quarta-feira, novembro 12, 2008 at 22:27 Labels: { Dança, Ironias } {0 comments}
domingo, maio 04, 2008 at 20:27 Labels: { Dança } {0 comments}
O óbvio: Pina Bausch é uma criadora incontornável da Cultura do século XX. A alemã mudou por completo a dança contemporânea e o campo da representação ao apresentar uma visão fundida das duas. Adicionalmente, Pina mudou o próprio campo da Cultura, da mesma forma que Fellini, ou Cartier-Bresson, ou Picasso. São personagens charneira da produção cultural de um século que foi a época de todas as rupturas. Dos citados, apenas Pina vive. Os outros jazem cristalizados na memória humana (sobretudo da Europa), Pina mantém a frescura de uma visão particular da vida, que assenta a expressão e comunicação dos seres humanos nos movimentos do corpo e nas imagens que estes podem gerar. De tudo isto se obtém a necessidade de não deixar passar um festival sobre Pina Bausch, em Lisboa. Pina está em Lisboa (e devia ser para nós uma comoção respirar o mesmo ar que ela). O Animatógrafo assegurou, há meses, a presença nos dois espectáculos que não tivemos ainda o privilégio de ver: Nefés e Café Muller. Sobre o último teremos oportunidade de falar depois de sexta-feira, se conseguirmos, tal será a emoção. A pista: são minutos que mudam vidas, e a minha mudou apenas com uma gravação do mesmo. Como nunca esperei ver ao vivo, vou perder-me a olhar para a figura frágil de Pina. Sobre o que não veremos desta feita, é Masurca Fogo, extraordinária visão sobre Lisboa. A criadora passou cá uns tempos a olhar para a nossa cara e criou um espectáculo tão verdadeiro como crítico, que nos atira a "portugalidade" à cara. Ontem, na ressaca do Indie, vimos Nefés, que parte do mesmo princípio acima descrito, mas tendo Istambul por base. Data de 2002 e tem por base a estadia de Pina na Turquia, sobre a mesma declaração de interesses. O resultado é verrinoso. Nefés é assumidamente um trabalho de Pina Bausch: criativamente elevado, visualmente imaculado, com coreografias trabalhadas sobre pedaços da cultura do país e cidade mas que as extravasam para algo muito maior, que envolve o espectador num espanto. A sala do CCB, que a espaços petrificou, viu ontem Pina mostrar também toda a sua veia crítica, homens que tanto bajulam mulheres como as dominam, a ancestralidade no centro da existência quotidiana, uma cidade tanto tradicional como contemporânea, tanto urbana como perdida em visões pastorais do existir. Pelo meio os bailarinos falam com o público (em português), conversam entre si, repetem sequências por serem seduzidos, dançam sob uma torrente de água que surpreendentemente invade o palco vinda de um céu imaginário, fogem do trânsito caótico projectado numa cortina, trabalham o ar ao som de jazz ou música tradicional turca. O olhar de Pina é venenoso e materno, como que afirmando "és assim, é assim que te vejo, és, em algum lugar, em algum momento, assim". E no fim aplaude-se porque ela é assim.
sexta-feira, janeiro 04, 2008 at 18:32 Labels: { Arte, Dança, Teatro } {0 comments}
Listas valem o que valem. Esta é dos espectáculos que, até ver, merecem follow-spots dedicados, sejam dança, teatro, novo-circo ou demais formas de expressão em palco. Ora, caraças, vale a pena:
Nefés: o grande acontecimento do primeiro semestre é o apelidado "Festival Pina Bausch". No fundo no fundo, e vamos ser frontais, chamá-lo de festival é demasiado. A coisa resume-se à apresentação de três espectáculos, algumas conferências, projecções e exposições. E um festival deve ser mais do que um olhar para trás. Mas ok. Atenção, a iniciativa não é de ignorar, sobretudo se tivermos em conta que estamos a falar do maior génio da dança contemporânea: ela mesma, Pina. Nefés, primeira obra a subir ao palco, é um projecto de 2003 criado em Istambul, no mesmo sentido de Masurca Fogo (de que se fala mais à frente). Na prática, é a visão de Pina sobre a cidade turca, sobre os seus sentidos e pertenças, numa toada já menos subversiva (quando comparando com trabalhos mais antigos) mas não menos acutilante. Nefés, de Pina Bausch e Companhia Tanztheater Wuppertal, estará no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, nos dias 2 e 3 de Maio. O Animatógrafo já garantiu presença.
