England (*****)


Em tempos, escrevi aqui sobre An Oak Tree. O espectáculo na altura apresentado no Pequeno Auditório da Culturgest, em Lisboa, era um exercício brilhante sobre o texto teatral e a forma de comunicação com um público, que claramente funciona como elemento da construção do espectáculo. Nele, Tim Crouch convidava todas as noites um actor diferente para contracenar consigo, lendo um texto até ao momento desconhecido. Ora, no agora apresentado England, também ele na Culturgest mas na Galeria 2, mantém-se o desígnio do risco, mantém-se uma visão participada do público, mesmo que não participativa, mas Crouch leva tudo mais longe e cria um exercício fabuloso de interacção texto-actor, almejando os grandes valores humanos individuais da contemporaneidade. A estrutura é, em si, simples: dois actores, um homem e uma mulher, funcionam como guias de uma exposição real (no caso, a de Frances Stark) mas sobretudo de uma virtual, a da sua vida, a da vida de uma mulher desesperadamente amante de um homem. Mas ambos, homem e mulher, são voz única de um mesmo personagem, alter ego recriminado nas palavras para uma plateia que não sabe lidar com o momento, com os silêncios súbitos e os apelos para que "vejamos" o que está exposto. E pelo meio, entre afirmações de amor terrível, de realismo psicótico, a ideia de uma doença liminar e da necessidade de um coração, que num segundo momento, numa sala já sem quadros e apenas com vozes, se confronta, mediado, com o que resta do antigo portador, uma mulher estranha de língua. O resultado de tudo isto é um espectáculo absurdo na sua qualidade enquanto texto e enquanto forma de representação do pensamento, alterado, procurando na forma de uma exposição uma visita guiada ao íntimo mental não só de alguém exposto como de alguém construído, em Lisboa ou em Londres, em Osaka ou numa galeria, alguém apresentado enquanto manifestação verbal de algo percebido por outros na sua intimidade de expectadores. O desempenho de Crouch é extraordinário, o de Hannah Ringham para lá de competente, e o britânico, paulatinamente, começa a afirmar-se como personagem fulcral de uma nova visão do teatro na contemporaneidade, quando todas as formas pareciam inventadas.