O Tony Carreira é careca (eu sei)

No universo paralelo da música romântica, de cariz emigra, de calça justinha, paneleirice escondida e filhos falsos, há semi-universos curiosos. Veja-se a actual onda de simpatia por Tony Carreira. A semana passada o "cantor" deu longa entrevista na SIC, em que discorreu sobre matérias que "preocupam a sociedade". Antes encheu já páginas de publicações menos suspeitas que a revistinha da junta de freguesia. Na prática, todo um país se parece enamorado pelo homem das pérolas musicais da última década, a começar em "mãe querida" (que inclui todas, mesmo as que trabalham em Coina nas horas ocupadas) e a acabar na "carinha laroca" (que inclui as mesmas, quando atravessam às quatro e fazem o outro lado da estrada). Ora, a verdade, verdadinha, e o Animatógrafo dá aqui em primeira mão, é que o Tony (este não dos Bifes, esse clássico do Saldanha) é, na superfície e não no fundo, careca. É um choque, eu sei, mas há que lidar com isso. Repare-se na foto acima. Ninguém tem aquele ângulo de cabelo. E o Tony, mesmo que queimadinho no frio da bidonville, não teve nenhuma contaminação radioactiva que provocasse danos capilares de longa duração. Não, a realidade é bastante mais crua, ou só menos crua se fizermos um paralelismo com a careca dos padeiros antigos (cujo cabelo se perdia na temperatura à porta do forno). E olhe-se agora tanto para as "carinhas larocas" que enchem o Olympia, esse antro de reminiscências de sessenta, como para as preocupações do país que Tony reverbera. As primeiras vêem, na prática, um bonito homem-sexual capilarmente tolhido, ainda que esforçado no seu ângulo propedêutico de cor preta. As segundas servem de alvo intelectual menorizado, agora ocupadas pela mente de um homem careca que apela à sexualidade frustrada de semi-obesas que sonham com velas de tangerina espalhadas pelo mosaico do corredor e um negro previamente depilado espalhado onde calhasse (mas preferencialmente no cadeirão de verga). A verdade custa a engolir.

A minha palavra favorita da semana XII


Delay

Mulheres levadas da breca VIII


Asia Argento

Genéricos de TV I - Nip Tuck

Hora do Monstro III - 2000

A minha palavra favorita da semana XI


Puppet

Eu Vou

... ver O Estranho Mundo de Jack em 3D, a partir de dia 24. Porque será um enorme orgasmo visual.

Música de domingo VIII



Bjork, Wanderlust, in Volta

A verdade é que

A verdade é que os intelectuais morreram e ninguém quis ir ao funeral. Mas estamos todos a pagar a conta. Com eternos juros de mora.

Youth Without Youth (*****)


É um facto indesmentível que Francis Ford Coppola já entrou na história do cinema antes de Youth Without Youth. Terá bastado Apocalypse Now e a triologia The Godfather para o norte-americano figurar na galeria máxima do motion picture mundial, nomeadamente como um dos expoentes máximos do lado de lá do Atlântico. Ainda assim, aos mestres exige-se mais do que aos defuntos, e a Coppola exigiu-se durante muito o seguimento daquela que foi uma das mais brilhantes carreiras cinematográficas dos anos 70 e 80. Já Dracula, lançado para os ecrãs em 1992, tinha sido uma respiração forte do realizador que parecia apagado. Mas depois nada veio e Coppola começou a mistificar-se. Chegados ao dia de hoje, chegados a 2008, eis que Coppola regressa. Youth Without Youth é definitivamente um dos filmes do ano e recupera o americano à luz do cinema, mesmo que públicos e/ou crítica não lhe queiram granjear louvores. O filme é um Coppola que não é um Coppola e assim se torna um Coppola. Paradoxos à parte, explica-se. É um Coppola porque assinado, de forma profunda, pelo realizador. Não é um Coppola porque foge quase por completo a uma cinematografia de origem formalmente norte-americana, singrada nas feridas dos Estados, sejam a história da maior organização underground em terras de Sam - a Máfia - ou o desastre que mais terá marcado a história bélica do século XX a olhos unidenses - Vietnam. E acaba por ser de Coppola precisamente por não ser, por ser um objecto assumidamente experimentalista, com os dois pés e cabeça fora de uma realidade palpável, e por devolver um Coppola que arrisca no limite, que recupera uma visão de jovem criador, ainda que aproveitando o branco das suas barbas e os quilómetros de película que as habita. A história não é simples: Dominic Matei, septuagenário, linguísta estudioso da origem das línguas com trabalho inacabado, é fulminado por um raio em plena Bucareste. Contrariando a morte, Dominic vê-se paradoxalmente regenarado pela carga eléctrica, que lhe devolve uma juventude perdida há muito. Com nova pele e uma face 30 anos mais nova, vem uma hiper-memória que o leva a um novo plano mental e cognitivo. Identificado pela Gestapo e alvo de enorme curiosidade científica pelos planos de Hitler, Dominic exila-se para reencontrar, depois de muita coisa, a mulher perdida na juventude, agora encarnada em Veronica. Esta, por karma também alvo da ira das nuvens, tem um comportamento inverso e entra em estados proto-mediunísticos, recuando todas as noites a uma era cada vez mais antiga e mais próxima da origem da linguagem. Cada noite Veronica, ao contrário de Dominic, envelhece de forma clara, expondo a antítese do romeno. Youth Without Youth é um filme profundamente filosófico, que obriga o espectador a um contínuo trabalho de questionamento dos conteúdos simbólicos das imagens e das personagens. Coppola, através de um trabalho esteticamente evoluído e de um argumento de complexidade máxima, introduz discussões sobre o excesso e a falta memória, sobre as origens da linguagem, sobre o relacionamento humano e as decisões tomadas em virtude de encruzilhadas kármicas, não se esquecendo de abordar determinadas visões possíveis a meio do século sobre um futuro que, a habitantes do planeta atómico, parecia justificadamente diferente do que sabemos ter-se concretizado. Tim Roth, num papel de transparente dualidade, é perfeito, Alexandra Maria Lara é a face da ternura e do terror que Coppola precisava e até o envelhecido Bruno Ganz cumpre, como sempre, o perfil científico-histórico que lhe é exigido. Youth Without Youth é um documento de cinema completo, em forma, conteúdo e estética, assinado, e com substância para permanecer num tempo em que os filmes são mastigados em vigor de reciclagem. O Animatógrafo curva-se, de novo, perante si, senhor Coppola. De novo.

