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Barcelona da arte, da cultura, da música, do frikismo


A ida ao "estrangeiro", como se dizia há não muitos anos, traz sempre a sensação da mediocridade local perante o espanto e fascínio do que se passa lá fora. Ainda que tente contrariar esta ideia, e veja-se a inusitada agenda de concertos em Portugal este ano, é quase inevitável que se olhe para o que se faz aqui ao lado, ou ali mais à frente, para não ir mais longe, como algo digno de nota. Vejam-se as exposições nas duas maiores instituições de arte e cultura de Barcelona neste momento. No Macba (Museu de Arte Contemporânea de Barcelona) convivem uma sensaborona colecção fixa com uma temporária sobre Nomeda & Gediminas Urbonas. O casal lituano, que confesso desconhecia por completo, desenvolve trabalho na área dos new media aplicados à arte, com a particularidade de olhar para uma dimensão social da mesma sem tiques de neo-realismo. O resultado, a avaliar pelo que está no MACBA, é um dos movimentos mais interessantes de nova arte que conheço, que tanto se ocupa da produção de som a partir da sombra criada sobre sensores de luz, como da criação de uma consciência real sobre os cinemas desaparecidos de Vilnius. A exposição patente na capital catalã, sob o tom dos dispositivos para a acção, dá uma boa ideia da atitude pro-activa, motivadora e esteticamente comprometida (para o bem) dos novos valores da Europa de Leste. Poucos metros à frente, o CCCB (Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona) dá a ver uma iniciativa sua: "Magnum. 10 Sequências". De uma profunda inteligência, a mostra parte da inversão da comum interpretação do cruzamento do cinema com a fotografia e pediu a dez fotógrafos da agência Magnum para olharem para si e para os filmes que criaram, inconscientemente, as suas fotografias. O resultado é uma exposição brilhante, com uma instalação pensada ao milímetro e no gume do bom gosto, onde se olha, de frente, para as zonas de confronto da imagem fixa com a imagem em movimento (e por vezes a imagem-movimento, se quisermos pensar em Deleuze) e como a segunda pode também ser contaminada pela primeira, transformando fotógrafos em agentes da imagem perturbados por cinema que lhes é anterior. Da parede para o ouvido, a cidade promete um Primavera Sound com dose dupla de Portishead, com Animal Collective e Rufus Wainwright, com Cat Power e The Go!Team e MGMT e Matt Elliott e Okkervil River e Vampire Weekend e dezenas de outros concertos, num festival de dimensão europeia dividido em inúmeros espaços pela cidade. E perante tudo isto, liga-se a televisão e Rodolfo Chikilicuatre destrói o velho do Restelo em cada um de nós, fazendo recordar que também o jardim do Éden tinha maçãs fora de prazo. O representante de Espanha no decadente Festival da Eurovisão (evento que ontem proporcionou momentos de puro delírio), escolhido pelo público, invadiu o país com o chiki chiki, não dando hipótese a qualquer outro produto para o Verão de 2008. O El País de ontem enchia páginas com a discussão em volta do apoio e patrocínio do Instituto Cervantes e da TVE ao personagem bizarro, e na rua não há criança que não saiba a letra da bizarma musical. Antes do dito Festival, a televisão pública mostrou alargado debate sobre Chikilicuatre, com previsões sobre o resultado em Belgrado, os principais concorrentes e directos para a capital sérvia, atirando Rodolfo como a oitava maravilha do continente, desta feita saído, provavelmente, da Chueca. No limite, sendo que o saldo de tudo isto é positivo, há sempre dois lados da mesma moeda, e ambos sorriem.

Ida e Volta: Ficção e Realidade


Está desde 23 de Outubro e até 26 de Abril patente no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian uma exposição que merece visita. A sério. A coisa tem o pesado título de "Ida e Volta: Ficção e Realidade" e está feita para cabecinhas pensantes ou aspirantes. Portanto, não é o mesmo que ler o Correio da Manhã ao domingo sentado num café da Bobadela.
A informação oficial da mostra diz que "procura-se com esta exposição reflectir sobre alguns dos modos da utilização da imagem em movimento na cena artística internacional contemporânea. A exposição organiza-se em torno de um conjunto de obras que perspectivam a cultura cinematográfica, seja ela narrativa ou documental. O projecto inclui uma selecção de artistas internacionais que utilizam o vídeo, influenciados pelo cinema, pelo filme de ficção científica, de ficção ou documentário, sem que as fronteiras sejam, no entanto, muito precisas, ou que os limites de género estejam definidos". E portanto tem potencial. Assinalam-se os projectos de Chris Marker e muito, muito mesmo, Isaac Julien. Vão educar-se, va. Aos domingos até é gratuito. Free. Borlex. Caraças, que essa cabeça precisa de estímulo. Pensem na relação cinema/fotografia. Pensem na antítese entre imagem e mensagem transmitida. Pensem como os nossos olhos são perceptivamente guiados para onde há luz e de duas imagens podem ver uma, que assim é apenas uma construcção. Vão lá, va.

