Livros

A maior e principal falha do Animatógrafo, enquanto blog, tem sido esquecer-se por completo de livros. Primeiro porque são objectos culturais que merecem a mesma atenção que os filmes, exposições, concertos ou espectáculos de que se fala aqui. Segundo porque dá ideia que o Animatógrafo não lê, o que é mentira. Terceiro, porque dá ideia que o Animatógrafo não dá grande importância aos livros, o que também é mentira. É preciso assumir que, desde que o blog existe, não li muito, isso é verdade. Sobretudo porque estive meses agarrado a Koba, the Dread (que também já existe traduzido), sem conseguir avançar da forma que desejava. O livro de Martin Amis é profundamente pesado, sobretudo pela temática e pelo nível de investigação que o autor levou a cabo. Em meia dúzia de páginas os horrores são de tal calibre que a vontade de ler cem páginas de uma vez é, confesso, pouca. Mas o livro é soberbo, e, como em quase todos os casos, aconselha-se a leitura da versão original (não li a tradução, mas acredito que se perca muito do tom de Amis). O inglês consegue conciliar a descrição do seu relacionamento com o seu próprio pai, e a descrição do processo de aproximação ao regime comunista, com um manancial de factos sobre Estaline que só estavam publicados em meia dúzia de obras de difícil acesso. Muito para além de Koba (Estaline), o livro acaba por tirar uma enorme fotografia ao regime, na medida em que o líder se confundiu com o mesmo. E simultaneamente Amis defende a teoria de que o Estalinismo foi bem pior, em termos de vidas perdidas e nível de atrocidade, que o Nazismo. Mas para Amis este facto foi escamoteado do ponto de vista histórico por existir, como no seu pai, uma propensão da classe intelectual em favor dos regimes comunistas. Toda a argumentação de Amis é perfeitamente estruturada, o que faz de Koba, the Dread um excelente documento, a ter em conta de forma efectiva na sua proposta. Além disso, distancia-se claramente do género científico ou histórico e tem muito do próprio Amis, o que, do ponto de vista do texto, é a pedra de toque. Assim, Koba ocupou-me grande parte de 2005. O resto ficou em Vermelho, de Mafalda Ivo Cruz. A capa da D. Quixote é má, e o próprio nome da autora inclina quem olha para o livro numa prateleira da FNAC para o lado dos livros sem gordura. Nada mais errado. Aliás, só cheguei a Mafalda Ivo Cruz por António Lobo Antunes, que acredita na senhora como uma das promessas das letras cá do burgo. O premiado Vermelho é, comprova-se, um livro maior. Romance a piscar o olho ao fragmentário e onírico (qual Lobo Antunes, na parte fragmentária), o texto de Ivo Cruz tem um começo reticente mas arranca depois para uma prosa que vai buscar a sua estrutura às memórias fragmentadas e deturpadas de um dos personagens. Com uma prosa pouco ou nada constrangida por questões estilísticas, Mafalda Ivo Cruz constroi um livro "mental", com pouco situacionismo temporal, mas com raízes na percepção mental do tempo e dos acontecimentos que o marcam. Como em Lobo Antunes, resulta um texto que não apela à racionalização factual mas antes à percepção de imagens ou sensações globais. Já em 2006, despachou-se um dos grandes livros do ano passado em quinze dias. Bilhete de Identidade, de Maria Filomena Mónica, vale sobretudo pelo esforço e pelo tom, nem tanto pelos factos. Primeiro que nada, declaração de interesses: eu considero Filomena Mónica um dos cérebros mais louváveis e ao mesmo tempo mais subavaliados aqui do rectângulo. E já tinha esta opinião muito antes de qualquer livro, creio que desde que a senhora teve a coragem de dizer uma verdade mal compreendida: fazem falta elites em Portugal. Ora, o livro é, primeiro que tudo, uma pedrada no charco em termos de projecto. A tradição memorialística em Portugal é nula, se exceptuarmos grandes estopadas que os políticos fazem publicar com charadas sobre o seu percurso político-partidário. Mas memórias no sentido pessoal do termo, nem vê-las. E o que deve motivar na produção e leitura das mesmas não deve ser o paradigma "cusco" dos portugueses, mas antes uma curiosidade sobre o percurso de vida de determinada pessoa. Ora, o livro de Filomena Mónica cumpre por completo os objectivos a que se determina (relatar a sua vida até 1975), mas extravasa-os na medida em que faz um retrato de Portugal (e não só) durante esse período. E porquê? Porque as memórias de alguém, pelo menos as que interessam, são as que estão ligadas à sua vivência num espaço e tempo específicos (e aqui está possivelmente a explicação da ausência de livros semelhantes em Portugal, poucos têm o nível de sensibilidade para se lembrar de factos de determinada forma...). Ou seja, Filomena Mónica não consegue falar da sua infância sem falar dos espaços que percorria, das normas que lhe impunham, das imagens que lhe ficaram, das pessoas com quem contactou. Não é uma biografia virada para o umbigo, é antes um olhar da sua vida enquanto cidadã de uma sociedade e país que tiveram determinada história. Para além disto, o próprio percurso da autora é por demais interessante, na medida em que sempre teve contacto com figuras e espaços que se revelaram próximos do Estado Novo ou, então, que se viriam a revelar marcantes na sociedade portuguesa pós-25 de Abril. Filomena Mónica acaba, assim, por biografar um conjunto de personalidades, mesmo que em regime curto. Do ponto de vista formal, o texto é naturalmente frontal, não se notando esforço em sê-lo. Detem-se tanto no pequeno pormenor como nas grandes ideias, sem deixar fugir o pé dos factos e extrapolar para interpretações exageradas de ambientes. Simultaneamente, consegue manter o centralismo na sua pessoa e apropriar-se de todos os factos extra apenas na medida em que servem para dar consistência à descrição do seu percurso ou ilustrar determinado acontecimento. Neste equilíbrio raro, Bilhete de Identidade é obrigatório.