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Nobel da literatura 2008

O Animatógrafo assinala a atribuição do Nobel da Literatura a Jean-Marie Gustave Le Clézio, autor francês ligado às Ilhas Maurícias e com uma temática vincada em África. Não conhecendo a obra de Le Clézio, o Animatógrafo sublinha, de novo e parece que para sempre, a omissão de autores como Philip Roth ou António Lobo Antunes. A história está cheia de esquecidos do Nobel, de Borges a Joyce, de Musil a Beauvoir, e desta feita a academia até premiou um nome que fazia parte da lista de apostas, mas isso não desculpa a continuada tarefa de obliteração do reconhecimento a autores a quem o mesmo é devido.

"Desmarcar depilação"

Colocou-se este estimado autor (por alguns) na tarefa de organizar e indexar em base de dados os breves volumes existentes cá em casa. A mudança havia-os deixado na onda da "boa vizinhança", ou seja, no acaso. Lobo Antunes ao lado de Rushdie, Cardoso Pires paredes meias com Kafka, Borges a segurar Bruce Chatwin. É preciso arrumar a casa, e sobretudo saber o que existe, uma vez que já se chegou ao ponto da compra de exemplar em desconhecimento da sua existência prévia. Duas cópias, portanto, e um coçar de cabeça à banda desenhada. A tarefa implica, então, desalojar todos os volumes do seu lugar actual, inserir os detalhes na base de dados, limpar estantes com a aranha Beatriz a passear (assim rompendo a sua mais recente armadilha), e depois casar livros por estilos e autores, queimando as feridas da situação anterior, alcólicos e abstémios agora separados por existencialistas, para quem vinho pouco fala. No meio de tudo isto, e no meio de uma edição de Sophia lida na infância, uma folha de filofax para indexação de cartões de crédito, coisa antiga, cuidadosamente dobrada na longitudinal. Abro, e a surpresa: "desmarcar depilação". Assim, a frio, sem mais, a lápis, também na longitudinal, em caixa alta, sem pontuação. "Desmarcar depilação". Como que à sombra da morte (dizem) revejo a minha existência, em ritmo acelerado, passando frames. Nada. Olho-me ao espelho. No meio de Sophia e dos seus Contos Exemplares em edição Figueirinhas gasta pela gordura de mãos pequenas e pela secura do tempo, um recado, curto, sem temperatura ou hesitação, como uma acção que se escreve e que quando escrita existe já por si, sem esperar pelo real que a concretize. Revendo, agora em camera lenta, tudo o que é passível de rever, não encontro nada nem ninguém nem coisa alguma intimamente ligada a tal expressão. Nenhuma memória. Nenhum vestígio. Nenhuma recordação ou potencia de. Olho-me ao espelho e nada me vem, para além da imagem de mim mesmo.

Objectos Felizes II

O gajo é brilhante. Já o era nos Ornatos Violeta (que só no fim de carreira foram devidamente reconhecidos), já o é nos Pluto, nos Supernada, em Tenaz, e agora sozinho. Manel Cruz é talvez a melhor coisa que aconteceu à cena musical portuguesa nos últimos tempos. O novo projecto que, reza o mito, começou há muitos anos, tem o espantoso nome de Foge Foge Bandido, e é isso mesmo, um projecto. No caso, é um livro de 140 páginas e um duplo CD. O livro é profundamente ilustrado pelo Manel. Os CDs, de nome O Amor dá-me tesão e Não fui eu que estraguei, têm cerca de 40 faixas cada um. Faixas. Porque lá dentro há catalães aos berros nos anos 40, há electrónicas e acústicas, há fodidas e lixadas, há letras do outro mundo, há missas de uma igreja em brasileiro aos berros, com o Manel a beter o bedelho, há um casal com mau hálito e alguém que aprendeu a ser puta na TV, há histórias de amor, e uma vida de merda, franceses romanceados, alguém a bater à máquina, pedidos de liberdade para macacos. "Ninguém é quem queria ser/eu queria ser ninguém". O Manel pensou que isto era bom demais para aparecer aí nas esquinas dos hipermercados e vai daí a coisa só existe, e bem, via CDGO.COM, com a chancela da Turbina. A primeira edição voou, e parece que a partir de dia 30 há uma segunda. A complementar, o espantoso site do projecto, com tudo desenhado pelo Manel, músicas para audição, vídeos, o diabo a quatro, num tremendo exercício de criatividade e bom gosto. Está, claro está, em FogeFogeBandido.com. E para quem estiver ou passar no Porto, até ao fim do mês, estão expostos os desenhos originais que fazem parte do trabalho, mais concretamente na Gesto Cooperativa Cultural, na rua Cândido dos Reis, 64. A ver, comprar, ouvir, ouvir, ouvir. "Imaginem um abraço/o meu queixo pousado no teu ombro/e eu viajando no teu cheiro pelos/trilhos do silêncio/é o cenário possível de um homem/sozinho de cerveja na mão/sentado na varanda olhando a lua e a/comer pimentos padrão/comê-los contigo era perfeito como/olhar esta cidade à noite/olhá-la contigo era pensar noutras/formas de ver".

