There you have it, the longest minute in cunnilingus history...

Ela está de volta. A profeta. Supa Sista. A diva anti-diva. Black Mama. Ursula Rucker está de volta. Quando ouvi "Supa Sista", o album de estreia em 2001, pela primeira vez deu-me vontade de apanhar um avião, sem aviso, e colocar um pé antes do outro, em slow motion, em Filadélfia, e caminhar, em slow motion, nos bairros de subúrbio onde as crianças brincam no jardim do vizinho e saltam debaixo da boca de incêndio que alguém abriu. Quando ouvi "Silver or Lead", de 2003, deu-me vontade de apanhar um avião, sem aviso, e colocar um pé antes do outro, em slow motion, em Filadélfia, e caminhar, em slow motion, pelos bairros de bares esquecidos do fim de tarde, que se lembram do sorriso de Baskiat e emergem, segundos depois, no jogo dos 76s que se arrasta no ecrã ao alto. Ursula é profeta, nao sacerdote. Confiança, não sermão. Liberdade, não hipocrisia. Voz, não som. Ela está de volta, com Ma'at Mama.

Who wants a piece of Old Europe?

O Horror iNominável

Avisa o shôr Nuno Markl (e avisa muito bem) que está criado o primeiro vídeo podcast português (pelas informações que estão disponíveis, claro). Tem o superior título de O Horror iNominável e só podia vir de duas cabecinhas cuja vida é dizer mal dos outros, com piada. Os shôres José de Pina (que agora aparece miseravelmente num talkshow da SIC Comédia mas é, isso sim, um dos cérebros da Contra-Informação ou do Herman Enciclopédia) e Filipe Homem Fonseca (também do Contra-Informação ou de Bocage), para já, ainda só libertaram um trailer. Mas como bom trailer, deixa antever ácido em estado semi-puro, em formato humorístico e, last but not least, em vídeo podcast. Como estas coisas são como são, não me admirava nada que depois isto fosse parar à TV, mas para já é só para gente muito à frente, que sabe o que é e como ver um vídeo podcast. O feed está em http://feeds.feedburner.com/ohorrorinominavel, ou então pesquisem no iTunes mesmo por Horror iNominável que ele aparece, como que por artes de candomblé. Mais coisas, ou para fazer a subscrição de forma automática, ver aqui. Parece que o primeiro episódio aparece lá para quinta ou sexta-feira...

Sim, esta pode ser uma noite histórica

E porquê? Porque a :2 (quem mais?) começa a transmitir nada mais nada menos que duas pérolas, e ainda por cima uma a seguir à outra. Às 22:30h, se a Alberta Marques Fernandes não se esticar muito, há Curb Your Enthusiasm, tida por muitos como a melhor série de comédia pós-Seinfeld (em português, claro, o nome é idiota, chama-se "Calma, Larry"). Às 23h, a série que substituiu Carnivàle na HBO em Outubro passado, de seu distinto e simples nome Rome. Possivelmente esta semana ainda escreverei sobre Carnivale mas espero por Rome como o gajo do barrete preto (e não encarnado) espera pelo condenado. Carnivàle foi, decididamente, a melhor série que vi nos últimos anos e foi suspensa abruptamente ao fim da segunda série, tendo a simpática senhora que fez o anúncio dito que ia ser muito bem substituída por Rome. Vai daí, o condenado pode estar inocente, ser pai de família, dar assistência aos pobrezinhos, ser fiel à sua mulher e temente a Deus que eu não me ralo: vai perder a cabeça à sombra do meu machado, AH VAI! Tirando isso, se a :2 mantiver esta onda de generosidade, pode ganhar audiências jeitosas (leia-se, acima das 10 pessoas por noite) às segundas-feiras, recuperando aquela fase da TV portuguesa em que havia sempre uma série por dia da semana. Às segundas eram X-Files na TVI, antes disso os Simpsons apareciam às quintas na RTP, ande soi on ande soi on. Vamos ver (literalmente).

PS: Chegou-me aos ouvidos que a mesma :2 teria comprado Carnivàle para ecrãs tugas. No entanto, so far népias. Se se confirmar é um dos acontecimentos televisivos do ano, se não se confirmar é só a confirmação da chungice de país que temos. Aproveito para alertar que a primeira série (12 episódios) está disponível em DVD, em Portugal, com o inenarrável título de A Feira da Magia, o que deve ter reprimido todo e qualquer comprador impulsivo (e mesmo alguns ponderados). Mas fechem os olhos e comprem (a caixa de 6 DVDs até nem é cara). É a melhor TV que money can buy. Oh yeah!

