Papa



Os que me conhecem sabem que estou longe de ser católico (e os que não me conhecem passaram a saber). Mais: sou quase ateu (não vou explicar o quase hoje). E portanto não venho aqui falar do espírito santo, nem da tarefa de evangelização, nem do preservativo, nem do aborto. Na foto que vêem acima, o puto do lado direito, em cima, de preto, ia dar em papa. Mal sabia ele que ia dar em papa. Aqui também não sabia que ia ficar sem família aos 14 anos, e que ia andar a fugir a Hitler, e que ia dar em padre. E não sabia que ia levar tiros e sobreviver, e falar com o gajo que o quiz matar depois disso. E também não sabia que ia tentar falar a uma multidão e não ia conseguir, porque o corpo não lhe ia deixar. Aquela criança não sabia nada disso, e é isso que me comove nesta imagem. É uma criança, premontoriamente vestida de preto, com um ar eslavo ou germânico ou soviético de início de século, com uma face branca realçada pela roupa e pela fotografia. Aquela criança, com um certo ar de fome, pediu desculpa pelas atrocidades da Igreja ao longo de séculos. Olhem bem para a cara dela.