[IndieLisboa08] Introspective (****)

[IndieMusic] É comum a produção de documentários sobre determinado movimento ou tendência musical. O que já é menos comum são documentários que questionam a existência de uma categoria específica e que discutem os pressupostos sobre a mesma com os seus actores. O espanhol Aram Garriga olhou para o conceito de Pós-Rock e coçou a cabeça. Aproveitando a existência dessa benção que é o festival Sonar, em Barcelona, o realizador falou com inúmeras bandas que estariam incluídas no Pós-Rock durante dois anos, e discutiu o conceito, a evolução do som e da música, a produção musical num campo experimentalista, tendo ainda tempo para filmar um conjunto de concertos. O resultado é um excelente documentário, conseguido sem orçamento, onde Garriga fala com Sonic Youth, Mogwai, Mouse on Mars, Wilco, Yo La Tengo ou Tortoise sobre a origem do Pós-Rock, a sua existência ou não, as suas motivações e processos, os seus desejos ou projectos. No fim de contas, o filme acaba a discutir a evolução da música e da cultura como produção humana, por entre excertos de concertos, testemunhos de músicos e informações contextuais ponderamente introduzidas. O olhar do realizador é não só sobre o tema, enfiando a faca até ao fim, mas também sobre a imagem. As entrevistas são gravadas de forma informal e com planos dinâmicos, os concertos apresentados como pano de fundo à discussão, ilustrando de forma cabal a dificuldade de encaixar semelhantes nomes numa só categoria, tique nervoso da sociedade comercial. Introspective é a prova que se consegue fazer muito bom cinema sem dinheiro. Não que deva ser assim, mas assim sabe melhor. Take that, you f**** producers!

[IndieLisboa08] Charly (*)

[Competição Internacional] Não me recordo de aqui alguma vez ter dado apenas uma estrela a um filme. Chegou o dia. É hoje. E logo com um em competição. Isild Le Besco é actriz. E, como muito boas actrizes, achou que dava uma boa realizadora e vai de ataviar. O resultado é aquilo que gosto de designar por um filme-calhau. Nicolas é um jovem de 14 anos que vive com os avós num meio deprimido. Fraco estudante, fica com um livro de um professor onde está um postal de Belle-Ile. Nicolas sai a meio da noite, sem plano, para Belle-Ile. Depois de uma boleia nocturna, dorme numa pequena vila em nenhures no meio da rua, onde pela manhã passa Charly, jovem prostituta. Charly, com tiques de obsessiva-compulsiva, acolhe Nicolas numa roulote no meio de um descampado, ele que praticamente apenas sabe repetir uma frase: "não sei". Nicolas é um calhau. Le Besco filma como um calhau e quando quer fazer um filme sobre uma prostituta reduzida à obsessão e obrigada a crescer depressa demais, passa duas horas a filmar um grunho de 14 anos. Nada no filme faz sentido e tudo é gratuito, à excepção da interpretação de Julie-Marie Parmentier, a jovem Charly. Vê-se que a coisa foi feita sem meios, filmada em cima do joelho, mas isso não justifica um filme acéfalo, no limiar do idiota, que não quer mostrar coisa nenhuma mas também não tem coragem para o assumir, e que sobrevive apenas no olhar de uma personagem bizarra sustentada por uma actriz que valerá a pena seguir em tempos mais próximos. Senhora Le Besco, dedique-se à pesca, sff. A gerência agradece.

[IndieLisboa08] The Heroic Trio (***)