Masurca Fogo: dentro do festival acima referido, Masurca Fogo será porventura o evento que conseguirá atrair maiores atenções. E sobretudo por se tratar de uma peça sobre Lisboa. Integrada no Festival dos 100 dias, que antecedeu a abertura da Expo98, Masurca Foge é a visão de Pina sobre a capital e sobre os seus habitantes, sobre os seus espaços e respirações. Tive a felicidade de ver o espectáculo em 1998, na sua primeira apresentação, e o olhar da alemã é simultaneamente crítico e melancólico, devolvendo aos portugueses o que são e como são. Criativamente impecável, o projecto teve uma enorme margem de liberdade na sua concepção, mas não deixa por isso de ser focalizado. Não é um postal, mas antes uma interpretação de uma comunidade e das suas histórias, e muito é reconhecido por quem vê não como tiques mas antes como comportamentos observados e transformados para uma apresentação artística. É, acima de tudo, uma visão artística externa sobre nós, alicerçada naquilo que a contemporaneidade tem de melhor no campo da dança: Pina Bausch. Masurca Fogo, de Pina Bausch e Companhia Tanztheater Wuppertal, estará no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, nos dias 7, 8 e 9 de Maio.
Café Müller: e aqui um monumento. As primeiras imagens que me lembro de ver de Pina Bausch, as que me fizeram ficar rendido e curioso simultaneamente, são de Café Müller. E aqui reproduzo apenas palavras alheias: "A história de Cafe Müller é a história de uma excepção: 40 minutos de duração e seis intérpretes, entre os quais a própria Pina Bausch, que só no Cafe Müller decide aparecer e dançar em cena. […] A sua própria génese constituiu uma excepção […] por exigências do cartaz, quando o mesmo bailado foi encomendado a quatro coreógrafos: além de Pina Bausch, Hans Pop (seu assistente), Gehrard Bohner, e o romeno Gigi Caciuleanu. Cada um destes criadores devia inspirar-se numa cenografia realizada propositadamente por Rolf Borzik, e cada uma das quatro propostas tinha o mesmo título: Cafe Müller. A cena – uma divisão cinzenta com painéis de vidro transparentes e uma grande porta giratória de lado, ao fundo – podia modificar-se segundo o desenvolvimento de cada coreografia. O Cafe Müller de Pina Bausch era o último da noite: a cena enchia-se de cadeiras e mesinhas escuras, só para este trabalho. […] A acção é despojada e cortante. Na floresta de cadeiras vazias e gastas, pesa a angústia de uma solidão remota. Pina Bausch recorta-se ao fundo, ligeira e espectral, com uma túnica de tom claro. O passo é curto e incerto, os olhos estão fechados, as mãos estendidas para a frente: vidente sonâmbula, fantasma da consciência de si própria. Levada pelo som dilacerante da música de Purcell, Malou Airaudo dança movimentos entrecortados, de circularidade suave, e as mesmas sequências são retomadas pela coreógrafa, que faz o papel de duplo, mas com um tempo sempre desfasado circula às cegas na selva de mesinhas e de cadeiras, que vão sendo retiradas por Borzik, assim traçando o seu percurso. […] Cafe Müller é uma lamentação de amor, uma metáfora doce e inquieta sobre a impossibilidade de um contacto profundo. É um trabalho estruturalmente simples e emocionalmente flagelante, que impressiona pela sua pureza e coerência. A desolação ambiental, o langor fúnebre, a violência da tipificação do relacionamento do casal, constituem elementos de verdade, de absoluta sinceridade expressiva – para além de psicologias ou simbologias e de qualquer tentativa de ‘realismo’. Todo o significado é confiado ao movimento: aos gestos e à dança […] Pina Bausch celebra a sua problemática identidade de autora. Cafe Müller é apenas uma obra sobre a mortalidade do amor. É também – e sobretudo – a confissão extrema de um estado de crise criativa: Cafe Müller consagra uma passagem, dramatizando uma tensão de pesquisa que se coloca no plano da interrogação. ‘Com Cafe Müller, Pina Bausch também criou o seu Oito e Meio’, foi o comentário de Federico Fellini, após ter visto o espectáculo.» in O Teatro de Pina Bausch, de Leoneta Bentivoglio, edição do ACARTE/Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, pp. 98-99. Tradução de Maria José Casal-Ribeiro.
