Eu detesto o Natal (versão a estupidez humana potenciada)


Terceiro regresso

Há 30 anos, o país era a redução dos seus compostos. Pouco antes, tudo se sublimava nos actos e, em virtude dixit, o povo era apenas uma memória duradoura de um mito. Há quase 30 anos, o tempo afirmava-se na velocidade quente dos dias, e o que viriam a ser estilhaços comungava alegremente em volta de carne.

Sem piedade

“A polícia angolana matou na segunda-feira à tarde dois actores amadores que rodavam um filme amador em Sambizanga, um dos bairros mais violentos de Luanda. Segundo Radical Ribeiro, assistente de produção, tudo aconteceu num minuto, quando uma patrulha irrompeu no local das filmagens, confundindo a ficção com a realidade.
(...) Os polícias tinham confundido os actores com assaltantes a sério e apenas a intervenção dos outros agentes evitou uma tragédia maior. (...) A polícia também adiantou que o filme devia chamar-se Sem Piedade.”

in Diário de Notícias, 19/12/007

Eu detesto o Natal (versão os mortos recrudescidos)


Anima-dinner 2: balanço


Ora:

1) - Efectivamente, uma gaja boa mexe-se melhor que dois mastronços;

2) - Efectivamente, ainda há Rabeas que valem a pena;

3) - Efectivamente, cumpriram-se directivas e criaram-se outras, pelo que o caminho para a ditadura está apontado;

4) - Efectivamente, ainda há quem tenha tomates para ter uma espada sobre a cabeça e sorria como se estivesse a caminho das virgens eternas;

5) - Efectivamente, o cotão é uma realidade visível à penumbra de Alá.

Em Janeiro, versão 3. Com menos umbigo. Ou não.

Check, please!

Control (****)

À data da morte de Ian Curtis, eu era apenas um recém-nascido. E por isso os Joy Division só me chegaram muitos anos depois, diferidos, quase como mito de uma personagem perdida algures no cinzento de Manchester. Porém, isso de forma alguma diminuiu o interesse no carácter perturbado da voz de "Love will tear us apart". Pelo contrário. E assim, Control surge como documento obrigatório. Surgiria, aliás, de qualquer forma, uma vez que se trata da estreia em motion picture do fotógrafo Anton Corbijn. Control tem, então, duas dimensões marcantes que convivem para um resultado final. Do ponto de vista do argumento, em momento algum se estabelecem equívocos: o filme é um biopic de Ian Curtis e de forma alguma deve ser confundido com uma revisitação dos Joy Division enquanto banda e projecto. E daí decorrem duas horas inteiramente focalizadas em Curtis, com a banda a surgir apenas na medida da sua ligação (íntima) com o vocalista. Para além disso, Ian é sempre apresentado como ser humano complexo e impregnado de problemas (desde uma epilepsia reveladora a uma depressão galopante), e não, como noutros filmes, como alienado. São estados diferentes, e alicerçar o filme derradeiro na primeira é uma manobra de pura inteligência, conferindo quer ao trabalho quer à personagem uma profundidade necessária. Quanto à estética, Corbijn parte para um preto-e-branco pastoso e uma fotografia imaculada, mas que nunca se socorre de técnicas fotográficas estáticas, como muitas vezes acontece com fotógrafos que "dão o salto". A imagem, de Curtis como dos Joy Division como de Manchester, é apurada mas não perdida de si mesma. O filme, enquanto documento de imagem em movimento, agrega-se em volta de uma estética própria mas que, felizmente, não quer ser mais do que é. E aqui Corbijn ganha por completo a aposta e é aprovado com distinção. O resultado de tudo isto é um filme sólido, sedutor na imagem, e coerente no conteúdo. Longe de uma obra-prima, e também porque não almeja sê-lo, é um dos melhores do ano.

Mulheres levadas da breca IV


Meg White, baterista dos White Stripes

segundo regresso

primeiro regresso

entravas

e depois um todo se abate, como pérolas, como finuras de pó, sem torpor
sabes

que em tudo a acção massiva se assinala à entrada do norte, e o mundo

reconhecer
como que comparando casa, peixe, ramos, morte
como tanto que comparando campo, ou a latinidade do sopro, e a amplitude dos comuns

mudo
ausência de cor, ponto

sabes que em tudo, mostra-se a idade dos móveis nas lápides
e o muro sacro santo dos rumores

Eu detesto o Natal (versão capitalista falhada)

Eu detesto o Natal (versão asfixiante)

Eu detesto o Natal (versão pregos Alcobia)

Eu detesto o Natal

E quanto mais o mês avança, mais a coisa piora. Cada cavadela uma minhoca.

I am Jack