Natal relativizado: pior só... (III)

Natal relativizado: pior só... (II)

Natal relativizado: pior só.... (I)

Eu detesto o Natal

... e há que aproveitar todas as oportunidades para o afirmar. Pior só mesmo Santana Lopes na CML. Mas primeiro vamos tratar do Natal.

Nippon Koma

Cá está: em mês desse desespero e origem de todos os males que é o Natal, ainda há razões para sorrir. Há já vários anos que o Nippon Koma toma a Culturgest de assalto e durante uma semana temos cinema japonês em dose comedida mas produtiva. Este ano o Animatógrafo não vai conseguir ter a mesma atenção que em outras edições, mas contamos ir ver qualquer coisa. Entre cinema de animação e documentários, até sábado vale a pena deixar as compras de peúgas para dia 24 de parte e olhar para o boneco. No caso, japonês, o melhor.

Eu detesto o Natal

Cá vamos nós outra vez.

Há fases assim

em que as palavras não têm espaço.

Vénia do dia: Fleet Foxes

décimo oitavo regresso

décimo sétimo regresso

Tenho saudades (manca-me) polaroid. O químico era
doce.
E os dias passavam-se à sombra das nuvens de fumo, moendo dentes de álcool, atirando romãs aos gatos. A cor obtinha-se desfocando gravemente as dioptrias da pele das cadeiras, nova feito
plástico com cheiro, e em processo orgânico familiar. Shoot. Posta
uma mesa rotativa para cinco, aos pares, o cachimbo era então construído do castanho para a retina,
do cinzento para o banal,
com areia à mistura. Fala-se alto. Os pinta-roxos lidos algures entre Évora e Canal Caveira formam-se na antítese das penas, e cada película é uma sujidade alternativa das cordas. Ao canto, um ombro raspado. Um ângulo construído pela forma do indicador, ou antes a ideia de um tempo que não chegou a existir, entre culpas argelinas e o som abafado da carpete da sala. À luz, água. Dobrando a cervical, tudo já parece pouco mais do que.

A minha palavra favorita da semana XXIV



Butoh

Superbock em Stock

Mesmo o consumidor mais distraído tem noção que, em Portugal, e mesmo um pouco por todo o lado, a época dos festivais de música é o Verão. Porque há férias. Porque os grandes terreiros de pó, junto ao rio ou à praia, convidam a banhos, sons e bejecas no pino do calor. Porque os amigos unem-se em maiores grupos. Porque há amores efémeros e noites esquecidas ou lembradas. O resto do ano passa-se a saltaricar de concerto em concerto, em sala fechada, grande ou pequena. Os grupos são menores, e os preços bem maiores. A Superbock, como grande marca de cerveja que se preze, aliou-se há muito aos festivais de música (ou não fosse o Verão o pico de vendas do produto). E este ano avança com uma ideia quase revolucionária: um festival de música em pleno Outono avançado, já a espreitar o Inverno. Claro que o figurino não podia ser o mesmo, senão facilmente teríamos wrestling feminino na lama. E daí os senhores da Unicer pensaram na coisa de forma bem diferente: durante dois dias, todos os espaços disponíveis na Av. da Liberdade, mesmo os mais raros, acolhem nomes do cenário musical actual em pequenos concertos. O bilhete é único para os dois dias, 3 e 4 de Dezembro, e a ideia será andar a saltar do Tivoli para o S. Jorge, ou do Parque Mayer para o Maxime. Reconhece-se uma programação que quer aliar novos valores nacionais com nomes lá de fora. E, perdoem-nos os restantes, mas todos os holofotes vão para Santogold, Lykke Li, Ladyhawke, El Perro del Mar, Peixe:Avião, Deolinda e Zita Swoon. Este é daqueles que ou pega de estaca ou morre à nascença. A ver vamos se alguém ajuda à sobrevivência da coisa.

Mulheres levadas da breca XIV



Zooey Deschanel

Música de Domingo XV



Joan as Police Woman, To Be Loved, in To Survive, 2008

Mulheres levadas da breca XIII

Joan Wasser

O Animatógrafo vota no falso Sarkozy

O Animatógrafo vota Sarah Silverman

docLisboa 2008: Novela na Santa Casa (*****)

[Competição Internacional] Pode até nem ganhar o galardão máximo, mas o filme de Cathie Levy já ganhou um prémio: o da empatia com quem o viu no domingo, no grande auditório da Culturgest. Na senda do documentário sobre a natureza humana, o projecto da realizadora vai à procura das mulheres que permanentemente procuram os serviços de cirurgia plástica da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro. Logo pela manhã, uma filma enorme alonga-se junto ao muro, e mulheres, novas e velhas, baixas e altas, bonitas e feias, gordas e magras, conversam sobre o que não gostam em si. E no que ele poderá fazer por elas. Ele é Ivo Pitanguy, o cirurgião estético mais conhecido do Brasil e um dos maiores no mundo. Ao contrário das "coroas" do Leblon, que pagam somas chorudas por um nariz novo ou seios mais voluptuosos, Edna, Valéria e Fernanda não têm dinheiro para isso. Mas também não estão contentes com o que o espelho devolve, e têm a esperança de mudar. Ao longo de cinco meses, Cathie Levy foi atrás de algumas das mulheres que vêm Pitanguy como o mágico das suas vidas e filmou as suas dúvidas, sonhos e sorrisos, mentiras inocentes e lágrimas escondidas. O que à primeira vista parece superficialidade a um olhar mais neutro, revela-se, ao longo de duas horas, como algo bem mais profundo. A vaidade das mulheres que Levy encontrou nos corredores da Santa Casa não vem apenas do espelho, mas antes de baixa auto-estima, de problemas emocionais ou familiares, da rejeição da sociedade e de uma cultura demasiado pressionada pelo corpo e pela socialização pelo mesmo. Levy tem, além de um excelente trabalho de estruturação que mostra todas as fases de preparação da cirurgia e nos faz sentir testemunhas próximas de quem vai à faca, a felicidade de encontrar genuidade nos intervenientes. Um documentário é feliz quanto maior for a felicidade nas pessoas que encontra. Cathie Levy foi à procura da felicidade de câmera em riste e pode sair de Lisboa com algo mais.

docLisboa 2008: Gonzo, the life and work of Dr. Hunter S. Thompson (*****)

[Sessão Especial] Há festivais que correm mal desde o início, estopada atrás de estopada. E depois há o docLisboa deste ano, cuja qualidade dos filmes escolhidos continua a surpreender, um atrás do outro. Desta feita, o motivo de contentamento é Gonzo: the life and work of Dr. Hunter S. Thompson, de Alex Gibney. Atenção: o norte-americano não é um qualquer realizador. É o vencedor do óscar para o melhor documentário em 2007, com Taxi to the Dark Side, onde ia atrás da tortura que os soldados norte-americanos impõem aos capturados no Iraque ou Afeganistão, inocentes ou culpados. Este ano Gibney aligeirou um pouco o tema, mas não por isso faz um trabalho menor. Agora: quem viu Fear and Loathing in Las Vegas, a pérola de Terry Gilliam de 1998, vai perceber o resto do texto muitíssimo melhor. Porque o filme de Gibney é, precisamente, sobre o homem aí representado. Hunter Thompson, jornalista excêntrico, escritor instável, origem do jornalismo gonzo, um misto de factual e imaginado, de calúnia e alucinógeneo. O tipo pastilhado que Johnny Depp interpreta em Fear and Loathing é precisamente Hunter, que acompanhou o projecto. Hunter, personagem mítica na cobertura das eleições presidenciais de 1972. Hunter, o tipo que andou com os Hell's Angels, o último grupo motard fora-da-lei, América fora. Hunter, o gajo que que foi para as pistas de cavalos do Kentucky escrever sobre quem estava nas bancadas e não ligou nenhuma aos cavalos. Hunter S. Thompson foi das personagems mais interessantes do século XX norte-americano, e portanto a tarefa de Alex Gibney era "estar à altura". E está. O documentário biográfico sobre o maior pastilhado de todos os tempos é um excelente filme, que fala com toda a gente que interessa e mais alguma que não sabíamos existir, que explica e aborda a origem do Gonzo, e que faz o que um documentário biográfico deve fazer: singulariza o objecto de estudo, mostrando-o e interpretando-o à luz da sua vida e da sua realidade, mas sem julgamentos. O trabalho visual de Gibney é fantástico, sobretudo tentando chegar às sensações provocadas pelo ácido e alucinógeneos. A estrutura é inatacável. E não sendo um documento de cariz político actual, não deixa de olhar para a atitude eminentemente política de Thompson em toda a sua vida e, assim, sublinhar a natureza do homem político, de então e dos nossos dias. Possivelmente não vai ganhar o óscar, mas Alex Gibney pode gabar-se de ser o autor de um documento que, mais do que ser interessante, pode bater no peito e dizer que é necessário não só para compreender a história do biografado como de algumas décadas da história norte-americana. E isso não é pouco.

docLisboa 2008: My Enemy's Enemy (*****)