Café Müller, de Pina Bausch e Companhia Tanztheater Wuppertal, estará no Teatro São Luiz, em Lisboa, nos dias 4, 5, 8 e 9 de Maio. O Animatógrafo já garantiu presença.
England: vi Tim Crouch em Junho de 2006, na Culturgest. Na altura apresentou um enorme An Oak Tree, espectáculo em que convida um actor diferente todas as noites para interpretar um texto que não conhece e que lhe é dado apenas quando sobe ao palco. Crouch consegue, co-protagonizando a peça, abordar os limites da representação e envolve a audiência num processo de concretização de teatro, em termos efectivos (a peça está agora em Londres, no Perry Street Theatre). Desta feita, o inglês vem a Lisboa com England e o pressuposto de originalidade é comum. Só que desta feita a coisa decorre na Galeria 2 da Culturgest, por entre uma exposição de Francis Stark. A peça foi multi-premiada quando da estreia, no (grande) festival de Edimburgo, em Agosto último, e a descrição apresentada pela Culturgest é suficientemente sugestiva: "ENGLAND é a história da busca por um novo coração. É sobre uma vida que se salva e uma doença que se ultrapassa a qualquer custo. É uma visita guiada que atravessa espaços e fronteiras: de uma galeria de arte a uma fábrica de compota, de Lisboa a Osaka, da cama de um hospital a um quarto de hotel.
É uma visita guiada ao fim do mundo.“Os pacientes gostam de olhar para os quadros. Ajuda-os a sentirem-se melhor com as suas doenças.”" A ver de 26 de Fevereiro a 1 de Março, na Culturgest, em Lisboa.
Operação: Orfeu: já quase tudo se experimentou no campo das artes performativas, mas ainda existem projectos que merecem luz pelo risco. O espectáculo do grupo dinamarquês Hotel Pro Forma, a ser levado ao palco no Centro Cultural de Belém, é definido como uma "ópera visual". E o que é uma ópera visual? Nas palavras dos próprios é "a reconceptualisation of the opera genre. Causal and dramaturgic sequence in libretto and music is replaced by a series of tableaux and compositions informed by purely visual and auditive principles rather than by dramatic modes of narration. The performance is a visual interpretation which comes to rediscover the basic elements of traditional opera". Na prática, o projecto recupera o conhecido mito do músico apaixonado que desce ao mundo dos mortos para recuperar Eurídice. O grupo anda a recolher aplausos Europa fora, e avaliar por algumas imagens, o espectáculo tem tudo para ser um dos marcos dos primeiros meses de 2008. A ver, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a 25 e 26 de Janeiro.