Em revista I: Zoetrope All-Story


Mantendo o tópico do post anterior, inaugura-se nova secção. Desta feita, com a Zoetrope All-Story, projecto criado e coordenado pelo mestre Francis Ford-Coppola, cujo número de Verão viu-se refugiado no tapete da entrada há alguns dias. É lixado não caber na caixa do correio e ficar à mãos de semear de um vizinho mais curioso porque o carteiro é xoné. Felizmente os meus vizinhos são do antigamente e vêm a TVI, e portanto cá está ela. Desta feita, o designer convidado é Mark Mothersbaugh e os textos de John Hughes, Sana Krasikov, Saena Lambert, Marissa Perry e Yasutaka Tsutsui. A peça é de uma enorme preocupação gráfica e vale mesmo pelo seu próprio papel, cores e cheiro, para além dos textos. E, imagine-se, não, não custa uma fortuna. A assinatura anual tem neste momento o valor de 25 euros, já com despesas de envio, para quatro números. Para uma das melhores coisas que se faz sobre literatura, cinema e artes gráficas não está mal.

Objectos Felizes I

O Animatógrafo inicia agora uma nova série sobre objectos felizes, peças de inigualável interesse interior, cuja posse faria a felicidade deste estimado autor. Cada objecto é acompanhado por uma breve explicação. Hoje:

A Photographer's Life: 1990-2005 é um livro, editado em 2006, sobre a fotógrafa Annie Leibovitz. Neste caso, contrariamente ao normal, não com imagens tiradas pela norte-americana enquanto parte do seu trabalho, mas antes sobre a sua família e, mais especificamente, sobre Susan Sontag. A ligação entre as duas mulheres foi muito próxima, mesmo nos momentos mais difíceis da pensadora, a braços com uma doença terminal. A Photographer's Life é mesmo isso: um olhar sobre a vida da fotógrafa, e não o seu olhar sobre a vida dos outros. Leibovitz ficou conhecida por imagens como a de John Lennon despido a beijar Yoko Ono horas antes de ser assassinado (que fez a capa da Rolling Stone), Demi Moore grávida e nua na capa da Vanity Fair, ou a raínha de Inglaterra no seu esplendor rural. A criadora é um nome incontornável da cultura de imagem das últimas décadas, e este objecto ilustra bem a sua dimensão enquanto produtora de algo permanente: uma atitude de busca contínua da ruptura.

Babelia

Com o tempo, perdi tradições que cheguei a ter. Uma delas foi comprar o El País todos os sábados. Os almoços perdiam-se às quatro da tarde, enquanto a manhã se estendia até perto disso, tudo por culpa de Babelia. Ainda assim, tenho para mim que cumpro a minha parte da tradição sempre que do outro lado da fronteira. Ontem não foi excepção. E o suplemento do diário castelhano recorda-me o porquê de me obrigar a comprar um jornal estrangeiro. Babelia é um bálsamo. Veja-se a edição de ontem. Dedicada de forma profunda à Feira do Livro de Madrid, trabalha os seus destaques longamente. E vejam-se os textos de Enrique Vila-Matas sobre o café de Paris onde Perec escrevia e descrevia o dia-a-dia da capital francesa nos seus mais banais momentos. Veja-se o texto de Juan Cruz sobre a obsessão de Mario Vargas-Llosa em escrever em bibliotecas públicas. Veja-se o texto de Antonio Múñoz Molina sobre postais, e o seu universo, e o Metropolitan Postcard Club de Nova Iorque. Veja-se a análise que Ernesto Ayala-Dip faz da literatura espanhola em 2008. Veja-se a reportagem de Gregorio Belinchón sobre Los olvidados. Guión y documentos., livro que se imagina soberbo sobre Luis Buñuel e o seu projecto mexicano de 1950, erradamente interpretado à época e agora recuperado num trabalho de investigação extensiva de Carmen Peña Ardid e Víctor M. Lahuerta Guillén. Vejam-se os textos sobre Pedro Calapez, com exposição na capital espanhola, ou Marta Wainwright, irmã de Rufus com novo trabalho. Tudo em Babelia flui, como se surgisse sem esforço, como se tudo o que interessasse no mundo fosse aquilo mesmo, naquele momento. E no fundo, contrariamente, Babelia acaba por surgir, a mim, como arma de arremesso: do mundo perfeito, contra a realidade impressa. Também eu gostava de escrever em bibliotecas sem tempo próprio, ou perder-me num velho hotel nova-iorquino por entre milhares de postais, ou desvanecer-me nas imagens de Buñuel, disfarçado de mendigo, nas ruas da Cidade do México. E nada disto está em Espanha mais do que aqui. Apenas o reflexo, semanal, é mais visível. E logo mais feliz e mais triste.