[Investigações] Kevin McDonald será conhecido, sobretudo, por O Último Rei da Escócia, que deu o óscar a Forest Whitaker o ano passado. O realizador, porém, não se dedica apenas à ficção, e desta feita trouxe My Enemy's Enemy ao docLisboa. Tendo por mote a máxima de "inimigo do meu inimigo meu amigo é", o realizador foi à caça da história de Klaus Barbie, o "carniceiro de Lyon". Barbie foi uma das figuras proeminentes das SS e do III Reich, com impacto sobretudo na supressão da resistência francesa durante a II Guerra Mundial, mas não só. Milhares de pessoas foram deportadas sobre as suas ordens, incluindo um grupo de algumas dezenas de crianças que se encontravam numa instituição isoladas. Muitas torturadas de forma bárbara pessoalmente pelo alemão. Finda a guerra, Barbie vê-se útil à CIA e aos EUA na guerra fria, e posteriormente, já na América Latina, intervém na profusão de revoltas e golpes militares em alguns países, na tentativa de instauração de um IV Reich nos Andes, até aos anos 80. Descoberto por caça-nazis ao serviço de vítimas ou descendentes das mesmas, viria por fim a ser julgado em França e condenado a prisão perpétua, tendo falecido em 1991, ironicamente, em Lyon. Contada a história, importa dizer que Kevin McDonald faz um trabalho de investigação fantástico. Ao longo de 87 minutos vemos o desenrolar da história de Barbie como uma novela dantesca, profusamente ilustrada por testemunhos dos mais variados intervenientes, e contextualizada ao limite. Ao mesmo tempo, McDonald tenta definir o perfil de Barbie e estudá-lo pelos actos, palavras e movimentos, parece que à procura da raiz do mal. E como pano de fundo impositivo de tudo, a ideia de um relacionamento entre nações amoral, onde o carniceiro de hoje é o agente de amanhã e o traidor de depois. Os testemunhos do julgamento de Barbie são arrepiantes e de colocar lágrimas no mais másculo dos crocodilos, a captação das expressões de antigos agentes que assumem erros é lapidar, e o filme segura-se na ponta da faca. No fim, para além de um belíssimo documentário, sai-se da sala com vergonha de habitar este planeta. E não é nada connosco. Fará se fosse. Lembram-se de Anne Frank? Era de Barbie que fugia....

docLisboa 2008: Aka Ana (***)

[Riscos e Ensaios] Antoine d'Ágata não é um realizador qualquer. Aliás, se quisermos ser bem concretos, não é um realizador. É, isso sim, um fotógrafo brilhante, que entrou para a agência Magnum como associado e está desde este ano como membro de pleno direito. O trabalho de Ágata é duro, corrosivo, à procura das margens negras do humano. E portanto Aka Ana, atrevo-me a dizer que talvez o filme que criou maior expectativa no festival deste ano, não podia ser algo simples ou banal. O fotógrafo parte, desde logo, de um objecto de ruptura: nada mais nada menos que O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima, realizado em 1976 e que marcou uma época (no caso português talvez seja de maior memória a transmissão na RTP2 que enfureceu a igreja há uns anos). O filme de Oshima, provocador e no limite, à data, do pornográfico, tinha enormes premissas intelectuais, e concretizava-as conduzindo tudo pelo centralismo do ser humano no corpo e pelo corpo. O francês, mais de 30 anos depois, recupera as premissas mas desta feita afasta-se do campo amoroso pessoal e vai à procura das profissionais do corpo. Prostitutas, mais concretamente japonesas, e uma viagem na vertigem do limite, próxima, em grande plano, em planos subterrâneos que nos fazem concentrar na carne. Os sessenta minutos de Aka Ana são histórias de prostitutas na primeira pessoa, que discorrem abstractamente sobre o sexo, o corpo e o ser humano, e assumem várias vertentes. No ecrã, filmagens impossíveis de sexo, em imagens queimadas, querendo levar o espectador quase para dentro do corpo alheio. Aka Ana é, assuma-se, uma experiência mais do que um filme. É algo que se experiencia, que tanto pode fazer sentido num cinema como numa instalação, ou numa performance. E se esteticamente o projecto corre na linha de acção de Ágata e é inatacável, já a concretização mental, pelo texto, se perde a meio. Os testemunhos das mulheres, sussurrados, tentam tanto cair no domínio da filosofia, mesmo que construída individualmente e sem procura de estruturação, que se fecham sobre si mesmas. O filme, por fim, acaba por se enclausurar e não comunica com quem vê. "Eu sou assim, absoluto, este é o meu corpo para mim, estou aqui por existir e não para mostrar". Como experiência, Aka Ana é tudo menos dispensável. Mas ao querer tudo para si, acaba por falhar em levar-nos corpo adentro.

docLisboa 2008: Alone in Four Walls (****)

[Competição Internacional] Alone in Four Walls é o primeiro filme, para cinema, da alemã Alexandra Westmeier, e revela-se uma excelente primeira obra. A realizadora seguiu rumo à Rússia para nos guiar numa viagem a um reformatório onde estão detidos jovens com menos de 15 anos, condenados pelos mais variados crimes. Do furto de comida ao assassinato, é um mundo de delitos que está na origem da reclusão das crianças, que ali vemos como definitivos condenados fora de tempo. A realidade tem, porém, duas nuances. Por um lado, trata-se efectivamente de um reformatório, e não de uma prisão. A instituição mete os miudos a trabalhar e responsabilizar-se por si e pelas suas acções. Por outro lado, a origem de muitos dos problemas está na zona cinzenta do alcoolismo de familiares, da ausência parental ou de um clima de abusos físicos. E assim as crianças que num primeiro momento parecem pequenos monstros são, também, grandes vítimas. O trabalho de Westmeier é muito interessante em dois ou três pontos cruciais. Primeiro, porque dá voz efectiva aos personagens principais. Os míudos falam em voz própria, olham a câmera de frente, revelam as emoções mais profundas como se fossem factos e não se escondem de nada, mesmo que as lágrimas venham aos olhos. Depois, a realizadora tem a inteligência de ir à procura do real fora dos quatro muros. Em pontuadas viagens, conhecemos a família, ou o mais próximo dela que existe, daqueles que vimos fechados. Lêem-se cartas que vimos escrever, ou vemos ler ao som de quem escreve. As duas faces da moeda contextualizam algo que parecia a princípio frio e dão todo um novo pano de fundo ao filme. Por fim, Westmeier faz tudo isto sem perder uma noção da imagem como veículo documentador, e não se deixa ficar pelo real filmado. O trabalho de fotografia é fantástico, e o que sobressai sobretudo é a luz, que inunda quase todos os planos. O resultado é um filme luminoso, equilibrado entre o dramatismo de uma realidade incontornável e a ternura de crianças que cantam, por fim, "um menino russo dá o peito às balas". Um bom candidato à vitória final do festival.

docLisboa 2008: O meu amigo Mike ao trabalho (****)

[Riscos e Ensaios] O breve documentário sobre Michael Biberstein, praticamente desconhecido em Portugal, tem à cabeça um enorme atractivo: é de Fernando Lopes. O realizador português, autor do mítico Belarmino, é e será para a posteridade uma figura maior do cinema nacional, e tudo em que toca revela-se dourado. O meu amigo Mike ao trabalho é, mais do que um documentário, o registo de um acto criador. Biberstein, que vive em Portugal há 30 anos, é um pintor reconhecido mundialmente com obras em grandes museus, e é amigo de Lopes. E do desafio deste surgiu o filme que marca a criação de uma tela por parte do pintor meio suíço meio americano, radicado no Alentejo profundo. Na solidão do seu hangar, Mike atira-se à tela quase que em transe. A câmera é um espectador silencioso ao fundo da sala, e Biberstein um fantasma que deambula pela tela, ora a esfregar com tinta diluída o local onde nascerá uma mancha, ora sentado feito espectador de si mesmo, ora nos dois papéis simultaneamente, graças ao trabalho de manipulação de imagem de Lopes. Os 49 minutos que se vêem no ecrã da sala escura são assim a imagem de uma criação no seu estado quase religioso, onde as cores, imagens ou premonições se revelam como numa fotografia, à espreita de céu, alquimicamente. Fernando Lopes capta todo o transe que preside à tarefa da criação com uma candura e potenciação de significados fantásticos. E o demais é que o próprio Mike espreita, conta no fim, pela óculo da câmera para ver a criação com outros olhos. Filme sobre a pintura ou pintura sobre filme, o trabalho de Fernando Lopes é uma criação ao mesmo tempo simples e complexa sobre a verdadeira religião humana: a criação da arte.

docLisboa 2008: Z32 (*****)

[Sessão Especial] O último que havíamos visto de Avi Mograbi tinha sido Avenge but one of my two eyes (ler crítica de então aqui), precisamente no docLisboa, em 2005. Mograbi era ele mesmo, mergulhando no conflito israelo-árabe de frente. O seu novo filme, Z32, abriu o docLisboa 2008 depois de ter passado por Veneza, e tem uma diferença: não mergulha no conflito, arranca-lhe o estômago. Primeiro plano: um homem e uma mulher num quarto pequeno, descontraídos, falam em silêncios breves e pensam entre si e para consigo mesmos. Uma mancha enorme e espessa cobre as suas caras. Interlúdio: Avi, de rosto escondido por uma meia preta, olha para a câmera e descreve como seria o filme. Vai abrindo pequenos buracos que deixam ver os olhos e a boca, porque não dá para respirar. Não dá. Está em sua casa, a mulher entra na sala, tudo é filme. Voltamos à mulher e ao homem, e agora a mancha densa sobre a face dá lugar a uns olhos e uma boca. O resto uma nuvem nublada, uma identidade que se esconde, mas que se revela. E o jovem começa a assumir a realidade do passado: sim, fui ensinado a matar, sim, fizeram de mim uma máquina, tratado a porrada e fome, alienado do campo visível do real. Sim, matei. A namorada, envolvida tanto no amor como na repulsa, olha o vazio à procura de respostas. "Conta-me a minha história". Ela hesita, a procurar a zona onde entrar na pele dele. "Conta-me como se fosses eu". Interlúdio: Avi Mograbi de pé na sua sala, em sua casa, deixa o piano avançar e abre a voz para cantar a miséria e a morte. Avi Mograbi canta. O soldado, israelita, não sabe onde matou. "Levaram-nos de noite, não sei se virámos à esquerda ou à direita, não sei". A mancha, que se coloriza a pouco e pouco, dá lugar a uma máscara digital, um novo rosto, cor de pele. Avi conduz à procura do lugar da morte, e o soldado abre a retina à procura das memórias do massacre, "foi aqui", "corri por estas pedras", "dispáramos como se fossem cães", "eram cães no escuro, não pensas que eram homens, eram manchas", "foi aqui que o matei, e gostei". Interlúdio: Avi rodeado de músicos de uma pequena orquestra no meio da sala, canta. "A minha mulher diz que isto não é tema para um filme, ela diz para não o fazer". Avi canta que ele gostou, e agora como perdoar ao soldado que gostou de matar. Avi perdoa, a cantar. "Conta-me a minha história". Ela pára. Z32 é um filme soberbo, vísceral, impensável, agridoce, que arranca o estômago a um conflito que se diz religioso mas parece ser sobre a morte e o medo do seu sabor na boca.

