quinta-feira, maio 01, 2008 at 16:27 Labels: { Ironias } {0 comments}
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[Competição Internacional] Avançando na competição (já faltam poucos), chega-se ao filme mais estranho até agora visto. E não estranho pela temática ou pela forma. Estranho porque incompreensível no objectivo. Serge Bozon tem uma carreira bem mais longa como actor do que enquanto realizador. Ainda assim, La France não é a sua primeira longa-metragem, e isso vê-se. Em abstracto, a história tem sumo: uma mulher, Camille, está sozinha em casa com o marido, François, na linha da frente. É tempo da Primeira Guerra Mundial, e Camille recebe cartas do seu amor com frequência, até uma interrupção abrupta. A primeira missiva que surge depois é a da ruptura. "Não me verás novamente, não me procures" escreve François. E Camille, de ar frágil mas profundo, age com o coração: corta o cabelo curto, veste roupas de homem e parte à procura do marido para o cenário de guerra. Até aqui, clap clap clap, parabéns senhor Bozon, boa ideia. Só que a partir do momento em que Camille abandona um lar deserto e mete pés ao caminho, o filme perde-se na floresta. Camille encontra um grupo de desertores e inclui-se no conjunto, e muitos minutos depois temos a sensação que François já não interessa para nada. Ou seja, Bozon perde a energia romântica e lírica inicial para se entreter com um conjunto de homens pouco credíveis como soldados que pensam estar a caminho da Holanda para fugirem à guerra mas, na prática, vagueiam no meio da floresta. Ouvem-se uns sons de canhões ao longe, e a espaços vêem-se meia dúzia de alemães a cavalo que não chegam sequer a criar a sensação de inimigo. No fim, vindo do nada, François aparece no meio da floresta, e regressa a casa com Camille. Que se passou, senhor Bozon? La France parece padecer de um tique comum, por exemplo, em boa parte do cinema português: é um filme que só existe na cabeça do seu realizador. Temos a sensação permanente que aquilo quer dizer alguma coisa, mas não sabemos o quê. Ou melhor, a ideia que o realizador quis mostrar alguma coisa ali, mas não conseguimos identificar. E portanto (parece karma dos filmes a competição este ano) boa ideia, mal aproveitada. E então a pergunta impõe-se: se é assim, porquê as três estrelas? Ora, porque o francês, no meio de todo o simplismo que impõe na tela, tem rasgos geniais de cinema. Sobretudo quando mete as amostras de soldados a cantar uma musiquinha idiota no meio do mato, com instrumentos saídos das sacolas ou mesmo do nada (um piano!). Não são músicas de guerra mas antes de inspiração Monty Python, non sense, que actuam como lanças em África num filme mal esgalhado. Claro que acentuam a ideia que não percebemos sinceramente o que é que Bozon quis fazer, mas são momentos de cinema salvadores, que nos põem um sorriso na cara e pintam os soldados com outra cor. La France é um filme estranho, de difícil captação, mas não é um projecto vazio. Ou pelo menos não parece... (será dos meus olhos?)