O que aí vem: 5 espectáculos para 2008

Listas valem o que valem. Esta é dos espectáculos que, até ver, merecem follow-spots dedicados, sejam dança, teatro, novo-circo ou demais formas de expressão em palco. Ora, caraças, vale a pena:

Nefés: o grande acontecimento do primeiro semestre é o apelidado "Festival Pina Bausch". No fundo no fundo, e vamos ser frontais, chamá-lo de festival é demasiado. A coisa resume-se à apresentação de três espectáculos, algumas conferências, projecções e exposições. E um festival deve ser mais do que um olhar para trás. Mas ok. Atenção, a iniciativa não é de ignorar, sobretudo se tivermos em conta que estamos a falar do maior génio da dança contemporânea: ela mesma, Pina. Nefés, primeira obra a subir ao palco, é um projecto de 2003 criado em Istambul, no mesmo sentido de Masurca Fogo (de que se fala mais à frente). Na prática, é a visão de Pina sobre a cidade turca, sobre os seus sentidos e pertenças, numa toada já menos subversiva (quando comparando com trabalhos mais antigos) mas não menos acutilante. Nefés, de Pina Bausch e Companhia Tanztheater Wuppertal, estará no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, nos dias 2 e 3 de Maio. O Animatógrafo já garantiu presença.

Masurca Fogo: dentro do festival acima referido, Masurca Fogo será porventura o evento que conseguirá atrair maiores atenções. E sobretudo por se tratar de uma peça sobre Lisboa. Integrada no Festival dos 100 dias, que antecedeu a abertura da Expo98, Masurca Foge é a visão de Pina sobre a capital e sobre os seus habitantes, sobre os seus espaços e respirações. Tive a felicidade de ver o espectáculo em 1998, na sua primeira apresentação, e o olhar da alemã é simultaneamente crítico e melancólico, devolvendo aos portugueses o que são e como são. Criativamente impecável, o projecto teve uma enorme margem de liberdade na sua concepção, mas não deixa por isso de ser focalizado. Não é um postal, mas antes uma interpretação de uma comunidade e das suas histórias, e muito é reconhecido por quem vê não como tiques mas antes como comportamentos observados e transformados para uma apresentação artística. É, acima de tudo, uma visão artística externa sobre nós, alicerçada naquilo que a contemporaneidade tem de melhor no campo da dança: Pina Bausch. Masurca Fogo, de Pina Bausch e Companhia Tanztheater Wuppertal, estará no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, nos dias 7, 8 e 9 de Maio.