docLisboa 2008: lançamento

Depois do IndieLisboa, o docLisboa é o grande festival pelo qual o Animatógrafo aguarda. Num último quarto de ano inundado de eventos, festivais e mostras, o docLisboa é rei nas preferências de quem aqui escreve. Porque é uma oportunidade única de ver filmes que, caso contrário, nunca passariam em sala em Portugal. Porque é uma iniciativa madura, sólida e profissional. Porque é uma janela de pensamento aberta no mapa estéril da Cultura em Portugal, não se limitando a ser uma mostra de cinema mas afirmando-se como espaço de debate e apresentação de ideias, nas mais diversas e variadas direcções. O docLisboa teve a sua sessão de abertura hoje (com o magnífico Z32 do israelita Avi Mograbi) e vai até dia 26, apresentanto perto de 180 filmes. Da nossa parte, são praticamente 30 os escolhidos no nosso plano de visionamento, e já temos consciência que vai ser praticamente impossível de o cumprir (vai ser uma semana difícil). Ainda assim, à semelhança do que temos feito noutros festivais, tentar-se-á uma cobertura o mais completa quanto possível. Ainda assim também, vai ser muito difícil escrever sobre todos os filmes vistos, pelo que nos vamos centrar nos que nos merecerem texto, pela positiva ou pela negativa. Diz Sérgio Tréfaut, figura tutelar o festival, que "haverão outros Outubros". Nessa certeza, vamos aproveitar este ao máximo.

Música de Domingo XIV



Antony & the Johnsons, Another World, in Another World, EP, 2008

Nobel da literatura 2008

O Animatógrafo assinala a atribuição do Nobel da Literatura a Jean-Marie Gustave Le Clézio, autor francês ligado às Ilhas Maurícias e com uma temática vincada em África. Não conhecendo a obra de Le Clézio, o Animatógrafo sublinha, de novo e parece que para sempre, a omissão de autores como Philip Roth ou António Lobo Antunes. A história está cheia de esquecidos do Nobel, de Borges a Joyce, de Musil a Beauvoir, e desta feita a academia até premiou um nome que fazia parte da lista de apostas, mas isso não desculpa a continuada tarefa de obliteração do reconhecimento a autores a quem o mesmo é devido.

Festa do Cinema Francês 2008: Entre'acte (*****)

Uma das secções da edição deste ano da Festa é Paris-Lisboa, dedicada a filmes sobre as duas cidades e assinalando também os dez anos do pacto cultural entre as mesmas. Para assinalar o início da mostra, que inclui o fantástico Berlarmino, de Fernando Lopes, ou La Traversée de Paris, com Louis de Funès, o IFP escolheu um objecto no mínimo singular. O filme de 21 minutos realizado por Rene Clair é um marco no surrealismo no cinema e está no mesmo patamar que Un Chien Andalou, a obra prima de Buñuel e Dali. E mais do que isso, a sessão de segunda-feira à noite na Cinemateca Portuguesa assistiu à banda sonora ao vivo interpretada e composta pelo francês Jacques Cambra. O filme, escrito por Francis Picabia, é um prodígio e um enorme manifesto de liberdade criativa. Em 21 minutos vêem-se perseguições em telhados, Man Ray a jogar xadrez alucinado com Marcel Duchamps, imagens malucas de Paris, em planos invertidos, sobreposições e sombras, um cortejo fúnebre em que os homens saltam em camera lenta e o caixão foge com um prestidigitador lá dentro, sorridente e maquiavélico. Realizado em 1924, Entre'acte é um enorme símbolo do surrealismo, em tom burlesco, e do início das vanguardas, da liberdade máxima na criação de algo. O visionamento é delicioso, e a cada momento se descobre algo novo, permitindo também a redescoberta da imagem em movimento enquanto meio técnico ao serviço do melhor que o humano consegue fazer e pensar. Descobrimos o próprio filme no Youtube, e tomamos a liberdade de aqui o deixar, na consciência que não é o mesmo (nunca é) do que o ver na tela. Mas ainda assim, é quase que uma obrigação olhar para Entre'acte.




Próximo visionamento: Cartouches Gauloises, de Medhi Charef, hoje, às 19:30h, S. Jorge

Festa do Cinema Francês 2008: Bord de Mer (**)

Bord de Mer passou em Cannes em 2002 e nunca foi estreado em Portugal. Ainda bem. E bem dispensava agora a participação na Festa do Cinema Francês. O filme de Julie Lopes-Curval olha para uma comunidade costeira de praias de seixos e indústria familiar e tenta oscilar entre a depressão invernosa e a aparente normalidade veranil, mas nunca consegue ser um filme a sério. A aposta no tom melancólico é falhada em toda a linha, as interpretações banais, o argumento dependurado. Todo o filme acaba deslassado, sem consistência, com meia dúzia de imagens felizes às quais ninguém dá seguimento. As personagens acabam por se constituir uma caricatura de si mesmas, e perdem o suposto realismo manifestado de início. O resultado é um filme sonolento mas que não deixa dormir. Totalmente dispensável.

Festa do Cinema Francês 2008: Waltz with Bachir (*****)

Ari Folman é sobretudo argumentista de televisão. Olhando para o seu curriculum, tem apenas três filmes como realizador, e num espaço de mais de dez anos. O último havia sido Made in Israel, uma comédia. O novo, que passou sexta-feira na Festa, promete, porém, colocá-lo no mapa cinematográfico mundial. Waltz with Bachir é um filme soberbo, e confirmar-se-á como o grande acontecimento do evento promovido pelo IFP. Também escrito por Folman e totalmente falado em hebraico, o projecto é de difícil definição. Não é bem documentário mas faz documentalismo, não é só animação mas ela é profunda. O certo é que não é ficção. E para isso basta sublinhar que os noventa minutos são totalmente ocupados pela primeira guerra do Líbano, e sobretudo pela procura de uma memória real dos massacres de Sabra e Chatila, em 1982. Em conversa com um amigo, que conta um pesadelo que o assola todas as noites, Ari compreende que não tem memórias concretas quer da guerra quer das missões que levou a cabo, e dos massacres. Assim, decide entrevistar alguns intervenientes e ir à procura das suas próprias memórias, perdidas algures no espaço vazio e desconhecido que o habita, recalcadas sem pudor. O resultado desta busca é um mergulho na memória, passo a passo, dando nitidez à brutalidade da guerra no início da década de oitenta, e virando o espelho, frontal, aos israelitas. O filme é um olhar sobre o conflito sob o ponto de vista dos soldados e correspondentes de guerra, e ilustra-se a si mesmo de forma visualmente fascinante, em imagens que evocam o universo da banda desenhada mas que nunca se sobrepõem aos próprios actores, deste caso, da História. Em termos de construção, Waltz with Bachir é equilibradíssimo e vai afunilando a carga dramática à medida que a memória de Ari se torna mais nítida, até ao limite final da imagem real, sublinhando o absurdo de tudo. Ao que parece, o filme tem estreia comercial agendada para Dezembro, e marcará, assim, o panorama de filmes do ano da forma mais vincada possível. No âmbito da Festa do Cinema Francês, Porto e Faro serão ainda espaços de visionamento, nos dias 26 e 31 de Outubro, respectivamente. Absolutamente a não perder. (Reproduz-se abaixo o trailer).



Próximo visionamento: Bord de Mer, de Julie Lopes-Curval, hoje, às 21h, S. Jorge

Festa do Cinema Francês 2008: Les Femmes de L'ombre (***)

Jean-Paul Salomé não é um estudante de cinema. Ainda que o início de carreira tenha sido marcado pela TV, o francês já está longe de ser um novato, e estará associado, sobretudo, ao seu anterior filme, Arsène Lupin. E Les femmes de l'ombre, que ontem marcou a abertura do evento no S. Jorge, não é um produto inacabado nem sequer imberbe. É um filme sólido. Mas isso não faz dele um bom filme. A história de Louise é verídica: próxima da resistência francesa em 1944, foge para Londres para ser envolvida numa operação de resgate de um britânico capturado em França. O geólogo inglês andava nas praias da Normandia a fazer levantamento do terreno para ajudar à preparação do desembarque que viria a pôr um ponto final à Segunda Guerra Mundial, e tem que ser recuperado por uma equipa de quatro mulheres e um homem que dão o corpo ao manifesto. São, assim, duas horas à volta de espiões amadores e oficiais das SS sem influência junto de Hitler, mas que querem escalar a montanha do poder. Onde é que Salomé faz as coisas bem? No ritmo, e na capacidade de contar uma história. O argumento é bem construído, e o filme não peca por aborrecido ou partido aos bocados, o que é de saudar. E onde é que Jean-Paul falha? Em tudo o resto. Filmado de forma banal e académica, Les Femmes de l'ombre limita-se a mostrar uma história durante a guerra, nunca conseguindo transpor a barreira do ecrã para a universalidade. A ocupação de Paris parece um fait-divers, os nazis, com olhos de carneiro mal-morto, fazem um frete em ser desumanos e chegam a dar a escolher entre execução e deportação ao prisioneiro. As interpretações são básicas à excepção de Sophie Marceau, amadurecida e competente, e Julie Depardieu, que vai ganhando fôlego ao longo do filme e se afirma na última parte. Não por acaso sublinhámos no início que a experiência de Jean-Paul Salomé passou pela televisão. Precisamente este Mulheres de Guerra, com estreia comercial em Portugal agendada para a próxima semana, está mais próximo da estética do pequeno ecrã do que do cinema a sério, e esse é um pecado capital a quem quer jogar o jogo da sala escura. Será porventura um filme para públicos ociosos de domingo à tarde, já passados da meia-idade, mas não deixa grandes saudades.