at 15:27 Labels: { Cinema, IndieLisboa2008 } {0 comments}
[Competição Internacional] Para o registo: Wonderfull Yown é um filme muito bonito. Mas como não é sobre o mundo da moda, isso não chega. O tailandês Aditya Assarat foi para sul à procura do que restou depois do tsunami e da reconstrução de uma costa devastada, e veio de lá com uma história de amor previsível demasiado focalizada em si mesma. O realizador filma um arquitecto de Banquecoque que é destacado para coordenar a reconstrução de um resort perto de Phuket. Simples, o profissional aloja-se num pequeno hotel da aldeia, onde trabalha uma jovem nascida e criada no lugar. Os noventa minutos seguintes são a história de sedução e namoro envergonhado dos dois, em tom lírico que até resulta até certo momento. Mas Assarat esquece-se do pano de fundo e da premissa de base e olha apenas para os dois personagens e o seu relacionamento, quando podia olhar out of the box e afrontar a reconstrução, as ruínas e as memórias, ou a continuidade de um ambiente que não é urbano mas também está longe do tropical. Apenas em termos de imagem o realizador se lembra de onde está, porque narrativamente o filme é pobre e descentrado. Na prática, o resultado é inconsequente. Admiram-se as paisagens e os momentos sóbrios, mas estes deixam ao espectador o trabalho de pensamento, quando Assarat se entretém com personagens previsíveis e quase planas, e com o desfecho dramático da relação e da não aceitação da mesma no meio. O filme deixa o sabor amargo do desperdício a quem vê, bem filmado, com tom próprio, mas desfocado da sua potencialidade e perdido com questões menores. Louve-se o simplismo da coisa, uma vez que não poucas vezes a mesma atitude redunda em presunção, que não é o caso. Mas precisamente pelo oposto, pela falta de ambição e por se prender demasiado numa história local em vez de um olhar mais global, é que dificilmente será o tailandês a levar o caneco para casa.
at 15:10 Labels: { Cinema, IndieLisboa2008 } {0 comments}
[Competição Internacional] Ao que parece, a Competição Internacional segue misturando equívocos com clarividência, e continua apostada em testar a paciência ao espectador. Desta feita, o norte-americano Azazel Jacobs mostrou o sonolento Momma's Man, e mais valia ter ficado em casa. Em parte auto-biográfico (!), o filme de Jacobs acompanha Michael, um trintão que decide visitar os pais em Nova Iorque, quando tem mulher e filha na Califórnia. Tudo seria normal se Mike não quisesse ficar em casa dos progenitores, agarrado a livros de banda desenhada, memórias do liceu e letras de músicas da adolescência. Ou seja, a premissa até é interessante. O filme podia ser sobre as dificuldades da vida adulta, sobre uma visão desencantada do presente e utópica sobre o passado, sobre a ligação aos espaços que nos formatam na época dourada da juventude. Podia, mas não é. E isto porque Azazel é incapaz de dar o salto. São 98 minutos em que o espectador se mexe mais na cadeira do que Jacobs no filme, que não vai a lado nenhum. Percebe-se a ideia ao fim dos primeiros cinco, e a partir daí o realizador limita-se a filmar o espaço do quarto, a cara de Mike quando liga à mulher ou mente aos pais, a carta da ex-namorada de liceu, e muito pouco mais. Para ajudar à festa, o personagem principal é limitadíssimo e nada do que faz ou sente tem base emocional, pelo que tudo se converte em gratuito. Jacobs, que filma os próprios pais, perde uma enorme oportunidade de fazer um filme decente, e conclui um documento vazio de ideias e que faz perder o tempo a quem o vê. E as duas estrelas apenas se justificam porque a premissa até era boa.
at 14:56 Labels: { Cinema, IndieLisboa2008 } {0 comments}
[Herói Independente] Segunda incursão do Animatógrafo no universo do homenageado Johnny To, e o saldo bem mais positivo. Sparrow é o último filme do asiático, e está bem longe dos devaneios de 90. Sob o signo simbólico do "pardal", To constrói um filme simultaneamente sobre carteiristas, mulheres e Hong Kong, em que tudo é medido meticulosamente e a interacção é brilhante. Na prática, Sparrow segue um grupo de quatro carteiristas profissionais, que se vêm envolvidos com uma pequena organização dominada pelo senhor Fu. No meio está uma mulher, presa a este como um pardal numa gaiola, e que recorre aos quatro primeiros para se libertar de alguma forma. Fazendo o filme redondinho, To assume que o próprio senhor Fu era também um carteirista de nomeada e a coisa decide-se num duelo. Tudo no filme é pensado de forma inteligente. As mulheres são filmadas como pardais, fugidias, breves numa cidade urbana que contempla os seus templos com as torres no horizonte. Os carteiristas são filmados como pardais, rápidos e leves na interacção com as vítimas, cómicos quando confrontados com uma situação que lhes escapa. O realizador explora todas as opções de forma subtil, esteticamente sem mácula, e com um sentido de humor directo, a espaços físico, sem exagerar e simplificando todas as acções, conferindo assim um carácter honesto ao filme. A banda sonora é uma excelente ajuda à criação de ambiente, e o pano de fundo, uma Hong Kong cosmopolita e solar, a marca de assinatura de To. O resultado é um filme completo que, não sendo uma obra prima, é uma lição de cinema a todos os níveis. Assim sim, Johnny.
