Das mulheres dondoca

Uma mulher dondoca é um urso pardo. Leve e ligeira, o espécimen tem profunda alergia a pó, próprio e alheio. Usualmente divorciada ou casada em papel, a dondoca habita largas partes dos centros urbanos, nomeadamente as linhas costeiras a sul das cidades ou no sentido da foz dos rios, onde a temperatura permite evitar transportes públicos ou mini-mercados. É comum formarem grupos de apoio mútuo, nomeadamente de cigarro na mão e alegando direitos a pensões vitalícias de outras espécies, os homens-camelo. Por vezes evidenciam uma óbvia falta de propensão para outras línguas, mesmo pensando o contrário e tentando demonstrá-lo com broches em carros a alta velocidade, circulando em scuts. Uma mulher dondoca preocupa-se com as unhas dos outros, de forma beata, como se os cotos fossem o local de maior concentração de religiosidade, tirando o buço. Com frequentes tiques de origem nervosa, nomeadamente o de enfiar os dedos compridos no cabelo como dentes de tigre-dente-de-sabre e redimensionar, assim, a cabeleira clara na direcção de Caxias, as dondocas trabalham arduamente na rua, percorrendo lojas em busca de fiscais da ASAE, ou constituindo-se como alternativa a estes na dimensão estética do social-lojismo. Uma dondoca nunca é brega, mesmo que passeando na Feira do Relógio às 10 da manhã na companhia de um homem-camelo ou de seu enteado, de cabelo mal cortado à chapada pelo cabeleireiro amigo da tia. A raça progride hoje como nunca, nomeadamente em países em vias de desenvolvimento com hortas a ladear vias rápidas e hortas rápidas a canalizar as vias públicas. Uma mulher dondoca é uma couve selvagem.