[Herói Independente] Só com os três últimos filmes, e com a entrada nos principais festivais europeus de cinema, é que Johnny To chegou às mentes da Europa. Mas antes disso o senhor já andava por Hong Kong a filmar delírios. Bom exemplo é este The Heroic Trio, série B asiática assente nas mais extraordinárias ideias. Reza a sinopse que "uma anónima cidade do futuro em estilo rétro entra em pânico quando uma mulher invisível começa a raptar bebés recém-nascidos destinados a ser imperadores e a entregá-los ao misterioso e subterrâneo sobrenatural Senhor do Mal. A polícia está impotente, e a cidade tem que ser salva por três mulheres muito diferentes que partilham um terrível passado. Tung, a Mulher Maravilha; Chat, a Caça-Bandidos; e Ching, a atormentada mas determinada mão direita do Senhor do Mal, a Rapariga Invisível." Posto isto, pouco a dizer. O filme é, claramente, assinado. E por aqui se vê a homenagem que o Indie 2008 presta a To: os seus trabalhos têm a sua marca, e isso vê-se. Não é um filme extraordinário, mas também não era essa a proposta. Também não é um emblema do género, e sobretudo porque já veio tardio, em 1993, quando parece de oitentas. E se calhar daí o trio ser heróico mas não fantástico.

[IndieLisboa08] Happy-Go-Lucky (*****)

[Observatório] Oficialmente, a filmografia de Mike Leigh recua a 1971, com um desconhecido Bleak Moments. Mas até 1988 o britânico dedicou-se à televisão. E a memória de algo mais válido só vem em 1993, com Naked. Ok, na prática, Leigh é conhecido por Secrets & Lies, de 1996, o dramalhão realista que voltou a colocar o Reino Unido (e a Europa) em lágrimas abundantes e a desenterrar cadáveres do armário como ninguém. Lembrando: é aquele em que uma mulher negra identifica a mãe como uma senhora branca de classe operária e a partir daí toda a gente na família tem um esqueleto escondido. Remember? Pois. Daí para cá Leigh fez o mal amado Topsy-Turvy, e Vera Drake, projecto com cara de BBC que nunca se assumiu como filme a sério e deixou o inglês a marinar como figura proeminente da sétima arte europeia. E portanto, Leigh tinha dois desafios: por um lado tosquiar a lã de realista dramático que lhe cresceu nas costas, e por outro recuperar a veia de cinema que se escondeu atrás da pele de televisão. Ontem, o Indie mostrou em ante-estreia nacional o resultado deste processo, e dificilmente podia Leigh ter acertado mais na mosca. Happy-Go-Lucky é, dentro das minhas categorias mentais discutíveis, aquilo que gosto de designar por um filme delicioso. A história parece simples: Poppy é uma professora primária de trinta anos, com uma vida desligada de responsabilidades de maior. Mas muito mais que isso, Poppy é a pessoa mais positiva e bem disposta à face da terra. Não, Poppy não é pateta. Nem burra. Poppy é inteligente, linda (em estilo inglês) e tem esta questão: é profundamente feliz e tudo, mas tudo, tem um lado positivo. Tudo é solar. Tudo tem volta, imediata. Happy-Go-Lucky, expressão que se pode traduzir por Um Dia de Cada Vez, é definitivamente uma pedrada no charco na carreira tematicamente soturna de Leigh. E, felizmente mais do que isso, é um filme sólido, equilibrado, que em momento algum cai na patetice ou idiotice, que apresenta personagens, situações e questões de profundidade. A espaços com diálogos quase "altmanianos", e mostrando uma Londres muito Paris, o trabalho do britânico, no fundo, não foge ao padrão de discussão das relações humanas que o ocupa. Mas fá-lo numa vertente contrária à comum. Sally Hawkins, que já havia aparecido em Vera Drake mas é uma cara da televisão, é um bálsamo de interpretação num papel enorme, e de enorme dificuldade (quem consegue ser assim?). E no fim de tudo estamos a falar de uma comédia. Parabéns, senhor Leigh, parabéns. (Vénia).