at 14:38 Labels: { Cinema, IndieLisboa2008 } {0 comments}
[Competição Internacional] A secção principal do festival deste ano tem dois filmes gregos. O primeiro visto foi Pink, de Alexander Voulgaris. O grego, com 27 anos, não é virgem nestas andanças: este é o seu quarto filme, e data de 2006. E onde outros julgaram captar a languidez da vida e a profundidade da memória, Voulgaris conseguiu. Socorrendo-me da sinopse oficial, "Vassilis Galis tem vinte e poucos anos, vive com o pai e com o irmão e tenta lidar com a enxurrada de emoções inerentes à passagem para a idade adulta. Escreve músicas e sonha com Emily, uma irlandesa por quem se apaixonou numa passagem de ano em Berlim. Um dia conhece uma precoce menina de onze anos, com quem começa a passar a maior parte do tempo. O irmão de Vassilis é uma estrela de cinema que percorre as ruas dando autógrafos a adolescentes, em troca dos seus números de telefone... Enquanto isso o pai de ambos, que também tem uma fixação por mulheres mais jovens, quase não fala, tem medo das palavras". Portanto, narrativamente, em termos de história concreta, o filme é um vazio. E Voulgaris, que o interpreta, ocupa esse vazio consigo mesmo, com a confissão permanente, pelo texto e imagem, da solidão de um adulto que gostava de nunca ter passado de uma criança. E mesmo esse olhar é, ironicamente, o de um adulto, com a maturidade, doçura e melancolia de alguém consciente e não infantilizado. O filme está pejado de boas imagens e de um ambiente confessional claro e transparente, que em momento algum resvala. Mais: não deixa de abordar as razões de uma visão memorial da vida, desde a partida de uma mãe vítima de cancro que decide ver o mundo, até um pai quase mudo que é o protótipo do adulto afectivamente frustrado mas incomunicante com os seus próprios sentimentos. O trabalho de estrutura e realização é pungente, e, no global, Pink afigura-se como um bom candidato ao prémio final.
terça-feira, abril 29, 2008 at 00:22 Labels: { Cinema, IndieLisboa2008, Música } {0 comments}
[IndieMusic] É comum a produção de documentários sobre determinado movimento ou tendência musical. O que já é menos comum são documentários que questionam a existência de uma categoria específica e que discutem os pressupostos sobre a mesma com os seus actores. O espanhol Aram Garriga olhou para o conceito de Pós-Rock e coçou a cabeça. Aproveitando a existência dessa benção que é o festival Sonar, em Barcelona, o realizador falou com inúmeras bandas que estariam incluídas no Pós-Rock durante dois anos, e discutiu o conceito, a evolução do som e da música, a produção musical num campo experimentalista, tendo ainda tempo para filmar um conjunto de concertos. O resultado é um excelente documentário, conseguido sem orçamento, onde Garriga fala com Sonic Youth, Mogwai, Mouse on Mars, Wilco, Yo La Tengo ou Tortoise sobre a origem do Pós-Rock, a sua existência ou não, as suas motivações e processos, os seus desejos ou projectos. No fim de contas, o filme acaba a discutir a evolução da música e da cultura como produção humana, por entre excertos de concertos, testemunhos de músicos e informações contextuais ponderamente introduzidas. O olhar do realizador é não só sobre o tema, enfiando a faca até ao fim, mas também sobre a imagem. As entrevistas são gravadas de forma informal e com planos dinâmicos, os concertos apresentados como pano de fundo à discussão, ilustrando de forma cabal a dificuldade de encaixar semelhantes nomes numa só categoria, tique nervoso da sociedade comercial. Introspective é a prova que se consegue fazer muito bom cinema sem dinheiro. Não que deva ser assim, mas assim sabe melhor. Take that, you f**** producers!