Próximo visionamento: Valse avec Bachir, de Ari Folman, hoje, às 22h, S. Jorge

Vénia do dia: 5 Friends

Festa do Cinema Francês 2008: lançamento

Começa hoje a 9.ª Festa do Cinema Francês. Numa iniciativa do Instituto Franco-Português, agora alargada a várias cidades do país, a programação que começa hoje tem visionamentos em Lisboa. O Animatógrafo vai estar presente e, de novo, assumir uma cobertura do evento, incluindo o visionamento de mais de 10 filmes. Os destaques desta feita vão para Les Femmes de l'ombre, de Jean Paul Salomé, Valse avec Bachir, de Ari Folman, Le Silence de Lorna, dos irmãos Dardenne, e Entre les murs, de Laurent Cantet. Les Femmes de l'ombre, que marca hoje a sessão de abertura, conta com Sophie Marceau e Julie Depardieu em cenário da segunda guerra mundial, mais concretamente enquanto agentes dos meandros secretos dos aliados contra o domínio nazi. Por sua vez, Valse avec Bachir, que passa amanhã em Lisboa mas depois vai ao Porto e a Faro, é um filme documental de animação centrado na primeira guerra do Líbano, e promete ser a proposta visual mais arrojada desta edição do certame. Le Silence de Lorna traz o nome de Jean-Pierre e Luc Dardenne à cabeça e olha para uma mulher albanesa a braços com esquemas menos lícitos de sobrevivência na Bélgica. Entre les murs, que será talvez o grande filme do festival, em teoria, apenas passa em Faro e é o projecto de Laurent Cantet vencedor em Cannes este ano. O francês baseou-se no livro de François Bégaudeau (que se interpreta a si mesmo) e filma, diz quem viu, os conflitos de uma sociedade multi-cultural através de uma turma de 9.º ano numa escola nada fácil. O filme marca a inauguração do Teatro Municipal de Faro, dia 29, e estreia comercialmente no dia seguinte. Para além destes, o Animatógrafo verá vários outros filmes, escolhidos pela sua temática ou representatividade dentro da categoria onde se inserem. De relembrar que a Festa tem pela primeira vez um prémio do Público, que consiste na distribuição comercial em Portugal do vencedor (e por isso só estão abrangidos filmes ainda não assegurados), uma secção dedicada à Quinzena dos Realizadores em Cannes, e Paris-Lisboa, que recupera filmes filmados ou sobre uma das duas cidades. Aqui, excelente oportunidade para ver em sala Belarmino, a obra-prima de Fernando Lopes, ou Entre'acte, comédia surrealista de 1924 realizada por Rene Clair onde aparecem Man Ray e Marcel Duchamps a jogar xadrez. Uma excelente oportunidade de ver projectos interessantes da cinematografia francesa dos últimos anos.

La Soledad (****)

Para muitos, o cinema espanhol é sinónimo quase exclusivo de Almodóvar. Ou, quanto muito, para alguns mais atentos, de Aménabar. Uma coisa é certa: Jaime Rosales, que já não é um novato, é desconhecido entre nós. E porém o seu La Soledad (A Solidão, por cá) ganhou os Goya. E, porém também, é um dos filmes brilhantes a estrear em 2008 em Portugal. Discretamente. O projecto de Rosales acompanha duas mulheres, Adela e Antonia, maceradas pela solidão. A primeira, ainda jovem mas de personalidade amadurecida, decide abandonar a aldeia onde vive com o filho e ir para Madrid, à procura do algo que lhe falta. A segunda, já no último terço da vida, é uma viuva que se ocupa do seu mini-mercado e sorri para a neta ou o neto, bebés, quando as filhas lá passam em casa. Unindo as duas, para além do cruzamento narrativo aos nossos olhos (Adela partilha casa com uma das filhas de Antonia), está uma solidão urbana recriminada sob a aparência da normalidade. Jaime Rosales filma assim, ao longo de duas horas, não a exclusão social de quem não tem companhia, mas antes a quebra de ligação emocional profunda com alguém. Adela e Antonia são duas mulheres comuns, ocupadas com micro-histórias do quotidiano, sem sintomas de isolamento ou dificuldades sociais. Ainda assim, são também duas mulheres emocionalmente contidas no seu espaço, com um grau de sociabilidade que reconheceríamos como saudável. A meio, na naturalidade da rua, breve, sem que nada o fizesse esperar, como na vida real, uma explosão. Uma criança que morre. E a partir daí Jaime Rosales filma, pasme-se, exactamente da mesma forma. Não há revoluções. Não há o dramatismo dos dias cinzentos. Há o que a vida transporta consigo mesma, a tristeza engolida, o absurdo que atravessa todas as conversas mas que caso primasse pela ausência sublinharia a tragédia. A meio, na naturalidade de um quarto, também breve, como na vida real, uma explosão dentro do corpo, e um corpo que se sublinha a si mesmo sem vida. E a partir daí Jaime Rosales olha o ridículo dos dias seguintes como se tudo se passasse, preso nas coisas afinal menos perenes que quem as detém. Para tudo isto, o espanhol filma não poucas vezes com o ecrã dividido, onde mostra dois planos, um ao lado do outro, frequentemente do mesmo espaço mas em ângulos diferentes. Um corredor e uma sala. Uma janela e um quarto. Olhando para as personagens em diálogo, mostra-nos a antítese entre a face de um e o perfil de outro, alternando. O resultado é um cinema pensado e construído mais do que mostrado, onde o trabalho do realizador é dar-nos um clima ou ambiente alicerçado no dispositivo técnico que, não se tornando transparente, não se impõe como visão espectacular mas antes reverencia quem ou o que mostra. O resultado de tudo isto é um filme brilhante sobre a nossa vida, nas grandes cidades, perdidos em espaços domésticos abandonados por momentos e redescobertos pouco depois, e a forma como essa vida pode ser atravessada pela morte.

A minha palavra favorita da semana XXIII



Pânico

Música de Domingo XIII



Flobots, Handlebars, in Fight With Tools,, 2008

O golpe do veterano, a reza da feiticeira, o dinheiro da malta

Ao rubro. Ainda nenhum debate presidencial teve lugar nos EUA e já a situação está ao rubro. Esta tarde John McCain suspendeu a sua campanha. Diz o republicano que a situação está difícil, que é preciso trabalhar em prol da proposta de Bush para ajudar o sistema financeiro e que, assim, regressa a Washington à procura de um consenso. Apela a Barack Obama para que faça o mesmo. Assume que não está disponível para o debate de sexta-feira, o primeiro. O veterano McCain, a perder terreno de dia para dia nas sondagens, ataca forte tentando liderar a campanha e marcar a agenda mediática a seu favor, procurando inverter a lógica da realidade. E a posição de Obama não era fácil: ou aceitava o adiamento do debate e dá parte fraca, ou mantém posição e corre o risco de parecer pouco preocupado com o futuro da nação. Obama fez a única coisa que podia e devia: está a esta hora presente na reunião com Bush, mas afirmou antes que mantém intenção de debate e que é agora, precisamente agora, que os americanos têm e devem ouvir quem vai ter que lidar com a situação daqui a quarenta dias. McCain, perante um debate que inevitavelmente vai focar o estado da economia (ainda que o tema "oficial" seja política externa), bateu em retirada sabendo que dali não viria nada de bom. No mesmo dia, exactamente no mesmo dia, surge um vídeo de Sarah Palin (quem mais?) a rezar contra a feitiçaria e Satanás. É mais uma acha para uma fogueira que se virou contra os republicanos, mas tem a sorte de aparecer no dia em que menos importava. No fim de contas, os republicanos viram o efeito da convenção desvanecer-se e Obama voltar a ganhar a dianteira nas sondagens, e desesperam. No entretanto, a maior ironia alguma vez vista para lá don Atlântico: a maior economia de mercado do mundo, alicerçada no liberalismo mais feérico e na quase total ausência sequer de regulação, vê-se à rasca. E quem vai em auxílio é o contribuinte. O mesmo que não tem dinheiro para pagar a hipoteca da casa, ou o seguro de saúde mais básico, num país onde não existe sistema nacional de saúde. Bush quer a aprovação de um pacote que prevê a utilização de milhões sem vista, num volume 50 por cento superior a todo o dinheiro que o FMI já gastou na história. O mesmo Bush que durante dez anos não quiz saber do crescimento (ou sequer existencia?) do sub-prime, que minou qualquer tentativa de controlo da economia, que olhou para o território como terra livre de constrangimentos e preferiu ir ocupar países sem armas de destruição maciça, o mesmo com uma paranóia securitária que levou milhões de dólares para a morte de jovens do outro lado do mundo. É verdadeiramente fascinante ver o maior idiota de todos os tempos na Casa Branca querer agora dar ares de Estaline e controlar uma situação que ainda ninguém conseguiu estimar na totalidade, comprando dívidas que ninguém sabe avaliar e intervindo numa economia habituada ao laissez faire, laissez passer em estilo rodeo engravatado. Ironia da história, o sonho americano é agora alvo de intervenção. Caro senhor McCarthy, prenda-o: ele é comunista.

