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O Fim

Há quatro anos o mundo era diferente. Santana Lopes era primeiro-ministro, George Bush presidente dos EUA, e Cesariny era vivo. Há quatro anos, o Animatógrafo nasceu de uma pancada de final de tarde, num escritório na Av. de Berna, em Lisboa. E alimentou-se pela necessidade de escrever sobre muita coisa, e pela ilusão de ser lido, por muito poucos. Quatro anos depois, a ilusão morreu pela realidade e a necessidade de falar aos outros desvaneceu-se na incapacidade de gerar algum fórum de discussão. Assim, o Animatógrafo morre na mesma semana em que o seu autor vê alterações efectivas na sua vida profissional e substantivas na vida pessoal, e quando já pouco sentido fazia continuar a escrever. Para já, para o futuro próximo, o Animatógrafo vai centrar-se em si mesmo e abdicar do esforço de discutir ideias com os outros. Para já, para agora, é o fim.

A verdade é que


A verdade é que este é, possivelmente, o mais feliz cartaz de sempre de Cannes. Ou não fosse a foto de David Lynch.

A verdade é que

A verdade é que os intelectuais morreram e ninguém quis ir ao funeral. Mas estamos todos a pagar a conta. Com eternos juros de mora.

A verdade é que

A verdade é que há alturas na vida em que estamos completamente reféns uns dos outros.

A verdade é que

A verdade é que me sinto profissional e estruturalmente derrotado.

A verdade é que

A verdade é que devia estar a trabalhar na área da cultura, e não estou. Devia ser programador, ou técnico de luz, ou assistente de comunicação, ou promotor. Olhando para trás, dir-se-ia que falhei na coragem para assumir que o queria fazer não me daria, objectivamente, o que queria de material na vida. A verdade é que o que faço hoje está longe das minhas inquietações mentais, do que me interessa efectivamente, do que me realiza nas entranhas. Sim, poucos são os que fazem o que querem. E poucos ainda o que os efectiva na realidade que constroem. A verdade é que o quotidiano é hoje uma mentira mascarada de necessidade, e um dia, do alto dos meus 50 ou 60 ou 70 anos, vou desejar acreditar em qualquer força metafísica que me traga de novo ao tempo da oportunidade. A verdade é que o antropocentrismo a que aderi é bonito, mas fode-me o juízo.