Atenção, judeu à vista!

Ora, em relação ao post de ontem (aqui pouco mais abaixo) sobre Alles auf Zucker! uma boa notícia: o filme vai passar ao abrigo do festival de cinema alemão, em Lisboa, no dia 3 de Fevereiro (sexta-feira), no cinema King, pelas 19 horas. Preço do bilhete: 3,5€. O Goethe-Institut, que promove a terceira edição do festival (tal como as anteriores), descreve o argumento assim: "Jaecki Zucker está financeiramente arruinado e a sua mulher ameaça deixá-lo. A solução parece ser a herança da sua mãe que Jaecki poderá receber se fizer as pazes com o seu irmão Samuel, um judeu ortodoxo. O problema é que Jaecki nunca esteve muito próximo da religião dos seus antepassados." Mais informações sobre o evento, todos os filmes, etc, aqui.

Oiçam



Clap Your Hands Say Yeah, Clap Your Hands Say Yeah

A ler com atenção...

... o texto da New Yorker esta semana sobre a primeira comédia alemã que tem os judeus como prato forte. Não, não é nenhum recrudescimento ariano. É lidar de frente com a história. Chama-se Alles auf Zucker!, é realizada por Dani Levy, é centra-se num judeu deprimido após a queda do muro de Berlim. Ao que parece o filme foi um sucesso na Alemanha. Não tenho qualquer informação que apareça por cá, mas como estreia tanta coisa pode ser que sim... O texto, a ler com atenção, está aqui.

Se Beck fosse preto seria Mike Ladd

A ouvir na íntegra o novo album do senhor, Father Divine assim se chama, aqui.

Oiçam



Arctic Monkeys, Whatever People Say I Am, That's What I'm Not

1940



Esta é uma fotografia da mestre Dorothea Lange, em plena Depressão. Este homem era um apanhador de algodão, um migrant, um de muitos milhares à deriva numa América sem comida nem futuro. A América de Steinbeck. A América do barril de madeira como fato. A América com calos, a preto e branco, ou da cor da terra, do pó. Não sei porquê, mas uma América que sempre me inspirou a maior curiosidade, como que uma dimensão à parte, um bocado do século XX à parte. Este homem apanhava algodão de terra em terra, de sol a sol, de ferida a ferida. 1940.

Exmo. Sr. Presidente da República

demita-se.

