Tratado de Lisboa: vida, morte e ressurreição

Era de esperar. O ambiente político na Europa há muito que azedou. A clivagem dos cidadãos com a classe política é já um clássico, que tinha mostrado uma face irada nos referendos francês e holandês da Constituição. E a partir do momento em que um novo documento, um tratado, tinha que ser referendado por pelo menos um país, o desastre estava à espreita como uma criança, honesto mas fulminante. E no fundo a culpa disto tudo é da democracia. Em teoria, eu sou totalmente pró-referendo. Votei em todos os que foram levados a cabo em Portugal, e, em teoria, é o melhor instrumento de aferição directa da opinião pública sobre um determinado assunto. Ora o problema é que este instrumento democrático, criado à luz dos sistemas político-partidários ocidentais como forma de ultrapassar o hiato entre representantes e representados, é utilizado pelo cidadão como arma de arremesso contra o poder instalado, localmente. Pervertida toda a intenção nobre da coisa, o resultado é uma des-representação da opinião pública sobre o tema. Em França isto foi mais do que evidente. E agora na Irlanda, país insular, charneira na origem da tradição anglo-saxónica e incluído no nada europeísta Reino Unido, os 53 por cento de votantes que disseram não ao Tratado de Lisboa estariam mais a pensar na situação doméstica, nos combustíveis ou no governo do que no bem comum da comunidade (e, logo, abstractamente, no seu). O resultado é mais um enorme balde de água fria na Europa. Os líderes europeus estariam convencidos na ratificação parlamentar como forma de ultrapassar o problema da aprovação e activação do novo tratado. Em 18 países conseguiram-no, sem dramas nem manifestações, ou sequer interesse por parte de sociedades mais preocupadas com outras dimensões do quotidiano. Mas pouco mais de 300 mil irlandeses deram a volta à coisa, quase todos arrisco sem ler o Tratado, e agora é ver o que dá. Sim, o tratado de Nice também só foi ratificado pela Irlanda à segunda. E sim, parece claro que a pressão vai aumentar, com a continuidade das ratificações até ao limite. Mas tudo isto mostra que os europeus, em larga maioria, estão terrivelmente mais preocupados com o dia de hoje do que com a Europa de amanhã. Os europeus, na verdade, são mais irlandeses, franceses, holandeses e portugueses que europeus. E assim a construção europeia faz-se apenas no papel, em salas de Estrasburgo ou Bruxelas. Assim todos se esquecem que a livre circulação de bens, pessoas e valores é um dos reflexos "dessa" Europa, bem como a maior equidade entre nações, ou um posicionamento securitário mais consistente (ainda que longe do desejável). O todo, que por lei geral do universo não é a soma das partes, parece condenado à soma de cidadãos sem vistas de cidadania. Olha para ti Europa, a magreza não te fica bem.