Café Müller
: e aqui um monumento. As primeiras imagens que me lembro de ver de Pina Bausch, as que me fizeram ficar rendido e curioso simultaneamente, são de Café Müller. E aqui reproduzo apenas palavras alheias: "A história de Cafe Müller é a história de uma excepção: 40 minutos de duração e seis intérpretes, entre os quais a própria Pina Bausch, que só no Cafe Müller decide aparecer e dançar em cena. […] A sua própria génese constituiu uma excepção […] por exigências do cartaz, quando o mesmo bailado foi encomendado a quatro coreógrafos: além de Pina Bausch, Hans Pop (seu assistente), Gehrard Bohner, e o romeno Gigi Caciuleanu. Cada um destes criadores devia inspirar-se numa cenografia realizada propositadamente por Rolf Borzik, e cada uma das quatro propostas tinha o mesmo título: Cafe Müller. A cena – uma divisão cinzenta com painéis de vidro transparentes e uma grande porta giratória de lado, ao fundo – podia modificar-se segundo o desenvolvimento de cada coreografia. O Cafe Müller de Pina Bausch era o último da noite: a cena enchia-se de cadeiras e mesinhas escuras, só para este trabalho. […] A acção é despojada e cortante. Na floresta de cadeiras vazias e gastas, pesa a angústia de uma solidão remota. Pina Bausch recorta-se ao fundo, ligeira e espectral, com uma túnica de tom claro. O passo é curto e incerto, os olhos estão fechados, as mãos estendidas para a frente: vidente sonâmbula, fantasma da consciência de si própria. Levada pelo som dilacerante da música de Purcell, Malou Airaudo dança movimentos entrecortados, de circularidade suave, e as mesmas sequências são retomadas pela coreógrafa, que faz o papel de duplo, mas com um tempo sempre desfasado circula às cegas na selva de mesinhas e de cadeiras, que vão sendo retiradas por Borzik, assim traçando o seu percurso. […] Cafe Müller é uma lamentação de amor, uma metáfora doce e inquieta sobre a impossibilidade de um contacto profundo. É um trabalho estruturalmente simples e emocionalmente flagelante, que impressiona pela sua pureza e coerência. A desolação ambiental, o langor fúnebre, a violência da tipificação do relacionamento do casal, constituem elementos de verdade, de absoluta sinceridade expressiva – para além de psicologias ou simbologias e de qualquer tentativa de ‘realismo’. Todo o significado é confiado ao movimento: aos gestos e à dança […] Pina Bausch celebra a sua problemática identidade de autora. Cafe Müller é apenas uma obra sobre a mortalidade do amor. É também – e sobretudo – a confissão extrema de um estado de crise criativa: Cafe Müller consagra uma passagem, dramatizando uma tensão de pesquisa que se coloca no plano da interrogação. ‘Com Cafe Müller, Pina Bausch também criou o seu Oito e Meio’, foi o comentário de Federico Fellini, após ter visto o espectáculo.» in O Teatro de Pina Bausch, de Leoneta Bentivoglio, edição do ACARTE/Fundação Calouste Gulbenkian, 1994, pp. 98-99. Tradução de Maria José Casal-Ribeiro.
Café Müller, de Pina Bausch e Companhia Tanztheater Wuppertal, estará no Teatro São Luiz, em Lisboa, nos dias 4, 5, 8 e 9 de Maio. O Animatógrafo já garantiu presença.

England: vi Tim Crouch em Junho de 2006, na Culturgest. Na altura apresentou um enorme An Oak Tree, espectáculo em que convida um actor diferente todas as noites para interpretar um texto que não conhece e que lhe é dado apenas quando sobe ao palco. Crouch consegue, co-protagonizando a peça, abordar os limites da representação e envolve a audiência num processo de concretização de teatro, em termos efectivos (a peça está agora em Londres, no Perry Street Theatre). Desta feita, o inglês vem a Lisboa com England e o pressuposto de originalidade é comum. Só que desta feita a coisa decorre na Galeria 2 da Culturgest, por entre uma exposição de Francis Stark. A peça foi multi-premiada quando da estreia, no (grande) festival de Edimburgo, em Agosto último, e a descrição apresentada pela Culturgest é suficientemente sugestiva: "ENGLAND é a história da busca por um novo coração. É sobre uma vida que se salva e uma doença que se ultrapassa a qualquer custo. É uma visita guiada que atravessa espaços e fronteiras: de uma galeria de arte a uma fábrica de compota, de Lisboa a Osaka, da cama de um hospital a um quarto de hotel.
É uma visita guiada ao fim do mundo.“Os pacientes gostam de olhar para os quadros. Ajuda-os a sentirem-se melhor com as suas doenças.”" A ver de 26 de Fevereiro a 1 de Março, na Culturgest, em Lisboa.

Operação: Orfeu: já quase tudo se experimentou no campo das artes performativas, mas ainda existem projectos que merecem luz pelo risco. O espectáculo do grupo dinamarquês Hotel Pro Forma, a ser levado ao palco no Centro Cultural de Belém, é definido como uma "ópera visual". E o que é uma ópera visual? Nas palavras dos próprios é "a reconceptualisation of the opera genre. Causal and dramaturgic sequence in libretto and music is replaced by a series of tableaux and compositions informed by purely visual and auditive principles rather than by dramatic modes of narration. The performance is a visual interpretation which comes to rediscover the basic elements of traditional opera". Na prática, o projecto recupera o conhecido mito do músico apaixonado que desce ao mundo dos mortos para recuperar Eurídice. O grupo anda a recolher aplausos Europa fora, e avaliar por algumas imagens, o espectáculo tem tudo para ser um dos marcos dos primeiros meses de 2008. A ver, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a 25 e 26 de Janeiro.