Votar Cavaco

Fernando Lemos

Andava há já semanas para ir a Sintra ver a exposição de fotografia de Fernando Lemos e hoje matei a bicha (a fome, entenda-se). Fernando Lemos é dos nomes mais desconhecidos do Surrealismo português, infinitamente mais ignorado que Mário Cesariny, António Pedro, Pedro Oom ou Vespeira. Lemos constituiu a sua obra fotográfica em perto de quatro anos, de 1949 a 1952. Nascido a 1926, Lemos aderiu ao "movimento" quando das exposições do 'Grupo Surrealista de Lisboa' e de 'Os Surrealistas', precisamente em 1949. No Sintra Museu de Arte Moderna, espaço com o cunho de Berardo, estão 117 fotografias que resultaram desse fascínio por Cesariny e companhia. As imagens foram compradas recentemente por Joe Berardo e estão em diálogo permanente até 30 de Abril. Do ponto de vista estricto, Lemos herda dos surrealistas a liberdade, que se pressente na ironia em quase todas as imagens, quer formal quer de conteúdo. Na prática, Fernando Lemos aponta à exploração da técnica fotográfica como modo de representação subjectivo, para lá do objecto fotografado. É assim que a solarização e a dupla exposição da película surgem como métodos de alteração primordiais, criando imagens que criam um novo objecto, herdeiro das duas imagens que compõem a fotografia mas que as transcendem. Da mesma forma, aliás, que o todo não é a soma das partes. Particularidade na maioria das fotografias é partirem do sistema clássico de "retrato" para uma noção nova do mesmo: a da criação de outra identidade. Em quase quatro anos, Lemos fotografou faces de Sophia de Mello Breyner, Marcelino Vespeira, Mário Cesariny, Alexandre O'Neill, Maria Helena Vieira da Silva, José-Augusto França, entre muitos outros. Um dos muitos sentidos extra-imagem que ficam é de um grupo dedicado à liberdade nas suas mais variadas formas, gráficas ou literárias, que constituiu uma tentativa de vanguarda portuguesa, aliás pouco valorizada nos dias que correm. Além de tudo isto, Fernando Lemos fixou imagens ainda que se enquadram em duas categorias: nus femininos, aproveitando a carga erótica dos corpos através da dupla exposição da película ou da cenografia de luz no acto de fotografar, e formas, puxando para a imagem impressa o ponto de vista gráfico do quotidiano que, de outra forma, se teria perdido na afeição do olhar comum à natureza real desse mesmo quotidiano. Na prática, ambas estas são caras aos surrealistas, na medida em que tanto o corpo como a forma foram temas centrais na sua actividade, pelo que eram territórios por explorar, pelo menos do ponto de vista de um olhar moderno. Sobre a exposição há a dizer que é particularmente bem estruturada, na medida em que são intercaladas com as fotografias outras obras, de autores surrealistas portugueses e estrangeiros (Cesariny, Vespeira, Man Ray, Dali, etc), que com elas comunicam. Sendo que todas as obras pertencem à colecção Berardo, é um esforço exigente e cumprido de aproveitar um conjunto de criações que têm vasos comunicantes óbvios que permitem compreender o Surrealismo nos seus pressupostos globais. Mais: a instalação da exposição no Museu faz um aproveitamento ímpar do mesmo. O espaço é um palácio extraordinário, onde a gestão da luz natural é pensada e onde as salas se sucedem, permitindo às obras uma interligação muito interessante. No último andar está patente uma pequena exposição de auto-retratos de Miguel Navas, que traz à parede uma discussão interessante: a dos vários eus. Todas as imagens expostas têm um aspecto diferente do autor, quase como que um humor, revelando a noção de que existem vários auto-retratos. Longe do auto-retrato clássico, envernizado no tempo e mumificado, Navas propõe os seus vários eus, mantendo padrões básicos mas modificando feições, gestos, músculos. No fundo, apontanto à construção de identidades outras que surge nas fotografias de Fernando Lemos. Para quem quer aprender a montar uma exposição e gerir cultura.

Votar Cavaco

Este é um blog Alegre

Este é um blog Alegre porque:

1) - Cavaco Silva é o anti-cristo em versão muda;

2) - Cavaco Silva merecia ser depenado, mergulhado em alcatrão e novamente penado;

3) - Cavaco Silva é um extra-terrestre de Vénus que, como o planeta é o do amor, pensa que todos o querem, todos o louvam, todos o amam;

4) - Cavaco Silva é um atentado à existência da humanidade, que devia ter vergonha de ter produzido algo assim e penitenciar-se expulsando o especimen do sistema solar;

5) - Cavaco Silva devia ter sido um abordo clandestino e nem para isso teve jeito;

6) - Mário Soares tinha o seu lugar na história e decidiu que queria ser uma nova versão dos estudos de Pavlov;

7) - Jerónimo de Sousa é casado com uma senhora de nome Ovídea (true story);

8) - Francisco Louçã não tem fato e gravata para tomar posse;

9) - Garcia Pereira tem um cabelo que envergonhava até os habitantes da província mais a sul do Burundi que, como toda a gente sabe, são menos esquisitos que os do Norte (e têm tangas de ráfia);

10) - O voto nulo como protesto é desperdício, o voto em branco falta de caneta e a abstenção preguiça sem desculpa de ir para a praia.