Imprensa da felicidade (ou mais uma afirmação da minha intelectualidade)

Chegaram ontem. O carteiro, simpático, deixou os pacotes debaixo do tapete, por não caberem na caixa do correio. Simpático. Felizmente a senhora da limpeza não se interessa por correspondência estrangeira. Não se viam letras manuscritas, nem selos de longe. Eram apenas um pacote amarelo fininho e um branco mais grosso. Durante anos planeei subscrever dezenas de publicações, revistas, livros, jornais, folhetos e panfletos, pasquins. Chegaram ontem, e até tenho medo de folhear, parvo. A primeira, num pacotinho amarelo com letras de máquina, é a Zoetrope All-Story. Conheci a Zoetrope na internet e apaixonei-me sem a ver. Falámos longamente como adolescentes, descobrimos as taras escondidas, contei-lhe os absurdos que vejo. Chegou ontem, uma capa laranja com a imagem gigante de uns lábios carnudos, ou a imagem carnuda de uns lábios gigantes. A primeira frase, a vermelho, avisa

FRANCIS FORD COPPOLA PRESENTS

E todo eu tremo como que a meter o preservativo ao contrário. Abro, e na primeira página a face de Harmony Korine a rezar para a lente, numa sala de Santa Iria da Azóia com sete televisões, um quadro de uma mulher com cabelo apanhado e um gato gordo, uma cama, muitos candeeiros de eras diferentes e um cadeirão com cara de Thatcher. O cheiro da tinta é arejado mas antigo, e a letra tem um ar sério, de gente grande que não brinca às magazines mas pensa na vida.
De um pacote branco, gordo, duas Grantas. A da frente, orgulhosa mas simples, diz que é a edição número 100 e tem textos de Martin Amis, Doris Lessing, Ian McEwan, Harold Pinter, Salman Rushdie, Mario Vargas Llosa. E de mais outros tantos. Na capa revejo o mote

THE MAGAZINE OF NEW WRITING

e enterneço-me com a ideia da revistinha ter lançado putos para a vida má das letras, e eles terem crescido para serem hoje homenzinhos com assombrações em forma de livros, em casas públicas de má fama de nome livrarias. Atrás, sorridente, a edição especial Best of Young American Novelists, letras borbulhosas em tons de laranja e verde a gritar por atenção. Na lista da contra-capa Jonathan Safran Foer incha, mas a explicação fala em seis anos de leituras compulsivas de um júri que analisou os trabalhos de dezenas de crianças literárias, homens feitos durante o dia, breves imberbes à noite das letras. Cheira a Barnes & Nobles do Soho. Cheira a fraldas, com fotografias de gente magricela e de maçã de adão proeminente a saltar páginas fora. Cheira a viagem de finalistas sem bebedeiras efectivas. Daqui a uns anos. O senhor carteiro deixou debaixo do tapete porque nada cabia na caixa do correio. Tudo grande demais. Os carteiros são homens sábios.

Este homem é um monstro

Lavagante

São duas notícias numa. Primeiro que tudo, e que todos: um inédito de José Cardoso Pires. Reza a história que o texto nunca foi publicado em livro, e que uma versão reduzida terá visto a luz do dia em Dezembro de 1963, na revista "O Tempo e o Modo". A versão que agora chega aos escaparates foi revista pela filha do escritor e é um excelente mote para Nélson de Matos. Cardoso Pires, autor maior da literatura lusa contemporânea (a par de Lobo Antunes) volta a mexer nas mentes que estejam disponíveis para o ler. O Animatógrafo curva-se com respeito e saudade do autor (que chegou a conhecer e cuja obra investigou profundamente, com resultado disponível aqui). Segundo, o mesmo Nélson de Matos ataca assim como prometido: está lançada a Edições Nelson de Matos, editora nova do ex-responsável da D. Quixote. A ideia parece ser apostar em qualidade, claro está, e é de saudar num tempo em que as editoras entraram na idade adulta do capitalismo, geridas como máquinas de precisão de um mercado cada vez maior. Parece ser o regresso do editor, contra o cada vez mais comum gestor de catálogo. A ver vamos. O projecto dispõe de um blog, aqui.

casa de osso

Aqui está parte dos meus dias tristes. Aceitam-se opiniões.