[IndieLisboa08] The Field Guide to North America (-)

[IndieMusic] Sim, não há pontuação. Não, a coisa não é má. Só que não é filme. The Field Guide to North America é uma compilação de vídeo-clips e/ou curtas-metragens de músicos ou bandas da corrente independente que têm marcado os Eua e Canadá. E portanto, sim, há trabalho de compilação (os senhores responsáveis pelo projecto chamam-lhe “curadoria”) mas não há realização, a não ser a dos próprios clips. E aqui, declaração de interesses: a quem a música independente for estranha ou repelente será difícil olhar para este trabalho com olhos de ver. Porque, como é óbvio, o trabalho visual tem ligação directa, sem ignição, com os sons produzidos. E o Guide merece duas notas. Uma, para a gente boa que tem lá dentro, a começar em Devendra Banhart, passando por Joanna Newsome e acabando em Smog ou Mice Parade. São ilustres representantes do hype da independente dos últimos anos, e capazes de criar as coisas mais doces, alienadas e interessantes do actual panorama musical fora da caixa pop. Outra, para a excelente escolha de filmes, a maior parte com base em animação, que se configura não só como um deleite visual mas também como lança criativa num meio onde muitas vezes o clip serve apenas para vender discos e não para vender música. Aos curadores, um bem-haja.

[IndieLisboa08] Pas a Nivell (***)

[Competição Internacional] O único filme espanhol em competição é profundamente espanhol , pelo menos no ambiente que transmite. Rodado em Girona, estância balnear da Catalunha, com Barcelona no horizonte, o trabalho de Pere Villà segue Marc, um jovem em final de adolescência. E tudo em Marc é atípico, ainda que existente. Confrontado com uma nota positiva no exame final de liceu, Marc desde início dá o mote: pede para a nota ser revista em baixa, para chumbar. Recusado o pedido fora do comum, as duas horas seguintes mostram um espanhol perdido, sem saber o que fazer, incluído numa família comum a braços com problemas comuns (divórcio por formalizar, falta de relações afectivas profundas), e claramente espanhol, ou mediterrânico se se quiser. Marc passa o Verão a transportar turistas para desportos aquáticos, dorme sestas por inaptidão de fazer algo mais, vive com uma avó catalã que lhe ensina as Sardanas. Marc é um atípico jovem urbano porque sem círculo de amigos, sem festas à noite ou mil namoradas. Mas o catalão é típico numa juventude mediterrânica mais comum do que se possa pensar: perdida no horizonte profissional, perdida numa sexualidade ainda não revelada por timidez e que encontra numa prostituta de beira de estrada a imagem para uma masturbação de duche, perdida à beira da praia diluindo-se num calor abrasador que reduz toda a actividade. É uma outra adolescência, a de Marc. Não devora experiências em ritmos reconhecidos, mas antes fantasia com as mesmas. Não se esvai em espontaneidade social, mas antes se refugia num núcleo familiar já de si frágil. Marc fala pouco, e felizmente o filme fala por ele. Porque é apenas aqui, em conteúdo, que o trabalho de Villà se salva do purgatório. Em forma, Pas a Nivell é um filme contaminado pela temperatura e pela languidez dos personagens e do contexto, mas que se arrasta de forma desnecessária a espaços, tornando-se difícil de ver. O espanhol filma de forma seca, directa, quase simbólica, e se o espectador tiver um pouco menos de paciência tudo de perde porque o realizador insistiu demasiado na linha. Interessante apenas, Pas a Nivell poderia ser mais. Mas não é.

[IndieLisboa08] Mister Lonely (*****)

[Observatório] O meu primeiro contacto com Harmony Korine foi em Julien Donkey Boy, de 1999. Na, acredito eu, única apresentação em cinema em Portugal (mais concretamente no desactivado Cine222) percebi que estávamos na presença daquilo que gosto de designar por um gajo esgroviado. Korine era e é um espírito livre. E soturno, até agora. Vejamos: em Gummo, de 1997, seguia um conjunto de personagens numa Ohio devastada por um tornado, e Julien, dois anos depois, era um esquizofrénico numa família rasgada pela estupidez. Korine, que esteve dez anos sem filmar uma longa metragem, construiu não só o mito do seu cinema independente, como o alicerçou em retratos duros, negros e irreais de verdadeiras personagens, mais do que pessoas. E eis que, chegado a 2007, Korine olha para trás e decide arriscar no mundo positivo. Mister Lonely é, assim, claramente um filme de Harmony Korine, mas pelo lado do risco que o norte-americano sempre seduziu, mais do que pela temática. E ficará possivelmente como o filme mais surreal do Indie: algures nas montanhas uma comunidade de sósias de artistas sobrevive criando gado e montando uma barraca que baptizam de teatro. Marilyn Monroe é casada com Charlie Chaplin, a raínha de Inglaterra dorme com o Papa, Michael Jackson ainda tem o nariz direito e dá gritinhos há beira do lago, e Abe Lincoln ri-se como um trovão. O objectivo é claro por entre a irrealidade dos agentes: não envelhecer ou pelo menos permanecer na expectativa do derradeiro espectáculo, onde todos podem ser quem decidiram ser e não quem a sorte ou azar os entregou na realidade. Pelo meio Harmony semeia freiras que caem de aviões e não morrem. Pelo meio Harmony lança músicas tribais do Mali. Pelo meio Harmony faz o filme mais positivo da sua vida, e atinge o ponto de contacto onde ele dói, atirando o ser humano para a sua própria escolha de real e não como vector reactivo de uma sociedade onde, parece, muitos estão deslocados. Decorem este nome: Harmony Korine.