Imprensa da felicidade (ou mais uma afirmação da minha intelectualidade)

Chegaram ontem. O carteiro, simpático, deixou os pacotes debaixo do tapete, por não caberem na caixa do correio. Simpático. Felizmente a senhora da limpeza não se interessa por correspondência estrangeira. Não se viam letras manuscritas, nem selos de longe. Eram apenas um pacote amarelo fininho e um branco mais grosso. Durante anos planeei subscrever dezenas de publicações, revistas, livros, jornais, folhetos e panfletos, pasquins. Chegaram ontem, e até tenho medo de folhear, parvo. A primeira, num pacotinho amarelo com letras de máquina, é a Zoetrope All-Story. Conheci a Zoetrope na internet e apaixonei-me sem a ver. Falámos longamente como adolescentes, descobrimos as taras escondidas, contei-lhe os absurdos que vejo. Chegou ontem, uma capa laranja com a imagem gigante de uns lábios carnudos, ou a imagem carnuda de uns lábios gigantes. A primeira frase, a vermelho, avisa

FRANCIS FORD COPPOLA PRESENTS

E todo eu tremo como que a meter o preservativo ao contrário. Abro, e na primeira página a face de Harmony Korine a rezar para a lente, numa sala de Santa Iria da Azóia com sete televisões, um quadro de uma mulher com cabelo apanhado e um gato gordo, uma cama, muitos candeeiros de eras diferentes e um cadeirão com cara de Thatcher. O cheiro da tinta é arejado mas antigo, e a letra tem um ar sério, de gente grande que não brinca às magazines mas pensa na vida.
De um pacote branco, gordo, duas Grantas. A da frente, orgulhosa mas simples, diz que é a edição número 100 e tem textos de Martin Amis, Doris Lessing, Ian McEwan, Harold Pinter, Salman Rushdie, Mario Vargas Llosa. E de mais outros tantos. Na capa revejo o mote

THE MAGAZINE OF NEW WRITING

e enterneço-me com a ideia da revistinha ter lançado putos para a vida má das letras, e eles terem crescido para serem hoje homenzinhos com assombrações em forma de livros, em casas públicas de má fama de nome livrarias. Atrás, sorridente, a edição especial Best of Young American Novelists, letras borbulhosas em tons de laranja e verde a gritar por atenção. Na lista da contra-capa Jonathan Safran Foer incha, mas a explicação fala em seis anos de leituras compulsivas de um júri que analisou os trabalhos de dezenas de crianças literárias, homens feitos durante o dia, breves imberbes à noite das letras. Cheira a Barnes & Nobles do Soho. Cheira a fraldas, com fotografias de gente magricela e de maçã de adão proeminente a saltar páginas fora. Cheira a viagem de finalistas sem bebedeiras efectivas. Daqui a uns anos. O senhor carteiro deixou debaixo do tapete porque nada cabia na caixa do correio. Tudo grande demais. Os carteiros são homens sábios.

A minha palavra favorita da semana X



Figmento

Dusseldorf: as fotografias







décimo terceiro regresso

Música de domingo VII



Final Fantasy, He Poos Clouds, in He Poos Clouds