Nobel

O Animatógrafo saúda a atribuição do Nobel da Literatura a Doris Lessing, ainda que desconheça a autora. Diz o Guardian que "announcing the award, the Swedish Academy described Lessing as an "epicist of the female experience, who with scepticism, fire and visionary power has subjected a divided civilisation to scrutiny". It singled out The Golden Notebook for praise, calling it "a pioneering work" that "belongs to the handful of books that informed the 20th-century view of the male-female relationship."
O Animatógrafo estranha que a senhora Lessing seja premiada em 2007 por uma obra publicada em 1962, e cuja obra tenha tido nos últimos 15 anos uma presença errática e discreta na história da Literatura.
O Animatógrafo reitera, uma vez mais, a pergunta anual: depois do reconhecimento do neo-realismo encapotado de Saramago, para quando o reconhecimento da universalidade emocional e do risco de António Lobo Antunes? Ah, pois é...

Eduardo Prado Coelho

Antes, a expectativa. No momento, o vulto. Quando Eduardo Prado Coelho se aproximou da sala, fez-se um silêncio breve, para logo se ouvir um cumprimento sorridente. Sentava-se, esperava que o buliço da juventude assentasse, folheava um livro despreocupadamente, lançava uma pergunta aberta e surpreendia-se com o silêncio. Cruzava, a custo, a perna e olhava num ângulo raro, entre o tecto e os interlocutores, como que a lembrar-se do momento que, afinal, era presente. Fui aluno de Eduardo Prado Coelho em diversas cadeiras. Nessa altura, após horas a ouvir dissertações construídas do nada, ganhei coragem e entreguei manuscrito. Nunca, por qualquer razão, me respondeu. Em exames, dado o regime totalmente livre dos mesmos, saía para ir comprar livros à agora defunta Livraria Francesa, regressando leve no passo e com um sorriso que o peso dos sacos não faria adivinhar. Entusiasmava-se com as coisas mais ímpares, e falava de telenovelas para, no minuto seguinte, se lembrar de Deleuze, como se tudo estivesse numa mesma realidade ou dimensão. Em conferência que organizei no Centro Nacional de Cultura (com o entusiasmo da falecida Helena Vaz da Silva), para um grupo internacional de jovens, fez questão de se pronunciar em francês, porque não acreditava o seu inglês como possível. Num fim de tarde primaveril, de janelas abertas com vista para o S. Carlos, discorreu sobre comunicação e a Europa com a languidez que o caracterizava, pausado, pensativo, divertido com as próprias palavras. Defendeu o livro e a Cultura até ao limite, promoveu a Portugalidade enquanto conceito e ideia, manteve uma perspectiva aberta e saudável sobre tudo o que o rodeou até ao fim. O Animatógrafo curva-se respeitosa e saudosamente perante a memória de Eduardo Prado Coelho.

Tipofonia

Por intermédio do Casa de Osso (ver link aqui ao lado), do valter hugo mae, dei com o Livros de Areia (em breve aqui ao lado), blog de um recente projecto de edição nacional. No qual os seus autores relevam, e bem, isto: uma tipofonia, ou como a escrita, palavra ou letra se transfere de forma sinuosa para o campo do espectáculo visual. Exemplo brilhante este: diálogo de Tarantino vertido em typos, com tudo o que isso tem de substantivo nas formas, dimensões e forças do grafismo, a partir de um som. Tipofonia, dizem eles.

