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décimo oitavo regresso

décimo sétimo regresso

Tenho saudades (manca-me) polaroid. O químico era
doce.
E os dias passavam-se à sombra das nuvens de fumo, moendo dentes de álcool, atirando romãs aos gatos. A cor obtinha-se desfocando gravemente as dioptrias da pele das cadeiras, nova feito
plástico com cheiro, e em processo orgânico familiar. Shoot. Posta
uma mesa rotativa para cinco, aos pares, o cachimbo era então construído do castanho para a retina,
do cinzento para o banal,
com areia à mistura. Fala-se alto. Os pinta-roxos lidos algures entre Évora e Canal Caveira formam-se na antítese das penas, e cada película é uma sujidade alternativa das cordas. Ao canto, um ombro raspado. Um ângulo construído pela forma do indicador, ou antes a ideia de um tempo que não chegou a existir, entre culpas argelinas e o som abafado da carpete da sala. À luz, água. Dobrando a cervical, tudo já parece pouco mais do que.

décimo sexto regresso

décimo quinto regresso

décimo quarto regresso

sabes bem que o judaísmo é uma história. e que apenas o suicídio é uma saída limpa para o real, porque mais real. no princípio as muralhas baixas do aqueduto aqueciam as madrugadas, quando o erotismo se confinava ao cheiro do tabaco entre os dedos, e o quotidiano limitava-se a avançar. agora tudo se reduz como açúcar. agora todo o comum corpo de militares desaparecidos nas feridas cria família nas esquinas, enquanto as putas seguram as pálpebras em frases da Judeia. sabes que a morte é uma sobremesa. e que te limitas a reconhecer o presente enquanto dadaísmo de um tempo passado, onde as garças pintavam o peito como abutres das faias, e o odor das azedas te aparecia como um vómito dos doentes encarcerados. existiam furtos. existiam aproximações cromáticas ao reino. existia transpiração sólida dos humores, enquanto alguns gatos se batiam pela espinha. sabes bem que tudo se manteve na linha grossa da lembrança.

dói-te a distância no peso do peito, ou começas a arrepiar-te, pelos genitais científicos, e a qualificação das coisas ganha olhos que nunca pensaste possíveis. regressa ao ínfimo da tua infância, onde devias ter passado à literatura enquanto personagem. regressa.

décimo terceiro regresso

décimo segundo regresso

era breve. a manhã começava na leitaria da rua de campolide, antes do pão esfarelado aos patos, e os sábados apareciam no gastar tempo usual da infância. haviam sons de mar escondidos nos velhos nas paragens de autocarro. ao calor do início de tarde o sabor a rebuçados para a garganta assomava-se à porta, e o sonho de futuro desvanecia

décimo primeiro regresso

décimo regresso

apenas o amor é real

Nono regresso



Oitavo regresso

O nojo aquece-te, como as árvores

sabes
que todos os dias crescem no mesmo sentido em que os olhas
e que ao fundo
no fundo

arriscas a cabeleira branca, solene
no limite do fumo, ou da água
enquanto não te dizem algo mais

do
que
quererias alguma tarde saber
ou noite
ou
na franja da fome
chegar a activar o cadastro
desbotado de quem te precedeu no
sangue

Sétimo regresso


A good day to die, Sofa Surfers, directed by Timo Novotny

Sexto regresso

Cresces a ossos. Lento. Intermitente. Reconheces hoje a impressão visual que deixas, e o peso é dos seguidores. O tempo segue-te. Na pausa há que assumir o silêncio, ou a nuance das plantas que, ao crescer, remanescem no sangue. Ou nos ossos. Cresces. O fúnebre da luz anima-te mesmo quando. Ou o prazer da temperatura dos dias quentes. E apenas a recordação breve. Automática. Como se, ou antes.

Quinto regresso

Quarto regresso

"Não morras já. Imagina tu para quantas pessoas és uma segurança na vida delas? Não falo dos teus familiares. Na dependência possível deles. Falo de todos os que te conhecem e para quem tu és um ponto de referência para a vida continuar. Conhecem-se, vêem-te, estás aí na segurança de nem sequer pensarem em ti. Mas quando morreres, pensam, porque deixam de sentir a tua mão na deles enquanto dormiam. E sentir-se-ão ameaçados pela tua morte à sua vida. Não morras já. Protege com a tua vida a daqueles que te conhecem. E que até possivelmente te detestam".

Vergílio Ferreira

Terceiro regresso

Há 30 anos, o país era a redução dos seus compostos. Pouco antes, tudo se sublimava nos actos e, em virtude dixit, o povo era apenas uma memória duradoura de um mito. Há quase 30 anos, o tempo afirmava-se na velocidade quente dos dias, e o que viriam a ser estilhaços comungava alegremente em volta de carne.

segundo regresso

primeiro regresso

entravas

e depois um todo se abate, como pérolas, como finuras de pó, sem torpor
sabes

que em tudo a acção massiva se assinala à entrada do norte, e o mundo

reconhecer
como que comparando casa, peixe, ramos, morte
como tanto que comparando campo, ou a latinidade do sopro, e a amplitude dos comuns

mudo
ausência de cor, ponto

sabes que em tudo, mostra-se a idade dos móveis nas lápides
e o muro sacro santo dos rumores