domingo, maio 06, 2007 at 20:23 Labels: { Dança } {0 comments}
Hurray, hurray, rejubilai! Ora, parece que é mesmo verdade: em Julho Lisboa assiste a um ciclo totalmente dedicado a Meg Stuart, a norte-americana mágica dançarina/performer/actriz/criadora-de-mundos. E ainda para mais, é a primeira parceria séria entre o CCB, a Culturgest e o Teatro Camões no campo da dança. Diz a organização que "o ciclo abre a 3 de Julho, no CCB, com a estreia de BLESSED, um novo espectáculo criado por Meg Stuart, com Francisco Camacho (3, 6 e 10 de Julho), prossegue na Culturgest com um novo dueto criado com o coreógrafo austríaco Phillipp Gehmacher (dueto Meg Stuart & Philipp Gehmacher, título provisório, 4 e 5 de Julho), regressa ao CCB com a reposição da instalação sand table (6 e 7 de Julho) e com a estreia em Portugal da última e aclamada peça de grupo de Meg Stuart, It’s not funny (7 de Julho), e termina no Teatro Camões com o espectáculo de improvisação Auf den Tisch! (12 e 13 de Julho), comissariado por Meg Stuart. Paralelamente realizar-se-ão uma Master Class (Teatro Camões, 9 de Julho), uma apresentação de filmes e vídeos (CCB, 9 de Julho) e uma conversa com Meg Stuart, Myriam Van Imschoot, Mark Deputter e Gil Mendo (Culturgest, 10 de Julho)". Assim a vida permita, estamos lá, para ver e contar (só não dançamos, felizmente).
sábado, novembro 04, 2006 at 16:09 Labels: { Dança } {0 comments}
Ora, uma fonte bem (in)formada disse ao Animatógrafo que Pina Bausch estará de volta a palcos portugueses em Abril, mais concretamente no Teatro Camões, em Lisboa. No site da coreógrafa, e do Tanztheater Wuppertal, a data ainda não aparece, mas estamos com fé que seja a apresentação do novo trabalho da alemã. O Animatógrafo, em toda a sua esquizofrenia, exulta com a possibilidade de voltar a ver a companhia de Pina em Lisboa. Só por isto, eu que detesto passagens de ano já estou ansiosamente à espera de 2007. Venha, venha, venha, venha....
domingo, outubro 01, 2006 at 10:46 Labels: { Dança } {0 comments}
Eu sabia, à partida, que eram três horas. Também sabia que Raimund Hoghe foi um dos meninos queridos de Pina Bausch durante uma dezena de anos, funcionando como dramaturgista da alemã. Mas não estava minimamente preparado. Nunca estou. Raimund Hoghe é um personagem estranho: praticamente anão, corcunda, encaixava na perfeição num filme de David Lynch. No início Raimund centra-se no palco e chama os seus bailarinos, um por um, pelo nome. Todos respondem ao apelo e apresentam-se frontalmente. Estão ali. E depois tudo foi um deambular pela noção de tempo. O pano de fundo é Stravinsky, mas Jacques Brel, Bette Davis ou Léo Ferré aparecem a espaços. E a hora e meia em que lá estive foi um lentíssimo espaçar dos corpos. Hoghe não trabalha sobre o corpo, mas sobre a sua manutenção no espaço e no tempo. Hoghe não se preocupa com a expressão pelo movimento, mas com a interacção dispersa entre os corpos, numa languidez desesperante. Young People, Old Voices é profundamente críptico, mas o seu pecado original não é esse (também Lynch se esconde atrás do filme, e não é por isso menor). O problema está na porta fechada. Em momento algum a mesma se abre ao espectador. De forma nenhuma o espectador é convidado a entrar no mundo imaginário que de certo se constrói na cabeça de Hoghe. E portanto as três horas do espectáculo (pelo menos a hora e meia em que lá estive) nunca passam o patamar de corpos em movimento terno mas exasperante, deixados a divagar pelo palco, gratuitos na sua existência. Nem tão pouco, e isso podia ser a salvação, almejam qualquer tipo de abstraccionismo ou indução mental do mesmo. Estão ali, são young people, à sombra de old voices. Uma desilusão plena de sono.