Mário Cesariny de Vasconcelos


Para o mal e para o bem, tive uma infância e adolescência estáveis. Um núcleo familiar constituído de forma sólida (que havia de se desintegrar mais tarde), uma educação em escolas públicas (com todas as vantagens e desvantagens integradas), um acompanhamento regular na vida quotidiana. Na adolescência recrudesceram os factores comuns: isolamento, dificuldade de adaptação a uma realidade que se auto-modificava à velocidade da luz. Bom aluno, sempre me refugiei numa personalidade introvertida, mergulhando numa intelectualidade crescente. Rapidamente surge-me a mim mesmo uma definição existencialista dos objectos constitutivos do real. Infelizmente talhado para uma excessiva racionalização do mundo, de tendência teórica, rapidamente encontrei três mestres de conduta, que acabaram por formatar em larga medida uma forma de ver o mundo.
Aproximei-me de Vergílio Ferreira no dia da sua morte. Em corrida acelerada para uma juventude perdida no meio de palavras, sem álcool para além de provas demasiado amadurecidas, rapidamente assimilei a obra do beirão como guia espiritual. Discuti as dimensões da existência vezes sem conta com base nos seus pressupostos, evoluindo ainda mais rapidamente para Sartre e Camus. Com demasiado peso sobre os ombros, não raras vezes procurei a solidão pública para reler "Para Sempre" ou "Manhã Submersa". Pesquisei (e encontrei) primeiras edições de "Rápida, a sombra" ou "Aparição". Conheço hoje ainda alfarrabistas de Évora, ou da R. do Século, a quem exigi edições de vida breve no mercado. Tornei-me lúgubre, certo da inutilidade de tudo.
Escolho livros, conscientemente, por instinto. "Alexandra Alpha", de capa cor-de-rosa e espessura contra-natura, veio parar-me às mãos sem grande explicação. Viria a conhecer José Cardoso Pires mais tarde, já depois de "De Profundis". Durante meses investiguei a vida do autor, para pouco antes de um contacto o mesmo ser internado em virtude daquele que viria a ser o AVC mais conhecido no Portugal contemporâneo. Guardo uma primeira cópia de "Histórias de Amor", obra extinta cujo título foi a forma de Pires fazer passar "a coisa" pela censura. Procuro, sempre que a rotina me permite, "Os caminheiros e outros contos", estreia ainda próxima dos neo-realistas de quem, a bom tempo, se viria a afastar. Dotado de uma destreza ímpar, cortante, José Cardoso Pires mitigou-me as olheiras e recuperou um sentido de marialvismo genuíno, que se arrastou muitas noites pelas esquinas da Calçada da Bica à procura de água gaseificada para matar a azia da idade. Profundamente ignorado nos seus pressupostos literários, sobretudo pelo país, o homem que comprou um andar na Costa da Caparica, frente ao mar, para estar só acabou por marcar uma adolescência terminal.
Por interpretação de uma fotografia, interessei-me por André Breton em meados da década de 90. O francês tinha muito pó nos bolsos, herança de uma militância desnecessária, mas acabou por emitir respiração a Mário Cesariny de Vasconcelos. Contemporâneo de O'neill, Vespeira, Ventura, Oom, António Maria Lisboa ou Cruzeiro Seixas, Cesariny esteve na origem do Grupo Surrealista de Lisboa e do movimento artístico de maior interesse e valor do século XX português. Qual vampiro habitante do Café Gelo, o poeta, ensaísta, dramaturgo, pintor, fotógrafo definiu de forma pessoal a tentativa de vanguarda cujo maior objectivo era uma intervenção social através da criação artística. Durante semanas requisitei "Pena Capital" ou "Manual de Prestidigitação" na sala principal da Biblioteca Nacional de Lisboa, assimilando as noções de liberdade criativa emanadas das folhas. Viria a conhecer Cesariny em 2001, numa exposição na Câmara Municipal de Lisboa e, como antes, o temor de contacto afastou-me rapidamente. Viria ainda a encontrá-lo nas mais diversas apresentações do seu trabalho, na exposição no Museu da cidade, num encontro no Martinho da Arcada. A última, no teatro nacional D. Maria II, na apresentação de uma peça escrita por si anos antes. Entrou de luzes apagadas, blusão cinzento, cheiro a tabaco, e sentou-se, sozinho, na primeira fila. Frente a si mesmo. O Animatógrafo curva-se triste perante a sua memória.

Salazar, finalmente

Não, o cabrão do velho não voltou. Mas estreia-se em banda desenhada. Reza a lenda que João Paulo Cotrim foi convidado a escrever "Salazar, agora na hora da sua morte" e que impôs apenas uma condição: total liberdade criativa. Dada a luz verde, o resultado é a minha auto-prenda deste natal, um livro que chega sempre tarde como cedo. O trabalho ilustrado por Miguel Rocha é extraordinário e constitui-se como um objecto cultural essencial para compreender a história recente aqui do rectângulo. Foi premiado no festival de BD da Amadora com o prémio máximo e, pasme-se, com o da juventude. Putos deste país, acordem para o que vos precedeu nas ruas. Comprem, vale mais do que qualquer Larousse de trazer por casa ou Atlas do Industão. Estou convencido que se algum agarrado o gamar numa livraria terá enorme dificuldade em vendê-lo: não só Salazar ninguém o quer, como abre os olhos até a um heroinómano. Salazar era dose, o livro dá uma trip fulgurante no século XX português. A auto-oferecer, egoísmo ao vento.

Foda-se.

