Million Dollar Baby
Life Aquatic with Steve Zizzou
Sangue e Ouro


Million Dollar Baby: nunca fui grande fã de Clint Eastwood. Como actor o que ainda mais me agradou foram os tempos do Dirty Harry, e mesmo assim era demasiado marcado de forma geracional para me impressionar. Vi "Unforgiven" num cinema mixuruca em Mem Martins, se a memória não me falha, e dei o dinheiro por mal gasto. Vi "Mystic River" e achei que sem Sean Penn e Tim Robins aquilo não tinha ido a lado nenhum. Ou seja, andei a ganhar estômago para entrar na sala e partir para "Million Dollar Baby" com as maiores reservas. A verdade é que o senhor nunca tinha feito filmes verdadeiramente maus. Mas também não chegavam sequer a bons. Eram coisas onde se notava o dedo do realizador, mas que não se demarcavam por nada em especial. "Million Dollar Baby" é, de longe, o melhor de Eastwood realizador. De longe. Foi o seu vigésimo quinto filme enquanto realizador, se o IMDB e as minhas contas não falham. E porquê? Porque é assumidamente old school. E o advérbio aqui tem toda a força. Ou seja, não é uma caricatura, não é um filme a "fingir" ou "estilo old school". É mesmo. Sem demagogias, sem "a fazer de conta que". E porque é que resulta bem? Porque estão pormenores de actualidade que o recuperam das imagens a preto e branco e devolvem-lhe dramatismo. Por exemplo, a realidade do "white trash" nos subúrbios das grandes metrópoles norte-americanas, onde há bairros inteiros de gente a viver em roulotes porque senão perde o direito ao subsídio estatal. Por exemplo, a falta de ligação entre Frankie e a filha, que paira como um fantasma sobre a rudeza aparente da personagem interpretada por Clint. E depois há cenas de boxe aí sim "estilo" Touro Enraivecido, com toda a saliva em grande plano e sem slow motion no upercut. E há pormenores deliciosos, como a repetição de falas, intercalando com a fala da personagem contrária (expediente argumentativo que se perdeu no cinema norte-americano dos EUA, como a velocidade de fala nas comédias ou frases que se completam, afirmando a antítese. Vejam "Some Like it hot" do Bily Wilder e percebem o que eu digo).

Life Aquatic with Steve Zizzou: Wes Anderson nasceu em 1969, já Clint Eastwood era homem de barba rija e pistola no coldre. Tem cinco filmes realizados, escritos e produzidos por si. O primeiro uma curta-metragem de 13 minutos do que viria a ser o segundo. O quarto deu pelo nome de "The Royal Tenenbaums" e tem talvez a melhor interpretação de sempre de Gwyneth Paltrow e Ben Stiler. Na prática, Wes realiza sobre os problemas de relacionamento humano, utilizando um dispositivo de absurdos continuos entre as personagens. Não ao estilo non-sense dos Gato Fedorento (ninguém julga que anda a comer "gelados com a testa"), mas através de radicalizações de estados de alma e definições pessoais que tanto dão para rir como para chorar. "Life Aquatic with Steve Zizzou" retoma a linha, mas com algumas diferenças. Primeiro, a presença de Bill Murray é determinante para caminhar sobre a ténue linha do ambíguo, entre o cómico e o trági-cómico. Segundo, a deslocalização do argumento para um meio alternativo (o aquático) levanta o pé sobre as "neuroses" dos personagens (tanto quanto a depressão é um problema eminentemente urbano) e sublinha os problemas de inter-relacionamento. Ou seja, enquanto anda à procura do tubarão-leopardo, Zizzou não sabe como lidar com um filho que sempre soube que existiu mas nunca quiz ver, nem com uma jornalista grávida com uma dose de agressividade superior à de desejos alimentares. Zizzou é como muitos de nós gostaríamos de ser: barrete vermelho, sem cheta, com uma mulher que organiza tudo e mantém um estilo fabuloso, metido num barco velho à procura de peixes raros para filmar e com um brasileiro de viola na vigia. Como se mais nada tivesse importância. E o problema é que os outros é que são sempre importantes. Wes tem já em pré-produção "The Fantastic Mr Fox", que deverá ver o escuro das salas em 2006.

Sangue e Ouro: falando de cinema do Irão, o primeiro nome que vem à cabeça de muita gente (espero eu) é o de Abbas Kiarostami. Sobretudo por "Através das Oliveiras" e "O sabor da cereja", filmes que marcaram a década de 90 nos círculos europeus e que revelaram uma cinematografia de ambiente árabe, com muito pó. Pois no ainda em exibição "Sangue e Ouro", no cinema King, Kiarostami apenas aparece como argumentista. De facto, "Talaye sorkh" (no original) é realizado por Jafar Panahi, desconhecido entre nós mas experiente no Irão. E Panahi teve a feliz ideia de não fazer mais um filme com pó e burros e casas de argila. "Sangue e Ouro" é a imagem de Teerão. Contrariamente ao que se possa pensar, e ao revés de muitas das capitais de países da zona (Iraque, Paquistão), Teerão é uma cidade extremamente desenvolvida, que tanto apresenta mulheres de véu como jovens executivos. As casas tanto são remotas divisões de betão num beco como opulentas moradias com piano e jacuzzi. Há já alguns anos que me apercebi que o Irão é possivelmente um "case study": mantendo a estrutura de uma sociedade teocrática, conjuga uma ditadura de ferro com algum desenvolvimento e estabilidade. O lobby iraniano nos EUA é enorme (e a sua influência insondável). Em "Sangue e Ouro", Hussein distribui pizzas de mota, contornando o total caos das ruas. Fica retido pela polícia quando tenta fazer uma entrega num prédio onde há uma festa. O divertimento é proibído, vai tudo de cana. Hussein não gosta de ser escorraçado de uma ourivesaria na parte rica da cidade e decide assustar o velho de fato e gravata que atende os clientes internacionais. Pelo meio ainda consegue ouvir conselhos de moral sobre como roubar por esticão. "Sangue e Ouro" é uma imagem excepcional do que separa uma sociedade como a portuguesa das sociedades do Médio Oriente, para além da superfície visível. Vejam.