domingo, setembro 03, 2006 at 12:31 Labels: { Arte, Cinema, Dança, Fotografia, Literatura, Música } {0 comments}
A 16 de Setembro há Vetiver na Zé dos Bois. De 22 a 24 de Setembro há Figuras da Dança no Cinema II, na Culturgest. De 24 de Setembro a 30 de Novembro, ciclo inteiramente dedicado a Shostakovich no CCB. A 27 e 28 de Setembro há Young People, Old Voices, nova coreografia de Raimund Hoghe, também na Culturgest. A 4 e 5 de Outubro, Bernardo Sassetti, Mário Laginha e Pedro Burmester repetem o 3 pianos já realizado no ano passado, novamente no CCB. A 9 e 10 de Outubro, o regresso de Clara Andermat ao CCB, com Silêncio, incluído no Temps d'Image. A 15 de Outubro há Final Fantasy no Club Lua. A 17 de Outubro, há Quadri [+] Chromies, projecto de imagem vs música electrónica de Hector Zazou, no CCB. Até 22 de Outubro a antológica de Jorge Martins também no CCB. A 26 de Outubro, o Campo Pequeno recebe os Muse. De 20 a 29 de Outubro há DocLisboa 2006, com enfoque em Amos Gitai, na Culturgest. Dia 12 de Novembro Keith Jarrett, Gary Peacock e Jack DeJohnette podem fazer história em Belém. A 19 de Novembro, os premiados do Cinanima novamente na Culturgest. A 23 e 24 de Novembro, Vera Mantero apresenta até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza, no CCB. De 4 a 9 de Dezembro, Nippon Koma, de regresso à Culturgest. Entre 3 e 17 de Dezembro, a Compahia 111 apresenta o "acontecimento visual" que é Plus ou Moin l'Infini. A 7 de Dezembro, sobem os Yo La Tengo ao palco da Aula Magna. Nos dias 14, 15, 21, 22 e 23 de Dezembro, ganha vida o projecto Unreal - Sidewalk Cartoon, com música original de Bernardo Sassetti, participação especial de Beatriz Batarda e cartoon musical/filme do próprio Sassetti e Filipe Alçada, no S. Luiz. E isto com a consciência que muita coisa ainda não se sabe ou não tem data definida. E isto com a consciência de um volume de trabalho absurdo até final do ano, com a perspectiva certa de uma mudança de casa, com a certeza de uma profundíssima frustração por não ver nem um terço das coisas. Foda-se.
quinta-feira, junho 29, 2006 at 22:14 Labels: { Dança } {0 comments}
Como é óbvio (e só um cego como eu é que não queria ver isto) agora já não tenho pachorra para escrever sobre o Alkantara como tinha na altura. Fica a ideia que Tragedia Endogonidia, World in Pictures e An Oak Tree foram espectáculos maiores, que cumpriram todas as expectativas e superaram algumas, trazendo a Lisboa o que de mais arrojado se está a fazer em termos de artes performativas, de teatro, de questionamento do espectáculo enquanto representação. Aguarda-se um novo Alkantara com ainda maior fôlego, a ver se a malta acorda (houve salas bem despidas em coisas espantosas, o que é vergonhoso). E quanto ao Lisbon Village Festival, os senhores da organização, leia-se EGEAC, acharam que a malta tinha ideia, interesse e disponibilidade para ir passar dias completos ao São Jorge. Vai daí criaram bilhetes diários únicos, a 8 euros. Quem queria apenas ver Volver, o último Almodovar, em projecção digital, pagava tanto como o papuço que mamou as sessões todas do dia. O cartaz era no mínimo ridículo (os filmes a competição em longas não se contavam pelo dedos de uma mão), houve péssima promoção do evento, eu não meti lá os pés. É o que acontece quando umas cabecinhas pensantes que recusaram o Indie no São Jorge quiseram arejar a sala e tirar-lhe o cheiro a bafio com "malta curtida". Resultados?