A 16 de Setembro há Vetiver na Zé dos Bois. De 22 a 24 de Setembro há Figuras da Dança no Cinema II, na Culturgest. De 24 de Setembro a 30 de Novembro, ciclo inteiramente dedicado a Shostakovich no CCB. A 27 e 28 de Setembro há Young People, Old Voices, nova coreografia de Raimund Hoghe, também na Culturgest. A 4 e 5 de Outubro, Bernardo Sassetti, Mário Laginha e Pedro Burmester repetem o 3 pianos já realizado no ano passado, novamente no CCB. A 9 e 10 de Outubro, o regresso de Clara Andermat ao CCB, com Silêncio, incluído no Temps d'Image. A 15 de Outubro há Final Fantasy no Club Lua. A 17 de Outubro, há Quadri [+] Chromies, projecto de imagem vs música electrónica de Hector Zazou, no CCB. Até 22 de Outubro a antológica de Jorge Martins também no CCB. A 26 de Outubro, o Campo Pequeno recebe os Muse. De 20 a 29 de Outubro há DocLisboa 2006, com enfoque em Amos Gitai, na Culturgest. Dia 12 de Novembro Keith Jarrett, Gary Peacock e Jack DeJohnette podem fazer história em Belém. A 19 de Novembro, os premiados do Cinanima novamente na Culturgest. A 23 e 24 de Novembro, Vera Mantero apresenta até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza, no CCB. De 4 a 9 de Dezembro, Nippon Koma, de regresso à Culturgest. Entre 3 e 17 de Dezembro, a Compahia 111 apresenta o "acontecimento visual" que é Plus ou Moin l'Infini. A 7 de Dezembro, sobem os Yo La Tengo ao palco da Aula Magna. Nos dias 14, 15, 21, 22 e 23 de Dezembro, ganha vida o projecto Unreal - Sidewalk Cartoon, com música original de Bernardo Sassetti, participação especial de Beatriz Batarda e cartoon musical/filme do próprio Sassetti e Filipe Alçada, no S. Luiz. E isto com a consciência que muita coisa ainda não se sabe ou não tem data definida. E isto com a consciência de um volume de trabalho absurdo até final do ano, com a perspectiva certa de uma mudança de casa, com a certeza de uma profundíssima frustração por não ver nem um terço das coisas. Foda-se.

Roma Publications

Acaba dia 27 de Agosto a oportunidade de contacto mais efectivo com as Roma Publications, na Culturgest. Movimento de criação e divulgação literária e artística criado por Mark Manders e Roger Willems, as Roma são um pouco a actualização contemporânea do trabalho gráfico/literário dos surrealistas do século XX. A ideia é, basicamente, produzir e divulgar, sem intenções comerciais assumidas, pequenas obras (texto, desenho, fotografia) que se configuram como produções artísticas com um público-alvo indefinido e ligação umbilical a um urbanismo norte-europeu que se quer interventivo. São, na prática, livros. Mas são, sobretudo, propostas de arte com o intuito de provocar estranheza, mais do que estética. Longe do circuito clássico de poetas, regidos por publicação periódica e consequente crítica, as Roma buscam nomes desconhecidos para projectos de experimentação, numa tentativa de intervenção sobre o urbano sem constrangimentos. Muitos dos livros são de distribuição gratuita com suplementos de jornais e não pretendem ser auto-explicativos. Estão ali, existem. Um pouco à semelhança do movimento surrealista português, com Cesariny à cabeça, que nunca quiz ceder à lógica comunista vigente nos trabalhos de Breton e seguidores. A ideia é, como era, incomodar, aparecer, experimentar. Diferenças na forma, semelhanças na atitude. As Roma, são, assim, uma tentativa de recuperação artística semi-pura, que parte dos que têm as ideias e não por convite do establishment, que aposta nos desconhecidos em vez de recorrer aos do circuito. E não há pudores de comércio nem elitização de atitudes: a arte ao povo, de forma massiva, o mais massiva possível. Claro que o povo já não é “povo”, é antes público disseminado e alvo de milhares de solicitações perceptivas, pelo que a captação de atenção pela estranheza e não pela explicação é determinante. Ora, e como se faz uma exposição sobre livros? Expõem-se os livros, sim, claro, mas mais do que isso inverte-se o circuito de produção. Em vez de livros criados a apontar a artes, temos artes disparadas a partir dos livros. Na Culturgest estão, assim, esculturas, fotografias e ambientes que surgem dos livros onde foram inicialmente enclausurados. Despegando-se do suporte papel onde assumiram a sua forma inicial, acabam por cumprir-se enquanto atitude de proactividade artística, mais do que tudo. Provando, de forma clara, que o cruzamento performativo a que almejavam no início é o resultado que têm no fim, sem se desdenharem no meio caminho.