Pieter-Dirk Uys

O Animatógrafo tem visto algumas sessões do Queer Lisboa 2008, na última semana. Não se tratando de uma cobertura efectiva como habitual (veremos apenas cinco filmes), ainda assim há coisas que merecem relevo. Uma delas é Pieter-Dirk Uys. Revelado aos nossos olhos esta tarde em Darling, documentário realizado pelo australiano Julian Shaw, Pieter-Dirk é uma personagem fascinante. Na origem de Darling! está precisamente o fascínio inicial de Shaw que aos quinze anos viu um espectáculo do sul-africano e ficou ciente que queria fazer um documentário sobre o seu trabalho junto das crianças. Espantado, Uys disse-lhe que fosse ter com ele à Africa do Sul quando fosse mais velho. Shaw cumpriu, apanhou o avião e andou atrás de Uys numa cumplicidade que se sente a cada frame. Mas para além de um filme muito bom (que inclusivamente passou no Festival de Berlim), o que aqui se quer sublinhar é o próprio artista. Pieter-Dirk Uys é um actor/criador satírico que dedicou a sua carreira aos vírus. Primeiro ao vírus do apartheid, através da criação de Evita Bezuidenhout. Terá sido porventura o primeiro homem a surgir vestido de mulher na televisão nacional, e dos primeiros brancos a condenar o regime que vigorava. Depois do avanço na igualdade racial, Uys têm-se dedicado à consciencialização de crianças para o perigo do HIV/Sida, através de conversas em escolas. Uys conversa com os alunos sobre tudo, começando em si e acabando nas formas de protecção que os pequenos devem ter quando se trata da sua vida. Adicionalmente, Uys terá também sido o primeiro a utilizar a palavra "genocídio" para caracterizar o resultado da actuação do governo de Mbeki nos últimos dez anos. Num país devastado pela doença e com um governo que agrava o problema de forma ostensiva (perante a ignorância ou desinteresse do ocidente?), Pieter-Dirk Uys tenta mostrar formas de sobrevivência à geração que mais precisa delas, e fá-lo através de uma raríssima capacidade de comunicação humana, alicerçada na transparência total e na ligação genuína ao outro. Corrosivo, explosivo e subversivo, o artista sul-africano próximo de Nelson Mandela e Desmond Tutu é uma prova enorme de coragem de humanidade. Darling! é não só um extraordinário murro no estomâgo, como o retrato de um ser humano que convoca uma evidente inveja em quem o conhece. Por não sermos, também, assim. (Mais informações sobre Darling! e Pieter-Dirk Uys em http://www.darlingmovie.com.au)

Vénia do dia: Tv On The Radio

Viagem ao passado recente - V

1995. A Europa crescia para norte, com a adesão da Áustria, Suécia e Finlândia à União Europeia. Eric Cantona pontapeava um adepto do Crystal Palace menos simpático como um verdadeiro ninja, enquanto o Barings Bank colapsa às mãos de um corrector soturno. O estado do Mississipi aprova a abolição da escravatura mais de cem anos depois da ratificação no resto do país. O acordo de Schengen entra em vigor, e Braveheart ganha o óscar para Melhor Filme com Mel Gibson no topo da carreira. Jacques Chirac chega à presidência da França na Primavera, e Paris sofre um atentado à bomba no metro já o Verão ia alto. A Microsoft lança o Windows 95, e Rio Tinto é elevado a cidade. A Playstation faz a primeira aparição nos EUA. OJ Simpson é ilibado da morte brutal da mulher, enquanto um pastor evangélico da Igreja Universal do Reino de Deus dá pontapés numa estátua de Nossa Senhora nos ecrãs de televisão. A Miss Mundo é venezuelana, e a telenovela da RTP é Roseira Brava. Gilles Deleuze suicida-se no mesmo dia em que Yitzhak Rabin é assassinado em Tel Aviv. Ginger Rogers despede-se da vida a 25 de Abril, enquanto Kostadinov, Domingos e Drulovic levaram o FC Porto ao primeiro de cinco campeonatos consecutivos. Em Oklahoma, a 19 de Abril, Timothy McVeigh e Terry Nichols vingam David Koresh e a destruída seita de Waco. Uma bomba é detonada às 9:02 da manhã no edifício federal Alfred P. Murrah, destruindo grande parte do mesmo e provocando o pânico na cidade. Duas outras bombas são identificadas e desactivadas, mas o mundo ficava com o horror de 168 pessoas mortas, incluindo crianças. Na Europa a visão é de um problema interno dos states, coisas de malucos da religião em quintas isoladas e belicismo à flor da pele. Durante muito tempo, foi o pior ataque terrorista em solo norte-americano. Estávamos a seis anos do 11 de Setembro, a 2000 km de Nova Iorque.

Vénia do dia: Antony and the Johnsons

Radiohead ao vivo, para audição geral

Cite-se um blog que cita um site: o Sound + Vision, projecto de João Lopes e Nuno Galopim dedicado precisamente à imagem e ao som, nas suas infindáveis expressões, alerta para talvez um dos mais extraordinários concertos das últimas décadas. São os Radiohead ao vivo no Santa Barbara Bowl, a 28 de Agosto último. Foram mais de duas horas a revisitar não só o último In Rainbows mas também tudo o resto, de Pablo Honey a Kid A, de Amnesiac a The Eraser (o trabalho a solo de Thom Yorke), num exercício musical (e visual) de difícil adjectivação, diz quem viu. O texto de João Lopes sobre isto está aqui. Mas sublinhe-se o apontar para o texto de Bob Boilen, batido nas andanças de concertos, no seu programa All Songs Considered, para a NPR. Numa era de contínua apropriação de informação com a tarefa incólume de a "vender" como originalidade descoberta por motu próprio, saúda-se a ética e saúde do blog português, escrita e mostrada todos os dias por dois dos maiores profissionais e interessados na área do som e imagem. O texto de Boilen está disponível aqui. E, enorme rebuçado, o concerto também. Tal como outros, como dos Fleet Foxes ou dos Spiritualized, por exemplo.

Música de domingo XII



Interpol, Pioneer to the falls, live at the Astoria London

Motelx 2008: balanço

Ao segundo ano, o Motelx não é ainda um festival de cinema solidificado, nem podia ser. É sobretudo uma iniciativa que virá a ser, se bem dirigida, um festival de cinema de pleno direito. E porquê? Sobretudo porque lhe falta uma organização de secções mais consistente, uma secção competitiva e não apenas uma mostra, porque não conseguiu ainda assumir uma identidade reconhecível, que se converta na captação de um público identificável. Pelo que se viu no S. Jorge, o público do Motelx, de enorme heterogeneidade, olhou mais para um ou outro filme em particular, do que para o festival como um todo. Sessões quase esgotadas na sala principal alternaram com sessões meio vazias na sala 3. Conhecedores do género misturaram-se com curiosos do sangue. Falta discussão sobre o tema. As curtas-metragens abrigavam tanto trabalhos consistentes como obras escolares. Mas ainda assim o trabalho mostrado pelo Motelx é animador. Porque convocou muita gente a filmes habitualmente com dificuldades de penetração no mercado. Porque conseguiu reunir um grupo interessante de apoios. Porque procurou profissionalismo na organização e no dia a dia do evento. Porque já pensa em secções e procura pro-activamente mostrar movimentos ou facetas do género (doc terror, nouvelle vague, Lobo Mau). E do género ficam-nos duas ideias fortes, a partir dos filmes vistos. Primeiro, que o cinema de terror é hoje muito mais de horror. Ou seja, a ideia do filme de susto deu lugar ao filme do sangue. Não que o primeiro não o tivesse, mas os últimos anos parecem encontrar no espectador um olhar mais curioso pelo horror enquanto nojo, frontal, sem surpresa mas afirmativo. Assim, a maior parte dos filmes procura mostrar o horror mais do que aterrorizar o espectador, cada vez com menos medo. Segundo, uma evidente proximidade entre o terror e o humor. Boa parte dos filmes mostrados tem evidentes inserções de humor negro, e alguns estruturam-se mesmo à sua volta. Não é novo, mas parece agora ser mais evidente. E aqui aposta ganha sobretudo para os que o fazem de forma consciente e dinâmica, em detrimento dos que tentam fazer algo diferente. Porque se o que resulta são gargalhadas, algo poderá estar claramente mal e o resultado é um misto que não serve a quem vê com seriedade. Ao segundo ano, o Motelx aguenta-se, e aguenta-se bem. A ver vamos em 2009.

Motelx 2008: Teeth (*****)

Arrisco-me a dizer que este era o filme mais esperado, aguardado e falado do Motelx. E simplesmente pela temática da coisa, raramente vista, e sobretudo raramente filmada com competência. Teeth, antes de ser o primeiro filme de Mitchell Lichenstein, filho de Roy Richenstein, é um filme sobre um dos mitos mais assustadores e curiosos da humanidade: vagina dentata. E portanto compreende-se que fossem mais de 800 as pessoas ontem no S. Jorge, não só para a sessão de encerramento, mas sobretudo para ver, literalmente, dentes. Ora, um filme com uma temática destas não tem meio termo: ou é um desastre ou é fantástico. E felizmente para os espectadores e para Mitchell, Teeth cai redondinho na segunda categoria. Dawn é uma adolescente de uma cidade média norte-americana, boa aluna, com pais simpáticos e dedicados, que integra um grupo de abstinência sexual e usa um anel para celar o seu comprisso com Deus. Mas Dawn tem um problema mais do que as suas amigas: uma vagina dentata à espera da melhor oportunidade para se mostrar ao mundo. E se Dawn tem dúvidas sobre as hormonas e os desejos pelos rapazes, já a sua "amiga" não pensa duas vezes quando se trata de cerrar... fileiras. Até Dawn aprender a controlá-la. Teeth, que também foi escrito por Lichenstein, não era um filme fácil de fazer. E o norte-americano arriscou em grande, mas ganhou o jackpot. A personagem de Dawn é deliciosa tanto no seu perfil cristão ingénuo e inconsistente como nos desejos comuns da idade e na surpresa por algo dentro de si que não está bem. Toda a estrutura do filme se baseia precisamente nesta ambivalência moral, e, depois das dentadas, Lichenstein aproveita a boleia a lança o humor mais negro que consegue para o ecrã. O espectador vê-se tanto curioso pela bizarria, como atento aos factos prévios que fazem com que cada ataque seja mais do que uma castração corporal. Claro que a história está montada desde o primeiro plano para algo mais do que apenas uma vagina com dentes à solta e quando Dawn concretiza a capacidade de se controlar assume uma vingança familiar que não podia ter contornos diferentes. Teeth é um filme raro, bem filmado e construído, com interpretações ultra-competentes, uma produção séria e um nível de humor incontornável, tornando-se assim a grande escolha do Motelx, ou de qualquer festival, para uma sessão de encerramento. Entretanto, Mitchell Lichenstein está já a filmar a segunda longa-metragem, com Demi Moore e Parker Posey, que tem estreia apontada para 2009. Mas não se sabe de mitos escondidos da humanidade. Nem dentadas.

