Mercados

Eu tenho uma vetusta pancada por mercados. E quando digo mercados, falo de mercados urbanos, grandes pavilhões no meio da malha da cidade, e não mercados ao ar livre. Tudo aquilo me transmite uma sensação de bem-estar que perdura o resto do dia. Anteontem atravessei o mercado de Alvalade Norte e a vontade de me demorar foi enorme. É um pouco a ideia do campo no meio da cidade, mas com uma enorme vantagem: sem campo. Num mercado tudo é genuíno e nada é verdadeiro. Raras vezes o peixe é fresco, mas a afirmação da peixeira a garantir a frescura é genuinamente portuguesa. Tudo aquilo apela ao intestino, no sentido visceral da componente emotiva. Não há nada para além de um mercado. Aquilo são frutas, legumes e carne verdadeiras, de qualidade abaixo ou acima da média, mas que não foram controladas, manipuladas e seladas como num hipercado. Ali, muitas vezes, foi a tia Judite que cultivou as couves. Podem não ser as melhores couves do mundo, mas são as dela. O chão está molhado, não há materiais bonitos com logotipos nem palhaçadas. Um mercado é um mercado é um mercado, como dizia o poeta. Há velhas com bigode, há putos novos que não quiseram estudar e estão por castigo, há talhantes manhosos que comem a Cristina das frutas com os olhos. Um mercado é um microcosmos organizado em volta da sua pureza, com tudo o que impuro possa ter. Um mercado não se sujeita à sociedade contemporânea, abre às 7 e fecha às 14 porque é de manhã que se começa o dia e à tarde já o peixe está mole. Um mercado é a rotina de milhares de velhas, que, caso contrário, se sentiriam perdidas sem o cheiro a pêra rocha. Um mercado é um mercado é um mercado.