Livros

A maior e principal falha do Animatógrafo, enquanto blog, tem sido esquecer-se por completo de livros. Primeiro porque são objectos culturais que merecem a mesma atenção que os filmes, exposições, concertos ou espectáculos de que se fala aqui. Segundo porque dá ideia que o Animatógrafo não lê, o que é mentira. Terceiro, porque dá ideia que o Animatógrafo não dá grande importância aos livros, o que também é mentira. É preciso assumir que, desde que o blog existe, não li muito, isso é verdade. Sobretudo porque estive meses agarrado a Koba, the Dread (que também já existe traduzido), sem conseguir avançar da forma que desejava. O livro de Martin Amis é profundamente pesado, sobretudo pela temática e pelo nível de investigação que o autor levou a cabo. Em meia dúzia de páginas os horrores são de tal calibre que a vontade de ler cem páginas de uma vez é, confesso, pouca. Mas o livro é soberbo, e, como em quase todos os casos, aconselha-se a leitura da versão original (não li a tradução, mas acredito que se perca muito do tom de Amis). O inglês consegue conciliar a descrição do seu relacionamento com o seu próprio pai, e a descrição do processo de aproximação ao regime comunista, com um manancial de factos sobre Estaline que só estavam publicados em meia dúzia de obras de difícil acesso. Muito para além de Koba (Estaline), o livro acaba por tirar uma enorme fotografia ao regime, na medida em que o líder se confundiu com o mesmo. E simultaneamente Amis defende a teoria de que o Estalinismo foi bem pior, em termos de vidas perdidas e nível de atrocidade, que o Nazismo. Mas para Amis este facto foi escamoteado do ponto de vista histórico por existir, como no seu pai, uma propensão da classe intelectual em favor dos regimes comunistas. Toda a argumentação de Amis é perfeitamente estruturada, o que faz de Koba, the Dread um excelente documento, a ter em conta de forma efectiva na sua proposta. Além disso, distancia-se claramente do género científico ou histórico e tem muito do próprio Amis, o que, do ponto de vista do texto, é a pedra de toque. Assim, Koba ocupou-me grande parte de 2005. O resto ficou em Vermelho, de Mafalda Ivo Cruz. A capa da D. Quixote é má, e o próprio nome da autora inclina quem olha para o livro numa prateleira da FNAC para o lado dos livros sem gordura. Nada mais errado. Aliás, só cheguei a Mafalda Ivo Cruz por António Lobo Antunes, que acredita na senhora como uma das promessas das letras cá do burgo. O premiado Vermelho é, comprova-se, um livro maior. Romance a piscar o olho ao fragmentário e onírico (qual Lobo Antunes, na parte fragmentária), o texto de Ivo Cruz tem um começo reticente mas arranca depois para uma prosa que vai buscar a sua estrutura às memórias fragmentadas e deturpadas de um dos personagens. Com uma prosa pouco ou nada constrangida por questões estilísticas, Mafalda Ivo Cruz constroi um livro "mental", com pouco situacionismo temporal, mas com raízes na percepção mental do tempo e dos acontecimentos que o marcam. Como em Lobo Antunes, resulta um texto que não apela à racionalização factual mas antes à percepção de imagens ou sensações globais. Já em 2006, despachou-se um dos grandes livros do ano passado em quinze dias. Bilhete de Identidade, de Maria Filomena Mónica, vale sobretudo pelo esforço e pelo tom, nem tanto pelos factos. Primeiro que nada, declaração de interesses: eu considero Filomena Mónica um dos cérebros mais louváveis e ao mesmo tempo mais subavaliados aqui do rectângulo. E já tinha esta opinião muito antes de qualquer livro, creio que desde que a senhora teve a coragem de dizer uma verdade mal compreendida: fazem falta elites em Portugal. Ora, o livro é, primeiro que tudo, uma pedrada no charco em termos de projecto. A tradição memorialística em Portugal é nula, se exceptuarmos grandes estopadas que os políticos fazem publicar com charadas sobre o seu percurso político-partidário. Mas memórias no sentido pessoal do termo, nem vê-las. E o que deve motivar na produção e leitura das mesmas não deve ser o paradigma "cusco" dos portugueses, mas antes uma curiosidade sobre o percurso de vida de determinada pessoa. Ora, o livro de Filomena Mónica cumpre por completo os objectivos a que se determina (relatar a sua vida até 1975), mas extravasa-os na medida em que faz um retrato de Portugal (e não só) durante esse período. E porquê? Porque as memórias de alguém, pelo menos as que interessam, são as que estão ligadas à sua vivência num espaço e tempo específicos (e aqui está possivelmente a explicação da ausência de livros semelhantes em Portugal, poucos têm o nível de sensibilidade para se lembrar de factos de determinada forma...). Ou seja, Filomena Mónica não consegue falar da sua infância sem falar dos espaços que percorria, das normas que lhe impunham, das imagens que lhe ficaram, das pessoas com quem contactou. Não é uma biografia virada para o umbigo, é antes um olhar da sua vida enquanto cidadã de uma sociedade e país que tiveram determinada história. Para além disto, o próprio percurso da autora é por demais interessante, na medida em que sempre teve contacto com figuras e espaços que se revelaram próximos do Estado Novo ou, então, que se viriam a revelar marcantes na sociedade portuguesa pós-25 de Abril. Filomena Mónica acaba, assim, por biografar um conjunto de personalidades, mesmo que em regime curto. Do ponto de vista formal, o texto é naturalmente frontal, não se notando esforço em sê-lo. Detem-se tanto no pequeno pormenor como nas grandes ideias, sem deixar fugir o pé dos factos e extrapolar para interpretações exageradas de ambientes. Simultaneamente, consegue manter o centralismo na sua pessoa e apropriar-se de todos os factos extra apenas na medida em que servem para dar consistência à descrição do seu percurso ou ilustrar determinado acontecimento. Neste equilíbrio raro, Bilhete de Identidade é obrigatório.

