Natal (1)

Era uma mesa comprida. Ao fundo, de costas para a noite, sentava-se o avô. Os filhos, há muito desavindos, ladeavam-no, depois os netos. No quarto da tia escondiam-se embrulhos, atrás de uma porta fechada com cheiro. Momentos antes da entrega, enquanto se ouviam conversas de circunstância na cozinha, alguém transferia os objectos para a varanda que emoldurava o avô, num sexto andar com vista para a cidade industrial abandonada. Liam-se pequeníssimos cartões com os nomes, apenas agarrados a um cordel dourado. Na parede contrária, uma televisão castanha escura, arrumada dentro de um movel concebido para bar doméstico, destilava imagens lentas. Anos mais tarde, era já um AVC que tentava balbuciar algumas palavras, enquanto a realidade lhe fugia, estampada no embaraço de um neto distante de visita ao domingo. As minhas memórias de Natal, se quiser ser sincero, apenas brilham na breve reminiscência da infância primária. Depois vieram noites a quatro num segundo andar da periferia, quase que a cumprir calendário, a sensação terrível de algo que passou, de um ano que se fecha sobre dias vividos, de algo que se perde antes que se ganhe. Jamais a felicidade das ofertas e da revelação se sobrepôs à desilusão da sala vazia de cor no dia seguinte. Jamais as semanas de espera se redimiram perante os minutos em que a casa adormecia e tudo parecia uma cerimónia de consagração de existência. Nunca, dizem, me comportei como uma criança convencional. Tive sempre décadas desnecessárias. Talvez por isso sempre soube que a celebração da vida não é muito mais do que o desespero pela visita, correcta e formal, da morte, em potência. O copo cheio, o copo vazio. A água a meio caminho.
Dia de Natal e interessam-me os espaços invadidos pelo frio, junto ao rio, abismados. Dia de Ano Novo e comove-me o frio desesperado à procura de corpo, manhã cedo, ignorando por repulsa as reuniões domésticas. Da mesma forma que há sofás mais quentes em dias de trovoada, quando a cidade se encolhe nas suas formas e se expande na potência de si mesma, há um recrudescer da necessidade de estar, mais do que atravessar o tempo. O copo vê-se como se queira, a água está lá. Na mesma exacta contida proporção do olhar existente. Ou na mesma quantidade de consciência, cheia, vazia. [continua]