Vidas Difíceis X

6 filmes para 2006

Actualmente em Portugal estreiam dezenas de filmes por ano. A maior parte acaba por não ter interesse e ser apenas para vender pipocas nos grandes centros comerciais de Lisboa e Porto, mas como é óbvio ainda há coisas pelas quais vale a pena salivar. Para 2006, e muitos outros podiam fazer parte desta lista, ficam seis que podem marcar o ano. Primeiro que tudo Munich, o novo de Spielberg. Porque é de Spielberg, porque é sobre os problemas nos Olímpicos de 1972, porque esses problemas envolvem israelitas e palestinianos, porque ao que consta Spielberg deixou a sua costela judia em casa e fez algo unbias, o que lhe está a custar ataques de vários sectores nos EUA. Mais informações no site oficial, aqui. Munich estreia em Portugal em Fevereiro. Depois há o novo de Terrence Malick, sete anos depois de "A Barreira Invisível". O mais convicto eremita do cinema actual fez The New World em 2005, que chega agora, creio que ainda no primeiro semestre, aqui ao cantinho da Europa. Pelo trailer a coisa não parece grande espiga, mas Malick é Malick. The New World é a história da Pocahontas, descoberta da América, confronto com indígenas, bla, bla. A história está muito, muito gasta, em várias versões, e portanto é bom que Malick não tenha estado sete anos a hibernar para depois fazer um desastre. A ver vamos. Mais info aqui. A 9 de Fevereiro, se não houver alterações, surge Brokeback Mountain, o novo de Ang Lee. Eu não sou um indefectível de Lee, achei Crouching Tiger, Hidden Dragon muito mau quando toda a gente achou genial. E The Hulk era simpático, mas nada do outro mundo apesar de ser verde. Este Brokeback Mountain vem com pergaminhos do Festival de Veneza, e é isso sobretudo que faz salivar. Aliado, claro, à originalidade de uma história de cowboys homossexuais. Ah, e tem Jake Gyllenhaal, a maior revelação do cinema mundial nos últimos anos, mais concretamente desde o extraordinário Donnie Darko. Mais info sobre o novo de Lee aqui. Para algo completamente diferente, The Fountain. Darren Aronofsky realizou em 2000 Requiem for a Dream (que eu não me lembro de ter visto) e aparece agora com um pedaço de bizarria. O senhor descreve The Fountain assim: ""It's a post-Matrix, metaphysical Sci-Fi movie, and it's very different to anything you've seen. I call it post-Matrix because Matrix reinvented sci-fi in the same way Star Wars did, or 2001." Na prática, pelas escassas informações e trailer disponíveis, a coisa anda à volta de três histórias paralelas com espaços de um milénio entre si. O trailer é prometedor, mas deve ser daquelas coisas que ou sim ou sopas. Esperemos que sim. Para algo também diferente, Everything is Illuminated, de Liev Schreiber. O senhor Schreiber é um actor e este é o seu primeiro trabalho. Mas o filme parte do livro homónimo de Jonathan Safran Foer. Diz quem leu (nomeadamente o shôr Nuno Markl) que a coisa é fabulosa (está à venda na FNAC Colombo, por exemplo, e custa menos de nove euros, em versão original). O próprio Foer entra no filme, tal como Elijah Wood, cuja carantonha ocupa todo o cartaz oficial. O IMDB resume o argumento assim: "A young Jewish American man endeavors to find the woman who saved his grandfather during World War II in a Ukrainian village, that was ultimately razed by the Nazis, with the help of a local who speaks weirdly funny broken English." Mas pelo trailer isto é só mesmo o mote, a coisa é wild and crazy. Mais info aqui. Por fim, Good Night, and Good Luck. A estreia a sério de George Clooney atrás das cameras (e à frente também) pesca logo na história do próprio pai, histórico jornalista pivot de televisão que se viu mergulhado no pior do McCartismo, na década de 50. Também com pergaminhos de Veneza, o filme tem potencial para ser uma das surpresas do ano. Todo a preto e branco, parece que faz um acerto de contas com o século vinte norte-americano, e isso é sempre de louvar. Site oficial aqui. Claro que no meio disto tudo há filmes novos de Wim Wenders (Don't come Knocking, estreia a 30 de Março), François Ozon (Le Temps Qui Reste, 23 de Março), Neil Jordan (Breakfast on Pluto, 16 de Fevereiro), Nick Cassavetes (Alpha Dog, 27 de Abril), Woody Allen (Match Point, 19 de Janeiro) e outros. É ver. Ide ao cinema, gente, ide.

Exmo. Sr. Procurador-Geral da República

demita-se.