Le Verbe Être

"Je connais le désespoir dans ses grandes lignes. Le désespoir n'a pas d'ailes, il ne se tient pas nécessairement à une table desservie sur une terrasse, le soir, au bord de la mer. C'est le désespoir et ce n'est pas le retour d'une quantité de petits faits comme des graines qui quittent à la nuit tombante un sillon pour un autre. Ce n'est pas la mousse sur une pierre ou le verre à boire. C'est un bateau criblé de neige, si vous voulez, comme les oiseaux qui tombent et leur sang n'a pas la moindre épaisseur. Je connais le désespoir dans ses grandes lignes. Une forme très petite, délimitée par un bijou de cheveux. C'est le désespoir. Un collier de perles pour lequel on ne saurait trouver de fermoir et dont l'existence ne tient pas même à un fil, voilà le désespoir. Le reste, nous n'en parlons pas. Nous n'avons pas fini de deséspérer, si nous commençons. Moi je désespère de l'abat-jour vers quatre heures, je désespère de l'éventail vers minuit, je désespère de la cigarette des condamnés. Je connais le désespoir dans ses grandes lignes. Le désespoir n'a pas de coeur, la main reste toujours au désespoir hors d'haleine, au désespoir dont les glaces ne nous disent jamais s'il est mort. Je vis de ce désespoir qui m'enchante. J'aime cette mouche bleue qui vole dans le ciel à l'heure où les étoiles chantonnent. Je connais dans ses grandes lignes le désespoir aux longs étonnements grêles, le désespoir de la fierté, le désespoir de la colère. Je me lève chaque jour comme tout le monde et je détends les bras sur un papier à fleurs, je ne me souviens de rien, et c'est toujours avec désespoir que je découvre les beaux arbres déracinés de la nuit. L'air de la chambre est beau comme des baguettes de tambour. Il fait un temps de temps. Je connais le désespoir dans ses grandes lignes. C'est comme le vent du rideau qui me tend la perche. A-t-on idée d'un désespoir pareil! Au feu! Ah! ils vont encore venir... Et les annonces de journal, et les réclames lumineuses le long du canal. Tas de sable, espèce de tas de sable! Dans ses grandes lignes le désespoir n'a pas d'importance. C'est une corvée d'arbres qui va encore faire une forêt, c'est une corvée d'étoiles qui va encore faire un jour de moins, c'est une corvée de jours de moins qui va encore faire ma vie".

André Breton

Roth por Molina

Há textos assim. São raros. Aparecem em dias estranhos, sem aviso, como se dispostos a acordar mentes dispostas a acordar. O Mil Folhas, suplemento literário e não só do Público, publicou ontem uma reportagem/entrevista de António Muñoz Molina a Philip Roth. Molina é espanhol e escreveu "O Inverno em Lisboa", livro praticamente ignorado deste lado da fronteira e que lança uma visão original sobre a cidade e os seus personagens. Roth é norte-americano e uma das vozes mais originais da literatura "across the ocean". O que o Mil Folhas ontem publicou, cortesia do El País, é um documento extraordinário entre dois escritores que se conhecem e aceitaram os papéis de entrevistador e entrevistado. Longe da "pergunta/resposta" comum, o resultado é um misto de reportagem e entrevista, com os pormenores e o olhar que assistem à primeira e a voz que assiste à segunda. Para ler, reler e guardar.