The Bootleg Beatles

Preâmbulo: todos os factos que se seguem foram observados por imperativo profissional, e não por opção própria.


O Animatógrafo (o autor) do Animatógrafo (o blog) teve a felicidade imensa e inolvidável de estar no espectáculo dos Bootleg Beatles, no Porto, na passada quinta-feira. Antes de mais, uma declaração de interesses: existe em mim um profundo nojo por bandas de tributo. Sobretudo porque acredito na força da criação como motor do desenvolvimento cultural e social. E qualquer banda de tributo, nesse e apenas esse sentido da palavra, mimetiza uma qualquer banda com lugar na história. As bandas de tributo, que agora saem debaixo de qualquer rocha, são sobretudo projectos de venda de bilhetes e manutenção de musiquinhas mortas junto de quarentonas algo frustradas e executivos nostálgicos à sexta à noite. Ou à quinta. Dito isto, impõe-se o relato do divertimento total. À entrada, a ideia, do alto dos meus mui recentes 28 anos, de ser possivelmente a criatura mais jovem num Pavilhão Rosa Mota profundamente despido de pessoas. Mentira, não era, mas já lá vamos. Na plateia, da esquerda para a direita: cinquentona de blusa curta a deixar entrever umbigo sobre-estimado e mochila xadrês às costas, para libertar os braços; gajo de cabelinho puxado para trás à custa de gel matinal, camisa aberta e sapatos de vela, para quem a expressão "sacar gajas" não se aplica numa noite ao lado da cinquentona de mochila que atura há cerca de 23 anos. Sublinha-se a pulseira de ouro e os caracois subtis no fim da farta cabeleira, que prometem uma eventual carreira como taxista ou agente de futebolistas, se a empresa der o berro de repente; ao lado, um casal de rapazes ainda atrás da vintena de anos, com profundidade de ritmo e tiques estabelecidos longamente, como pentear a crista dificilmente conseguida, ou dar à anca para o lado direito como se não houvesse amanhã. Nota-se o conhecimento extenso das letras, cuja sílaba não falha o lugar, incluíndo quaisquer la-la-la ou fiu-fiu-fiu mais manhosos; ao lado, família da Foz com menor incluída, de sorriso fora de prazo ao lado da mãe franjada que balbuceia o refrão, lembrando-se do namorado daquele Verão em Espinho (que será feito dele?), pai faz de corpo presente, ligeiramente ondulante apenas para manter coerência visual; na bancada, barrigudo com pouco mais de quarenta, de braços ainda a fugir à artrose, levanta uma perna de cada vez simulando a dança da fertilidade da segunda maior tribo da Gâmbia, assim furtando-se ao ritmo britânico debitado pelas colunas ao fundo; ao lado, casal perto dos 60 bate o dedo no joelho, segurando na outra mão o convite oferecido pela sobrinha da vizinha no condomínio de Gaia, que por sua vez se agita frente à plateia recordando os bons anos 70 ao som de canções de finais de 40. No palco, quatro papuços imitam bem outros quatro de Liverpool, apoiados em plásticas recorrentes, vozes afinadinhas e banda prioritariamente de cordas que esconde o enfado com cara de concentração absoluta e sorriso em defesa da história. It's been a hard day's night.