Vinho global

Há alguns anos que cheguei à conclusão que tenho graves problemas mentais (e tenho consciência deles, o que não ajuda). Um deles é ver bastante televisão (dos outros irei falando). Hoje em dia é chique e politicamente correcto dizer "eu não não vejo muita televisão, não tenho tempo" ou "não tenho paciência" ou ainda "não há nada de jeito para ver". Tudo são mentiras, o que é facto é que o fenómeno televisivo provoca medo de contágio e é considerado como manifestação cultural (no sentido sociológico do termo) menor. Ou seja, na prática o "não tenho paciência" é um "sou superior a isso, leio Bocage ao deitar e vejo Bergman ao pequeno-almoço." O meu problema mental faz com que não tenha medo, e, mais do que isso, goste de televisão. Até do mau que por lá anda. Confesso despudoradamente que vi os Batanetes algumas vezes, da mesma forma como quem vê Santana Lopes a falar da incubadora: com troça, a ver o barco afundar.
Tudo isto a propósito de uma garrafa de vinho no Canadá. A SIC Noticias tem o espírito de missão de emitir "Mar Português", um magazine (é bonito, este termo, lembra-me o Paris Match dos anos 80) sobre os conterrâneos espalhados pelo globo. Na sua maioria são peças sobre a comunidade tuga em Newark, uma vez que os meios audiovisuais estão presentes no local e não é necessário enviar ninguém para gastar umas centenas de contos de reis para falar com o Zé Manel do talho em Manila (e que interesse teria o Zé Manel e as suas aventuras nas varandas de luz vermelha). Muitas vezes também chegam peças do Canadá, com o dono do restaurante "Chiado", em Toronto, à porta a reclamar em português contra as leis do Canadá. E foi precisamente um desses donos que me chamou a atenção ontem. Ao que parece, o governo canadiano, ou um de natureza regional, decidiu que os clientes dos retaurantes têm direito a levar a sua garrafa de vinho de casa. O restaurador (não Olex) apenas pode cobrar por tirar a rolha. É uma ideia peregrina, há que admitir. Alguns donos de restaurantes admitiram mesmo para a camera que vão cobrar consoante "a qualidade do vinho", dando ares de escansão veterano.
Para escrever este post, quiz saber mais sobre a tal lei. A peça limitava-se a filmar donos de restaurante como quem filma funcionários da administração pública portuguesa a quem é negado o direito de sair às quatro da tarde. E agora gostava que me explicassem como é que se procura por uma lei fait divers na zona de Toronto na Internet. Já tenho uns anecos disto, e gosto de pensar que o Google tem poucos segredos para quem faz dezenas de pesquisas por dia, mas dou-me como derrotado. Procuram por quê? "Wine Toronto law"? "Law beverage canada"? "Toronto restaurant law"? Vão ao paperboy, linkam para o Toronto Star ou o National Post e fazem pesquisa específica? Vão ao site da SIC e procuram pelo "Mar português"? Esqueçam. Das duas uma: ou o restaurante "Chiado" de Toronto precisava de publicidade à carne de porco à Alentejana, ou não vale a pena pesquisar na internet. "Não tenho paciência, não dá nada de jeito".