular, Moore revela os casos de doentes americanos cujas vidas foram destruídas e compara o sistema americano com o de outros países, como o Canadá, França ou Cuba, acabando por concluir que a melhor maneira de permanecer saudável nos Estados Unidos é mesmo não adoecer.

9) - When the Levees Broke: a Requiem in Four Acts, de Spike Lee (EUA, 2006, 240', Sessões especiais): Não foi o furacão Katrina que destruiu Nova Orleães: foram os diques, quando cederam à força das águas e inundaram grande parte da cidade. Filmado logo após o desastre, o último filme de Spike Lee é um retrato tocante dos efeitos de uma das piores catástrofes que jamais atingiu os Estados Unidos. Com depoimentos de mais de cem pessoas, "When the Levees Broke" dá conta de tragédias pessoais e das estratégias de sobrevivência de uma cidade habituada a lutar contra a adversidade, mas absolutamente incapaz de imaginar que, abandonada pelo seu próprio governo, seria obrigada a enfrentar sozinha toda aquela destruição. Ninguém em Nova Orleães esquecerá que ao visitar a cidade após a catástrofe o presidente nem sequer saiu do avião. Preferiu ver apenas a cidade de cima. Com música de Terence Blanchard. Vencedor do Human Rights Film Network Award e do Venice Horizons Documentary Award no F stival de Cinema de Veneza em 2006.


Pelo amor da Santa, vão ao cinema. DocLisboa 2007, de 18 a 28 de Outubro.

(textos retirados do programa oficial, disponível em http://www.doclisboa.org/downloads/pt_programa_2007.pdf)

O melhor do mundo a comer pudins.

Este homem é um senhor. Obrigado, ED.

Londres e Oxford: as fotografias





Das mulheres que dormem de boca aberta

Uma mulher que dorme de boca aberta é um fantasma moderno. Enquanto um homem que dorme de boca aberta parece apenas idiota, uma mulher transforma-se num ser abstracto, que tanto pode apelar à dimensão estética do oculto, como revelar-se uma borboleta esquecida da natureza nocturna, à espera de ser resgatada. Existem vários tipos de mulheres que dormem de boca aberta: as que mostram apenas os dentes nos combóios da CP, subtis, de tez lânguida e envergonhadas no sono, que não apelam a nada sensual; as mulheres-macho que imitam o Felisberto de S. Paio e se escancaram ao oxigénio, colocando as amígdalas a arejar, eliminando assim quaisquer pólipos mais resistentes à Aldeia Velha nas cordas vocais; as que intercalam o ângulo de 30 graus quando vão no lugar do morto com uma boca erradamente fechada, oscilando entre o desejo sexual pelo ar que entra na janela e a reminisência da chucha de borracha castanha da sua infância tardia. E depois as que apelam a lugares pouco comuns da literatura, movidas na noite por um leve arfejo do peito, como que espantadas mas convencidas, num limbo dir-se-ia psicosomático, a assomar a substâncias apenas ligeiramente narcotrópicas, como o alecrim. Estas, as mais raras e assim as mais sensuais, exalam um odor pela pele que difere do reflexo da luz na ria de Aveiro por meros quatro cromas, e levam qualquer homem à loucura, tomado em si por um nível de ternura insuportável mesmo para os mais maricas. Vários estudos comprovam que uma larga percentagem de homens com problemas de insónia documentados são precisamente testemunhas destas visitas fantasmáticas e, tolhidos no seu sono por tal imagem, desaparecem do campo do descanso para nunca regressarem verdadeiramente. O número destas mulheres está em queda, sobretudo em países com filmografias menores, como a Moldávia (onde predominam as Mulheres que cultivam o buço, o que cria um peso extra que obriga a boca fechada) ou as Ilhas Canárias (que, não sendo um país, convoca-se como microcosmos onde as mulheres, quando de boca aberta, não dormem nem deixam dormir). Um fantasma que dorme de boca aberta é uma mulher moderna.

A terceira perna

É oficial. Alguns homens, perante a puta da idade, perdem a compostura e compram um descapotável em segunda mão, ao mesmo tempo que furam uma orelha. É a auto-intitulada "crise de meia idade", uma substância narcotrópica que se entranha pelas virilhas e afecta uma percentagem substancial de seres humanos, cuja maioria arranja ainda uma amante em Santa Íria ou Massamá, com quem dá "umas voltinhas" às terças e sextas. Ora, parece que saltei uma fase, como quem se esquece de tomar a pílula na semana fértil, e subi imediatamente ao escalão da "terceira idade". Senão vejamos: não consigo dormir com problemas respiratórios, o que inibe o desejo sexual de qualquer um (tirando os que retiram orgasmos de tais fantasias como sufocação com sacos de papel gordurentos); passei a tarde numa sala de espera com papel de parede com jarras e uma televisão pequenina, na qual a Júlia Pinheiro surgia mais gorda mas anã, a ler a revista da Ordem dos Farmacêuticos ou a Notícias Magazine de 4 de Março, esperando ansiosamente que uma voz aguda que me viesse chamar através de um sistema de som amarelado pela tosse; perante as notícias de um senhor já senil com uns óculos pequeninos, que me reconhece com a expressão "não vem cá há uns anos valentes", saí à rua cabisbaixo, a pensar na farmácia mais próxima, onde viria a gastar o equivalente a meia reforma, escutando atentamente os conselhos de uma directora técnica divorciada que, entre outras perguntas, indaga pelos "diabretes"; à porta de casa, a excedente senhora da limpeza olha de lado enquanto mancho o mármore do patamar com os sapatos poídos, e o vizinho do terceiro andar passeia o bulldog inglês asmático entre sorrisos de controlo; o jantar resume-se a uma "sopinha", "que faz muito bem", e o gato, redondo, dormita numa cadeira entre uma primeira parte seca do Sporting e a máquina de lavar roupa que ronca intermitentemente.
Se tudo correr bem, amanhã levantar-me-ei cedo, "porque não consigo dormir mais com as dores nas costas", digo "bom dia" à miúda gorda da padaria que espreita o movimento da rua antes das nove à sombra de um Português Suave, cruzo-me com o carteiro que me ignora, e passo a manhã escondido atrás de "A Bola" na leitaria do mercado, para me surpreender perto do meio dia com as horas e regressar, calmo, a pensar que qualquer dia uma bengala não era assim uma ideia tão má.