terça-feira, junho 13, 2006 at 18:51 Labels: { Dança } {0 comments}
E como não se podem ganhar todas, eis senão quando surge aKabi, da turca Aydin Teker. Ora, vejamos o que diz a informação oficial do festival: "os bailarinos calçam sapatos pesados, de diferentes alturas, transformando os seus corpos em formas híbridas. Às vezes, parecem criaturas imaginárias desajeitadas, praticando rituais estranhos, noutros momentos são corpos tecnológicos, máquinas orgânicas, levadas ao limite da sua existência física". Decompondo esta frase, temos uma primeira parte verdadeira e uma segunda falsa. É verdadeiro que "os bailarinos calçam sapatos pesados, de diferentes alturas". Mas tudo o resto, verdadeiramente, é falso. Não é verdade que pareçam "criaturas imaginárias desajeitadas, praticando rituais estranhos". Não é verdade que "noutros momentos são corpos tecnológicos, máquinas orgânicas, levadas ao limite da sua existência física". Basicamente, durante uma hora, não passam de bailarinos com sapatos pesados. São efectivamente criaturas desajeitadas, mas nada têm de imaginárias. Estão mesmo ali, são palpáveis, e não passam de meia dúzia de papuços a quem alguém conseguiu convencer que calçar uns sapatos grandes e estar em cima de um palco a mexer-se como carapaus acabados de pescar é dança da boa. Ora, meus caríssimos amigos, nem dança, muito menos da boa. aKabi ou me passou muito muito ao lado, ou é uma enormíssima desilusão. A não repetir. O bom Alkantara segue dentro de momentos.
at 18:31 Labels: { Dança } {0 comments}
À partida, o novo projecto de Sónia Baptista era uma completa incógnita. Na informação disponibilizada no CCB estava rotulado como "performance" (o festival indicava-o como "dança"), o que fazia claramente aumentar a expectativa. Mais ainda, eu nunca tinha visto nada da criadora. E o resultado destes factores foi Subwoofer. Primeiro que tudo: Sónia Baptista tem uma capacidade extraordinária de criação de personagem. Subwoofer assenta na ideia de perseguição de uma mulher a um homem, de um vampiro a uma vítima. Mulher-vampiro, Sónia pré disponibiliza-se à voz, corpo, imagem e som de uma forma fantástica, compondo uma personagem bizarra, ao mesmo tempo sólida e enigmática, fatal e feminina. Num ecrã projectam-se filmes de perseguição, a mulher-vampiro que surge à vítima de outra realidade, a mulher-fatal que diz à vítima quero morder-te com enorme carinho. No espaço físico, Sónia cria a sua presença em enorme interacção com imagem-som, como se numa casa de bizarrias onde passam filmes mudos em fundo e as janelas estão abertas. A capacidade criativa da criadora é inesgotável, e o resultado é um espectáculo claramente performativo, onde o corpo é mais um elemento ao serviço de uma personagem e de uma ideia, não tentando chamar a si o protagonismo. Ou seja, toda a estrutura de Subwoofer rodeia a expressão corporal de Sónia, e não sua dança. A mulher-vampira sente-se, não se vê dançar. A vítima pressente, não vê movimento. Os dentes mostram-se, mas não há temor. O ambiente criado em Subwoofer aponta ao glamour de cabaret alemão, a lembrar Kurt Weil, a lembrar açucares envenenados na voz colocada de uma mulher no controlo, a lembrar uma natureza a tempos frágil ou possessiva, que se compensa de forma eterna com alguém que se persegue. Obrigado, Sónia Baptista. O Alkantara segue em saldo claramente positivo para ao Animatógrafo.
sábado, maio 27, 2006 at 15:38 Labels: { Dança, Teatro } {0 comments}
Está confirmado: o Animatógrafo tem presença assegurada no festival Alkantara, mais concretamente em seis espectáculos (para já). Principais espectativas apontadas para The World in Pictures, da forced entertainment, e para tragedia endogonidia, da soìetas raffaello sanzio, sem esquecer an oak tree, com Tim Crouch. Principal desilusão à partida: a impossibilidade de ver Orquéstica, o novo trabalho de Tânia Carvalho, por questões de agenda. Mas, à partida, estão reunidas as condições para serem umas boas duas semanas.