segunda-feira, abril 28, 2008 at 23:53 Labels: { Cinema, IndieLisboa2008 } {0 comments}
[Competição Internacional] Não me recordo de aqui alguma vez ter dado apenas uma estrela a um filme. Chegou o dia. É hoje. E logo com um em competição. Isild Le Besco é actriz. E, como muito boas actrizes, achou que dava uma boa realizadora e vai de ataviar. O resultado é aquilo que gosto de designar por um filme-calhau. Nicolas é um jovem de 14 anos que vive com os avós num meio deprimido. Fraco estudante, fica com um livro de um professor onde está um postal de Belle-Ile. Nicolas sai a meio da noite, sem plano, para Belle-Ile. Depois de uma boleia nocturna, dorme numa pequena vila em nenhures no meio da rua, onde pela manhã passa Charly, jovem prostituta. Charly, com tiques de obsessiva-compulsiva, acolhe Nicolas numa roulote no meio de um descampado, ele que praticamente apenas sabe repetir uma frase: "não sei". Nicolas é um calhau. Le Besco filma como um calhau e quando quer fazer um filme sobre uma prostituta reduzida à obsessão e obrigada a crescer depressa demais, passa duas horas a filmar um grunho de 14 anos. Nada no filme faz sentido e tudo é gratuito, à excepção da interpretação de Julie-Marie Parmentier, a jovem Charly. Vê-se que a coisa foi feita sem meios, filmada em cima do joelho, mas isso não justifica um filme acéfalo, no limiar do idiota, que não quer mostrar coisa nenhuma mas também não tem coragem para o assumir, e que sobrevive apenas no olhar de uma personagem bizarra sustentada por uma actriz que valerá a pena seguir em tempos mais próximos. Senhora Le Besco, dedique-se à pesca, sff. A gerência agradece.
at 23:39 Labels: { Cinema, IndieLisboa2008 } {0 comments}
[Herói Independente] Só com os três últimos filmes, e com a entrada nos principais festivais europeus de cinema, é que Johnny To chegou às mentes da Europa. Mas antes disso o senhor já andava por Hong Kong a filmar delírios. Bom exemplo é este The Heroic Trio, série B asiática assente nas mais extraordinárias ideias. Reza a sinopse que "uma anónima cidade do futuro em estilo rétro entra em pânico quando uma mulher invisível começa a raptar bebés recém-nascidos destinados a ser imperadores e a entregá-los ao misterioso e subterrâneo sobrenatural Senhor do Mal. A polícia está impotente, e a cidade tem que ser salva por três mulheres muito diferentes que partilham um terrível passado. Tung, a Mulher Maravilha; Chat, a Caça-Bandidos; e Ching, a atormentada mas determinada mão direita do Senhor do Mal, a Rapariga Invisível.