Motelx 2008: Sheitan (****)

Na mesma secção do anterior, no último dia passou Sheitan, de Kim Chapiron. Mas mais do que ser o primeiro filme deste, é uma produção e interpretação do grande Vincent Cassel, e isso vê-se e sente-se do primeiro ao último minuto. De novo, o formato clássico do terror rural, um grupo de jovens citadinos, também miscegenado (a França olha para a sua diversidade como nunca antes), vê-se numa quinta em terra de ninguém, a convite de uma das jovens. E aqui o horror virá de Joseph, o patusco caseiro da propriedade, que tão depressa se ri como louco como defende os animais em vias de extinção. A realidade mostrará que Joseph é um louco psicopata, com uma família a acompanhar, a começar pela sua mulher, perdão, irmã. Na prática, a coisa resume-se ao Diabo à solta (assim com maiúscula, há que ter respeitinho). E na prática também, a coisa está determinantemente marcada por Cassel, que rouba o filme para si, criando um personagem fabulástico. Joseph é demente mas simpático, alucinado, sorriso de orelha a orelha e andar rude, explosões de fúria inesperadas e desequilíbrio evidente. E ainda há uma estranhíssima e oferecida Julie-Marie Parmentier, promessa quase certeza do cinema francês, que dá uma ajuda. Kim Chapiron, por sua vez, aproveita as ajudas e desenvolve uma comédia negra que não mete medo a ninguém mas tem solidez suficiente para ser levada a sério, seja no ambiente criado (veja-se uma colecção de bonecas espantosa que não tem qualquer papel, assim quebrando o previsível) seja no resultado gore da coisa, seja na estética criada, com planos espertalhuços aqui e ali, vincando o filme de forma suficiente. Sheitan é um excelente sinal do terror francês, e uma enorme promessa de Cassel enquanto produtor, já que Joseph é uma certeza que se cumpre. Assim não há Natal que não mereça o seu Diabo (assim com maiúscula, há que ter respeitinho).

Motelx 2008: Frontiére(s) (****)

O fim-de-semana parece ter cumprido os níveis de qualidade no festival, e Frontiere(s), que passou na meia-noite de sábado, é um bom exemplo. Incluído na secção da Nouvelle Vague do Terror, dedicada a projectos vindos do campo francês, o projecto de Xavier Gens é um bom filme de horror, mais do que terror. Se o formato está cansado, a concretização parece uma lufada de ar fresco. Um grupo de jovens, miscigenado e vindos directamente dos subúrbios criminalizados de Paris, vê-se numa quinta isolada perto da fronteira à procura de abrigo antes de seguir para a Holanda. O problema é que o espaço rural não é habitado apenas por ovelhas, e a noite transforma-se num pesadelo. Até aqui, este podia ser um banalíssimo filme de gore adolescente. Mas Gens introduz um elemento fundamental para colocar Frontiere(s) no mapa do cinema de horror com pés e cabeça. É que o horror provém de um patrono nazi, que mantém as práticas de tortura, horror e morte como se não houvesse armistício. E tem toda a família vergada ao surreal da raça pura e das suas tentativas. Ao longo de 108 minutos, existem então crianças monstro resultado de experiências de reprodução que levaram o caminho errado, corpos sangrados e salgados como porcos, discursos tétricos em alemão, canibais disfuncionais alienados e a vontade dos miúdos rebeldes da capital em salvar a pele. A única que subsiste, de origem árabe, carrega no ventre o motivo de interesse do velho nazi e será o golpe fatal na comunidade deslocada da realidade. Primeiro que tudo, o filme é competente. Aceita o humor quando ele existe, mas procura o sangue quando ele se impõe, e assim mostra-se equilibrado. Mas, acima de tudo, Frontiere(s) resulta porque tem um pé na realidade e no imaginário global do século XX, e isso convoca medos subliminares no espectador. O transporte da ideologia nazi para o cenário sanguinário na actualidade é a grande pedra de toque de um filme que, caso contrário, se banalizaria a si mesmo perante uma estrutura clássica. Assim, pelo contrário, o projecto francês salta para o ecrã como um bom exemplo do género, que parece saber ultrapassar os fetiches comuns e pensar o horror com cabeça. Sem a perder.

Motelx 2008: Stuck (*****)

Sábado foi tempo para a segunda sessão especial, dedicada a um mestre vivo do terror: Stuart Gordon. Do norte-americano cerca de 800 pessoas viram Stuck, cujo ponto de partida é uma história verídica que chegou aos jornais em 2001. A bizarria é fácil de contar: Brandi (a competente Mena Suvari), uma assistente num lar de idosos que bebe uns canecos e mete umas pastilhas à noite atropela Tom (o experiente e excelente Stephen Rea), desempregado à beira do desespero e vítima de uma economia instável. Até aqui tudo normal, não fosse o pormenor de Tom, o desempregado, ficar preso no pára-brisas de Brandi, a assistente. E de esta não ligar às autoridades e levar o desgraçado agarrado ao carro até casa e não fazer nada nas horas e dia seguinte. A única opção de Tom é, assim, tentar fugir. O filme de Stuart Gordon é um prodígio enquanto comédia negra. Nunca cedendo ao facilitismo, o realizador aproveita o surreal dos factos para inserir o cómico das atitudes, através das expressões e texto dos seus personagens. Tudo antes do acidente é construído de forma a que tudo depois tenha uma conotação. Tom é um desgraçado total. Brandi é uma sortuda impertinente. E enquanto Tom acaba por provar que tem mais forças do que as que a sociedade lhe confere, Brandi vai claudicar ao ridículo do desespero. Pelo meio há o surrealismo feito gargalhada, conseguindo manter um bom nível de surpresa mesmo quando já sabemos quase tudo o que há a saber. Não sendo um filme de terror, Stuck foi possivelmente o melhor filme a passar no Motelx 2008.

Motelx 2008: À L'Interieur (**)

Na secção baptizada como Nouvelle Vague do Terror, assim dedicando atenções ao terror francófono, passou À L'Interieur, de Julien Maury e Alexandre Bustillo. Sendo rotulado como um dos mais temíveis e sangrentos filmes do género dos últimos anos, o projecto dos franceses cumpre uma de duas promessas. Da narrativa retém-se Sarah, uma fotógrafa de imprensa que sobrevive a um acidente de viação no qual o marido falece para, semanas depois, dar à luz uma criança. Na véspera do parto, véspera de Natal também, Sarah procura a solidão da sua casa para encontrar uma noite de terror às mãos de outra mulher, cujo fim é claro: ficar com a criança. Regressando às promessas de Maury e Bustillo, a do sangue é totalmente cumprida. Efectivamente À L'Interieur tem sangue às litradas e atira líquido viscoso para o ecrã a ver se o espectador também vai para casa com a roupa manchada. Mas medo ou terror já escasseia, e o filme falha. Se começa por querer apostar no terreno da verosimilhança, rapidamente se perde depois em gore gratuíto e abonecado, com morte atrás de morte a fazer lembrar os velhos tempos de Bela Lugosi e companhia. E existem dois grandes factores para que o filme francês seja um falhanço no que toca a terror. Primeiro, porque abdica, desde início, do factor surpresa. Tudo em À L'Interieur é frontal e visível, transparente, claro, e perde-se toda a zona de sombra que costuma provocar maiores saltos na cadeira. Segundo, porque aposta no terror enquanto nojo, excesso sanguinário que não corresponde exactamente ao convocar do medo. Os últimos quinze minutos são um misto de ridículo e vómito, próprio mais para adolescentes patetas à procura de humor negro para contar aos amigos e chocar as miúdas, do que para espectadores de cinema. Já dizia a minha avozinha que quem não sabe fazer cinema, gasta litros de sumo de tomate e não assusta ninguém.

Motelx 2008: Animal, el documental (*)

Primeiro que tudo, deve sublinhar-se que é de coragem programar um documentário sobre toiros de morte num festival de cinema de terror. E sobretudo revela inteligência e proactividade. E portanto, até aí os organizadores do Motelx merecem a taça. Depois disto, dizer o que se impõem: Animal, el documental, do espanhol Angel Mora, é um filme tão mau que não tem lugar numa televisão privada quanto mais num festival de cinema. E não é só por ser um pseudo-documentário panfletário (e o facto de ser assumido nem salva grande coisa). É sobretudo por ser mal filmado, mal estruturado, com testemunhos de pessoas que não interessam nem ao menino Jesus, sem procurar aprofundar razões aos defensores da festa brava nem se preocupar com a veracidade das informações veiculadas por manifestos "curiosos" da área, por tentar humanizar o animal de forma ridícula com uma musiquinha que envergonharia o Kenny G. durante todo o filme, por acabar com imagens de crianças a desenhar toiros e vaquinhas apaixonados. O único interesse do filme no contexto do Motelx prendeu-se com a sua natureza gráfica, de gore real. E aí, justiça feita, cumpriu à risca, mostrando imagens chocantes de toiros de morte em Espanha das mais diversas espécies, e explicando detalhadamente em que consiste a morte do toiro na arena. Dizer mais do que isto é exagerar, e um trabalho destes, pensando bem, só serve a quem quer atazanar as bestas. Nas arenas e no ecrã.

