Manderlay (****)

Lars Von Trier surgiu aos olhos do mundo com Europa, em 1991. Em 1994 surgia o perturbador The Kingdom, mini série de televisão que continha já os elementos que viriam a constituir a base do movimento Dogma95. Breaking the Waves, em 1996, revelou não só uma até então desconhecida Emily Watson, mas também a tendência de Von Trier para rupturas, experimentações e demais atitudes semi-vanguardistas. Em 2003, já depois do aclamado Dancer in the Dark com Bjork, o dinamarquês teve a coragem de mostrar Dogville, epifania com Nicole Kidman a dar o corpo ao manifesto. O filme, completamente alicerçado no texto, som e cenografia, abdicava da imagem enquanto ponto base da sua estrutura e propunha uma cenário seco e frio, semi-teatral, no qual as personagens se moviam quase no vazio. Recolheu aplausos da crítica e incompreensão do público, e continuou a mostrar Von Trier como realizador com gosto pelo risco. Com data de 2005, e estreia directa em DVD (não passou sequer pelas salas de cinema), Manderlay mantém o modelo formal do seu antecessor, mas aplica-o num argumento mais acessível e, ao mesmo tempo, mais ambicioso. Parte de uma triologia que será encerrada com o anunciado Wasington (2009), Manderlay segue Grace, depois da fuga de Dogville, mas numa posição de poder que não se lhe reconhecia. Se em Dogville, a personagem de Kidman era vítima de todas as opressões e sucumbia à cidade, já agora assume as rédeas de uma velha quinta de algodão que sobrevive na base da escravidão, ainda que 70 anos tenham passado desde a abolição da escravatura. Afastando-se da vida mafiosa do pai, Grace surge como pólo aglutinador de utopias e transformações de uma comunidade supostamente fraca e subordinada. Porém, Von Trier tem a mestria de conduzir um filme sublinhando a amoralidade de uma América à procura de si mesma, para por fim inverter utopias e subordinar Grace, agora vivida por uma competente Bryce Dallas Howard, à exigência de um sistema fixo de vivências contidas e violentas. Desta feita, o modelo está aperfeiçoado e nada mais parece forçado, ou o olho estará educado. Os vazios parecem cheios, e o som e cenografia abstractos parecem no local certo. A manipulação do dispositivo surge como perfeita, e Von Trier parece cumprir o objectivo de uma triologia sobre a América. Em Manderlay, agora sim, parece sentir-se o pulso, tanto passado como presente, de tensões nunca resolvidas. Agora sim, estabilizado um modelo pouco comum, Von Trier parece conseguir escrever precisamente aquilo que quer, para uma aplicação que flui, mercê da sua não novidade. O trabalho de argumento é brilhante por parte do dinamarquês, ainda que, communmente, maior acessibilidade não corresponda a maior qualidade. E não, não se poderá dizer que Manderlay é melhor que Dogville. É, quanto muito, diferente. Porque Kidman é bem diferente de Bryce Dallas, porque o equilíbrio dramático se sente como pensado, porque a temática é completamente diferente. Diferentes entre iguais. Para mais, Manderlay merecia descaradamente ter passado pelas salas, em vez de ser remetido subtilmente para DVD. Espere-se pela conclusão, e teremos uma triologia que acrescenta todo um novo capítulo à carreira de Von Trier e traz o cinema para um campo que se pensaria esquecido: o da experiência.