Museu Colecção Berardo

Meses depois, e a visita. E expectativas que se cumprem. Mas vamos por partes. Neste momento, o CCB expõe um conjunto de obras da colecção de Joe Berardo. Sabemos que o conjunto exposto está longe da totalidade, mas ainda assim ficam algumas ideias. Primeiro que tudo, a de que não existe uma ideia de exposição, antes uma de conjunto ou agrupamento. Dividida por estilos, ou associações de conceitos, ou núcleos, a exposição tem no piso 0 uma série de trabalhos sob a égide "Surrealismo e Mais Além". E é, definitivamente, a pior parte do espólio, tal como está. Com uma única linha condutora - a do figurativo - misturam-se Breton com Pollock, Picasso com Matta ou Warhol. Estão Cesariny e Cruzeiro Seixas, mas misturados com Miró e Ernst. Todos os quadros parecem desamparados, e sobressai claramente a noção de posse mais do que a de colecção. Berardo parece aqui ter as obras, mas não enquadradas num espírito de reflexão sobre si mesmas, ou sobre o movimento. Ter por ter. Excepção feita, aqui, às fotografias de Fernando Lemos (já vistas em Sintra), em sala própria e que se sustentam por si mesmas, sem ligações extra. E nota sublinhadamente negativa para Head, de Jackson Pollock, cujo Expressionismo Abstracto não cabe de forma alguma frente a Picasso ou perto de Miró. O quadro de Pollock é, aliás, um dos trabalhos menores, e nada justifica a sua inserção para além do "querer mostrar" de Berardo. No piso -1, a coisa mantém a mesma linha de rumo, ainda que com surpresas positivas. Em Figura Reinventada, uma sala acolhe The Barn, de Paula Rego, e Oedipus and the Sphinx After Ingres, de Francis Bacon, ao lado de trabalhos desinteressantes de Pierre Klossowski ou Eric Fischl. Em Poder da Cor, guarda-se toda uma sala para Cabrita Reis e mostra-se Frank Stella, ignorando Malevich ou Rothko (terá Berardo algum?). Em Pop & C.ª naturalmente surgem Lichtenstein e Warhol, ao lado de Lourdes Castro (!). E depois algo que justifica a visita a Belém: a secção Autonomia, que, supostamente, tem como linha de partida o facto das artistas expostas serem mulheres (!). Por sorte, o que vem à tona é muito mais do que isso, revelando uma dimensão organizada sob o chapéu da vanguarda ou do risco. É aqui que estão diversos trabalhos de Helena Almeida ou Cindy Sherman. É aqui que se descobre o empenhamento, em finais da década de 70, de Ana Mendieta, ou a frontalidade do real de uma desconhecida (confesso a ignorância) Aino Kannisto. Repare-se que, aqui, todas elas alicerçadas em imagem fotográfica ou vídeo. É aqui também que está devidamente alojado o extraordinário projecto Balkan Barroc, de Pierre Coulibeuf, que só por si compensa a deslocação. Apresentado como instalação, tratam-se de dois filmes e uma fotografia, todos na mesma sala. Os vídeos correm em simultâneo, em paredes diferentes mas na mesma orientação de profundidade, de forma a que um seja pano de fundo deslocado do outro. Em ambos, a figura central de Marina Abramovich, performer de body art nascida em Belgrado. Em imagem de fundo, um loop de menos de um minuto com a jugoslava a ser conduzida num Caddilac, algures na Europa de Leste. No outro, uma longa metragem de uma hora com a biografia ficcionada da mesma, onde concorrem imagens surreais criadas como fantasmas, percorrendo uma vida imaginária de uma artista. O resultado é extraordinário, quer pela liberdade de Marina nas suas pressuposições, quer pelas margens visuais a que tanto ela como Coulibeuf não se reduzem. O filme traça uma vida mental de uma artista potencial, que se exprime pelo corpo e com o corpo, mas não se extingue no mesmo. Ano a ano, o vídeo é uma peça de arte, profundamente pensada e livre, onde se criam imagens na mesma proporção da sua profundidade simbólica. A presença de Abramovich é esmagadora nos mais diversos sentidos, e o projecto de Coulibeuf é uma lança em África numa exposição à deriva, no mar de dinheiro e insanidade de Berardo. Absolutamente a não perder para mentes inquietas.

