Perdidos e Achados

Há poucas coisas, em termos de televisão generalista portuguesa, que tenham sido bem feitas na última década. Isto se compararmos com o total. Recentemente, a SIC apostou nos "Perdidos e Achados" e o resultado é, digo eu, brilhante. Uma das sempre-eternas críticas feitas ao ao Jornalismo, enquanto actividade, é a falta de distanciamento. Tudo é sobre a hora, e todas as visões são a quente. Impera o relógio e notícias de ontem são velhas. No movimento contrário, a SIC recupera peças com anos e vai à procura dos protagonistas, trazendo de novo as imagens e cruzando-as com novas faces. Daqui resulta muita coisa. Primeiro, a distância permite a reflexão sobre os factos, e mesmo sobre a forma de fazer televisão. Segundo, os próprios agentes da informação, entrevistados e entrevistadores, olham para trás. A pergunta não é "o que sente neste momento" (idiotice nunca contrariada), mas "como vê o que se passou então". O esforço de flashback é recompensado com uma versão, dir-se-á, mais objectiva da realidade. Terceiro, o interesse das peças reside no follow-up que é feito. É uma estratégia comum no campo da História: analisar o percurso dos agentes da mesma, e reflectir sobre factos com a ponderação que os factos que vieram a seguir concedem. "Perdidos e Achados" tem ainda a felicidade de não ceder à veia voyeurista, tentadora, mas criar um equilíbrio entre as imagens de então, as vozes e os campos contraditórios. O resultado é uma visão ampla sobre a história recente. Adicionalmente, o projecto permite combater a Alzheimer que se instala na sociedade portuguesa como um parasita. Hoje mostrou-se a violência absurda da PSP na Marinha Grande, quando da queda da Manuel Pereira Roldão e da industria vidreira tradicional. Sim, foi em 1994, e era Cavaco Silva primeiro-ministro de Portugal. Para recordar.