segunda-feira, maio 08, 2006 at 22:33 Labels: { Dança } {0 comments}
E como se já não bastasse, vai de transformar o Danças na Cidade no Alkantara, que parece querer ocupar à tirano o lugar de maior e melhor festival cultural do ano. Este fim-de-semana folheei longamente o programa da coisa (rapinado na Culturgest por quem me quer bem) e a coisa é de tal forma que só não tiro férias porque não posso. O evento estende-se a tudo quanto pode, abrangendo quantas artes mais, qual festival em estilo polvo para acabar com a monotonia. São 17 dias, de 2 a 18 de Junho, em que os organizadores parecem querer afogar a cidade na originalidade, na procura do corpo, no pensamento sobre a dança, numa utopia quase tornada realidade. As minhas sinapses estão orgásmicas.
at 22:25 Labels: { Dança } {0 comments}
Dia 11, próxima quinta, já tenho lugar assegurado para Heróis, nova coreografia de Emmanuelle Huynh, do Centre national de danse contemporaine d’Angers. Porque sim.
sábado, outubro 08, 2005 at 12:10 Labels: { Dança } {0 comments}
Primeiro que tudo, breves considerações preparatórias. Não sou um "homem da dança". Isto é, o meu conhecimento do meio, dos coreógrafos, dos artistas, dos métodos, da história, é diminuto. Mais: não era particularmente sensível à questão. Sobretudo porque sempre me fez muita confusão enquanto forma de expressão, quer plástica, quer artística, quer comunicacional. Confusão como? Confusão no sentido da total subjectividade (e estou aqui a falar de dança contemporânea, nao de ballet clássico). Ou seja, porque é que mexer o corpo como um epiléptico significa qualquer coisa? Porque escrever, ou representar, nós compreendemos, o tipo tá ali parado, ok, faz cara de triste, o tipo escreveu que a mãe morreu, ok, percebe-se. Agora o tipo mexeu o braço e depois caiu. E? Pois. Pois é. Pois era. Em termos globais, parece-me que é tudo um problema de media. Palavras, nós percebemos, foram feitas para comunicar ideias. Imagens, ok, é para comunicar, mesmo que seja para comunicarem-se a si próprias. Corpo? Pois, corpo, parece que é para andar, para existirmos. E portanto há uma resistência enorme ao corpo como media. Caramba, se há uma resistência aos livros e lemos pouco, ao corpo então... Pois era. Ora, comecei a interessar-me pela área e a tentar quebrar resistências quando se atravessou no meu caminho (imagem fatídica romântica esta) aquela que hoje é a jovem que me atura as manias, vai para uns anos. A jovem, de sorriso lindissimo, tinha feito dança e tinha uma curiosidade atroz pela mesma. Ainda hoje, felizmente. Vai daí, o meu cérebro ligou umas quantas sinapses e chegou a uma conclusão: ou a jovem é maluca e aquilo são uma cambada de malucos a esfregarem-se no chão, ou eu não percebo nada disto. E como a probabilidade da segunda hipótese era muitissimo superior, fui tentando quebrar barreiras a pouco e pouco. Pois. Hoje, não sendo um "homem da dança", já consigo compreender o corpo como media. Considero mesmo, aliás, que é o media mais complexo e interessante com que se pode trabalhar hoje na área de produção artística. Posto isto, o essencial. Vi "Masurca Fogo" no CCB, nas galerias de pé, sozinho, enquanto estudante universitário, em 1998. O nome Pina Bausch não era mais do que uma referência vaga, um fantasma, uma associação. E "Masurca Fogo" era a tradução de muita coisa: da visão de alguém estrangeiro sobre nós, da dança e das suas possibilidades actuais, da interacção da mesma com o teatro, da visão de Pina sobre o mundo. Lembro-me de me doerem terrivelmente os joelhos e de ter um sorriso idiota na cara, de quem compreende que está perante um objecto artístico e cultural único. Lembro-me da figura giacometiana de Pina no fim. Por tudo isto, cada vez que se fala de Pina Bausch em Portugal, a minha glandula salivar que ainda funciona (a outra ficou irreparavelmente entupida