at 17:35 Labels: { Cinema, IndieLisboa2008 } {0 comments}
[Observatório] Oficialmente, a filmografia de Mike Leigh recua a 1971, com um desconhecido Bleak Moments. Mas até 1988 o britânico dedicou-se à televisão. E a memória de algo mais válido só vem em 1993, com Naked. Ok, na prática, Leigh é conhecido por Secrets & Lies, de 1996, o dramalhão realista que voltou a colocar o Reino Unido (e a Europa) em lágrimas abundantes e a desenterrar cadáveres do armário como ninguém. Lembrando: é aquele em que uma mulher negra identifica a mãe como uma senhora branca de classe operária e a partir daí toda a gente na família tem um esqueleto escondido. Remember? Pois. Daí para cá Leigh fez o mal amado Topsy-Turvy, e Vera Drake, projecto com cara de BBC que nunca se assumiu como filme a sério e deixou o inglês a marinar como figura proeminente da sétima arte europeia. E portanto, Leigh tinha dois desafios: por um lado tosquiar a lã de realista dramático que lhe cresceu nas costas, e por outro recuperar a veia de cinema que se escondeu atrás da pele de televisão. Ontem, o Indie mostrou em ante-estreia nacional o resultado deste processo, e dificilmente podia Leigh ter acertado mais na mosca. Happy-Go-Lucky é, dentro das minhas categorias mentais discutíveis, aquilo que gosto de designar por um filme delicioso. A história parece simples: Poppy é uma professora primária de trinta anos, com uma vida desligada de responsabilidades de maior. Mas muito mais que isso, Poppy é a pessoa mais positiva e bem disposta à face da terra. Não, Poppy não é pateta. Nem burra. Poppy é inteligente, linda (em estilo inglês) e tem esta questão: é profundamente feliz e tudo, mas tudo, tem um lado positivo. Tudo é solar. Tudo tem volta, imediata. Happy-Go-Lucky, expressão que se pode traduzir por Um Dia de Cada Vez, é definitivamente uma pedrada no charco na carreira tematicamente soturna de Leigh. E, felizmente mais do que isso, é um filme sólido, equilibrado, que em momento algum cai na patetice ou idiotice, que apresenta personagens, situações e questões de profundidade. A espaços com diálogos quase "altmanianos", e mostrando uma Londres muito Paris, o trabalho do britânico, no fundo, não foge ao padrão de discussão das relações humanas que o ocupa. Mas fá-lo numa vertente contrária à comum. Sally Hawkins, que já havia aparecido em Vera Drake mas é uma cara da televisão, é um bálsamo de interpretação num papel enorme, e de enorme dificuldade (quem consegue ser assim?). E no fim de tudo estamos a falar de uma comédia. Parabéns, senhor Leigh, parabéns. (Vénia).
at 17:29 Labels: { Cinema, IndieLisboa2008, Música } {0 comments}
[IndieMusic] Sim, não há pontuação. Não, a coisa não é má. Só que não é filme. The Field Guide to North America é uma compilação de vídeo-clips e/ou curtas-metragens de músicos ou bandas da corrente independente que têm marcado os Eua e Canadá. E portanto, sim, há trabalho de compilação (os senhores responsáveis pelo projecto chamam-lhe “curadoria”) mas não há realização, a não ser a dos próprios clips. E aqui, declaração de interesses: a quem a música independente for estranha ou repelente será difícil olhar para este trabalho com olhos de ver. Porque, como é óbvio, o trabalho visual tem ligação directa, sem ignição, com os sons produzidos. E o Guide merece duas notas. Uma, para a gente boa que tem lá dentro, a começar em Devendra Banhart, passando por Joanna Newsome e acabando em Smog ou Mice Parade. São ilustres representantes do hype da independente dos últimos anos, e capazes de criar as coisas mais doces, alienadas e interessantes do actual panorama musical fora da caixa pop. Outra, para a excelente escolha de filmes, a maior parte com base em animação, que se configura não só como um deleite visual mas também como lança criativa num meio onde muitas vezes o clip serve apenas para vender discos e não para vender música. Aos curadores, um bem-haja.