O Animatógrafo vira capa

Se tudo correr bem, ou um golpe de sorte nos acertar, o Animatógrafo estará na origem da capa de um livro. It's a long shot, mas do futuro só o Mandinga sabia. A ver vamos. Façam filhoses. Favas. Figas.

Numero-Projecta'06

Há alturas na vida de um homem ocupado em que a frustração e a consciência de perda dominam largamente. Como as últimas semanas foram manifestamente exaustivas na sua duração real, não me dei conta do Numero-Projecta'06. O projecto, que arrancou ontem no cinema S. Jorge, é um festival internacional de artes multimédia, cinema e música. Transdisciplinar por natureza, o evento estende-se até dia 12 com filmes raros, concertos, instalações e demais iniciativas. Ontem, por exemplo, perdeu-se "The Fall of the House of Usher", um clássico de Jean Epstein e Luis Buñuel (1928), musicado ao vivo pelos Hipnótica. Há demos de produtos, há conversas com criadores, e há curiosidades como a primeira incursão de Olga Roriz no cinema ("Felicitações Madame", dia 12) ou uma mostra de trabalhos de videastas portugueses transmitidos através de 13 plasmas com auscultadores (durante todo o evento). Aliás, foi precisamente um dos artistas representados que teve a felicidade de me enviar um e-mail a dar conta de tudo isto. Nada mais nada menos que José Maçãs de Carvalho, presença marcante do último BesPhoto. Mais info sobre tudo isto aqui. Ide, ide, que a cultura não morde (só assusta, felizmente).

Foda-se.

A 16 de Setembro há Vetiver na Zé dos Bois. De 22 a 24 de Setembro há Figuras da Dança no Cinema II, na Culturgest. De 24 de Setembro a 30 de Novembro, ciclo inteiramente dedicado a Shostakovich no CCB. A 27 e 28 de Setembro há Young People, Old Voices, nova coreografia de Raimund Hoghe, também na Culturgest. A 4 e 5 de Outubro, Bernardo Sassetti, Mário Laginha e Pedro Burmester repetem o 3 pianos já realizado no ano passado, novamente no CCB. A 9 e 10 de Outubro, o regresso de Clara Andermat ao CCB, com Silêncio, incluído no Temps d'Image. A 15 de Outubro há Final Fantasy no Club Lua. A 17 de Outubro, há Quadri [+] Chromies, projecto de imagem vs música electrónica de Hector Zazou, no CCB. Até 22 de Outubro a antológica de Jorge Martins também no CCB. A 26 de Outubro, o Campo Pequeno recebe os Muse. De 20 a 29 de Outubro há DocLisboa 2006, com enfoque em Amos Gitai, na Culturgest. Dia 12 de Novembro Keith Jarrett, Gary Peacock e Jack DeJohnette podem fazer história em Belém. A 19 de Novembro, os premiados do Cinanima novamente na Culturgest. A 23 e 24 de Novembro, Vera Mantero apresenta até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza, no CCB. De 4 a 9 de Dezembro, Nippon Koma, de regresso à Culturgest. Entre 3 e 17 de Dezembro, a Compahia 111 apresenta o "acontecimento visual" que é Plus ou Moin l'Infini. A 7 de Dezembro, sobem os Yo La Tengo ao palco da Aula Magna. Nos dias 14, 15, 21, 22 e 23 de Dezembro, ganha vida o projecto Unreal - Sidewalk Cartoon, com música original de Bernardo Sassetti, participação especial de Beatriz Batarda e cartoon musical/filme do próprio Sassetti e Filipe Alçada, no S. Luiz. E isto com a consciência que muita coisa ainda não se sabe ou não tem data definida. E isto com a consciência de um volume de trabalho absurdo até final do ano, com a perspectiva certa de uma mudança de casa, com a certeza de uma profundíssima frustração por não ver nem um terço das coisas. Foda-se.