[IndieLisboa08] Avant Que J'Oublie (****)

[Observatório] Final de uma triologia, Avant Que J'Oublie é um documento singular. Do francês Jacques Nolot, que também interpreta, o filme aborda o meio dos gigolos clássicos de Paris, de cariz homossexual, figuras liberais que oscilam entre os sentimentos criados para com quem lhes paga e o dinheiro desses mesmos, as heranças ou a transição para outra vida. A história é, em base, simples: Pierre, com 60 anos, é um ex-gigolo a quem o parceiro morreu e não deixou os quinze milhões que deveria. Ocupado pela insónia, viciado em tabaco e whisky, em depressão profunda e perdido no relacionamento social que perdeu com o mundo, seropositivo que rejeita a morte há 24 anos, Pierre ocupa-se da escrita e pensa em jovens para breves serviços sexuais, gigolos de ocasião que assim invertem a ordem das coisas. Pierre atravessa assim Avant Que J'Oublie como uma nuvem, mostrando uma Paris clássica e entregue ao corpo, envelhecido, refém de si mesmo e de uma vida de afectos estilhaçados, que se perdem quando se discute uma herança à mesa do café. Enquanto trabalho, o filme de Nolot tem enormes virtudes. Antes de tudo, olha para uma realidade pouco comum no cinema dito sério - o mundo dos gigolos - com olhos de realidade. Isto é, não se fala de prostituição mas de gigolismo. Há afectividade, ainda que distância. Há um olhar, dir-se-ia, nobre sobre a sexualidade, mesmo que promíscuo. Há, sobretudo, uma frontalidade e crueza nas relações que se admira enquanto expectador. E daqui deriva todo o trabalho do Nolot realizador, os planos longos e as sequências que sussurram solidão, a captação dos olhares vagos, as falas directas e envelhecidas, a criação de um ambiente psicológico sólido, com uma sequência final inevitável e no gume da faca, segura em pontas. Claramente um dos filmes mais off-beat do Indie, e verdadeiramente mais independente.

[IndieLisboa08] Joy Division (*****)