Motelx 2008: Encarnação do Demônio (****)

Em homenagem assumida, o Motelx trouxe o Zé do Caixão para Lisboa, não só através dos três filmes que compõem a trilogia, dois antigos e o último actual, mas também o próprio, encarnado pelo brasileiro José Mojica Marins. Ponto alto do festival foi a sessão de Encarnação do Demônio, que traz o personagem de novo aos ecrãs quarenta anos depois da última aparição. E se o Zé do Caixão parou no tempo, o seu cinema nem tanto, o que se saúda. A história recupera o coveiro maldito da prisão, quarenta anos mais velho e com uma enorme vontade de criar herança, nomeadamente através do "filho perfeito". Assim, Zé vai procurar a mulher superior em quem depositar a criança dos infernos, e no processo trucida, tortura e mata tudo o que aparecer. Encarnação do Demônio não mete medo a ninguém. E isto poderá ser, possivelmente, a pior coisa que se pode dizer de um filme de terror. Mas ainda assim é um excelente filme, por uma variedade de razões. Primeiro, porque se Zé aparece quase como há quarenta anos, ainda que mais barrigudo e envelhecido, não recusa a realidade que lhe aparece nem tenta escondê-la. Por exemplo, a sua cripta fica por baixo, imagine-se... de uma favela. E Zé choca-se com os miúdos da rua a snifar cola. Quarenta anos depois, Mojica Marins recupera o personagem mas enquadra-o na actualidade, mesmo que num filme de terror que não almeja, felizmente, a qualquer verosimilhança. Segundo, porque recupera, de forma feliz e inteligente, imagens dos dois filmes que lhe deram nome. Em jeito de recordação, e como forma de ligação aos factos de agora, o Zé do Caixão tem flashbacks que mais não são do que imagens dos anos sessenta, negras mas estruturantes, sobretudo para um público que, então, não existia e agora olha para o mestre com um misto de admiração e desconhecimento. Aqui o brasileiro verdadeiramente recupera o personagem do esquecimento e não faz fugas para a frente. Terceiro, é precisamente esta memória que está na base dos seus medos e pesadelos, a perseguição de vítimas antigas que agora lhe surgem tremendamente ameaçadoras. Décadas depois, a fragilidade do abominável Zé perante o passado que o confronta através de fantasmas confere-lhe densidade. Não o humaniza, mas antes revela algo mais do que a faceta de exterminador vísceral, e esse é um factor que, agora sim, é necessário no cinema de 2008 mais do que no da década de sessenta. Por estas três condicionantes, Encarnação do Demônio já seria um filme ganho. A questão é que o resto também corre bem. O estilo mais declamado que dito do coveiro é impagável, o humor negro é frontal, o gore é abundante mas não cede a palhaçadas, a filosofia barata é genuína e apela ao terror clássico da morte como antítese da vida. Não metendo medo a ninguém, Encarnação do Demônio é um filme bem pensado e estruturado, com um traço de autor inconfundível e que olha o género com um misto de fascínio e adaptação pessoal. Bem-vindo ao mundos dos vivos, Zé do Caixão.

Motelx 2008: Hiena (***)

Incluído na secção Room Service, passou esta tarde o polaco Hiena, de Grzegorz Lewandowski. Antes, uma curta curtinha, de quatro minutos, de Koldo Almandoz. Esta, baptizada de Columba Palumbos, é um bom exercício de imagem e ambiente do espanhol, que filma um homem suicidário, após matar a família, ao som dos Cinematic Orchestra. As imagens são bonitas e pensadas, e mesmo em quatro minutos existe a possibilidade de uma supresa no fim, que resulta muito bem. Já a longa de Lewandowski tem outros problemas. Na prática, Hiena segue ao longo de 88 minutos uma criança, traumatizada pelo desaparecimento estranho do pai e da vida nocturna da mãe, que se enreda em histórias contadas de mortes e sangue. E o polaco tem uma enorme virtude: a de saber criar um ambiente a partir do cenário que escolheu, uma paisagem semi-urbana povoada de indústrias decrépitas e personagens deprimidas, o que convoca desde logo um conjunto de condições propícias a um bom filme. E o realizador até começa bem, olhando de frente quer as crianças quer a efabulação que serve de base a tudo o que se desenrola. Só que depois perde-se no seu próprio filme e não sabe o que há-de fazer. O resultado são personagens à deriva, sem saber que linha narrativa seguir. Na prática, o polaco não sabe se quer fazer um filme de terror, de suspense ou de fábula, e acaba por não fazer nenhum dos três. Ainda que bem intencionado, Hiena acaba por ser uma ideia esbanjada por quem não é capaz de ser objectivo e directo, nem sabe o que quer. A última meia hora é, então, sinónimo de névoa, que depois se tenta salvar com um wrap up narrativo que não convence, antes baralha e volta a dar sem saber bem como. Não sendo um filme mau, porque até bem filmado e cinematograficamente pensado, também não é bom.

Motelx 2008: Doomsday (*)

Para a abertura, os programadores do Motelx decidiram trazer Doomsday, de Neil Marshall, precedido por uma curta de Nuno Felix. Esta, A morte de Tchaikosvki, é o primeiro trabalho do jovem realizador, e salda-se por 8 minutos bem estruturados, à volta de uma ideia simples e directa, e com pormenores de imagem que mostram um pensamento por trás. Ainda que com problemas técnicos (luz, focagem), o resultado é interessante para um primeiro trabalho: curto, seco, directo, de bom gosto, sem invenções, com sentido de humor e objectivo. Já do projecto do britânico não se pode dizer o mesmo. Doomsday, que o Motelx apresentou em ante-estreia nacional, é o chamado "filme armado ao pingarelho". A estrutura é um pastiche: um virus mortal precipita o fim dos dias na Escócia, e o Reino Unido decide isolar a área do mundo, criando uma terra de ninguém onde supostamente a morte é raínha. Claro que a coisa não corre muito bem, e décadas depois da clausura é necessário lá ir. Quem vai? Claro, a criança que se safou no último momento da retirada e que deu em agente da polícia. Com quem? Com um grupo de agentes estilo mercenários sem nada a perder. E a receita continua pelo campo do previsível, equipa dizimada rapidamente, e a senhora que safa tem que dar conta do recado sozinha. Pelo meio há sobreviventes acabadinhos de sair do cabeleireiro punk lá do sítio, cavaleiros da idade medieval que se escondem num castelo, túneis curtinhos pelo meio das montanhas e carros de alta cilindrada escondidos à espera da salvadora. Dito assim, a coisa até podia ter alguma piada. Mas não tem. E sobretudo porque Marshall tem a mania que faz um filme sério, e não um série-B. Tem dinheiro a mais para o último, mas a menos para o primeiro, e preocupa-se sempre em fazer um filme de acção mais do que olhar para o campo do terror. O resultado é um filme armado em parvo, com a mania de ser muita bom, mal estruturado porque não segue nenhuma das narrativas que mostra e salta entre elas como se não houvesse amanhã, com personagens sem um pingo de profundidade nem conscientes da sua ausência, interpretações sofríveis dos actores e a ideia que o fim do mundo na terra de Duncan McCloud é "muita fixe". Não há a aridez de Mad Max, não há o pastiche assumido de Carpenter nem sequer um traço de realização, sendo que Neil Marshall limita-se a consultar o manual de planos da escola secundária e não arrisca um milímetro fora da receita. Doomsday não mete medo a uma criança na primeira infância, e também não diverte nenhum adulto consciente. O fim do mundo pariu um rato.

Vénia do dia: Portishead

Motelx 2008: lançamento

Pela segunda vez este ano, o Animatógrafo dedica-se a um festival de cinema. Desta feita, depois do IndieLisboa em Abril, todos os sentidos apontados ao Motelx, Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, que ao segundo ano parece dar um salto em frente. O evento começa já esta quarta-feira, dia 3, e termina no domingo, dia 7, sempre no cinema S. Jorge. O Animatógrafo tem dez filmes apontados para visionamento, abrangendo quase todas as secções. Os destaques vão para Doomsday, de Neil Marshall, Teeth, de Mitchell Lichtenstein, Animal, de Angel Mora, Diary of the Dead, de George Romero, e Stuck, de Stuart Gordon. O Motelx organiza-se, desta feita, em volta de uma secção principal, Room Service, mas olha também para o novo terror francês e homenageia o mestre do estilo em terras de Vera Cruz, José Mojica Marins. O também conhecido por Zé do Caixão traz a última ressureição da personagem a Lisboa mostrando Encarnação do Demônio, terminado já este ano e que encerra a triologia começada nos anos 60. Há ainda espaço para uma secção para os mais novos, Lobo Mau, que é um risco (vamos ver como corre), para curtas-metragens, algumas portuguesas, que passam antes das longas e não em secção própria (boa opção num evento ainda não solidificado), e para Doc Terror, secção dedicada a documentários precisamente sobre o género, que nos parece uma excelente ideia. A iniciativa e organização é do Cineclube de Terror de Lisboa, que assim parece mostrar saber crescer com um público específico mas que é claramente do mundo dos vivos. O Animatógrafo fará um esforço para escrever sobre todos os filmes que vir. Que venha o sangue.