Fundação

Dezenas de estantes de ferro, de arquivo antigo, aguardam umas ao lado das outras. Logo a seguir uma estranha construção de tijolos, unidos toscamente por cimento, parece resultar numas ruínas construídas à pressa. Ao fundo, à direita, cinco homens controlam a colocação de mais um pilar de ferro, que um sexto operário se esforça por unir com um maçarico. Afastado, meio pensativo, Pedro Cabrita Reis olha para a cena com descontracção. Acabada a fusão da estrutura, Cabrita Reis caminha até ao início da sala, olha de longe as vigas alinhadas e diz “muito bem, é isso mesmo”. Baixando o tom de voz, indica a um encarregado que “agora vamos colocar mais seis atrás, mas alinhadas pela do meio”. A Fundação Calouste Gulbenkian, por ordem de aniversário, pediu ao criador um trabalho em desenvolvimento aberto, e aberto ao público. O CAMJAP foi destituído de conteúdo e abriu-se como grande sala à cabeça de Cabrita, que diariamente vai olhando para a estrutura e decidindo em conformidade. Será assim até finais de Setembro, e nem ele mesmo sabe bem qual será o resultado. A obra cresce como uma medusa de cabelos ao vento, e aberta a quem passa. Um casal de idade, que certamente vê tudo o que surge no CAMJAP porque é “a Gulbenkian”, passa e remoi entre dentes que “têm isto aberto com obras”. Dois turistas gozam de forma discreta com o homem gordo ao fundo, que não sabe bem o que quer. Cabrita olha longamente as pessoas, sem se perceber incómodo ou satisfação, ou mesmo indiferença. Cinco minutos depois e uma pausa, todos os operários se refrescam com uma “mini”. Cabrita conversa com um fotógrafo explicando o que vão fazer a seguir, gesticula. Uns instantes e dá uns passos para verificar um ângulo, e regressa à explicação. O fotógrafo olha os pilares a tentar visualizar o mesmo que o criador. Quem passa para a exposição de Craigie Horsfield olha de soslaio quer para a obra quer para mim, como se fosse um curioso a tentar perceber o que não se deve perceber, o CAMJAP em obras. É, sobretudo, o CAMJAP em obra, no singular, e merece um tempo sentado num degrau a ouvir e a ver. Mais do que a visitar depois da coisa feita.

Ellipse

Citando descaradamente o Le Cadavre Exquis:

"Cerca de 78 obras de Julião Sarmento, Cindy Sherman, Douglas Gordon, Richard Prince ouThomas Hirschhorn na Ellipse Foundation Contemporary Art Collection, exposição inaugural do espaço da Ellipse em Cascais, abrem o ‘apetite’ para uma actividade que se pretende inovadora no panorama cultural português. Infelizmente, peças de Pierre Huyghe, Shirin Neshat e Matthew Barney não chegaram a tempo para serem incluídas nesta primeira mostra".

Catalysts!

Oficialmente, a coisa reza assim: "Um projecto de colaboração que reúne designers de todo o mundo, Catalysts! aborda a relevância e o impacto do design de comunicação na cultura contemporânea. As linguagens visuais do design tornaram-se parte integrante da nossa percepção colectiva. Tanto os trabalhos de designer gráficos profissionais quanto as intervenções amadoras no espaço público remetem para uma enciclopédia visual global comum, difundida através de uma rede de meios interligados em permanente expansão."

Na prática, tirando o jargão institucional do projecto, o que está no Centro Cultural de Belém desde quinta-feira passada é um conjunto de obras, na sua esmadora maioria auto-reflexivas, que tentam fazer pensar um pouco sobre o design de comunicação e a sua interligação com a cultura contemporânea. O espaço de instalação da exposição não é brilhante, provocando um excesso de material e a sensação de "não fuga" que já se sente em termos sociais. Mas o melhor é mesmo o filme de Rob Shröder. Intitulado "PÂNICO MORAL - O cérebro estilhaçado de um viciado em televisão", parte das muitas horas de gravação, ao longo de décadas, que Rob fez. O "viciado" no título significa que Rob viu, durante anos, televisão em três ecrãs simultaneamente e foi gravando tudo o que lhe parecesse chocante, fora do comum, bizarro, importante. O resultado é o melhor de "Catalysts": perto de 60 minutos de imagens montadas a alta velocidade, de Bush a piscar os olhos a crianças a morrer de fome, da picareta a mandar o Muro de Berlim abaixo a Arnold Schwarzenegger nos tempos de Mister Universo, de Michael Jackson a Madonna a simular felatio com uma garrafa de Pepsi. O resto da exposição centra-se no design de comunicação nomeadamente na vertente "publicidade", com toques de crítica social e auto-crítica. O filme de Rob vira o bico ao prego e indexa milhares de imagens que fizeram o século XX (e início de XXI), retirando-as do seu contexto específico e colocando-as entre as suas pares. No fim, a sensação é um "isto somos nós" que é muito amargo...

Sol de fim de Verão



A Woman in the Sun, Edward Hopper, 1961, Oil on canvas, 40 x 60 inches; Whitney Museum of American Art, New York