[IndieMusic] Se há secção em que o Indie sempre apostou e está melhor que nunca, é na de filmes associados ao meio musical. Vimos Lou Reed's Berlin no primeiro dia e valeu a pena. Ontem, Joy Division poderá ficar com o grande documentário musical da edição de 2008. Numa altura em que a carreira e história dos quatro de Manchester está perfeitamente disseminada em cinema, tendo começado com 24 Hour Party People em estilo ficcional e continuado com Control, de Anton Corbjin, não é fácil partir de novo há descoberta do grupo que emergiu do punk para algo superior. Mas este simplesmente Joy Division consegue-o de forma absoluta. Primeiro, porque o trabalho de Grant Gee tem acesso a um manancial de informação jamais visto, documentos, histórias, imagens, gravações audio e vídeo, testemunhos diversos. Segundo, porque, com isso, Grant constrói um documento visualmente hipnótico, com sobreposição de imagens, manipulação de documentos e sons, de tal forma que toda a energia do punk, dos Division, de Curtis, é passada de forma consistente. Terceiro, porque ao contrário de outros Gee não elege Curtis como elemento único mas antes situa-o na importância reconhecida dentro do grupo. Claro que esta era central, mas em termos de atitude Gee não olha para Curtis como início e fim dos Division. Antes apresenta-nos tudo o que interessa para compreendermos o som, o contexto político, social, cultural da Manchester tatcheriana, a intervenção dos produtores no som da banda e na reinvenção do punk, as histórias escondidas, os pormenores e as memórias obtusas. E tudo isto na voz dos representantes directos do projecto, os Division eles mesmo, e Annik, e Tony Wilson, e quem mais teve contacto, de forma profunda, com os quatro putos ingleses que determinaram o som de finais de setenta e por aí em diante. Como filme, Joy Division é absurdamente bom, pelo estilo, pela estrutura, pelo contacto tanto com o realismo dos intervenientes quando falam como pela sua utopia quando olham, pelas imagens, por ir atrás de outras imagens (como as de Corbjin, por exemplo), por ir atrás do espírito de Curtis dentro da bipolaridade agora conhecida e a epilepsia então diagnosticada, por olhar nos olhos uma banda que, para todos os efeitos, trouxe efectivamente muito de novo à realidade de então e de agora. Só por Joy Division já valeu a pena ter Indie.

[IndieLisboa08] The Mother (**)

[Competição Internacional] No primeiro dia de Competição Internacional, quem, como eu, viu os dois primeiros filmes da secção pensaria estar no DocLisboa em vez do Indie. Mas se The Flower Bridge tinha virtudes, já The Mother, centrado numa temática semelhante, parece ter mais defeitos. Aqui, ao contrário do filme de Ciulei, é uma mãe-coragem que se apresenta aos olhos da camera de Antoine Cattin e Pavel Kostomarov. Lyuba, como Costica na Moldávia, não tem uma vida fácil. São nove os filhos da russa, e muitas as agruras da realidade, desde abusos e abandonos na juventude, até maus tratos e miséria na vida adulta. O quotidiano é feito de trabalho braçal numa criação de vacas, e de controlo da casa onde pululam desde pequenas crianças até adolescentes. De novo, um documentário, este menos filmado como ficção. E agora onde Ciulei procurou a felicidade, Cattin e Kostomarov ficam-se com o que a realidade lhes dá. Reactivos, não têm praticamente qualquer olhar original sobre uma história como tantas outras, nem sequer exploram os temas internos àquelas pessoas. Exemplo: numa sociedade profundamente marcada pela falta de estruturação familiar estável, onde os homens se entregam ao alcoolismo e as mulheres continuam a assumir um função operacional dentro de núcleos familares numerosos, os realizadores podiam ter ido atrás da educação que Lyuba dá (ou não dá) aos seus "pequenos homens", que visivelmente virão a ser como os que os precederam. Mas se por cinco minutos o caminho parece identificado, logo se perde a olhar para uma vaca ou em sequências de quotidiano extensas que nada acrescentam ao documento. Na prática, Cattin e Kostomarov criaram um filme seco, sensaborão e esticadinho, que vai beber à escola dos documentários-realidade de forma directa e acéfala. Mais um, parece, que sairá do Indie pela porta pequena.

[IndieLisboa08] The Flower Bridge (****)