at 17:24 Labels: { Cinema, IndieLisboa2008 } {0 comments}
[Competição Internacional] O único filme espanhol em competição é profundamente espanhol , pelo menos no ambiente que transmite. Rodado em Girona, estância balnear da Catalunha, com Barcelona no horizonte, o trabalho de Pere Villà segue Marc, um jovem em final de adolescência. E tudo em Marc é atípico, ainda que existente. Confrontado com uma nota positiva no exame final de liceu, Marc desde início dá o mote: pede para a nota ser revista em baixa, para chumbar. Recusado o pedido fora do comum, as duas horas seguintes mostram um espanhol perdido, sem saber o que fazer, incluído numa família comum a braços com problemas comuns (divórcio por formalizar, falta de relações afectivas profundas), e claramente espanhol, ou mediterrânico se se quiser. Marc passa o Verão a transportar turistas para desportos aquáticos, dorme sestas por inaptidão de fazer algo mais, vive com uma avó catalã que lhe ensina as Sardanas. Marc é um atípico jovem urbano porque sem círculo de amigos, sem festas à noite ou mil namoradas. Mas o catalão é típico numa juventude mediterrânica mais comum do que se possa pensar: perdida no horizonte profissional, perdida numa sexualidade ainda não revelada por timidez e que encontra numa prostituta de beira de estrada a imagem para uma masturbação de duche, perdida à beira da praia diluindo-se num calor abrasador que reduz toda a actividade. É uma outra adolescência, a de Marc. Não devora experiências em ritmos reconhecidos, mas antes fantasia com as mesmas. Não se esvai em espontaneidade social, mas antes se refugia num núcleo familiar já de si frágil. Marc fala pouco, e felizmente o filme fala por ele. Porque é apenas aqui, em conteúdo, que o trabalho de Villà se salva do purgatório. Em forma, Pas a Nivell é um filme contaminado pela temperatura e pela languidez dos personagens e do contexto, mas que se arrasta de forma desnecessária a espaços, tornando-se difícil de ver. O espanhol filma de forma seca, directa, quase simbólica, e se o espectador tiver um pouco menos de paciência tudo de perde porque o realizador insistiu demasiado na linha. Interessante apenas, Pas a Nivell poderia ser mais. Mas não é.
at 01:06 Labels: { Cinema, IndieLisboa2008 } {0 comments}
[Observatório] O meu primeiro contacto com Harmony Korine foi em Julien Donkey Boy, de 1999. Na, acredito eu, única apresentação em cinema em Portugal (mais concretamente no desactivado Cine222) percebi que estávamos na presença daquilo que gosto de designar por um gajo esgroviado. Korine era e é um espírito livre. E soturno, até agora. Vejamos: em Gummo, de 1997, seguia um conjunto de personagens numa Ohio devastada por um tornado, e Julien, dois anos depois, era um esquizofrénico numa família rasgada pela estupidez. Korine, que esteve dez anos sem filmar uma longa metragem, construiu não só o mito do seu cinema independente, como o alicerçou em retratos duros, negros e irreais de verdadeiras personagens, mais do que pessoas. E eis que, chegado a 2007, Korine olha para trás e decide arriscar no mundo positivo. Mister Lonely é, assim, claramente um filme de Harmony Korine, mas pelo lado do risco que o norte-americano sempre seduziu, mais do que pela temática. E ficará possivelmente como o filme mais surreal do Indie: algures nas montanhas uma comunidade de sósias de artistas sobrevive criando gado e montando uma barraca que baptizam de teatro. Marilyn Monroe é casada com Charlie Chaplin, a raínha de Inglaterra dorme com o Papa, Michael Jackson ainda tem o nariz direito e dá gritinhos há beira do lago, e Abe Lincoln ri-se como um trovão. O objectivo é claro por entre a irrealidade dos agentes: não envelhecer ou pelo menos permanecer na expectativa do derradeiro espectáculo, onde todos podem ser quem decidiram ser e não quem a sorte ou azar os entregou na realidade. Pelo meio Harmony semeia freiras que caem de aviões e não morrem. Pelo meio Harmony lança músicas tribais do Mali. Pelo meio Harmony faz o filme mais positivo da sua vida, e atinge o ponto de contacto onde ele dói, atirando o ser humano para a sua própria escolha de real e não como vector reactivo de uma sociedade onde, parece, muitos estão deslocados. Decorem este nome: Harmony Korine.
