A terceira perna

É oficial. Alguns homens, perante a puta da idade, perdem a compostura e compram um descapotável em segunda mão, ao mesmo tempo que furam uma orelha. É a auto-intitulada "crise de meia idade", uma substância narcotrópica que se entranha pelas virilhas e afecta uma percentagem substancial de seres humanos, cuja maioria arranja ainda uma amante em Santa Íria ou Massamá, com quem dá "umas voltinhas" às terças e sextas. Ora, parece que saltei uma fase, como quem se esquece de tomar a pílula na semana fértil, e subi imediatamente ao escalão da "terceira idade". Senão vejamos: não consigo dormir com problemas respiratórios, o que inibe o desejo sexual de qualquer um (tirando os que retiram orgasmos de tais fantasias como sufocação com sacos de papel gordurentos); passei a tarde numa sala de espera com papel de parede com jarras e uma televisão pequenina, na qual a Júlia Pinheiro surgia mais gorda mas anã, a ler a revista da Ordem dos Farmacêuticos ou a Notícias Magazine de 4 de Março, esperando ansiosamente que uma voz aguda que me viesse chamar através de um sistema de som amarelado pela tosse; perante as notícias de um senhor já senil com uns óculos pequeninos, que me reconhece com a expressão "não vem cá há uns anos valentes", saí à rua cabisbaixo, a pensar na farmácia mais próxima, onde viria a gastar o equivalente a meia reforma, escutando atentamente os conselhos de uma directora técnica divorciada que, entre outras perguntas, indaga pelos "diabretes"; à porta de casa, a excedente senhora da limpeza olha de lado enquanto mancho o mármore do patamar com os sapatos poídos, e o vizinho do terceiro andar passeia o bulldog inglês asmático entre sorrisos de controlo; o jantar resume-se a uma "sopinha", "que faz muito bem", e o gato, redondo, dormita numa cadeira entre uma primeira parte seca do Sporting e a máquina de lavar roupa que ronca intermitentemente.
Se tudo correr bem, amanhã levantar-me-ei cedo, "porque não consigo dormir mais com as dores nas costas", digo "bom dia" à miúda gorda da padaria que espreita o movimento da rua antes das nove à sombra de um Português Suave, cruzo-me com o carteiro que me ignora, e passo a manhã escondido atrás de "A Bola" na leitaria do mercado, para me surpreender perto do meio dia com as horas e regressar, calmo, a pensar que qualquer dia uma bengala não era assim uma ideia tão má.