no ano da graça de 1980) lembra-se de um senhor chamado Pavlov e vai disto. Desta feita, Pina não facilitou e trouxe dois espectáculos a Lisboa. Nelken (Cravos) data de 1982. O palco foi invadido por flores cuidadosamente espetadas e uma figura de pernas maiores que tudo surge semi despida com um acordeão que nunca tocará. Um homem de fato e gravata centra-se no palco e traduz "The man I love", de Gershwin, em linguagem gestual. Depois há bailarinos com vestidinhos de menina a fugir pelo palco. Há alguém que insistentemente pára a acção para pedir um passaporte e humilha quem o tem antes de o devolver. Há um homem que mostra posições de ballet clássico e pergunta: "é isto que querem? eu dou-vos, é isto?". Há cães que ladram quando surge um determinado som, rodeando corpos que ora são corpos, ora são actores a jogar como crianças. Nelken (Cravos) é pura Pina Bausch: os problemas de comunicação estão lá, a conjugação de teatro com dança está lá, a reflexão sobre os caminhos da própria dança e as suas possibilidades está lá, a tragicomédia do absurdo está lá, a utilização de outros media está lá, a crítica política e social está lá. Nelken (Cravos está ligeiramente datado, sim, em 1982 ainda havia muro de Berlim, controlo de passaportes, contestação às novas formas de dança emergentes, dúvidas sobre os caminhos a seguir. Nelken (Cravos) é o embrião do que viria a ser Masurca Fogo 16 anos depois. Não vi Ten Chi, não se pode ganhar tudo. Mas parece que quase todas as revoluções se fazem com cravos.
sexta-feira, janeiro 21, 2005 at 19:21 Labels: { Dança } {0 comments}
Tive a felicidade de conseguir ver, há uns anos, "Mazurca Fogo" no CCB. Pina Baush deu-nos a honra de descer ao extremo da Europa e admirar a ideia que tem de nós, dos nossos hábitos, do excesso de açucar no café e das deambulações próprias por quem transporta as colinas às costas em Lisboa. Raras vezes consegui entender o corpo como forma de expressão. A dança sempre me surgiu como a forma de arte de maior lonjura, pelo que as limitações físicas do saco de ossos que carregamos me intrigam ao ponto de atracção/repressão.
Depois de Baush, e no âmbito de uma breve cruzada no DN, tive a felicidade de ver "Pixel", de Rui Horta. Na prática, "pixel" era um contentor fechado plantado no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, onde dois seres se degladiavam com uma tela de premeio, onde eram projectadas imagens em tempo real. O público resumia-se a poucas almas bem-aventuradas e foi talvez o projecto que mais me entusiasmou nos criadores de dança contemporânea portugueses até hoje.
No dia do Sporting-Benfica, deixei o cachecol na loja (não tenho nenhum) e apresentei-me como agente visualizador de "Forgeries, Love and Other Matters". Ou seja, Meg Stuart na Culturgest. Novamente poucos, novamente espaço fechado por uma plateia metálica que se abismava do palco encurralando Stuart e Lachambre. Ao canto, um gajo de ar chinoca limitava-se a mexer os braços em volta de um campo magnético e a sussurar imagens para movimentar sons e provocar os movimentos de Stuart ao longo de um relvado de alcatifa. Lachambre correu nu por sobre uma enorme cicatriz que se alojou na perna, saberá ele quando. E no fim de contas, Stuart assume o corpo em registo verdadeiramente real como proto-objecto de transmissão. Há uma base, mas quase tudo parte do som do momento. Quase todo o som parte do movimento do momento. E como se Marx ainda habitasse na face ligeiramente pornográfica de Stuart, toda a dialéctica do espaço assumiu contornos de história, por quanto a história se faz em salas corrompidas pela ausência e não nas multidões que abandonam as praças. "Ele diz espaço, ela pensa tempo, ele percorre a curva, ela segura a linha, ele lambe a pele, ela aponta que é falsa" (Myriam Van Imschoot). Atenção: vão passar por Gent, na Bélgica, em Março.