at 00:33 Labels: { Cinema, IndieLisboa2008 } {0 comments}
[Observatório] Final de uma triologia, Avant Que J'Oublie é um documento singular. Do francês Jacques Nolot, que também interpreta, o filme aborda o meio dos gigolos clássicos de Paris, de cariz homossexual, figuras liberais que oscilam entre os sentimentos criados para com quem lhes paga e o dinheiro desses mesmos, as heranças ou a transição para outra vida. A história é, em base, simples: Pierre, com 60 anos, é um ex-gigolo a quem o parceiro morreu e não deixou os quinze milhões que deveria. Ocupado pela insónia, viciado em tabaco e whisky, em depressão profunda e perdido no relacionamento social que perdeu com o mundo, seropositivo que rejeita a morte há 24 anos, Pierre ocupa-se da escrita e pensa em jovens para breves serviços sexuais, gigolos de ocasião que assim invertem a ordem das coisas. Pierre atravessa assim Avant Que J'Oublie como uma nuvem, mostrando uma Paris clássica e entregue ao corpo, envelhecido, refém de si mesmo e de uma vida de afectos estilhaçados, que se perdem quando se discute uma herança à mesa do café. Enquanto trabalho, o filme de Nolot tem enormes virtudes. Antes de tudo, olha para uma realidade pouco comum no cinema dito sério - o mundo dos gigolos - com olhos de realidade. Isto é, não se fala de prostituição mas de gigolismo. Há afectividade, ainda que distância. Há um olhar, dir-se-ia, nobre sobre a sexualidade, mesmo que promíscuo. Há, sobretudo, uma frontalidade e crueza nas relações que se admira enquanto expectador. E daqui deriva todo o trabalho do Nolot realizador, os planos longos e as sequências que sussurram solidão, a captação dos olhares vagos, as falas directas e envelhecidas, a criação de um ambiente psicológico sólido, com uma sequência final inevitável e no gume da faca, segura em pontas. Claramente um dos filmes mais off-beat do Indie, e verdadeiramente mais independente.
sábado, abril 26, 2008 at 16:01 Labels: { Cinema, IndieLisboa2008, Música } {0 comments}
[IndieMusic] Se há secção em que o Indie sempre apostou e está melhor que nunca, é na de filmes associados ao meio musical. Vimos Lou Reed's Berlin no primeiro dia e valeu a pena. Ontem, Joy Division poderá ficar com o grande documentário musical da edição de 2008. Numa altura em que a carreira e história dos quatro de Manchester está perfeitamente disseminada em cinema, tendo começado com 24 Hour Party People em estilo ficcional e continuado com Control, de Anton Corbjin, não é fácil partir de novo há descoberta do grupo que emergiu do punk para algo superior. Mas este simplesmente Joy Division consegue-o de forma absoluta. Primeiro, porque o trabalho de Grant Gee tem acesso a um manancial de informação jamais visto, documentos, histórias, imagens, gravações audio e vídeo, testemunhos diversos. Segundo, porque, com isso, Grant constrói um documento visualmente hipnótico, com sobreposição de imagens, manipulação de documentos e sons, de tal forma que toda a energia do punk, dos Division, de Curtis, é passada de forma consistente. Terceiro, porque ao contrário de outros Gee não elege Curtis como elemento único mas antes situa-o na importância reconhecida dentro do grupo. Claro que esta era central, mas em termos de atitude Gee não olha para Curtis como início e fim dos Division. Antes apresenta-nos tudo o que interessa para compreendermos o som, o contexto político, social, cultural da Manchester tatcheriana, a intervenção dos produtores no som da banda e na reinvenção do punk, as histórias escondidas, os pormenores e as memórias obtusas. E tudo isto na voz dos representantes directos do projecto, os Division eles mesmo, e Annik, e Tony Wilson, e quem mais teve contacto, de forma profunda, com os quatro putos ingleses que determinaram o som de finais de setenta e por aí em diante. Como filme, Joy Division é absurdamente bom, pelo estilo, pela estrutura, pelo contacto tanto com o realismo dos intervenientes quando falam como pela sua utopia quando olham, pelas imagens, por ir atrás de outras imagens (como as de Corbjin, por exemplo), por ir atrás do espírito de Curtis dentro da bipolaridade agora conhecida e a epilepsia então diagnosticada, por olhar nos olhos uma banda que, para todos os efeitos, trouxe efectivamente muito de novo à realidade de então e de agora. Só por Joy Division já valeu a pena ter Indie.