World Press Photo 2005



Não, não foi esta imagem que ganhou desta vez. Mas devia ter ganho. Ou praticamente qualquer uma das outras premiadas. A fotografia vencedora é fraquinha. Ok, há fome no mundo, mas não se fotografou nada mais importante em 2005? Ou melhor, não se fotografou melhor que a cara de uma mãe com a mão de um filho sobre a boca? Pelos vistos não. Esta imagem é que devia ter ganho. Esta imagem, de Andrew Testa, ganhou o segundo prémio na categoria de General News: Singles. Esta imagem retrata o funeral das vítimas do massacre de Srebrenica. Foi tirada em Potocari, Bosnia, dia 11 de Julho (curiosamente o meu aniversário). E porque é que esta imagem devia ter ganho? Porque faz a síntese das duas dimensões que a fotografia deve, a meu ver, abraçar: a de dispositivo de representação e a de arte. Esta fotografia transcende em muito o objecto fotografado e cria uma imagem que de outra forma não existia. Esta fotografia é um potento de composição, ambiente, cor e ausência de cor, força. E tudo isto só reforça o objecto fotografado na sua dimensão real. E há fotografias muito boas nos premiados deste ano. Muito para além da que fará correr tinta nos jornais mundiais. Como a de Chris Hondros, com uma criança iraquiana cheia de sangue que chora a morte dos pais às mãos e à sombra, na noite, de um soldado norte-americano. Ou a de Rafiq Maqbool, com um sobrevivente do terramoto na Índia, invulgarmente parecido com Cristo, que espera ajuda prostrado. Ou a de Robert Knoth, com Natasha e Vadim, filhos de Chernobyl, a espreitar em direcções opostas. Julguem por vocês mesmos, aqui.