Este cão é alcoólico

Chama-se Brian. Como ninguém é perfeito, já existe desde 1999 e eu só o conheci há minutos. Brian é alcoólico, tem uma voz cava de psicanalista e gosta de martinis bem secos. Brian é um dos personagens de Family Guy, série de animação para adultos da FOX que os americanos conhecem desde 1999 e por cá a FOX começou a transmitir há pouco tempo (se bem que são episódios da quarta série, a última até à data). Family Guy é Peter, um idiota, casado com Lois, uma inteligente, e pai de três crianças, Meg, a frustrada, Chris, o preguiçoso, e Stewie, o diabólico. E dono de Brian, cão alcoólico. Acabo de ver, pela primeira vez, um episódio e a coisa tem potencialidade para tomar o lugar dos Simpsons na minha tabela de "séries de animação para adultos geniais" que também pode ser "séries de animação geniais para adultos". As referências a outras séries de TV e filmes são uma constante do princípio ao fim, ou pelo menos foram no episódio que eu vi, o que apela à memória televisiva e cinematográfica de cada um. Caramba, Peter até gozava com Scrubs! Neste momento, depois de explorar o site oficial do programa no qual Stewie vai comentando catilinariamente os conteúdos à medida em que se passa com o rato por cima dos menus, estou a ouvir o podcast do mesmo, com as pessoas que fazem Family Guy a falar do seu trabalho, do projecto, da sua evolução, dos bonecos, do episódio da semana, do que tiver a ver. É com coisas destas que me sinto pequenino, num país pequenino. Mentalmente pequenino. O país.

Para quem quer saber mais, veja aqui.

Exma. Sr.ª Ministra da Cultura


demita-se.

Votar Cavaco

Harry Potter and the Goblet of Fire (**)

Primeira premissa: não li nenhum dos livros de Harry Potter. Não por achar que não valem a pena, mas porque a minha lista de "compras que nunca farei porque gostava de ter tanta coisa que só se ganhar o Euromilhões vou conseguir comprar tudo" já é tão extensa, que ficava com sérios danos cerebrais de gastasse aéreos em Harry. Desculpa Harry, mas a vida é mesmo assim. Ainda assim, vi todos os filmes. Isto para dizer que não posso analisar a adequação dos filmes aos livros. Para mim, o Harry Potter sempre foi um puto inglês de óculos que aparece uma vez por ano no cinema, mais coisa menos coisa, em alturas do Natal. Aliás, nunca tive curiosidade por maior em ir ler o livro depois de ter visto o filme. Se calhar um dia leio. Mas até hoje não calhou. Segunda premissa: os filmes de Harry Potter, até Goblet of Fire, eram simpáticos. Isto é, enquanto filmes de mercado que aparecem porque há livros que vendem aos milhões, não eram objectos desprovidos de interesse. Tomara todo o cinema de entretenimento ter aquele grau de qualidade. A própria evolução, de um inicial curtinho para cada vez maiores e mais densos, é interessante. Os fans de Harry, o personagem livresco, dir-me-ão se não reside aí parte do sucesso, no facto de conseguir agregar públicos tão díspares, piscando um olho aos putos e outro a gente mais velhinha. Destas duas premissas devia discorrer uma conclusão dentro da mesma linha. Mas não. Como no cinema de entretenimento não existe lógica, vai de fazer um filme mau, só assim para variar. Harry Potter and the Goblet of Fire é um filme muito fraco. Porquê? Porque a construcção é banal, porque os planos são de cadeira de escola, porque os efeitos são fracos, porque não consegue dar um novo impulso ao ambiente criado na história que está para trás, porque não é curtinho e infantil nem extenso e negro, não é carne nem peixe. Porque os actores, que se portavam muito bem nos primeiros dois filmes, principalmente, agora se revelam actores fracos. São agora, aliás, o que sempre foram mas conseguiram mitigar: crianças de casting. Porque o filme tem duas horas e meia e parecem mais de três, de tão esticado que está. Porque é de uma previsibilidade assustadora que, ainda que seja herdada do livro (será?), devia ter sido manipulada para criar uma dinâmica cinematográfica. É, claramente, o pior Harry Potter so far. E a diferença para o anterior Prisoner of Azkaban é tão evidente como entre Alfonso Cuarón e Mike Newell. Cuarón já provou, em meia dúzia de filmes, que é um excelente realizador. Newell, em muitos mais, nunca passou da mediocridade. David Yates, que assinará o próximo Order of the Phoenix, não passa de um desconhecido. Mas como a lógica é uma batata (crua, para não fazer mal ao colesterol), esperemos até 2007.

