Fantasias I

Enquanto adolescente, sempre quis amar uma mulher violoncelista. Sonhei largamente em ir esperá-la ao conservatório, em dias de frio, e ela sairia de camisola de gola alta, branca, com um sorriso aberto, os dedos macerados. No palco, o acto sexual do violoncelo era cortado, como um limão, pela justeza do gesto, enquanto a suite n.º 7 de Bach evoluia sem retorno. Aos domingos de Março, acordaria às primeiras afinações, e deixava-me ficar na cama, olhando o tecto, enquanto ela fazia amor com as cordas ao canto da sala, profissionalmente. O som do violoncelo ecoava então nos livros, meses a fio, e acabávamos por definhar perante a música. Como se não houvesse escolha.