Querida Maria


Aos 27 anos, sou um ser humano inconsistente. Tenho formação em jornalismo e sou responsável de loja, e não kero ser jornalista. As crianças exasperam-me na maior parte dos dias. Continuo, doentiamente, a passear pela FNAC aos fins-de-semana, num misto de satisfação e desespero. Conheço nomes de fotógafos. A minha família desagregou-se, mentalmente, há muito. Em breve construirei uma casa, com pontas de solidão às sextas-feiras à noite. Sou mal pago na vida. Continuo, alegremente, a sonhar a semana de paz que há-de vir, do lado de Sacavém, ou do Norte, algures. Não gosto de transpirar, por existir, em dias quentes. A mulher que me ama, diz ela, detesta iscas. Não a censuro, não concordo porém. Quando acordo lembro-me, em consciência, do adiantamento de quatro minutos no despertador e engano-me propositadamente ao levantar-me. Ganhei recentemente um interesse idiota em gravatas. A escravidão sexual é um assunto que não me preocupa, mas que me interessa, na exacta medida da proporção das coisas e dos nomes no quotidiano que se forma todos os dias quando calço as meias, antes de me erguer. Nunca estive em Cork, e porém dias há que sinto falta da sua humidade. Sou viciado em objectos culturais, mas não tenho um comportamento consentâneo com a patologia, apenas uma leve destreza. Não sou pai de ninguém, e mesmo filho já fui mais. Reconheço-me no limbo destinado às crianças não baptizadas, à luz do dogma. Porém, molharam-me a cabeça e nunca mais cresceu cabelo ali. Crianças correm na casa do primeiro andar, e apenas me ocorre que "Canja Voodoo" é uma expressão genial. Gosto de imaginar que dois prédios acima há uma dona de casa alcoólica, na casa da porteira, que daria um excelente filme se não soubesse que estava a ser filmada. Querida Maria, estarei grávido?