Mulheres levadas da breca XII


Patricia Petibon

China, França

O meio dos festivais ou ciclos de cinema em Portugal dificilmente foi mais activo do que na actualidade. Esta semana chegam notícias de mais duas iniciativas que o provam, e de forma cabal. Primeiro, a Festa do Cinema Francês apresenta-se na sua 9.ª edição e parece maior que nunca. Serão nove salas a nível nacional, três secções e um Prémio do Público, num evento desta feita alargado a Lisboa, Porto, Faro, Coimbra e Almada. Na prática, serão, diz a organização, 45 longas-metragens, 36 das quais nunca estreadas em Portugal, e muitas das quais passaram por Cannes ou outros festivais internacionais. Em termos de organização, e para além da Secção Principal que compreende 25 longas, a Festa surge este ano com "Paris-Lisboa", uma secção com 10 filmes rodados nas respectivas cidades, e "Cannes em Portugal", uma homenagem à Quinzena dos Realizadores do conhecido festival francês, e onde pontuam outros 10 filmes inéditos entre nós. A apresentação oficial será a 15 de Setembro, no Instituto Franco-Português, mas já se sabe que a Festa começa a 2 de Outubro, em Lisboa, e encerra a 2 de Novembro, em Faro. Noutro registo, a Zero em Comportamento, que tem no IndieLisboa o seu evento de proa, continua a parceria com o Museu do Oriente e organiza em Setembro (até 5 de Outubro) um ciclo dedicado ao cinema chinês. Com sessões no auditório do referido museu, a iniciativa mostra seis filmes de produção recente, olhando para uma China contemporânea à procura do seu lugar. Dos projectos agendados, destaca-se Grain in Ear, o vencedor do Prémio de crítica internacional no Indie2006, e sobre o qual tivemos oportunidade de escrever então (ler aqui). De resto, a avaliar pelas sinopses, estaremos atentos a The Red Jacket e Blackguard Quiangzi. No ano que se vê a China em todo o lado, puxada pelos Olímpicos, bom sentido de oportunidade da Zero e da Fundação Oriente, sobretudo por mostrar, certamente, uma China muito diferente da do fogo de artifício de Pequim.

Segurança e o seu contrário

São neste momento 20:28h e o Jornal da Noite da SIC ainda não largou os assaltos, roubos, violência e afins. Os assaltos da noite passada já foram em restaurantes da periferia de Lisboa, onde estavam ainda clientes e proprietários. Churrasqueiras, onde os meliantes levaram, inclusive, a carteira do cliente. O PGR vem mostrar os músculos, como lhe compete, enquanto o Ministério da Administração Interna lança o Secretário de Estado numa posição securitária, para o lado legal da coisa. A "onda", desta feita não mexicana e não em qualquer estádio de futebol, assim obriga. São 20:31h, e a SIC martela. Se há questão que surge aos olhos do público como de interesse público é a da segurança, ou da falta dela. E portanto os media cavalgam. Agosto dá jeito. Agosto, Agostinho, mês rei da "estação xoné". Antes das oito, na SIC Noticias, alguém revelava uma verdade escondida: o volume de crimes violentos, assaltos e etc, está longe do valor, por exemplo, de 2006. Longe, para baixo. Tudo isto me traz à cabeça uma história, também ela não desvelada. Na minha infância, corriam os belos anos 80, era muito comum o suicídio na linha do comboio, nomeadamente na linha de Sintra. Todos os dias a RTP lá estava batida para cobrir a coisa, o carril, a pedrinha onde o tipo tinha caído. Até que a CP fez um pequeno acordo com a então única TV, ao abrigo da qual a RTP se comprometeu a evitar a cobertura noticiosa de suicídios na linha. E por artes mágicas eles desapareceram. Desapareceram mesmo, a partir daí as formas de chegar ao fim da linha passaram a ser outras na cabeça de quem toma a decisão fatal. A segurança é, em termos globais na sociedade, uma sensação. E essa, agora sim, está à mercê de repórteres a precisar de férias, ou de notícias. A "onda" está aí. Daqui por um mês, quando tudo voltar a olhar para o parlamento, e para as eleições presidenciais norte-americanas, e para o regresso às aulas e afins, os meliantes lá terão que procurar alvos diferentes. Porque nessa altura a churrascaria já não dá no Jornal da Noite. A "onda" enrola na areia.

Genéricos de TV IV: Big Love

Wall.E (****)

Wall.E é um dos filmes que tínhamos apontado para ter atenção este ano (ver aqui). Dizia eu, na altura, que "a avaliar pelo trailer #2 é animação da melhor, com tudo veiculado por imagem ou movimento, porque Wall-E não fala, praticamente. E tem tudo para ser um dos grandes do ano". E aqui, grande satisfação porque sim, é um dos grandes do ano. E quando as expectativas são cumpridas é sempre bom. Andrew Stanton, que andou com Wall.E na cabeça durante uns anos, já tinha dado Finding Nemo à humanidade. Portanto, o senhor não é virgem em matéria de animação de topo. Mas realmente Wall.E é elevar a fasquia um bom bocado. Não só porque o trabalho de animação é brilhante, mas porque será (talvez) o primeiro projecto desta magnitude a arriscar em personagens sem comunicação verbal. E, para nós, essa é a grande aposta ganha do projecto. Todo o trabalho, quer visual quer sonoro, tem o objectivo claro de veicular comunicação sem recorrer ao verbo. E aí Stanton ganha em toda a linha. Wall.E é uma personagem com enorme densidade, personalidade evidente e capacidade para comunicar apenas com os seus sons, movimentos, acções e demais componentes, e é aí que tudo parece alicerçar-se. Claro que é a mensagem "verde" que conquista corações mais militantes, e que a projecção da humanidade que surge no ecrã também ajuda a adoçar a coisa (é possível que aquele seja mesmo o nosso futuro, em potencia?), mas a grande conquista do filme, a nosso ver, está na capacidade de se sustentar e de comunicar com o espectador de forma clarividente sem verbo. Não é qualquer um. Mas atenção, e aqui talvez algo politicamente incorrecto: Wall.E não é um obra-prima, nem está num patamar sequer próximo de ET. É um grande filme, magnificamente bem feito, mas não vai marcar a história do cinema, sobretudo porque lhe falta densidade dramática (desde o primeiro plano que sabemos que vai acabar tudo em bem) e porque Wall.E está apostado em ser adorado por todos. Em ET aprendíamos a gostar daquele ser ao longo do filme, e havia medo de início, que se convertia em defesa depois e pena ou tristeza por fim. É esta capacidade de convocar diferentes estados emocionais, motivados por uma surpresa recorrente, que não se vê no projecto do robot do lixo. Portanto: parabéns senhor Stanton, mas continue a mandar postais.

Baile de Outono (***)

Não é muito comum chegarem exemplos da cinematografia da Estónia a salas portuguesas. Também por isso, mas não só, Sügisball, que em português deu "Baile de Outono", é uma boa surpresa. O filme de um desconhecido Veiko Õunpuu é sobretudo uma visão cinzenta da solidão humana, sem deixar cair um traço de identidade de leste. Ao longo de duas horas a camera leva-nos a seguir um escritor abandonado por uma mulher, uma mulher abandonada pela sorte, um barbeiro finlandes esquecido e demais personagens emocionalmente fragilizadas, que acreditam mais no silêncio do que na conversação. Sendo notório que o estónio foi beber a escola de Bergman, a sua grande conquisa é a criação de um ambiente emocional e visual que veicula a solidão contemporânea, desta feita não agregado à abstracção de uma grande metrópole, mas numa cidade neutra, lenta e nocturna, onde os personagens se encaixam como peças de um puzzle. Õunpuu tem o filme ganho enquanto filma e estrutura, mas quase que se perde quando começa a introduzir texto e a cruzar personagens e respectivas histórias. Aí começam a aparecer disparates, frases feitas, que quase deitam tudo a perder e se revelam como perturbadoramente desnecessárias. Mas depois recupera-se o silêncio, a alienação consciente, o drama pessoal psicológico de cada um, em tom poético, bem filmado, com imagens felizes e sons a condizer, e no fim de tudo temos o "filme-ovni" do Verão, que faz ter saudades do Inverno e daquele olhar perdido do quotidiano.

Rob Schneider quer salvar o Miguel

... e nós assinamos por baixo.


"Desmarcar depilação"

Colocou-se este estimado autor (por alguns) na tarefa de organizar e indexar em base de dados os breves volumes existentes cá em casa. A mudança havia-os deixado na onda da "boa vizinhança", ou seja, no acaso. Lobo Antunes ao lado de Rushdie, Cardoso Pires paredes meias com Kafka, Borges a segurar Bruce Chatwin. É preciso arrumar a casa, e sobretudo saber o que existe, uma vez que já se chegou ao ponto da compra de exemplar em desconhecimento da sua existência prévia. Duas cópias, portanto, e um coçar de cabeça à banda desenhada. A tarefa implica, então, desalojar todos os volumes do seu lugar actual, inserir os detalhes na base de dados, limpar estantes com a aranha Beatriz a passear (assim rompendo a sua mais recente armadilha), e depois casar livros por estilos e autores, queimando as feridas da situação anterior, alcólicos e abstémios agora separados por existencialistas, para quem vinho pouco fala. No meio de tudo isto, e no meio de uma edição de Sophia lida na infância, uma folha de filofax para indexação de cartões de crédito, coisa antiga, cuidadosamente dobrada na longitudinal. Abro, e a surpresa: "desmarcar depilação". Assim, a frio, sem mais, a lápis, também na longitudinal, em caixa alta, sem pontuação. "Desmarcar depilação". Como que à sombra da morte (dizem) revejo a minha existência, em ritmo acelerado, passando frames. Nada. Olho-me ao espelho. No meio de Sophia e dos seus Contos Exemplares em edição Figueirinhas gasta pela gordura de mãos pequenas e pela secura do tempo, um recado, curto, sem temperatura ou hesitação, como uma acção que se escreve e que quando escrita existe já por si, sem esperar pelo real que a concretize. Revendo, agora em camera lenta, tudo o que é passível de rever, não encontro nada nem ninguém nem coisa alguma intimamente ligada a tal expressão. Nenhuma memória. Nenhum vestígio. Nenhuma recordação ou potencia de. Olho-me ao espelho e nada me vem, para além da imagem de mim mesmo.