Cultura

Como é óbvio, na campanha eleitoral para as legislativas não se falou em Cultura. Não é tema apetecível seja em que eleições for, muito menos na conjuntura política, social e económica sob a qual decorreram as últimas legislativas. E portanto, não existiram razões objectivas para criar expectativas sobre o sector e alterações a ter em conta. Pelo menos, não expectivas superiores ao facto de se mudar de um governo de Santana Lopes para outro qualquer, o que implicava, sem mais discussão, qualquer mudança para melhor. Quando José Sócrates tomou posse, não disse para mim mesmo "agora é que é". Porque por todas as razões e mais algumas, agora não pode ser. Mas ainda assim, se olharmos retrospectivamente, as melhores golfadas de ar que o sector da Cultura teve em Portugal foi em governos socialistas, sobretudo nos anos de Carrilho. O PSD nunca teve uma noção minimamente aceitável de Cultura e continua, até aos dias de hoje, a enquadrar o sector dentro da estratégia do "tem que existir". Para o PSD, se se pudesse extinguir o sector, do ponto de vista da preocupação política do governo e do Estado, era já a seguir. Basta pensar que a Cultura só é Ministério desde Carrilho, antes sempre fora secretaria de estado e com Santana Lopes à frente, o que diz bem do que o PSD pensa da coisa. Com Durão e Santana depois, só não voltou a baixar a secretaria de estado porque o ruído seria demasiado grande. E portanto manteve-se a figura de Ministério, mas com poderes e capacidade económica piores que secretaria de estado. Com Sócrates, pelo menos, havia a perspectiva de uma melhor organização. Sim, já se sabe que não há dinheiro nem para mandar cantar um cego, quanto mais para o Ministério da Cultura. Mas estava tudo tão mal, que pior era difícil. Arranjar um ministro com dois dedos de testa era, pelo menos, fazer um esforço para reorganizar um sector em caos profundo. Ora, pelas últimas semanas já se compreendeu que Isabel Pires de Lima é um profundo erro de casting, acompanhada ao piano por Mário Vieira de Carvalho. Pronto, não são zombies estilo Pedro Roseta, mas a sementinha da incompetência está lá. No caso da Casa da Música foi a intervenção directa de Sócrates que permitiu fazer a coisa andar. No caso do CCB, enquanto Pires de Lima aparecia a dizer que não recebia ultimatos e que ia pensar no assunto, Sócrates resolveu a história Berardo e chamou Mega Ferreira, acabando com o regime ditatorial de Fraústo da Silva. Mega Ferreira, aliás, é a melhor notícia para o sector em anos. Há muitos anos também que defendo que Mega Ferreira devia ser Ministro da Cultura ou Presidente da Câmara de Lisboa. Nos dois lugares seria um farol de competência, exigência, cultura, organização. Ao que parece, quer agora no CCB fazer o que se impõe: refundar mais do remodelar. Ao que se diz, praticamente todas as direcções serão substituídas, procedimentos revistos, formatos repensados. Nas duas situações - Casa da Música e CCB - foi Sócrates que se deu ao trabalho de fazer o que era preciso ser feito. Ao que parece, a substituição de Lagarto por Fragateiro no Teatro Nacional D. Maria II já não parece ter tido dedo do primeiro-ministro mas antes da ministra, e o desastre está à vista. Lagarto tinha dois anos de trabalho no Nacional e estava a começar a criar uma dinâmica interessante, dadas as condições. Fragateiro vem de um Teatro da Trindade que evaporou do mapa cultural e que só tem tempo de antena com peças de Freitas do Amaral. Pior: Fragateiro enunciou como ponto principal do seu projecto a ideia de apenas programar textos nacionais. O escândalo é não só evidente como negro. Ter a noção que um Teatro Nacional apenas deve defender textos nacionais é tão sul-americano como terceiro mundista. É tacanho, para ser mais preciso. Dizia Lagarto ontem que o National Theater em Londres foi criado em 1963 e teve até hoje quatro directores, o que dá um por cada 10 anos, mais coisa menos coisa. Em Portugal continua-se com a ideia da nomeação dos directores das instituições sob controlo do Estado para irem lá "fazer umas coisas". Foram precisos mais de 10 anos para alguém meter Fraústo da Silva na rua, e apenas dois para Lagarto sair do D. Maria. Se esta lógica se mantiver e Sócrates não tiver os olhos abertos, Mega Ferreira não dura seis meses.