[Competição Internacional] O hype do cinema romeno continua a produzir realizadores, filmes e documentos, e The Flower Bridge não foge ao padrão. Ainda assim, sendo do romeno Thomas Ciulei, o filme a competição internacional centra-se na realidade de uma família Moldava, longe de Bucareste. A história é, em síntese, simples: Costica é um homem envelhecido pelas agruras da ruralidade que cria sozinho três filhos, em virtude da mulher ter emigrado para Itália em busca de trabalho e tardar a regressar. O pano de fundo, aí está, é uma Europa de Leste deprimida e longe da revolução económica esperada, ainda presa a uma sociedade de interior longe de tudo que se centra na agricultura e pecuária para sobreviver. A aldeia de Costica, e dos pequenos sortudos com um pai-coragem, tem ainda uma estátua de Lenine, a olhar o vazio, e assiste à neve como à lama com aceitação comum. Ciulei cria um documentário filmado como se de ficção se tratasse, ainda que cada olhar da família moldava directo para a camera nos recorde que aquela casa, aqueles montes e aquelas lágrimas ou sorrisos existem. E o filme salva-se, dir-se-ia, porque Ciulei se lembrou de o salvar. Em si, a história é banal e em nada contribui para uma discussão sobre o cinema, ou sobre a Europa de Leste, ou sobre a sociedade. Mas Ciulei tem duas atitudes que recuperam The Flower Bridge para o caminho dos vivos. Primeiro, o romeno procura activamente a imagem feliz, e acaba por se dar bem. A fotografia do filme é doce, a espaços facial, a outros sobre a natureza, mas alicerça uma simpatia que o espectador nutre não pelas personagens mas pelas a imagens que, inadvertidamente, criam, e que Ciulei aproveita como canibal. Segundo, a presença do fantasma da mãe, ausente mas tentativamente presente, é introduzida no tempo certo e confere profundidade a um documentário que, salvo isso, estaria condenado à banalidade. Muito dificilmente sairá do Indie com um prémio, mas confere a Ciulei boas costas largas para o futuro.

[IndieLisboa08] Lou Reed's Berlin (***)

[IndieMusic] Berlin é, primeiro que tudo, um álbum de 1973 de Lou Reed. Depois do sucesso de Walk on the Wild Side, Reed gravou um disco profundamente diferente, fusor do seu estilo único mais conversado que cantado com uma pequena orquestra de cordas. O resultado foi algo muito diferente do que se ouvia em 1973, um trabalho com uma linha melódica consistente e avançada para a época. O ponto de partida para o filme de Julian Schnabel são concertos, de 2006, onde Reed recuperou Berlin, agora em Brooklin. Com uma componente visual presente ainda que não avassaladora, os concertos transmitem a energia de Reed, entusiástica ou downtempo. O filme de Schnabel não é mais do que um concerto filmado, por múltiplos ângulos. A mais valia do realizador está sobretudo no trabalho de manipulação de imagem e da forma como esta comunica com a voz de Reed e com o conteúdo das canções. O público é ausente, e todo o pensamento cinematográfico centra-se em Reed e na sua forma de comunicação, seja pela voz, seja pela presença, nos mais ínfimos detalhes. Não interessa a Schnabel o Reed comunicador de massas, mas antes o artista em si e a forma como a música que cria o define. Não sendo um filme extraordinário, Lou Reed's Berlin é um documento singular, com uma visão incomum sobre a criação de som e música e o artista enquanto agente de comunicação e criação. Sublinhe-se a excelente infraestrutura de som do Teatro Maria Matos, palco da sessão de ontem, elemento fundamental neste tipo de projectos, em que o som é o principal personagem.

IndieLisboa 2008: the beggining

Chegado o dia, o Animatógrafo afirma o inevitável: esta será a semana Indie. Por aqui não poderemos estar reduzidos a apenas isso (caramba, o Santana candidatou-se, ainda não consegui parar de rir!), mas será sobretudo isso. São mais de 20 as sessões nas quais estaremos presentes, todas com direito a respectivo texto. Veremos toda a competição internacional, alguns filmes da secção Observatório, alguns documentários da área musical e alguns trabalhos também de Johnie To e Juan Luís Guérin. Estavam à espera de quê?

Chegámos ao Barreiro!

A vida tem destas coisas: uma posta sobre a careca do pseudo-homem, já recriminada por emigras ressabiadas (ver abaixo), aparece na secção de Blogs do Notícias Sapo do Barreiro. E eis que as visitas aqui ao tasco disparam. No fundo no fundo, eu acho que todas sabem que o homem é menos dotado capilarmente que um rato pelado, mas elas querem ver, querem ver... pois é...

A verdade é que


A verdade é que este é, possivelmente, o mais feliz cartaz de sempre de Cannes. Ou não fosse a foto de David Lynch.