Mudança

Ao fim de um ano, confesso que já andava um pouco cansado daquele header fraquinho. E como o novo ano trouxe-me tempo (aliado a um "simpático" desemprego), vai de lavar a cara. As mudanças não são profundas, como é óbvio, mas a meu ver dão outro aspecto. É possível que as caras que habitam aqui a coluna da esquerda venham também a ser substituídas, a senhora de óculos espetados na cara que ficou imortabilizada no Couraçado Potemkin também já está um pouco farta de estar de boca aberta, que aquilo dá cabo dos maxilares. Para já aceitam-se críticas, opiniões, sugestões e participação democrática desse estilo, estejam à vontade...
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UPDATE (08/01/2006, 16:32H): Ora cá está, a barra da esquerda deixou de ter os amigos Trotski, Eisenstein e demais personagens dos filmes deste último, e passou a ter cartazes janotas de filmes importantes. Dá mais cor à coisa e é uma forma de mudar. Os cartazes podiam ser estes como podiam ser outros, se calhar daqui por uns tempos muda-se. Mas atenção: isto não quer dizer que este blog se dedique exclusivamente a cinema. Longe disso. É só porque os cartazes ficam bem aqui na parede.

Tim Burton's Corpse Bride (*****)

Falei de Corpse Bride aqui há uns meses largos, indicando o primeiro trailer e o site, onde já havia, na altura, imensa informação. E como Burton libertou Charlie and the Chocolate Factory também em 2005, a ideia de mais Burton em tão pouco espaço de tempo foi fazendo salivar a minha pequenina cabeça ávida de bom cinema. Vi The Nightmare Before Christmas em 1995, mais coisa menos coisa. O filme não é de Burton, em termos de realização, mas é como se fosse (e muito boa gente pensa que é). E tudo aquilo me ficou, o humor negro, a ideia do Natal perverso, as figuras giacometianas, o ambiente cromático, o ritmo, a banda sonora. Tudo aquilo fez com que cada novo filme de Burton pedisse rápida digestão assim que aparecia nas salas (mesmo desastres como Planet of the Apes). E tudo isto é mau. É mau porque quando comprei o bilhete para ver Corpse Bride a expectativa era tão alta que o tombo podia ser de proporções diluvianas. Mas, oh criaturas do além, mas tudo se desvaneceu na primeira imagem. Porque nunca o senhor Burton podia, com aqueles personagens, fazer cair o mito que gerou à sua volta. Vamos por partes. Se outro mérito não existisse, Corpse Bride convence apenas pelo lado plástico. A animação através de bonecos de silicone (rói-te de inveja, Pamela Anderson) resulta na perfeição, num misto de puppets e técnicas de desenho. Mais: toda a definição de formas das personagens, em regime caricatural, coloca um sorriso lavrado no mais empedernido português. Todo o ambiente negro começa aí, no ângulo fechado do queixo de Maudeline Everglot ou no olhar permanentemente abandonado de Victor Van Dort. Ainda no campo da forma, Burton não se limita a filmar um filme de animação. Antes recorre a planos e imagens que escapam ao comum kids movie, assinalando dois factos: primeiro, o de ser um filme Burton, segundo, o de ser um filme negro. No plano do conteúdo, Burton volta a recorrer ao estratagema da inversão. No reino dos mortos tudo é fantástico, no reino dos vivos tudo é desastre. Entre os mortos alegria, entre os vivos vã tristeza. Victor oscila entre os dois mundos, arrastado involuntariamente de um para outro. E não, Burton não repete a ideia cansada da fuga ao casamento, Victor não foge do casamento vivo para acabar com um casamento morto. Toda a construcção de Corpse Bride assenta no humor negro contínuo, ainda que não previsível em termos de texto. Aliás, muito desse humor passa pelo trabalho com expressões coloquiais anglo-saxónicas e respectivos trocadilhos em contexto de filme. Tal como não há almoços grátis, não há humor fácil em Corpse Bride. O resultado é um misto de significados gráficos com trabalho linguístico, e tudo como se fosse natural assim mesmo, como se não pudesse ser de outra forma. Longe de causar calafrios, o filme transporta o espectador vivo para um universo também ele vivo mas feito de gente morta. E isso não é pouco.

PS: Para os mais curiosos, o Hollywood Reporter dizia em finais de Novembro que o próximo projecto de Burton inclui Jim Carrey. De nome Believe it or not!, parece que o filme, a estrear em 2007, segue a vida de Robert Ripley. Toda a notícia aqui.

Imagens do demo VI



Esta da minha autoria...

Imagens do demo V



Não sei quem é, mas que tem um sorriso lindíssimo tem...